domingo, 4 de maio de 2014

eu vou pra Vilarana



As conversas entre comadres, os fatos do dia a dia dos antigos vilarejos e muitas outras curiosidades voltaram a povoar o imaginário do Parque Cultural Vila de São Vicente, na Praça João Pessoa, em São Vicente. Atividade marcante quando da inauguração do parque, há mais de 12 anos, as cenas teatrais com diálogos de época retornaram nesta sexta-feira (14), e poderão ser conferidas também aos sábados, domingos e feriados.

Atores do grupo de teatro do CAMPSV se revezam nos diálogos, que têm produção, textos e figurinos são da Secretaria da Cultura, que administra o local. Apesar de continuar em processo de reforma, a Vila mantém portas abertas à visitação, de terça a domingo, das 10 às 19h.

A cada dois meses um novo grupo de teatro da Cidade vai se apresentar na instalação cenográfica, que remonta à época da fundação daquela que seria a primeira Vila do Brasil. Não há cobrança de ingresso e na sequência virão ainda atores das companhias Dons, Taetro, Héteros, Tartufos Cênicos e Vozes em Cena. A ordem de atuação bimensal foi decidida pelas companhias de teatro.


Vilarana, a vila quem nem vila era.

Vilarana é utopia do vilarejo na periferia global onde o tempo espera e sempre é primavera...  Esperança antropoética do retorno ao país natal através da espiral evolutiva de um milhão de aldeias kibutzianas no mundo pós-industrial do velho homem lobo do Homem. 

Melhor dizendo, Vilarana é utopia ribeirinha da cidade humana no concerto das nações verdadeiramente unidas e democráticas pela reforma da ONU. Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha... Se a Lei internacional não chega às margens da História para derrubar os muros do Apartheid mundial - que separa 99% da população da Terra de 1% de donos do Poder -, protegendo os sem eira nem beira, os ribeirinhos da Modernidade conservadora vão à luta ocupar as cidades. 

E não tem mais açaí e peixe frito pra ninguém! (atenção: isto é uma metáfora, não carece ir denunciar a gente na OMC nem privatizar rios, lagos, mares e igarapés... Pelo amor de Zeus!).

Cada migrante ou imigrante na cidade grande traz na bagagem sua vilarana, lugarejo ideal que toca a alma na canção "Vilarejo" pela voz amorosa de Marisa Monte. Sonhado chão das recordações que talvez não nos deixaria partir se a realidade fosse outra no lugar onde a sorte ingrata nos apartou da terra natal. 

Isto me ocorreu ao relembrar minha imaginária Vilarana nesta manhã quando, no Twitter, delegado da Polícia Federal no exercício de cargo eleito de Deputado Federal, sem comentário, pergunta aos leitores o que eles acham de certa matéria no jornal Folha de S. Paulo. Lá se lê que a Câmara Municipal da maior cidade da América do Sul tem uma tenebrosa "bancada da bala", composta de policiais militares da reserva eleitos por cidadãos aterrorizados pela violência urbana. 

Não será isto, por acaso, um fenômeno global que afeta as relações internacionais Norte-Sul e faz voltar hordas assassinas neofascistas por todo lado? E Nelson Mandela já morreu, pouco tempo depois de Washington retirar seu nome da famigerada lista de "terroristas", devido ao grande crime de Madiba se opor ao terrorismo de estado no regime de Apartheid apoiado, durante tanto tempo, pelas potências brancas justiceiras ocidentais.

O caso me fez lembrar, lá pelos anos de 80, uma conversa à saída do "bandejão" do Itamaraty entre um diplomata paulistano descendente de imigrantes russos, um aluno do Instituto Rio Branco oriundo do Mato Grosso e este caboco marajoara saído do mato, que vos fala - inventor da desconhecida Vilarana - , então secretário administrativo da Divisão de Fronteiras naquele ministério da Esplanada, em Brasília (DF). Àquela altura, o caos urbano já preocupava o país do futuro envolvido pelas "Diretas Já" a cabo das trevas da Ditadura...

