segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Empoderando a Criaturada de Dalcídio na Amazônia Atlântica.



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Cidadão do mundo segundo Dalcídio Jurandir, o caboco marajoara é, naturalmente, doutor honoris causa em assuntos de meio ambiente e cultura tradicional na universidade da maré. Com antecedência ele sabe a altura da maior maré do ano observando ovos do caramujo da varja no tronco das árvores; conhece paragens onde as canoas restam seguras da fúria da Pororoca, na foz do rio Amazonas, ilha Caviana: quando a Terra e a Lua se alinham ao Sol e ocorrem as marés de sizígia. Nas águas de março, o rio Amazonas atinge seu volume máximo e o Atlântico recua diante do gigantesco rio, porém mostra sua majestade e o traz de volta ao seio do prodigioso golfão. Então os dois titãs - o grande Rio e o Mar profundo - se entestam até que as vagas adentram a terra com fragor e sobem depressa pelas ilhargas das ilhas de fora no maior arquipélago fluviomarinho do planeta.





A partir dos fins do século XX, com ênfase no ecoturismo de base na comunidade do Salgado paraense; chamamos Amazônia Atlântica à faixa marítima oriental da América do Sul, que vai do Litoral Ocidental Maranhense e do Gurupi, no estado do Maranhão; rumo norte até topar o Delta do Orinoco, na Venezuela. Aí fica o Litoral Norte brasileiro formado por sedimentos recentes, com predomínio de restingas, lagoas e mangues reunindo a costa do Pará e Amapá diferenciada do conjunto pela influência da foz do Amazonas, mediante canais, lagos, manguezais e ilhas, notadamente a grande ilha do Marajó, berço da primeira cultura complexa da Amazônia (ver Cultura Marajoara, de Denise Schaan). 

Nossa Amazônia Atlântica tem 2.683 quilômetros de extensão, com pelo menos 530.000 km² de área geográfica e uma considerável população "crioula" predominante; somada a parte brasileira de 1.360 km de extensão (mais ou menos duzentos quilômetros de litoral amazônico maranhense, deduzido dos 640 km deste estado da região Nordeste; mais 562 km do Pará e 598 km de costa marítima do Amapá), mais a parte amazônica além Oiapoque com os seus 1.323 quilômetros (378 km da Guiana francesa, mais 386 do Suriname, 459 da Guiana e cerca de duzentos quilômetros da Guiana venezuelana, à parte do total de 2.800 km de litoral da Venezuela). Na Amazônia Atlântica predominam densos manguezais, praias, rias, ilhas e estuários que são berçários de peixes e aves aquáticas.  

No passado distante, milhares de aldeias em constante mobilidade como na "dança do peixe" (pirapuracéia), se entranhavam nas terras baixas através de fios da água doce pelos mangues, igarapés, campinas inundáveis e matas encharcadas: a roça de mandioca e o porto de canoa sempre próximos da moradia... Vasto espaço de mar e terras banhadas pela Corrente Marítima das Guianas, entre as ilhas do Marajó e a ilha de Trinidad (Trinidad e Tobago), no século XVI foi chamado Guiana (vocábulo Aruak, no sentido de "terra de muitas águas", de uêne, água). 

Era, sobretudo, a Paricuria (terra dos Palikur) habitada ancestralmente por diversas etnias aruaques em rixa eterna com o inimigo hereditário Galibi e constituiu em tempos coloniais a grande área cultural guianense (cf. Guyane française, de Ciro Flamarion Cardoso), o Calha Norte, Marajó e Amapá faziam parte das Guianas com o nome de Guiana portuguesa, depois brasileira. Houve também a Guiana castelhana que veio a ser incorporada pela Venezuela independente. 

