quarta-feira, 1 de março de 2017

O teatro da paz em Belém da Amazônia.


Joaquim de Flora (gravura medieval).


Hoje, quarta-feira de Cinzas, entre chuva e esquecimentos, ocasião propícia para relembrar o tempo apocalíptico dos nossos antepassados índios sob o peso da cruz acidental evangelizadora. Ou seja, cativeiro e extinção em nome de Deus e de El-Rei católico apostólico romano.

No meio do caminho para o inferno verde nessa selva escura que Dante na Divina Comédia nem sonhou; por sorte ou dom do Espírito santo uma mente brilhante forjada pelos jesuítas da Bahia de Todos os Santos apareceu no caminho de Belém do grão Pará a pregar justiça aos lesados da terra e paz para o mundo todo: unindo judeus, cristãos e muçulmanos sob a mesma Terra-Pátria como diz atualmente o profeta da complexidade Edgar Morin, crente como eu do deus de Espinosa.

O que salvou os negros da terra do genocídio total, apesar dos pesares, foi a utopia do Quinto Império profetizado pelo padre grande Antônio Vieira entre colonos encapetados e índios ocidentais destruídos pela Conquista europeia. O Quinto Império ou idade do Espírito santo vem da filosofia da História, do espírito libertário do monge medieval Joaquim de Flora para desaguar na filosofia pós-moderna da inteligência coletiva ou a idade cibernética de um mago chamado Pierre Levy, por exemplo. E eu, caboquinho do Fim do Mundo (Itaguari de Ponta de Pedras, Marajó-Pará), que tanto queria saber quem inventou o mundo...

A utopia evangelizadora do padre grande vem de muita preteridade para chegar aqui e agora sempre a reinventar o futuro da humanidade. Por isto é Utopia e ainda não sabemos o que a utopia significa para a História... Vem da "voz que clama no deserto" (o iracundo dissidente judeu João Batista, terapeuta ou pajé que curava pela água no primeiro SPA - sano per acqua - do mundo), vem da fonte espiritual da noosfera nas águas do Jordão batizar as grandes águas do Rio Babel (Uêne aruaco, Paraná-Uaçu tupi, Marañon castelhano, Amazonas galego-português); vem do Sermão da Montanha com as boas notícias do rabi da Galileia a proclamar o primeiro manifesto comunista do mundo... 

A utopia sebastiana vem das flechas imperiais assassinas, vem do milagre da fé humana, vem do martírio dos crentes atirados às feras no circo de Roma para distrair a impiedade pagã... O Quinto Império do mundo vem do gemido sufocado dos guetos da história censurada pelo Santo Ofício, vem da dialética malvada entre a ortodoxia cristã e o antissemitismo, vai além da eterna acusação da Inquisição e da demência hedionda do Nazismo para nos mostrar o caminho para a história do futuro desde o antigo sonho dos profetas do Cativeiro da Babilônia.

Na Quaresma, diz Vieira em carta de 29/11/1659 (publicada em Lisboa a 11/02/1660) inverossímil porém compreensível no realismo mágico do tempo intermédio entre as trevas da Idade Média e as tímidas luzes da Modernidade amanhecente (que se chamou século XVII); quando no convento dos padres de Santo Alexandre não se acreditava mais no regresso com sucesso dos dois nheengaíbas escravos mandados em missão de paz na distante e terrível Ilha dos Nheengaíbas (Marajó). Os dois negros da terra promovidos a embaixadores foram levar a mensagem de paz a seus parentes rebeldes guerrilheiros acusados de pirataria e condenados ao genocídio pela "guerra justa": já três tentativas militares de ocupar a ilha grande dos Nheengaíbas tinham terminado em desastre de parte a parte. A primeira tentativa de paz, em 1656, levada pelo padre João de Souto Maior voltou a Belém com feridos e a notícia de mortos enterrados na beira do rio na retirada precipitada frente ao ataque dos bárbaros... 

Mas, eis que batem a porta e quando os desesperançados padres vão atender, entram ao convento animosos e de boa fé os ditos embaixadores da carta risível escrita em português ou nheengatu talvez a um povo de analfabetos selvagens; acompanhados de sete caciques pagãos que, ousadamente, vinham se meter debaixo dos canhões portugueses confiados tão só na palavra do payaçu dos índios que fora além mar buscar a lei de liberdade dos cativos (alvará de 1655). 

Dos tais caciques ficou sendo interlocutor do superior das Missões (este último em posição de delegado real para assuntos indígenas, papel que hoje corresponderia à célebre FUNAI) o mais ladino de todos, na pena do payaçu, um certo Piyé nomeado cacique dos Mapuaises (Mapuás)... Curiosa semelhança com o nome do faraó negro Piie na história do antigo Egito. Coincidência? O Piie negro entrou na história por descer do Alto Nilo com seu exército para combater a corrupção dos faraós. Sintomático. Além do estalo, o nosso padre Vieira ficou famoso pela lábia...

Aquilo na Amazônia colonial portuguesa era, com certeza, um teatro da paz universal por necessidade e acaso retratada daquela maneira. Mas, os idiotas da objetividade, como diria o anjo pornográfico Nelson Rodrigues, não conseguem ver com os quatro olhos do peixinho tralhoto, que o padre grande falou no Sermão aos Peixes (São Luís do Maranhão, 1654, a caminho de Lisboa para levar as queixas dos índios do Pará a Dom João IV). A pax dos Nheengaíbas foi feita na Igreja do Santo Cristo do rio Mapuá (ilha do Marajó) em 27 de Agosto de 1659. Ou, pelo menos, plantada a semente da paz amazônica na verde várzea que, 346 anos depois, veio a se chamar Reserva Extrativista Mapuá, a 25 de maio de 2005.

