sábado, 27 de fevereiro de 2016

INDIOS URBANOS SÃO CABANOS


Tal qual elevada estátua do primeiro cabano, o cacique tupinambá Guaimiaba (... ? -- 07/01/1619); o Índio da Praça Brasil em Belém do Pará é marco da presença ancestral dos povos indígenas na fundação da primeira Cidade ribeirinha amazônica em aliança com soldados lusitanos da tomada do Maranhão na União Ibérica, a fim de expulsar invasores da terra Tapuia conquistada por arcos e remos Tupinambás em busca da Terra sem mal. Por significativo acaso, a praça do índio do Umarizal se insere dentre ruas e travessas da memória do movimento paraense 14 de Abril de Adesão à independência do Brasil. Sem índios, com certeza, não existiriam Belém, Pará, Amazônia brasileira: é a mensagem histórica dos índios urbanos de Belém do Grão-Pará. Já pensou quem são eles? Mire-se ao espelho, por exemplo. 


ENTRE CHUVAS E ESQUECIMENTOS
 
Nos inícios da colonização, os europeus abordavam índios com boas falas e eram por eles recebidos de boa vontade. Depois é que eram elas: começavam os brancos por vir solteiros, castigados de longas e tormentosas viagens pelo mar... logo, por bem ou por mal, queriam se deitar com as índias para aliviar seus medos do Outro que habita em cada um de nós: não era problema para índios poligâmicos acostumados a trocar mulheres com aliados e até podia dar um cunhado valente para defender a aldeia com "pau de fogo" (arcabuz). O diabo porém era o abuso dos brancos aos costumes da terra e violência do hóspede que logo queria se tornar dono da terra e da oca; senhor das mulheres e filhas dos índios já feitos escravos. 

Aí, então, regra geral o pau chinchava!... Isto é, nas mãos dos guerreiros o tacape e o porantim vingavam as ofensas sofridas pelos indígenas.

As boas falas não foram diferentes na chegada dos lusos ao Pará-Uaçu (Grão-Pará) nos três caravelãos comandados pelo capitão-mor Francisco Caldeira de Castelo Branco, guiados na jornada do Maranhão pelo piloto francês Charles des Vaux com ajuda de outro gaulês intérprete da língua dos tupinambás. Em São Luís do Maranhão, La Ravardière estava refém à espera de notícias, para ser libertado e mandado para Europa, sobre o acordo dos índios em receber os novos senhores da já extinta colônia a França Equinocial pela Feliz Lusitânia prestes a se estabelecer no Pará. Pernoitaram na aldeia de Tenoné (Tenondé?), hoje Icoaraci; o capitão-mor, alguns oficiais e os dois franceses intérpretes, que há coisa de um ano apenas haviam acompanhado La Ravardière em viagem até Cametá, no rio Tocantins.

Que se saiba, os Tupinambás sempre interessados em vencer a barreira humana oposta dos Nheengaíbas (marãyu, marajós malvados falantes da "língua ruim", Aruak) para subir francamente o Paraná-Uaçu ("rio grande", Amazonas) até aos confins; de boa fé o tuxaua do Tenoné não fez objeção ao projeto português de levantar o Forte do Presépio às proximidades da aldeia onde os franceses haviam acampado outrora, chamada Mayri  (de mayr, louro como os índios chamavam aos franceses); cerca da boca do Igarapé do Piry onde a ponta alta na margem esquerda veio a servir para assentar o forte português. Na verdade, menos que um fortim o famoso Presépio berço da Feliz Lusitânia era uma paliçada ao modo tupi, apenas reforçada de taipa onde se instalaram uns canhões tirados dos navios. Reza a história deixada pelos colonizadores que a construção do forte por índios e lusos teve início no dia 12 de janeiro de 1616. Por cerca de dois anos apenas, viveram em paz índios e portugueses no Pará até começar os costumeiros abusos dos brancos, com que revoltou os próprios soldados que se amotinaram no Presépio sob comando do capelão frei Antônio de Merciana prendendo o capitão-mor Castelo Brando mandado a ferros para Portugal.