A antropologia e a história social sul-americana nos ensinam que as ilhas do mar do Caribe foram povoadas a partir da Terra Firme, em tempos pré-colombianos remotos. Através do Rio Negro e do Canal de Cassiquiare os primeiros Aruak atravessaram a remos e vela de jupati a "ponte" marítima entre o Delta do Orinoco e a ilha de Trinidad (Ieri, "terra do colibri", beija-flor) ocupando o Caribe onde foram seguidos pelos Kalina (caribes) e estabeleceram guerra entre si. Causa de migrações de retorno ao continente e povoamento de largas circunferências do Circum Caribe até o Acre e o Pantanal. Nas ilhas do mar, resultado da guerra antropofágica entre aruaques e caribes, surgiram grupos mistos filhos de guerreiros kalina praticantes do ritual da antropofagia e mães aruaque conquistadas como troféu de guerra. O guerreiro aruaque era invejado pela valentia e suas mulheres cobiçadas pelo conhecimento secreto do veneno para dardos e flechas além da manipulação da mandioca venenosa para fazer cassabe, origem dos Nuaruaques falando as línguas materna e paterna praticando usos e costumes tanto aruaques como caribes: base primitiva da grande mestiçagem que se alastrou a mocambos com escravos refugiados e brancos desertores da crioulidade e da amazonidade, mais precisamente.


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comunidade indígena Warao, Delta do Orinoco, Venezuela.


GOLFÃO MARAJOARA: 5000 ANOS DE PESCA.

Na vasta faixa costeira, o golfão marajoara (cf. Aziz Nacib Ab'Saber) contendo o arquipélago do Marajó, com mais de duas mil ilhas grandes e pequenas, fluviais e marítimas; recebe do rio Amazonas cerca de 20% da água doce superficial do planeta indo, uma centena de quilômetros mar adentro, misturar-se à piscosa corrente das Guianas: aí ao fluxo e refluxo da maré oceânica forma-se um singular bioma de água salobra, campos inundáveis e matas de várzeas de maré. Projeto, desde 2003, da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia mediante candidatura, demandada pela comunidade marajoara, ao programa O Homem e a Biosfera (MaB), da UNESCO. Região planetária, que o Brasil e o mundo mal e porcamente conhecem; e que apesar de seus ignorantes senhores clama por sítio da convenção de Ramsar sobre a conservação de zonas úmidas da Terra. 

Quem melhor poderia estudar, desenvolver sustentavelmente e bem conservar tais ecossistemas que as populações tradicionais da região? Na mesorregião Marajó, 600 mil habitantes, aproximadamente, se distribuem por mais de 500 comunidades locais ("aldeias" ou povoados), perfazendo 16 municípios nas microrregiões Arari, Breves e Portel; numa área territorial de 104 mil quilômetros quadrados (maior que os estados do Rio de Janeiro, Alagoas ou Sergipe; ou maior que países do tamanho de Portugal ou Holanda, por exemplo). Todavia, o colonialismo lesou e retarda ainda as regiões amazônicas, periferia da Periferia.



delta-estuário do Amazonas com o arquipélago do Marajó.

O colonialismo europeu na Amazônia deu os primeiros passos com mercadores holandeses, em fins do século XVI, a praticar escambo com índios aruaques da região. Logo corsários franceses e índios tupinambás no Maranhão formaram aliança: os primeiros para desfrutar dos conhecimentos tradicionais na conquista do Grão-Pará (Pará-Uaçu, "grande mar", em tupi) e os últimos na ambição em dispor de navios à vela e armas de fogo a fim de prosseguir a guerra contra os inimigos Tapuias, em especial o "malvado" Marajó  (marãyu), falante da "língua ruim" (nheengaíba). O índio nheengaíba (Nuaruaque), provavelmente, tendo seu berço no Oiapoque invadiu as ilhas do delta-estuário do Amazonas cerca de 1300, no mesmo passo chegaria ao Baixo Tocantins e pela costa marinha poderia ter chegado até talvez o delta do Parnaíba, em confrontos esporádicos com os Timbiras e posteriormente com o conquistador Tupinambá, que empurrou os Timbiras para o sertão e os nuaruaques para as ilhas do Marajó.


