quinta-feira, 16 de maio de 2013

AMAZONIDADE DAS NOSSAS GUIANAS (2)


Canal de Cassiquiare - águas do Orinoco (Estado Amazonas / Venezuela) se confundem com as águas do Rio Negro (Estado do Amazonas / Brasil), formando o extremo-norte da grande "ilha" das Guianas: condominio amazônico reunindo Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana francesa.


tributo a Robert Marigard


uma ligação antiga da Terra Firme ao Mar das Caraíbas

O canal de Cassiquiare, a dizer "rio do Cacique" em lígua de tronco Aruak; desde tempos pré-colombianos muito recuados foi passagem dos primeiros povos do Rio Negro para o golfo de Paria em travessia para a ilha de Trinidad rumo às Antilhas. Inversamente, povos do Orinoco entraram ao Rio Negro através do Cassiquiare chegando ao rio Amazonas e seus tributários.  Este caminho ficou escondido durante muito tempo, porém caçadores de escravos correndo com corda e baraço atrás de "negros da terra" e missionários logo chegaram aí enquanto as cortes na Europa e governadores-gerais na América duvidavam da sua existência, até 1756. Quando, na primeira tentativa de demarcação de fronteiras na Amazônia, os comissários espanhol e português tiveram certeza da real existência deste canal natural entre a bacia amazônica e o Caribe atravé do Orinoco. 

O ano de 1756, no capítulo do tratado de limites de Madri de 1750 para a história das Guianas, apresenta a coincidência da descoberta do Canal de Cassiquiare ("rio do Cacique", a sugerir taba de um cacicado amazônico). E também, no dia 20 de novembro, o capitão Florentino da Silveira Frade em missão de inspeção oficial na ilha do Marajó ter descoberto o "teso" (sítio arqueológico) do Pacoval (bananal) do Arari (cf. Alexandre Rodrigues Ferreira, "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joannes, ou Marajó", Lisboa, 1783), primeiro de diversos da ruína da primeira cultura complexa (cacicado) da Amazônia, a Cultura Marajoara, surgida cerca do ano 400 da era cristã. Aqui, por acaso, nascia a civilização amazônica e no velho mundo o império romano declinava...

Que lições disto agora podemos ter, em meio a crise mundial e a mudança climática cada vez mais aguda?

A multidão aruaca, provavelmente, precedeu as mais etnias caribenhas e amazônicas desmentindo o tal "espaço vazio" com que a geopolítica colonial distraiu a consciência cristã do Ocidente e justificou o direito canônico que dizia não haver pecado abaixo do equador. Hoje ainda se pode ver restos da Babel amazono-caribenha nos confins do Acre, com os Ticunas, por exemplo; e os Terena, no Mato Grosso do Sul. No tratado de limites de Santo Ildefonso, de 1777, entre a Espanha e Portugal, o rio Solimões (Alto Amazonas) é citado com sua toponímia original, cuja grafia próxima das línguas aruacas, de Guiene (significa apenas, "água" e "rio"). O antigo nome como esses povoadores indígenas das regiões amazônicas conheciam o "rio das Amazonas" e que restou na cartografia moderna aplicado à região das Guianas. 

Do mesmo modo, ao alto Rio Negro os povos aruaques chamavam Guaynía. Donde, através do espanhol, a vasta região hispânica do continente colonizado ficou sendo Guayana (Guiana, em português, Guyane em francês, Guyana em inglês). É notável na historiografia da partilha colonial a influência das velhas línguas aruacas através do espanhol (por exemplo; tubarão, hamaca (rede), canoa, anaconda, atipá (tamuatá), matapi, tipiti, mandioca, tabaco, pacova (banana), pupunha, açaí...). 

No Brasil, o tupi predomina em detrimento de línguas vulgarmente ditas tapuias (não-tupis), a explicação é dada por autores como José Ribamar Bessa Freire (ver a obra "Rio Babel - A história social das línguas na Amazônia", editora UERJ: Rio de Janeiro, 2004). Houve entre nós o fenômeno de aculturação chamado "tupinização", pelo qual muitas palavras "tapuias" foram traduzidas como sendo tupis. Além disto a língua-geral Nheengatu (uma sorte de esperanto amazônico), gramatizada pelos padres, assimilou termos aruaques e caribes nas reduções das missões onde diferentes etnias se converteram ao catolicismo indígena. As quais se tornaram laboratório de transição do nheengatu ao português oficial na segunda metade do século 18, após a expulsão dos jesuítas. Para, finalmente, no Diretório dos Índios (1757-1798) "libertos" como súditos de Portugal espoliados da língua, cultura e terras ancestrais se tornarem na ínfima classe de párias, que são hoje os cabocos amazônicos.