 No Maranhão as ofensas de enganados casais dos Açores roubando roças e escravizando índios para atamancar suas pobrezas não eram menores que no Pará. O resultado não demorou com a revolta de Pacamão, cacique e pajé de Cumã, donde quase uma centena de colonos foram mortos. Pelo célebre Caminho do Maranhão a revolta chegou ao Pará onde, no amanhecer do dia 7 de Janeiro de 1619 ocorreu a primeira Cabanagem no ataque suicida dos tupinambás do cacique Guaimiaba ("Cabelo de Velha") ao Forte do Presépio. 

O primeiro líder cabano tombou morto em combate sobre o muro do forte. Seguiu-se um desconforme banho de sangue com enorme massacre dos tupinambás encurralados entre o Alto Guamá e o Gurupi, sob as ordens do genocida Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira. Em vão o capitão-mor do Pará na ocasião deu ordens para parar a guerra e o mercador Simão Estácio da Silveira que fora o propagandista das maravilhas do Maranhão para iludir os pobres de Portugal (leia-se, casais de lavradores das ilhas dos Açores) deplorou a matança que desfalcava braços (evidentemente escravos) para a exploração da nova colônia. Cumpre observar que a Amazônia lusitana (Maranhão e Grão-Pará) era colônia separada do Brasil cuja capital estava em Salvador da Bahia. Enfim, coberto de sangue Bento Maciel só se saciou quando entrou em Belém para assumir o cargo de capitão-mor. Por ironia da história ao morrer foi sepultado na igreja do Carmo, que fica em frente à praça onde foi cemitério indígena, provavelmente, da aldeia Mayri, na Cidade Velha. Para recompor o passado a fim de reconstruir um futuro melhor para todos vivemos nós catando cacos da História...

Victor Leonardi, em sua excelente obra "Entre árvores e esquecimentos: história social nos sertões do Brasil", aborda o primeiro encontro entre Pataxós donos da terra "descoberta" e portugueses recém chegados a Bahia na frota de Pedro Álvares Cabral, segundo a famosa carta do escrivão Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal. Dez dias aparentemente felizes para as duas nações por acaso encontradas nas declaradas terras de Portugal no ultramar e que ainda viriam ser a Nova Lusitânia no novo mundo achado e por achar. 

Corria abril no ano de 1500 Cabral estava a caminho das Índias Orientais, posto que Colombo em 1492 havia chegado às Índias Ocidentais e para evitar a guerra entre as duas coroas em Tordesilhas (Espanha) assinaram o tratado de 1494, repartindo o mundo achado e por achar, mediante um meridiano de polo a polo, a 370 léguas a oeste de Cabo Verde. Juridicamente, para a civilizada Europa não existiam direitos para índios e negros selvagens considerados bichos: esta longa peleja dos direitos humanos universais precisou de duas grandes guerras mundiais e ainda está longe de findar nas próximas décadas do século corrente, tendo em vista os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, até 2030.

Segundo Jaime Cortesão, com a teoria do segredo dos descobrimentos portugueses, fechado a sete chaves já se sabiam do Brasil na corte portuguesa: daí o sentido geopolítico da palavra "descobrimento" antecedido pelo indispensável "achamento": este criava expectativa de direito e aquele concretamente garantia o tal direito nos termos imperiais do século XVI na Europa. Não se podia descobrir o que não fosse antes achado e mantido em segredo.

Por isto, o cartógrafo do rei Duarte Pacheco Pereira foi mandado às raias do tratado de Tordesilhas, no ano de 1498, em viagem secreta ao grande rio Pará para medir as coordenadas geográficas da linha de limites entre as supostas posses de Espanha e Portugal. A linha de Tordesilhas passaria sobre Belém do Pará ao norte e Laguna (Santa Catarina) no Sul do Brasil. O piloto de Colombo, Vicente Yañez Pinzón, dois anos depois de Duarte Pacheco e meses antes de Cabral chegou à altura do Ceará e rumou para norte onde achou a foz do rio Santa Maria de La Mar Dulce (Amazonas) e assaltou a ilha de Marinatambalo (Marajó) levando daí os primeiros 36 "negros da terra" (escravos indígenas) para a ilha Hispaniola (Haiti e República Dominicana), onde os tainos escravizados garimpavam ouro a fim de servir à cobiça dos espanhóis e se revoltaram sob comando do bravo Hatuey -- o Primeiro Rebelde da América --, por voltas de 1515, para ir à ilha de Cuba dar a guerra de guerrilha aos conquistadores. 