As baías do Guajará e Marajó não apenas serviram de costa-fronteira do Pará, segundo a "linha" de Tordesilhas (1494) como foram, de fato, front de guerra entre Nheengaíbas e Tupinambás. Estes índios tomaram partidos diferentes no decorrer da invenção da Amazônia: aruaques ao lado de holandeses, britânicos e eventualmente franceses da Guiana. Do lado meridional do Pará, os tupis no começo com os franceses do Maranhão e finalmente com os portugueses até os confins do Rio Negro e Alto Amazonas.

Com exceção dos antropólogos, os estudiosos brasileiros poucas vezes indagaram dos motivos para a nação Tupinambá estar presente em todas as regiões do Brasil na época da conquista (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte), nenhuma outra "tribo" brasílica foi tão andeja e constante ao lado do conquistador português brutal e sanguinário. Ora, sabemos que a religião tupinambá é a vingança (cf. Florestan Fernandes) e, no entanto, após um genocídio feroz levado a efeito contra os tupinambás por Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira contra os tupinambás do Maranhão e Pará, em 1619, apenas quatro anos passados os tupinambás de Cametá estão prontos e animosos para ir à guerra, em 1623, contra os Hereges (protestantes holandeses) que lhes não tinham jamais ofendido. Na verdade (e poucos ainda hoje compreenderam) o ódio maior do tupinambás recaia sobre o malvado Nheengaíba amigo dos holandeses, que lhes embargavam o passo com a mortalíssima emboscada e a zarabatana com dardos envenenados de curare. A massagada nheengaíba era uma pedra no caminho da sonhada yvy marãey (terra sem mal), apontada pela rota do sol para o Araquiçaua (lugar onde o sol ata rede, poente). Pelo mito supremo, o pajé-açu e o guerreiro tupinambá sufocavam o ódio ao Peró (português, papagaio) toda vez que este recorria a arcos e remos para subir o grande rio.

Resulta que o antigo Grão-Pará era Tapuya tetama (terra Tapuia), nheengaíba do Oiapoque até o Marajó, e o Salgado através do Caminho do Maranhão ficou sendo pátria Tupinambá: ambos territórios ancestrais concentram populações tradicionais de pesca artesanal e mariscadoras de manguezais, que junto às mais regiões amazônicas constitui a terra inalienável da Criaturada grande de Dalcídio.



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no Pará reservas extrativistas marinhas fazem o mangue crescer. 

Por causa desta gente, eu fiquei fanático de museus comunitários depois de descobrir o sui generis MUSEU DO MARAJÓ inventado em 1972 por Giovanni Gallo, "o marajoara que veio de longe" (palavras de Camillo Vianna). Gallo era um missionário rebelde que assumiu o árduo desafio de despertar a comunidade de pescadores do lago Arari para o fato deles serem remanescentes dos povos indígenas que, há mais de mil anos, criaram a célebre Cultura Marajoara. Não foi nada fácil motivar orgulho a cabocos que tinham vergonha de ser descendentes de índios e ainda ter que brigar contra a incompreensão do bispo diocesano e dos políticos locais. Mas, antes do padre dos pescadores pensar em salvar as almas dos paroquianos, talvez com "cacos de índio" cuidou ele de lhes recuperar a memória.

Enfim, me dei conta de que a modalidade mais revolucionária de museus comunitários chama-se Ecomuseu (ver Hugues de Verine) e, de fato, sem prestar atenção o caboco Vadiquinho ao presentear o padre que gostava de "coisas que não prestam - conforme Giovanni Gallo em "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara" - houve por bem com simples "cacos de índio" (fragmentos de cerâmica retirada de sítios arqueológicos arrombados) provocar por acaso a reinvenção de um tesouro perdido. Gallo, por sua vez, atirou no que viu e acertou no que não viu.

Quanto a mim me sobraram cacos de memória coletiva com que vou, malmente, alimentando espíritos vivos desta gente que o mundo esqueceu na antiga província afroluso-ameríndia descendente.



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Museu do Marajó em Cacheira do Arari


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