O país do vento, América: o espaço esconde as consequências.

O choque lingúistico e cultural começou pelas Bahamas, onde habitavam os Lucayos, povo da ilha Guaaiani (batizada São Salvador, em lembrança de Salvador Colombo irmão e financiador do Cristóvão Colombo), eram Arawak ou Aruak; foram estes "índios" ocidentais que receberam logo o primeiro golpe da chegada das três caravelas do Descobrimento com 87 aventureiros a bordo, mais o capitão, em 12 de outubro de 1492. 

Sob a suposta escola náutica de Sagres, uma sutil trama oculta o drama dos Templários e Hospitalários - foram as primeiras multinacionais do mundo em apoio logístico às Cruzadas, onde a aliança ocidental judeu-cristã deitou raízes com pretexto da reconquista da Terra Santa, mas sacudidas pelas vicissitudes bem concretas da Diáspora pós-cativeiro da Babilônia: ali, certamente, a primeira globalização. Os primeiros tinham sede na ilha de Chipre e os segundos continuam operando rede de hospitais e laboratórios farmacêuticos, através da ilha de Malta - destroçados os Templário pelas maquinações de Felipe, o belo; rei da França; que ambicionava controlar as riquezas da organização. Foram aniquilados e refugiados na Escócia e depois em Portugal. Um acordo com o rei português, lhes deu sede em Tomar e seus navios ancoravam em Lagos. Ficaram sob proteção da coroa portuguesa e, por prudência, prestaram vassalagem ao monarca católico: nasceu assim a Ordem de Cristo e o príncipe Navegador, Dom Henrique de Coimbra foi seu grão-mestre.

Noves fora, o teatro de Sagres; a coisa em realidade se passava na ilha da Madeira onde Salvador Colombo e outros cristãos-novos tinham propriedades e urdiam os descobrimentos. A teoria do segredo das antigas navegações é prenhe de fábulas e imaginações, mas também fatos reais estão misturados. O Brazyl era procurado pelas ilhas do Atlântico onde devia estar o país de São Brandão (um segredo dos irlandeses), as ilhas Afortunadas e a Antílha... O monte Brasil acabou ficando nos Açores, antes que o cavaleiro da Ordem de Cristo, Pedro Álvares Cabral (aliás, Gouveia) viesse descobrir - literalmente - o Brasil. Já conhecido dos navegadores portugueses e guardado a sete chaves pelo que valia a corrente equatorial e a costa brasileira para dobrar o Cabo da Boa Esperança... Vasco da Gama sabia perfeitamente. O que ele não sabia era que o marajá de Calicut, na verdadeira Índia; não lhe daria a menor importância, como também não se interessou depois pela frota de Cabral. Mas, um espião judeu mandado a bordo pelos hindus foi preso e açoitado por Vasco da Gama até que confessou o que fora fazer a bordo. Converteu-se imediatamente ao cristianismo (da boca para fora, é claro), recebeu o nome de seu padrinho e dali em diante protetor, o dito Vasco da Gama (que era como o nome indica, de origem basca). O resultado é que nossos nobres navegadores fizeram pirataria contra barcos árabes encontrados nos portos do oceano Índico, para não chegar de mãos vazias em Lisboa.

sexta-feira, madrugada de 12 de outubro de 1492

Como se sabe, depois de receber amavelmente os conquistadores, ao amanhecer de uma sexta-feira; e ajudar a salvar uma das ditas caravelas que havia encalhado nos arrecifes; cerca de vinte mil Lucayos foram escravizados e obrigados a ir procurar ouro na ilha do Haiti.  Começava a longa história da infâmia das Índias Ocidentais pisando sobre milênios da história oral dos povos originais americanos. Nem mesmo o nome do "novo" continente era o que se ensina nas escolas como homenagem ao navegador italiano, mas vinha da América Central, da Nicarágua precisamente: Americ (o "país do vento", em língua maya). Em certos meios judaicos da Diáspora a redondêz da Terra era assunto corrente: com a notícia do descobrimento das "Índias ocidentais" e dos "índios" começaram a elaborar a teoria de que os bárbaros amerícanos serias descendentes das tribos perdidas... Uma copiosa literatura na época circulou e acabou implicada nos planos de colonização do Novo Mundo. O rabino português de Amsterdã, Menassé ben Israel (nascido Manuel Soeiro, na ilha da Madeira), por exemplo, defendeu esta tese na obra "As esperanças de Israel". Amigo do padre Antônio Vieira, este acabou condenado por heresia judaizante pelo tribunal do Santo Ofício, por ter defendido a volta dos judeus expulsos de Portugal e a liberdade dos índios da Amazônia, numa carta secreta sob título "As esperanças de Portugal" dirigida ao bispo do Japão, onde a influência de Menassé ben Israel se mostrou evidente.