Todos estes acontecimentos foram guardados por séculos até a independência das colônias... Antropólogos escreveram pilhas de livros explicando a religião dos tupinambás, porém os historiadores não parecem se perguntar até hoje o que de fato trouxe de tão longe até o Maranhão índios messiânicos da Yby Marãey (terra sem mal) para ter seu demiurgo Jurupari diabolizado pelos padres da França Equinocial. Estes historiadores esquecem de cogitar como seria a história ocidental se, por acaso, Cleópatra tivesse o nariz torto. E, no caso dos índios cabanos, que seria a Amazônia sem a utopia selvagem da Terra sem males?

Do ponto de vista nativo a história é outra... Mas, com o poderio técnico e econômico os reis da Europa davam ao mundo o império de seus ditames. Só a contradição da colonialidade deixaria filtrar na Babel a resistência ameríndia, como por exemplo a obra do frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, primeiro bispo de Chiapas (México) sobre a destruição de povos e culturas indígenas das Américas. Na Amazônia, o payaçu dos índios padre Antonio Vieira, entre 1652 e 1661, em sermões e livros deixou testemunho da tragédia amazônica, que o historiador e linguista José Ribamar Bessa Freire descreve na obra fundamental Rio Babel: a história das línguas na Amazônia.

 O primeiro documento escrito da brasilidade pinta com tintas românticas um encontro primaveril entre lusos e brasílicos num paraíso tropical, onde os naturais viviam nus e orgulhosos sem esconder suas "vergonhas" (genitália). A coisa das índias era tão certa que, escreveu o escrivão da frota, que faria esquecer as raparigas de Europa. Ao contrário da cobiça de ouro hispânica na primeira notícia dada por Colombo aos Reis Católicos, Sua Majestade Fidelíssima foi servida em saber que no Brasil em se plantando tudo dá. Aqueles dez dias de Abril na carta do Descobrimento deveriam ser talvez o manifesto do país do Futuro... Mas, desde 1530, na América do Sul seja no Brasil ou Peru a tragédia foi posta com a escravidão dos índios e o saque das suas riquezas.

Foi assim, que no Pará ao primeiro eco distante do grito do Ipiranga os paraenses logo quiseram se separar de Portugal e imediatamente integrar o Grão-Pará ao Brasil independente. Quando os independentistas foram às ruas proclamar a Adesão o povo todo estava ligado ao mesmo sentimento. Todavia, no dia 14 de Abril de 1823 a força colonial portuguesa foi mais forte que os militantes paraenses que relutaram em derramar sangue e viram-se desarmados e presos. Foi quando o movimento independentista atravessou a baía e foi se rearticular na vila de Muaná, na ilha do Marajó, ali proclamada com solenidade a Adesão do Pará à Independência do Brasil, no dia 23 de Maio de 1823.


A força colonial portuguesa foi ao encalço dos nacionalistas e, cercando a pequena ilha de Muaná, onde se assentava a vila e hoje a histórica cidade da Adesão do Pará ao Brasil independente, deram fogo de combate recebida com igual intensidade pelos moradores. Afinal rendidos por falta de munição, todos presos e trazidos à capital encheram as cadeias e logo em juízo sumário todos, inclusive os presos de 14 de abril, foram condenados à pena de morte por rebeldia e traição ao rei de Portugal. O bispo do Pará dom Romualdo Coelho pediu pela vida dos prisioneiros e assim tiveram eles comutadas suas penas em prisão perpétua.

O mais trágico desta história neocolonial é que enquanto os independentistas paraenses de 14 de Abril estavam sendo levados presos para o horroroso cárcere de São Julião da Barra do Tejo, (Portugal) a bordo da nau Andorinha do Tejo, o mercenário inglês John Pascoe Greenfell com falsidade a mando de seu chefe militar Thomas Cockhane alugado a dom Pedro I, chegava ao Pará para executar sob ameaça de canhão a tal "adesão" que a elite até hoje festeja com o pífio feriado estadual de 15 de agosto.

Mas, que papelão, cara pálida! Se a Adesão do Pará estava, sim, de verdade e de fato manifesta e proclamada pelas lideranças patrióticas da província e o povo paraense apoiava inegavelmente esta decisão histórica. O agente imperial o que havia de realizar -- e de fato fez -- era intimar os chefes militares da colônia portuguesa a entregar as armas e se render ao Império brasileiro.