Pelos caminhos da História planetária, que conexões podem existir entre a inteligência coletiva do filósofo da internet Pierre Levy e a idade do Espírito Santo anunciada por Joaquim de Flora separados por sete séculos? O que o payaçu dos índios padre Antônio Vieira, condenado por heresia judaizante pelo Santo Ofício; poderia inspirar agora, por exemplo, o Papa Francisco a respeito da Amazônia focalizada expressamente a par da bacia do Congo na bula Louvado Seja?

Talvez seja Edgar Morin entre todos pensadores da atualidade quem está mais perto da melhor resposta quando a filosofia da complexidade contempla o Homo sapiens demens. A humanidade filha da animalidade, dotada de razão e consciência, nasceu e cresceu no seio da bio-noosfera (corpo-e-mente do Cosmo). Cérebro que cria a mente, mente que concebe o cérebro e tudo mais quanto ele compreende. Ainda vão beatificar Charles Darwin e seu acólito principal Alfred Russel Wallace - louvado seja o jesuíta paleontólogo evolucionista Pierre Teillard de Chardin! - que, por sinal, visitou Marajó mas nada disse de Vieira nem dos índios arquitetos que fizeram as aldeias suspensas da ecocivilização marajoara de mais de mil anos de idade. Ainda assim, Wallace sentenciou: "o caboclo marajoara é tremendo" (despistador). 

Com isto, o naturalista inglês queria dizer que a lenda das amazonas foi, sutilmente, plantada na cabeça dos espanhóis pelos índios que respondiam às perguntas dos civilizado de modo a induzir aquilo mesmo que os brancos gostariam de acreditar. Não foi sem razão que o baiano Jorge Amado apelidou de "índio sutil" a seu colega marajoara Dalcídio Jurandir.

O conceito de inteligência coletiva apresentado por Levy configura uma antropologia do ciberespaço. Até aí um longo caminho percorrido pela evolução da vida desde a poeira das estrelas até a complexidade da matéria orgânica para se transformar em espírito (mente) e habitar vários meios de comunicação. No Homem (corpo/mente), o demens sente e sonha, o sapiens indaga e explana a "verdade". 

Na realidade, isto é abstração. Cada indivíduo é uma unidade biológica-econômica-social-psíquica). O longo século XIX, depois de uma longevidade prodigiosa e infernal, finalmente está morto como o deus de Nietzsche. Porém o sonhado e esperado Terceiro Milênio ainda não nasceu... Para os crentes, entre o passado recente e o futuro que tarda, entre o inferno de duas grandes guerras mundiais mais o terror da Guerra Fria; e as esperanças da paz universal prometida pelos profetas, resta por hora uma espécie de purgatório. Apesar de tudo, poetas, filósofos, cientistas humanistas, diplomatas criativos, religiosos ecumênicos e estadistas democratas parecem ver uma pequena luz no fim do túnel.

Lévy defende que todos indivíduos tem inteligência própria herdada e acumulada em suas vivências pessoais em interação social evoluindo para o ciberespaço. Este espaço virtual, muito mais que um meio de comunicação ou mídia, trata-se de um espaço de integração e síntese de infinidade de mídias e interfaces, que podem ser encontradas tanto nas mídias como: jornal, revista, rádio, cinema, tv, bem como mais diferentes interfaces que permitem a interação ao mesmo tempo ou não, como os chats, os fóruns de discussão, os blogs, entre outros.

O ciberespaço apresenta-se como local difuso onde a inteligência coletiva se forma por conta da interação entre pessoas que, como sujeitos individuais que são, promovem intercâmbio de ideias por meio de comunidades virtuais, cujo objetivo maior está em promover amplas conexões entre seus participantes. O resultado é a transmissão e construção de ideias que acabam por criar a cibercultura: movimento social e cultural estabelecendo pontes para novas relações com o conhecimento e o saber coletivo na Polis virtual (cibercidade). Será isto alienação ou real?


A inteligência coletiva é a capacidade de reconhecer o outro como sujeito dotado de inteligência, um ser de conhecimento potencializado. Os mais diferentes saberes buscam-se em complementaridades, na complexidade global cada indivíduo é parte integrante do mesmo processo que admite seus conhecimentos e saberes individuais como resultado de sua própria formação socioambiental. Identidades territoriais e direitos se manifestam em rede. Desta maneira, a prática da inteligência coletiva reduz a ilusão e o engano podendo levar a uma melhor comunicação entre indivíduos, bem como a uma maior compreensão do outro enquanto ser inteligente, porque cada um possui savoir-faire (saber fazer): um conhecimento seu que, compartilhado, beneficia diferentes áreas da vida. Uma forma de valorizar o outro e valorizar a si mesmo para juntos promoverem o crescimento do todo.

Todas utopias valem a pena se levam a humanidade a sonhar o Futuro e a lutar pela conquista da justiça e da paz na inspiração igualitária da mítica Terra sem males (paraíso terreno Tupi-Guarani onde não há fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte) confundido com o Quinto Império (isto é, a Terra-Pátria), na visão das Nações Unidas para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Vieira é verdadeiro profeta! 

Parodiando a frase: "Bandarra é verdadeiro profeta!"(carta As Esperanças de Portugal, que levou Vieira à condenação por heresia judaizante pelo tribunal da Inquisição). Quando o padre grande na solidão do rio dos Tocantins levado de canoa a remo por "índios cristãos" (obrigados ao batismo como os mais cristãos-novos do Brasil) a caminho de Camutá-Tapera (Cametá-Pará) escreveu a famosa carta secreta inspirada nas Esperanças de Israel, do rabino sefardita de Amsterdã Menassé ben Israel.

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