domingo, 29 de janeiro de 2017

Uma leitura do território da memória: enraizamento para empoderamento da comunidade.

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Arco do Triunfo marajoara: Cachoeira do Arari, ilha do Marajó - Pará - cidade sede do MUSEU DO MARAJÓ.



Quando, pela primeira vez, eu vi o Arco do Triunfo exilado à margem esquerda do rio Arari, levei um susto e manifestei minha estranheza estética nativista à companheira de viagem Ana Diniz. Nós dois estávamos a caminho do teso (sítio arqueológico) da ilha dos Bichos. Ela então me disse. "você não está vendo que isto é contra-cultura?". Desde então, quando volto a Cachoeira do Arari contemplo o monumento triunfal marajoara com outros olhos sem complexo de inferioridade. 

Por acaso, em 2004 visitei o Arco do Triunfo em Paris - aquele formidável hino napoleônico em concreto da insustentável leveza da memória dos imperadores da antiga Roma-, com uma ponta de orgulho do modesto arco de Cachoeira do Arari, brega sim mas não menos significativo que o desejo de conquista da França imperial, que as risonhas esperanças de liberdade, igualdade e fraternidade da Criaturada grande de Dalcídio. Quem dera o midiático Jack Lang, eterno ministro de Mitterrand. fosse lá tirar uma foto para ficar no acervo do museu do Padre Gallo! 

Com esta ideia absurda na cabeça imaginei um fantástico diálogo entre o Louvre e o Museu do Marajó, por exemplo. A periferia da Periferia e o primeiro mundo numa conversa cara a cara, tal qual Adão e Jeová de Michelangelo na Capela Sixtina. Por que não? Que grafiteiro mestiço se atreverá a arremedar o divino Michelangelo num retábulo de igrejinha de beira de rio? Acho que o Papa Francisco, sabendo do cometimento artístico antropofágico, abençoaria tal artista.

Acredito que foi mesmo uma pena Giovanni Gallo (Turim - Itália, 1927 - Belém do Pará - Brasil), em 1972, não ter tido conhecimento de Hugues de Varine (Moselle - França, 1935) quando o padre dos pescadores estava a quebrar cabeça para inventar do nada o "Nosso Museu do Marajó", na distante e isolada Santa Cruz do Arari. Verine por voltas de 1970, em Paris, estava inovando museus vetustos para abrir suas portas e ir ao encontro das comunidades do mundo ao ar livre. Giovanni inspirado nas fontes das musas onde Verine foi beber, teria todo o maior arquipélago fluviomarinho do planeta para fazer dele "seu" museu, que nem o futurologista Padre Antonio Vieira não sonhou. E que, mais tarde, serviu de arrimo ao Ecomuseu da Amazônia ancorado como a cobra grande na pequena ilha de Caratateu. Captou ou está difícil? 

A palavra "museu" vem do grego Musa é quer fizer lugar de inspiração. Com a musa-Ecologia ocupando corações e mentes nos anos 70 o padre italiano que deixou estremecendo as raízes marajoaras do romancista Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979) - primeiro escritor amazônico ganhador do Prêmio Machado de Assis, 1972 - teria logo, muito mais, motivos para ostentar a Criaturada grande em primeiro lugar naquela estúrdia invenção. Se Verine soubesse imediatamente em Paris o mesmo que Dalcídio sabia no Rio de Janeiro sobre a importância do padre Gallo àquela hora no sítio da beira do lago Arari; certamente a história do Museu do Marajó até agora poderia ter sido mais feliz.

Eu mesmo, ao tempo que servi em Caiena entre 1985 e 1990, se soubesse da existência do incrível museu comunitário de Santa Cruz do Arari e Jenipapo - lugares muitos queridos em minhas recordações -, com certeza teria eu feito o meu melhor para inserir o Nosso Museu do Marajó a par da delegação do Amapá no Festival das Guianas (1986) apelaria ao meu querido amigo guianense Robert Marigard, organizador do dito festival de cultura dos países e regiões guianenses das quais o Amapá e Pará fazem parte. Eu não teria esperado até 1994, quando fiquei à disposição da Prefeitura de Ponta de Pedras com atuação cumulativa na assessoria de relações internacionais da extinta Associação dos Municípios da Ilha do Marajó (AMIM) (depois do Arquipélago do Marajó - AMAM), para intermediar o Protocolo de Cooperação Intermunicipal Marajó - Associação de Prefeitos Municipais da Guiana Francesa / Municipalidade de Sinnamary.

