segunda-feira, 19 de agosto de 2013

ECOMUSEU DO GUAJARÁ NA PAISAGEM CULTURAL DO VER O PESO RUMO AOS 400 ANOS DE BELÉM DO GRÃO-PARÁ.


canoistas em frente a Ilha das Onças preparados para travessar a baía do Guajará rumo ao Ver O Peso: passeio ecológico histórico imperdível da paisagem cultural da península de Belém e arquipélago do entorno das águas. Vivendo e aprendendo a ver o rio da natureza e cultura da brava gente parauara.



NAVEGAR É PRECISO, VIVER SEM NORTE NÃO É PRECISO

Podem me chamar de aposentado ranzinza e chato, mas não me acusem de querer aparecer a qualquer custo como fazendeiro de utopias impossíveis. Sim, por que há utopias adoráveis realizáveis que só não acontecem devido à cegueira de donos de podres poderes. Aquilo que o padre grande Vieira reprovou, em São Luís do Maranhão, no "Sermão aos Peixes", em combate franco contra o trabalho escravo e a demência dos colonos alimentada pelo imperialismo de além mar. 

Antes de tudo, deixem de altas pavulagens científicas e procurem simplesmente entender a razão pela qual no rio não tem tubarão e por que é que no mar não tem jacaré... 

Ah, sim, antes que me esqueça: por que foi que o peixe-boi sumiu de circulação nos "nossos" rios? Se antes o bicho vivia em quantidade pelos igarapés da cidade e esta era, avant la lettre uma autêntica Cidade-Ecomuseu, enquanto "manadas" de manati (nome nativo do dito mamífero) pastavam sossegadas na comedia (sic), lugar de comer; onde hoje é a praça Amazonas em frente ao polo joalheiro e de artesanato São José Liberto, prenhe de história... 

Roteiros, roteiros, roteiros. Roteiros turísticos da mítica Terra sem males. Ou seja, o motivo da marginalização do saber popular nesta antiga terra dos Tapuias conquistada por arcos e remos do tremendão Tupinambá ao lado de armas portuguesas, com certeza; sob o branco estandarte da União Ibérica de sangue indígena manchado. E não haver nem um mísero registro destas coisas, que valha a pena, em compêndios oficiais e políticas públicas mais vistosas da província do Pará.

Claro, podem perguntar o que foi que eu fiz em mais de quarenta e tantos anos de serviço público, em todos os três níveis de governo inclusive no exterior. Eu lhes direi, com franqueza, que não fiz nada. Nada do que eu queria ou poderia fazer, se acaso o Serviço Público deste país não tivesse sido precocemente quebrado, desde o desmonte do falecido DASP e desfazimento da era Vargas. 

Os senhores e senhoras desta garbosa província da Belle Époque podem morrer de saudades do tempo em que nossos bacharéis eram formados em Londres e Paris... Ou aprender a ver que nas sociedades industriais do chamado "primeiro mundo" o Serviço Público é de primeira, desde a escola primária. 

E por que a gente que vem de baixo e do interior, sem eira nem beira, queimando os barcos a fim de saber quem inventou o mundo; quando aprende isto não quer dizer que se há de ser capaz de administrar a refazenda... Pelo motivo de que a Administração Pública - desde o famigerado Diretório dos Índios - foi feita para esbandalhar o que, zinho, dava certo para os "negros da terra" e transplantar à colônia do Grão-Pará e Maranhão, mato adentro, negros da Guiné e a geografia de Portugal com suas vilas e lugares habitados por barões assinalados. 

Por certo esta leseira amazônica faz com que muitos dos nossos estejam prontos a matar ou morrer, por exemplo, em defesa do inolvidável nome lusitano de Melgaço, com seu estigmatizado IDH de pobreza paraense, a ter que ressuscitar as ruínas invisíveis da velha aldeia de Aricará. E, por acaso, os moradores de Curuçá ou de Maracanã sabem como foi que estas briosas cidades históricas do Pará recuperaram o nome próprio e revogaram a imposição do diretório Pombalino?  Não sabem porque, desde menino, não se lhes ensinam.

Hoje, graças à revolução tecnológica dos meios de comunicação, já se sabe que a República (res publica, coisa pública), que em 1789 rompeu a aliança "eterna" entre o Altar e o Trono; se acha em liquidação mediante privatização da Imagem e do Dinheiro em mãos de poucas famílias, privilegiadas pela mão invisível do Destino. Numa lógica matemática da dominação, os donos do Poder primeiro se apossam da alma do negócio de nobres representantes do Povo, para em seguida se apropriar da democracia inteira enganando eleitores tolos, que são multidões; com promessas que, num instante, se esquece mais rápido do que o Diabo pisca um olho.

Portanto, neste estado de coisas o bom burguês é freguês do marquetingue do Paraíso na terra dos endinheirados. Digo o bom burguês para citar o inocente útil que acredita em Papai Noel e sendo "vencedor" da vida, não acredita que tudo é tal e qual a maré que enche e vaza, deixando no meio um remanso para descanso dos Raimundos sobreviventes da travessia do vasto mundo de Drummond ...

No planeta água, gregos e troianos se acham na mesma canoa chamada Terra. O planeta Amazônia representa neste teatro ribeirinho o vasto mundo. E o Pará é grande mar de água doce, salobra e salgada... A conquista do "rio das Amazonas" vem apenas de começar. 