No Haiti, onde os espanhóis inauguraram o regime de escravidão na América, habitavam os Tainos (também aruaques) e Kalinas (caribes), estes últimos tomaram o célebre nome "canibal" devido o fato de praticarem a antropofagia em guerra com os Arawak em geral. Naturalmente, os índios não se entregaram mansamente ao cativeiro e, também alí, começou a marronagem (mocambos e quilombos no Brasil), terminando o Haiti por entrar na história da revolução anti-escravista e da independência americana com os negros liderados por Toussaint l'Ouverture enxotando coloniais franceses e proclamendo a República.  A revolução haitiana assustou, deveras, as oligarquias negreiras em todos continentes.

Na costa atlântica da ilha do Haiti, que passou a ser chamada Hispaniola na cartografia castelhana, tão só por que Colombo a comparou a Espanha; os espanhóis fundaram Santo Domingo (que hoje é a capital da República Dominicana), sempre na crença de ter chegado a Índia, Colombo chamou de "índios" aos nativos, que assim ficaram conhecidos até hoje. Quando o descobridor viu o delta do Orinoco acreditou ter avistado o jardim do Éden e em Maracaibo, em 1499, Américo Vespúcio lembrou-se de Veneza, donde o país ficaria desde então chamado de Venezuela ("pequena Veneza", quando em realidade a Veneza americana é maior que a europeia).

Diante da violenta opressão dos conquistadores, os Tainos do Haiti se rebelaram sob comando do cacique Hatuey e passaram à ilha de Cuba levantando os Tainos desde Porto Rico até a Jamaica; contra os hispânicos - chamados, genericamente, cariwa (cari, em língua geral amazônica), no sentido de "mau senhor", como caramuru, em tupi) - conclamando os nativos a se unir e lutar para expulsar os estrangeiros. Dizia Hatuey que os brancos falavam de um deus desconhecido, mas em realidade o único deus que eles buscavam era ouro. Por isto, escravizavam e massacravam os índios para lhes aterrorizar e obrigar a trabalhar. Portanto, para evitar o terror que vinha a bordo das caravelas, todo objeto feito daquele maldito metal deveria ser lançado ao fundo do mar e as jazidas ocultadas aos brancos

Todavia, a revolta de Hatuey não impediu a fúria assassina dos conquistadores, como o padre Bartolomeu de Las Casas relatou, a destruição das Índias Ocidentais chegou a níveis dantescos. Hatuey foi feito prisioneiro dos espanhóis e queimado vivo atado a um poste tal como se acha figurado em estátua hoje em Cuba. E, apesar de tudo, a resistência indígena no Caribe continuou ainda por certo tempo sob comando do sucessor de Hatuey, o cacique Guamá.  Nome aruaque que se sucedeu até chegar ao cacique dos Aruãs e Mexianas, do Marajó, e ser transmitido ao rio que banha a capital do Pará: de quem se diz haver porto no Caribe... Procurado morto ou vivo, o Guamá marajoara se refugiou em Caiena entre seus parentes. A tropa de guarda-costa, comandanda por Francisco Palheta, não topou com o cacique dos Aruãs, mas retornou ao Pará com o café que faria a riqueza de São Paulo, anos depois. Cerca de 1723, quando os portugueses percorriam o litoral entre a foz do Amazonas e o Oiapoque em busca de escravos fugidos, traficantes e desertores; no Rio Negro o cacique dos Manaus, Ajuricaba; levanta-se contra as tropas de resgate (caçadores de escravos). Belém naquela época era uma Babilônia amazônica para as "tribos perdidas" do Rio Negro.