Com este protocolo de vizinhança transfronteiriça, pela primeira vez em 20 anos desde controvertida operação de repatriamento em massa de imigrantes brasileiros provenientes de Caiena, em 1974, autoridades e representantes da região norte do Brasil e da Guiana francesa enviaram recíprocas visitas. Primeiramente, uma delegação da Guiana francesa em Belém e Marajó, seguida de resposta brasileira a Caiena e mais municipalidades da região francesa de ultramar. Em ambas, o Padre Gallo e Museu do Marajó foram os atrativos principais. 

Foi, portanto, com estes antecedentes que se entabularam trocas turísticas, esportivas e culturais de vizinhança transfronteiriça visando mitigar impactos negativos do tráfico ilícito de pessoas e mercadorias na fronteira do Oiapoque. Pena que, então, Hugues de Varine e Giovanni Gallo nunca se tenham encontrado. Imagino se na delegação francesa naquele encontro na Guiana o Museu do Homem (Louvre) estivesse representado por Varine...

Quando, mais tarde, nosso amigo Maurice Gey mais uma vez com apoio político de Jack Lang, abriu portas ao Estado do Pará junto ao governo da região Ilha da França (região metropolitana de Paris) para que o governador francês Jean-Paul Huchon e a governadora paraense Ana Júlia Carepa tivessem, em Copenhague, reunião paralela à COP-15 (2009), tratando da cooperação sub-nacional sobre meio ambiente. Passo seguinte, o governador Huchon recebeu em Paris o secretário de estado de meio ambiente do Pará, Anibal Picanço; e o diretor de áreas protegidas do estado, biólogo Rodolfo Pereira que foram sondar oportunidades de intercâmbio técnico em matéria de mudanças climáticas.

Na oportunidade, Maurice Gey no papel de cicerone fez a ponte para uma visita informal, mas de cunho especial sobre interesse mútuo de intercâmbio entre o Museu do Quai Branly ou Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania Américas; fundado em 2006, aonde foram parar as velhas coleções de cerâmica marajoara arrancadas de sítios arqueológicos da ilha do Marajó. Gentilmente recebidos no gabinete do diretor Stéphane Martim, Rodolfo Pereira, sobrinho-neto de Dalcídio Jurandir e então diretor de áreas protegidas do estado do Pará, entregou exemplar da obra de Denise Schaan, Cultura Marajoara, em mãos do diretor do novo museu francês. Ficou, desta maneira, uma porta entreaberta inclusive para hipótese de futuro repatriamento de peças de coleções de cerâmica marajoara dentro de acordo nacional visando desenvolvimento socioambiental da gente marajoara. 

Fosse assim, talvez, na distância de Paris como também do Rio de Janeiro aproximado do Marajó pela correspondência fiel de Maria de Belém Menezes, onde o romancista Dalcídio Jurandir percebeu logo que o padre italiano era mais que simples missionário católico preocupado com a salvação das almas ribeirinhas. Varine teria certamente estabelecido comunicação entre o vetusto museu do Homem, em Paris, e Jenipapo, onde, muito depois, o escritor Sébastien Lapaque veio contemplar o lago Arari para reportagem do Le Figaro. Este talvez tenha sido o último jornalista estrangeiro a entrevistar Giovanni Gallo, em Cachoeira do Arari. Esse diálogo à distância entre mundos diferentes serviria para despertar a consciência histórica da Criaturada grande remanescente de antigos engenheiros pés descalços dos tesos (sítios arqueológicos) e artistas da cerâmica marajoara de mais de mil anos de idade. 

O teimoso Padre Gallo "implodiu", viu-se privado de exercer funções sacerdotais e veio ele a falecer em desavença com o bispo da diocese, também este com notável trabalho social realizado na criação de cooperativas que, no fim da história, não se enraizaram. E, portanto, a criaturada não se empoderou daquilo que seria seu; caso a metodologia proposta por Hugues de Varine tivesse florescido nas paróquias da Diocese. O prefeito municipal de Santa Cruz do Arari tendo apoio político do povo, por sua vez longe de ajudar o Museu do Marajó a se enraizar na comunidade, voltou-se contra o padre perdendo oportunidade oferecida por aquele museuzinho esquisito e aparentemente sem importância, feito de esperanças, curiosidades e "cacos de índio", para se mostrar ao país e ao mundo. 