Seja pelo duro trabalho quotidiano, o estudo escolar, a pesquisa científica, a louca invenção dos poetas e mais trabalhadores intelectuais; o lazer e o ócio criativo etecetera e tal... E, todavia, Belém dos 400 anos cresceu de costas para o rio fugindo também do mar: nossos "índios" não comem ninguém e não pescam nada da história das capitanias hereditárias...

Logo, em marcha para o amanhã os paraenses se encontram numa encruzilhada entre 400 janeiros de "apartheid" que não ousa dizer seu nome e a risonha esperança de melhor destino àquela Feliz Lusitânia que, até agora, não soube o que é felicidade humana verdadeira.

Ora, com isto tudo quero fazer preâmbulo para dizer que, muitas vezes, o Cidadão e o Servidor não são entidades divinas, mas sim a mesma pessoa social de carne e osso na pele do indivíduo. A gente não precisa estar contra ninguém. Mas, sem dúvida, sempre a favor da Cidadania de todos. E nesta história em marcha aos 400 anos de Belém que se tenha sonhos coletivos de uma Feliz Cidade onde o rio e a urbe se encontrem numa boa.

Tal é a utopia caboca, por exemplo, de um "novo" Ver O Peso onde a tradição e a modernidade entrem em sinergia, com alegria de noivos. Para isto os moradores de Belém precisam descobrir a cidade e o rio com todas suas ilhas reais e imaginárias... Não basta ver o por do sol na frescura do ar condicionado dum apartamento de arranha céu... É preciso navegar o Guajará ancestral e habitar o tempo das Ilhas na fronteira entre a realidade e o sonho.

Coragem cívica para despedir célebres malandros políticos exploradores da "tradição" dos urubus e dos votos de analfabetos políticos da maior feira "livre" da América Latina. Os trabalhadores do Ver O Peso são cidadãos de pleno direito e merecem, de verdade, ser amparados e preparados para ser empreendedores do chamado desenvolvimento socioambiental sustentável. Claro está que isto não pode acontecer por decreto nem milagre, enquanto cidadãos de Belém e servidores públicos se tratarem com desconfiança de inimigos.

O Solar da Beira deveria ser como quê a universidade corporativa da maior feira livre da América Latina. Neste sentido, há muito tempo, a Confraria dos amigos da academia do peixe frito pede para ser ouvida pelas autoridades e entendida pela sociedade.

Frequentemente, citamos o exemplo da revitalização da Cidade Velha de Montevidéu, onde o mercado de carne e peixe virou centro gastronômico. Antes de mais nada, algo assim em Belém deveria começar por iniciativa dos próprios balanceiros, talhadores, açougueiros e mais trabalhadores da feira em busca de denominador comum em torno de melhor IDH para si mesmos e suas famílias, caso seus beneficiários de votos eleitorais lhes proporcionassem, deveras, o ensino técnico necessário e a educação que precisam. 

Quem são eles? Onde moram? Como vivem? Quais são as suas aspirações? Como poderão eles se ver dentro de melhoramento geral do Ver O Peso, do Centro Histórico e do entorno das Ilhas? Será que sendo esta comunidade ela mesma a primeira beneficiária de uma utopia factível assim, ficariam sempre contra qualquer inovação? Ou, ao contrário, eles parecem sempre estar contra por que são manipulados por seus eternos exploradores econômicos e políticos herdeiros de um passado vergonhoso?

Este nó Górdio não se desata nunca... Porém, poderia ser destrinchado com um só golpe pelo diálogo entre socioeducadores, militantes, líderes comunitários e a dita comunidade veropesina. A partilha de saberes tradicionais e acadêmicos em pé de igualdade: para isto, como primeiro passo, a sugestão do...

ECOMUSEU DO GUAJARÁ



Solar da Beira - feira do Ver O Peso / Belém-PA

Será que dá pé? Não carece inventar a roda. O Ecomuseu da Amazônia (Escola-Bosque Eidorfe Moreira, na ilha de Caratateua) já está na lida. Por que não aceitaria o desafio do Ver O Peso sem medo algum? Quando a gente não quer encarar o novo, a primeira coisa é se esconder atrás do velho... A legislação que não prevê ou não permite. Os compromissos partidários que não se diz, mas pesam mais que todas as leis escritas e políticas federativas reunidas.

Acredito que se houver verdadeira boa vontade de todas partes envolvidas, o Solar da Beira poderá servir de base operacional do Ecomuseu do Guajará integrado às atividades já desenvolvidas pela supracitada instituição socioambiental e educativa da SEMEC no Outeiro, Icoaraci, Cotijuba e Mosqueiro.  Não falo que se tenha que desalojar nada nem ninguém do casarão, pelo contrário: espero que se torne o Solar da Beira, de fato, um espaço polivalente onde a gente se encontre 24 horas e também haja uma cantinho para a Confraria do peixefrito.

Dali se poderá viajar no imaginário do Ver O Peso em todas as direções até o distante porto Caribe, Marajó e circunferências. A gente quer garças e guarás na paisagem recriada com o savoir faire do Mangal... Velas e remos de volta à Doca, o Mercado Bolonha vendendo churrasco de búfalo, queijo do Marajó e frito de vaqueiro... O Mercado do Peixe como carro-chefe da gastronomia de rio e mar do Pará. Por que não? A feira como sempre sendo cartão postal... Se a nossa geração perdeu o bonde da história, pelo menos a geração de nossos filhos ou a dos netos seja capaz de tornar realidade a veropesina utopia.

cidade de Belém do Pará


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