Duzentos anos antes, pela passagem de Trinidad e Tobago para a Terra Firme voltaram os índios em fuga diante dos cruéis espanhóis, que lhes seguiam passando às Guianas através do Orinoco e outros rio que vão desaguar diretamente no Atlântico. Foi assim que a lenda do El Dorado chegou em Santo Domingo e a cabo da procura a colonização espanhola da bacia do Orinoco acabou topando com a colonização portuguesa, que vinha em sentido contrário, pelo Rio Negro e o Rio Branco. 

A tentativa de demarcação de fronteiras do Tratado de Madri de 1750, levou o governo do Grão-Pará e Maranhão a se instalar no Palácio dos Demarcadores, em Barcelos. Uma epopeia, na qual o iluminismo português se perdeu na Floresta Amazônica entre febres e motins, enquanto o poderoso irmão do poderoso Marquês de Pombal esperava o comissário espanhol no Rio Negro, e este sem nenhuma pressa fazia reconhecimento do alto Orinoco. Foi assim que, em 1756, enfim o Canal de Cassiquiare revelou-se definitivamente à geografia sul-americana depois de, há milhares de anos, fazer história pré-colombiana.  

caminhos da integração

A Guiana venezuelana, no sul do país, conta com o Estado Bolívar que é a maior unidade federativa da República Bolivariana da Venezuela, com onze municípios: Caroní, tendo Ciudad Guayana por sede; Cedeño, com Caicara del Orinoco; El Callao, tendo por sede a cidade de El Callao; Gran Sabana, com Santa Elena de Uairén; Heres com Ciudad Bolívar (capital do estado); Padre Pedro Chien, sede El Palmar; Piar, Upata; Raul Leoni, Ciudad Piar; Roscio, Guasipati; Sifontes, Tumeremo; e, por fim, o município de Sucre tendo a cidade de Maripa por capital. E o Estado Amazonas, cuja capital é Puerto Ayacucho; e seus sete municípios: Alto Orinoco, sede em La Esmeralda; Atabapo, San Fernando de Atabapo; Atures, Puerto Ayacucho (capital do estado); Autana, Isla Ratón; Manapiare, San Juan de Manapiare; Maroa, capital Maroa; e Rio Negro, sede San Carlos de Rio Negro.

Além dos estados Bolívar e Amazonas, a Guiana venezuelana conta ainda com o Estado Delta Amacuro que está situado entre o golfo de Paria e o Mar Territorial da Venezuela fazendo limite com a República de Trinidad e Tobago, no Caribe, ao norte. A este se encontra o oceano Atlântico e a sudeste a República Cooperativista da Guiana. O Delta Amacuro, ademais, representa uma área etnico-histórico de grande importância para o estudo do povoamento pré-colombiano da Amazônia e do Caribe. Dispõe de 40.200 km² de território subdividido em quatro municípios - Tucupita, Antonio Díaz, Pedernales e Casacoima -, possuindo a maior reserva camaroneira da América Latina. Produz arroz e criação de búfalos e bovinos, tendo também grande potencial ecoturistico, inclusive com populações tradicionais indígenas de grande antiguidade no lugar. A capital do estado é Tucupita com mais de 55 mil habitantes e total de 110.800 habitantes em todo estado. De 1933 até cerca de 1960 a exploração de petróleo impulsionou a economia do estado, com grande extensão de mangues, o mangue vermelho (Rhizophora mangle L.) se constitue uma fonte de madeira de variada aplicação, inclusive na indústria de cortume. 

A desembocadura do Orinoco foi descuberta em 1500 por Vicente Yáñez Pinzón e navegada a primeira vez em 1501 por Diego de Ordaz. Mas a ocupação desta região do delta demorou a ocorrer. Algo que se passou também, com as ilhas do Marajó, pacificadas em 1659 e transformadas em capitania hereditária, que diante da resistência dos Aruãs e dificuldades do isolamento geográfico só começaram a ser ocupadas pelas patas de bois e cavalos a partir de 1680, bem lentamente.


O divisor de águas Orinoco-Rio Negro fez história e, por certo, ainda continuará a escrever páginas da relação bilateral Brasil-Venezuela como também da integração da América do Sul e Caribe. O encontro das águas do Rio Negro com o Amazônas foi caminho das primeiras povoações da Amazônia e, no período colonial, ligou-se ao rio da Madeira até o Pantanal e a bacia do Prata.

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