Em suma, ninguém soube e ninguém viu que aquela coisa risível inventada na beira do lago Arari contemplando uma gentinha que o mundo esqueceu, era de fato e de direito o primeiro ecomuseu da Amazônia e do Brasil... Antes tarde que nunca. Agora sim - há 14 anos depois da morte de Gallo a se completar no próximo mês de março -, a gente poderá descobrir a tardia novidade museológica da vila do Jenipapo, mãe do Museu do Marajó em Cachoeira do Arari: todavia, convém que a comunidade se empodere da cultura e do território ancestral de seus antepassados. 

A crucial questão que se apresenta na região amazônica a mais emblemática: Como quebrar o fado marajoara sem o mundo saber da História do Futuro, que o padre grande escreveu; da notícia histórica da Viagem Philosophica do sábio de Coimbra e, finalmente, sem haver solidariedade nacional e cooperação internacional?


No dia de aniversário de nascimento de Dalcídio Jurandir, ano de 2004; acompanhei por acaso o atual secretário de estado de turismo do Pará, Adenauer Góes; em viagem a Holanda e a França: intimamente levava eu, sem prejuízo da missão, interesse pessoal em falar de três coisas importantes para o Pará surpreender seus visitantes, Marajó, Marajó e mais Marajó (claro, meu negócio com o turismo é a capacitação para oferta de produtos de ecoturismo na comunidade). Em Paris, conseguimos nos entrevistar com Jack Lang (nasceu em Mirecourt, Vosges, França, atual presidente do Instituto do Mundo Árabe (IMA) desde 2013, trata-se de renomado político francês popular nos meios de comunicação, foi Ministro da Cultura de François Mitterrand). Daquela visita resultou convite, em nome do governo do Estado Pará, para vinda de Monsieur Lang a fim dele conhecer a capital estado e a ilha do Marajó.



Jack Lang, em Belém do Pará, 2005: ao fundo forte do Castelo, lugar de memória de fundação da cidade, agora com 401 anos de idade.

Lang veio ao Pará no natal de 2005, a cabo de mil e uma peripécias a fim de chamar atenção do Brasil e do mundo sobre o turismo que se queria implementar na Amazônia paraense. Para este fim, sucedeu-se peculiar combinação de esforços e sucessos, dentre aos quais o inestimável concurso do amigo francês apaixonado por Marajó que se chama Maurice Gey, o marajoara por adoção Adenauer Góes e este caboco pontapedrense que vos fala; foi quando Marajó recebeu a incrível visita do super star da cultura francesa, famoso pela polêmica reforma do museu do Louvre com a pirâmide de cristal. 

Aquilo foi mesmo uma loucura, a coisa elogiada por Erasmo de Roterdã. Inesquecível. Porém, um desastre do ponto de vista do "complô" que os fados e caruanas tramaram, talvez, e nós simples mortais interpretamos ao acaso no teatro da vida. São Pedro Safadinho (folclore marajoara, em Giovanni Gallo - Marajó a ditadura da água) resolveu aprontar uma boa. 
Só para mostrar aos entusiasmados anfitriões e ao soberbo ministro da Cultura de Mitterrand que nos campos de Cachoeira, paresque, quem manda são os encantados...


"Desastre! Fale-me do desastre"... Eu me lembrando da poesia do francês guianense Léon Gontran Damas, diante da torrencial chuva que desabou nos campos de Cachoeira e a ilha inteira naufragada sob o dilúvio. O casal Lang de molho no hotel, helicóptero no chão e a tripulação forçada a inventar passatempo e jogar conversa fora. Dois assessores do ministro querendo conversar com os jornalistas, autoridades estaduais e locais a fazer das tripas coração para disfarçar o mal estar. A barreira da língua para atrapalhar. Culpa de quem? A chuva nos campos de Cachoeira... Ou melhor, São Pedro.


O plano era bom. Bem detalhado desde quanto Maurice levou a Monsieur Lang um exemplar do meu Amazônia latina e a Terra Sem Mal com autógrafo. Recebidos em janeiro de 2004 no escritório particular do então deputado à Assembleia Nacional francesa e presidenciável, Adenauer fez o convite que eu fui traduzindo: motivo, solicitar apoio ao turismo no Pará com a realização da primeira Feira Internacional de Turismo da Amazônia (FITA), através de uma rota Paris - Antilhas/Guiana... Atrativo especial: o Museu do Marajó, que havia sido estrela de intercâmbio entre a Guiana francesa e o arquipélago do Marajó. Madame Lang ficou radiante quando eu a informei do potencial para concerto por músicos árabes e judeus em o nosso significativo Theatro da Paz, numa cidade chamada Belém, na Amazônia, onde vivem em harmonia comunidades de origem hebraica e libanesa. Seria, com certeza, uma mensagem forte para um mundo em conflito. Imagina isto hoje, quando o secretário geral da ONU é o português António Guterres, cujo discurso oficial no dia mundial da paz, ao tomar posse foi o compromisso prioritário com a paz mundial! Mais, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Agenda 2030 da ONU.