Até aí foi o que de fato aconteceu nas tratativas no Palácio do Governo (hoje Museu Histórico do Estado do Pará). Noves fora a farsa que dali em diante prevaleceu entre mercenários ingleses e coloniais portugueses para manter os patriotas paraenses afastados do governo da província antes de Portugal e ato contínuo do Brasil supostamente independente sob as asas tutelares da Inglaterra. 

No palácio e embarcações no porto já não tremulava mais o pavilhão luso, porém nada fazia notar a independência brasileira. À boca pequena circulam notícias vindas de Portugal por navios veleiros que havia mortos entre os prisioneiros paraenses em São Julião vítimas de um surto de bexiga (varíola). Uns diziam que isto sucedeu a bordo da nau Andorinha do Tejo, outros que aconteceu no cárcere. 

O povo do Grão-Pará (Amazônia) entre os séculos XVII -- quando a conquista e colonização teve início -- e XIX, até a Adesão; era basicamente indígena.  Quantos afinal de contas? Noves fora as guerras, as enormes fadigas dos "negros da terra" para sustentar seus senhores "brancos" (mamelucos em maior parte) e as pestes de bexiga, sarampo, gripe que mais matavam naquele tempo, sem esquecer a fome. Bessa Freire informa que antes do colonizador chegar à antiga terra dos Tapuias eram milhões de índios vivendo milhares de culturas diferentes e falando outras tantas línguas diversas. Não por acaso as aldeias das missões também se chamavam Redução onde a babel era reduzida à língua geral amazônica chamada Nheengatu (boa língua). A diversidade combatida pela Civilização ocidental cristã também foi reduzida a um termo negativo: Nheengaíba (língua ruim). A margem esquerda do grande Amazonas ("Calha Norte) era nheengaíba, aruaque, bárbara... Os brancos dependiam do "índio cristão" (tupinambá ou tapuia catequizado falante do nheengatu) para tudo. Não davam um passo sem ter ajuda de "índio manso". A grande barreira à conquista do rio das Amazonas (imaginárias ou icamiabas, cunhantã tecoyma reais) povoada de 'homens malvados' (marãyu, marajo) era a ilha grande dos Nheengaíbas (Marinatambalo, ilha dos Aruans, Joanes, Marajó, aliás Analau Yohynkaku ... em língua aruã.

Em 1652 o padre Antônio Vieira informava que o Pará havia pouco mais de cem moradores, fora os padres, índios e escravos... Ou seja, os habitantes brancos não chegavam a duas centenas. Os negros só tomaram vulto na população paraense depois da segunda metade do século XVIII, com o monopólio escravista da Companhia de Comércio e a suposta abolição do cativeiro dos índios e extinção dos mesmos, por decreto, no famigerado "Diretório dos Índios" (1757-1798): começa aí a caboclização oficial. Ou seja, lavagem cerebral dos índios e a mestiçagem quase compulsória, para não dizer estupro das mulheres indígenas, incentivada pela Coroa.


AOS POBRES DE PORTUGAL NA AMAZÔNIA


Não se compreende a invenção do Brasil sem a história de Portugal, isto é bem verdade. Porém, não se compreende completamente a história do Brasil -- o maior pais amazônico do mundo e também maior pais africano fora da África -- sem a invenção da Amazônia desde o Homo sapiens var. Tapuya da curiosa taxionomia de Alexandre Rodrigues Ferreira (apud "Viagem Philosophica" 1783-1792) de 10 mil anos de idade.

Sobre a arte primeva brasileira e primeira cultura complexa da Amazônia, criada aproximadamente no ano 400 da era cristã com a invenção da aldeia suspensa sobre teso e cerâmica marajoara; a ignorância e desmazelo das autoridades brasileiras federais, estaduais e municipais concernentes não tem mais desculpas, pelo menos, desde a edição em 2010 da obra Cultura Marajoara da arqueóloga brasileira Denise Pahl Shaan pela editora do Serviço Nacional do Comércio (SENAC), São Paulo. 

A fim de se descolonizar por completo e vencer a colonialidade que se enfia sorrateiramente na alma nacional, o Brasil do século XXI precisa mais que nunca do índio e do preto da sua ancestralidade pré-colonial. Sobretudo das atuais populações tradicionais -- Criaturada grande de Dalcídio, no dizer revolucionário da cronista Eneida de Moraes, o índio sutil chamado por Jorge Amado -- alma mater da brava gente brasileira.

