quarta-feira, 21 de agosto de 2013

TEATRO DA PAZ MARAJOARA


EDUCAÇÃO ARTÍSTICA EM CACHOEIRA DO ARARI, ILHA DO MARAJÓ, PARÁ.



MAPUÁ 1659: ENTRE ÁRVORES E ESQUECIMENTO

Decorridos cinco dias do augusto feriado dos burgueses do Pará, no último dia 15; enquanto a verdadeira data da Adesão do Pará à Independência (28 de Maio) passava mais uma vez em brancas nuvens; hoje estamos nós na beira do costumeiro silêncio a seis dias do 354º aniversário da Pax de Mapuá, de 27 de Agosto de 1659. Quando no passado histórico depois 44 anos de guerra desde a tomada do Maranhão, sem estampido de arma de fogo, rosnado de cães de caça ou zoada de corda e baraço na carreira doida para capturar escravos; mas só com a coragem suicida e a manha santificada dos Jesuítas dirigidos pelo gênio visionário de Antônio Vieira e sua utopia evangelizadora; o pobre e remoto reino de Portugal, estando morto Dom João IV há três anos, rei Restaurador da independência lusitana; conseguiu a incrível adesão dos bárbaros Nheengaíbas para baixo da ainda mais inacreditável soberania dos portugueses no grande rio das Amazonas. Quando, em verdade, tais "índio piratas", desde fins do século anterior, viviam em paz e boa amizade com os estrangeiros através do comércio de escambo desde as Guianas vizinhas ao Amapá. 


Começou aí, de fato, a ruptura da "linha" de Tordesilhas e a germinar nas ilhas da foz do Amazonas a teoria do uti possidetis, que triunfou em 1750, no tratado de Madri. Cerne da doutrina territorial brasileira. Como foi observado, imediatamente, por Vieira; no Grão-Pará sem índios e escravos os colonos europeus não tinham sequer como arranjar o que comer... Lembrando ainda a tragédia da expedição de Gonzalo Pizarro a Amazônia, quando espanhóis morreram de fome depois de ter comido a sola do próprio sapato. Daí a fuga de Orellana e descoberta do rio das amazonas. 

Danem-se os fatos! Diferente de quem vive os acontecimentos, cada um que escreve a história dos outros conta o caso como lhe parece e lhe convém. Para os frades que recrutaram os bravos de nação Tupinambá com armas e canoas de guerra a ajudar soldados de Portugal contra os holandeses da banda ocidental do Pará, a conquista de Gurupá foi milagre de Santo Antônio. Já aos padres de Santo Alexandre o milagre da pacificação dos índios bravios do Marajó o milagre se deu, abaixo de Santo Cristo, por obra de Santo Inácio de Loyola. Aí não entra nem um tico da religião dos Tupinambás ou um pouco de razão prática dos caciques Nheengaíbas, em querer compadres com os quais se contrapor à aliança entre o inimigo hereditário invasor da terra Tapuia e o colono escravagista conquistador do rio das Amazonas.

Entretanto, a historiografia brasileira engajada em glorificar heróis coloniais não perde seu precioso tempo com esta e outras histórias cujos créditos se compartilham, necessariamente, com índios nos primórdios do Brasil e negros depois. E já se sabe que índio e preto não eram gente àquele tempo. Portanto, não espanta que seus descendentes continuem à margem da História, apesar de todos discursos humanitários das Nações Unidas e da vigorosa defesa dos direitos humanos universais na Constituinte brasileira, que nos deu a gloriosa Constituição-Cidadã de 1988. 

Oxalá, a Presidenta da República não demore a deliberar a criação da Universidade Federal do Marajó. E que esta não venha mais a chover no molhado, mas ao contrário venha a ser o poderoso rebocador do desenvolvimento humano. O qual, por sua vez, há de promover o desenvolvimento territorial sustentável... Que a educação ribeirinha se diferencie do asfalto. E, assim, Deus queira que o Papa Francisco, primeiro jesuíta no trono do Pescador, empenhado em promover o diálogo para a paz mundial e o ecumenismo; reabilite a obra do payaçu dos índios da Amazônia, seu camarada soldado de Cristo. 

Nós já estamos cansados de saber que o Padre Vieira é imperador da língua portuguesa, rei do barroco latino-americano e teólogo messiânico. Mas, urge motivar interesse acadêmico para a obra geopolítica e sua influência precursora na teologia da libertação.
A releitura de Antônio Vieira no Maranhão e Grão-Pará, entre 1653 e 1661, tem importância capital nos estudos amazônicos para além da igreja e do estado colonial português de sua época. 

A pacificação dos índios rebelados do Marajó, depois da guerra de expulsão dos holandeses e ingleses, a partir de 1623 com a tomada de Gurupá e a fundação das aldeias de Aricará (Melgaço) e Aracaru (Portel) povoadas com índios nheengaíbas, é um capítulo mal e porcamente estudado. O que se apresenta é como uma estória da carochinha. A carta de Vieira à regente de Portugal e viúva de Dom João IV, dando conta das missões e conquista pacífica da outrora invencível "ilha dos Nheengaíbas" ou dos "Aruans" [Marajó]; é uma obra de arte política. 

Uma peça de teatro, que, com a genialidade de sempre, esconde as verdadeiras intenções do autor da "História do Futuro". Com a sua sutil "heresia judaizante" como cifra da obra maior, jamais concluída, com título sugestivo de "O Reino de Jesus Cristo consumado na terra" (um mundo futuro no qual cristãos, judeus e mulçumanos viveriam em paz, de acordo com as mais antigas profecias da Bíblia). E pensar que boa parte desta interessante utopia foi gestada em longas viagens de canoa a remo, tendo somente índios por companheiros. Não admira, portanto, que o legislador da primeira lei de abolição do trabalho escravo na Amazônia, tenha sido também ele profeta, a exemplo do poeta Bandarra; das esperanças de Portugal naqueles séculos. E do Brasil agora.




RIO MAPUÁ (MUNICÍPIO DE BREVES-PA) - RESERVA EXTRATIVISTA FLORESTAL.


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