O diplomata comentava notícia do dia e o estudante procurava explicação para o fenômeno explosivo do crescimento desordenado das metrópoles da América Latina. Como de hábito, meti eu minha colher enferrujada na conversa sentenciando, gravemente: 'toda cidade grande não é mais que um conjunto de cidades pequenas'... 

Talvez hoje o ex-aluno e agora embaixador em posto-chave da nova política latino-americana e o ministro de carreira no cargo de cônsul-geral em importante posto na Europa, outrora segundo-secretário, não se lembrem mais daquela conversa de circunstância. Todavia, o problema das migrações e crescimento descontrolado das cidades está na ordem do dia. A cidade de São Paulo em transe numa encruzilhada da Avenida Paulista...

A teoria da dependência demonstra que, após a independência das colônias da velha Europa na América, a colonialidade das elites transplantadas aos novos países continua oferecendo o cruel espetáculo das veias abertas da América Latina, no dizer abrasivo de Eduardo Galeano. O arcaico Ocidente sanguinário fanático, patriarcal e autoritário oriundo das piores tradições do Oriente foi desterrado pela mãe Europa para ocupar o "novo mundo" edificando, nesta margem do Oceano, o Extremo Ocidente. Cuja matriz imperial são os Estados Unidos WASP (branco, anglo-saxão e protestante), mais unida ao Reino Unido que aos estados americanos (lembrai-vos da doutrina Monroe reprovada no teste da guerra das Malvinas). 

Que tem a ver? 

A conquista e colonização da Ameríndia pelas monarquias cristãs da Europa para dar lugar das nações indígenas aos conquistadores e colonos em maior parte indesejáveis dos guetos das cidades e camponeses pobres excluídos da concentração da propriedade rural, produziu o maior crime de lesa humanidade que se tem notícia, depois do Holocausto e da hecatombe atômica de Nagazaki e Hiroxima: o cativeiro negreiro das Américas.

Em São Paulo de Piratininga se levantou a primeira vila do Brasil, São Vicente. De São Vicente saíram tropas de Bandeirantes matabugres façanhudos à conquista dos sertões e descoberta de ouro. Criou-se a ideologia bandeirantes que ainda ecoa nos sucessivos e controversos planos de "desenvolvimento" da Amazônia da ditadura de Vargas à democracia popular de Lula e Dilma lá. A Capital sofre e São Vicente oferece uma oportunidade de visitar o passado para reinventar o país do futuro.

CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA E DALCÍDIO E O GALLO JÁ MORRERAM

São Vicente nos sugere, pelo turismo com a comunidade, uma volta ao vilarejo. A grande São Paulo com a locomotiva fora dos trilhos, também poderia com uma poderosa utopia capaz de mobilizar toda rede mundial de metrópoles a qual ela pertence, e assim tornar-se ela mesma um conglomerado de mini-cidades autogestionárias e sustentáveis. Claro, a estrada de mil léguas começa com o primeiro passo e pode ser - neste caso -, o primeiro passo foi dado em São Vicente a fazer a paz dos indios e das bandeiras de volta ao lugarejo...

Da minha parte, eu vou pra Vilarana! Esta viagem é mui antiga. A vila que nem vila era foi tirada do barro do Fim do Mundo, nas ilhargas da antiga vila de Itaguary; ela mora comigo em qualquer lugar onde eu for. Um dia estive em Vilarana de Cachoeira do Arari e vi que ali já não estava mais de pé a casa de "Chove" com Alfredo de Dalcídio Jurandir e para o lado do Choque o padre Giovanni Gallo implodiu e seus herdeiros se dividiram em briga pelo espólio do museu... 

Hoje, pensando bem a respeito da pergunta do Deputado Delegado, eu quis responder à angustiosa questão da desordem urbana. Para isto, pode ser que eu precisasse me mudar para Brasília ou Niterói, terra do índio Arariboia. Mas eu queria armar barraca em Aracaju. Ou no Nordeste Paraense ser pescador numa resex. Melhor seria, então, ir a Porto Caribe na rota de Abubakari II e sua flotilha de dois mil caiaques pedir asilo na Martinica, pais do imortal Aimé Cesaire... Por enquanto vou ficando por aqui e mando lembranças a toda gente que gosta de gente.

Vilarejo

Marisa Monte

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

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