Eis que o país do Futuro, gigante da América do Sul, antiga federação indígena do Arapari, constelação do Cruzeiro do Sul, deve sua civilização plural e multiétnica a muitos povos. Como pode no concerto das Nações Unidas esquecer as nações indígenas e povos originários africanos que muito contribuíram à nacionalidade brasileira? 

Nos compêndios oficiais quando se escreve sobre a conquista e criação do estado do Maranhão e Grão-Pará o leitor novato fica sem saber da memorável saga dos Tupinambás, os verdadeiros conquistadores do Maranhão e Grão-Pará (Amazônia)... Sobre os Timbiras mal se sabe além dos versos candoreiros de Gonçalves Dias, do Ceará sabemos de Iracema e Pery através do indigenismo romântico de José de Alencar; todas bocas da noite ouvíamos outrora O Guarany , do maestro Carlos Gomes, pela Voz do Brasil. Mas, não sabemos de verdade a história dos índios de Jaguaribe (Ceará), sem os quais não haveria o amasio do cristão-novo Martim Soares Moreno e da índia Paraguassu, filha do murubixaba Jacuúna. O cunhadismo inaugural que pariu a invenção da Amazônia.

Tomado o Maranhão aos franceses, o armador de navios Simão Estácio da Silveira escreveu um panfleto dedicado Aos Pobres de Portugal lhes prometendo no Maranhão o paraíso na terra... Por portugueses entenda-se açorianos e Maranhão queria dizer naquele tempo toda a enorme imaginação da Amazônia. Deu no que deu, com a revolta dos tupinambás e a primeira Cabanagem (1619), cujo genocídio foi maior que na segunda (1835-1840). 

Índios urbanos são cabanos? As vítimas do Diretório dos Índios foram chamados "caboclos' (caboco, caa bok, saídos do mato), moradores de palafitas ribeirinhas, os primeiros cabanos descendentes do índio Cabelo de Velha ocuparam a Campina e foram trabalhadores urbanos do sustento da Cidade do Pará (mais tarde Cidade Velha): brancos na Cidade, índios e cabocos na Campina... Começava assim o apartheid amazônico ao qual os negros da Guiné reforçaram a mão de obra dos negros da terra.

Quando se deu a invasão e ocupação de Caiena (1809-1817) a tropa paraense composta de tapuios, mulatos, brancaranas e cafuzos  trouxe, além do café furtado de 1723, os ideais republicanos e a notícia incendiária da revolução dos escravos de São Domingos (Haiti): era a semente da Cabanagem de 1835 regada pelo suor dos escravos dos canaviais do Guamá, Acará, Moju, Abaeté e Marajó; o sangue dos paraenses assassinados pelo mercenário inglês da "adesão" de 15 de agosto e lágrimas de mães, mulheres e irmãs dos mártires da Tragédia do brigue Palhaço...

Em 7 de janeiro de 1835, os cabanos invadiram a Cidade... Vieira, em carta de 11/02/1660 ao rei de Portugal, estimava em cerca de 20 mil o número de nheengaíbas vivendo nas ilhas dos ditos cujos. Dizia ser impossível vencê-los pelas armas no labirinto de sua fortaleza natural. Por isto propôs ele aos sete caciques nheengaíbas liderados por Piié dos Mapuá as pazes de 27 de Agosto de 1659 com os portugueses do Pará, que subentende naturalmente os Tupinambás inclusive pela presença deles na celebração na improvisada igreja do Santo Cristo de que fala o supracitado documento hoje fartamente divulgado pela internet.

Angelim no átrio da igreja de São João Batista, em Vila do Conde (antiga aldeia de Murtigura, redução de índios para escravos da Cidade) convocou para invasão de Belém os 'filhos de Ajuricaba e dos Ingaíbas [Nheengaíba]' e eles prontamente atenderam ao chamado. Eram cabocos que se indianizaram outra vez. Hoje a área metropolitana de Belém conta com cerca de 20 mil índios urbanos. Todos eles índios sutis que nem Dalcídio Jurandir, cabanos tal tal o cacique bandoleiro Guamá, cacique dos Aruã e Mexiana.

Há muito a procurar entre chuvas e esquecimentos para revelar ao nosso Brasil brasileiro sua verdadeira alma amazônica. 



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