Todavia, naquele dia seguinte ao natal de 2005, São Pedro Safadinho resolveu encalhar a viagem do ministro e comitiva a Cachoeira do Arari onde ele estava querendo plantar um pé da árvore Folha Miúda frente ao chalé (ou o que restava dele na intenção de uma reconstrução) de Dalcídio Jurandir e visitar o famoso Museu do Marajó... As crianças da rede escolar todas em seus uniformes alinhadas com bandeirinhas do Brasil e da França às mãos, esperando. Qual teria sido a reação de Lang ao se deparar com o Arco do Triunfo a olhar para o rio e os campos sem fim, que nem o jardim de Maria Antonieta, no palácio de Versalhes, pode se comparar em tamanho e beleza natural? 


Na véspera, na fazenda-hotel Camará o tempo já havia começado a fechar, mas ainda deu para Lang alcançar seu amigo ministro da cultura Gilberto Gil que se achava em Petrópolis, no Rio de Janeiro; ligação ruim, deu apenas para dizer que ele estava com sua esposa na ilha do Marajó a caminho de Cachoeira do Arari. Pediu para ambos cuidarem da difusão da obra de Dalcídio Jurandir... Passou-me o telefone para dar um alô ao ministro compatriota, mal tive tempo de ouvir do outro lado, alô, alô... Foi tudo. Marajó realmente estava (está ainda) fora do mapa.


E toma-te chuva. O tempo passando... A madame assessora cultural, feliz até a noite passada devido ao pajé Joãozinho da boca do Camará a ter livrado de uma contratura muscular crônica, dizendo ela, que remédios e psicólogos de Paris não lhe tinham surtido efeito. Perdeu ela a serenidade com a chuvarada, todos nós gregos e troianos encalhados em Joanes: então, madame Christianne sempre teatral vira-se para Maurice e pergunta de chofre, "que vamos fazer?"... Ele toma ares misteriosos à lá Luis de Funes e responde, calmamente: "proponho suicídio coletivo"... 


Maurice é palhaço diplomado pela Comédie Française, madame fica tiririca com a tirada do palhaço da jornada enchuvarada a Cachoeira do Arari. E assim debandou a comitiva em retorno a Belém, logo que a chuva de São Pedro Safadinho permitiu retirada com segurança, já quase à boca da noite para Lang, o deputado-prefeito da cidade de Kuru, Antoinette. E Dalcídio Jurandir em correspondência a Maria de Belém escreveu: "quando Marajó desencanta?"... Aquilo é carma, fado, sina, será?



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exposição permanente de cerâmica marajoara arqueológica (instituição credenciada como fiel depositário pelo IPHAN) e reproduções feitas em oficina do próprio MUSEU DO MARAJÓ, em Cachoeira do Arari - Pará.


Tinha eu por acaso, pessoalmente, um "plano secreto"? Sim, conheci o criador do Museu do Marajó em circunstâncias curiosas no ano de 1995. Estive ausente desde 1980 até 1990, dez anos não são dez dias.  Até minha partida para Brasília e depois exterior, tivera eu uma militância na SOPREN sob comando do decano do ambientalismo na Amazônia Camilo Viana. Em 1994 fui colocado à disposição da Prefeitura de Ponta de Pedras a pedido do prefeito Bernardino Ribeiro, eleito enquanto secretário geral da Universidade Federal do Pará. Ex-secretário de finanças (1966-1967) na gestão de Antonico Malato e voluntário para projetos de cultura na administração (1978-1980) de Mário Noronha  Vislumbrei oportunidade de promover o Marajó como um todo, desde quando tomei contato com aquela história que o padre Giovanni Gallo escreveu no início do livro "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara": ... "Aproveitando as coisas que não prestam - Quase vinte anos atrás, um amigo meu, o Vadiquinho, largou um embrulho em cima da minha mesa, com um sorriso um tanto provocador. 
          -- Aqui estão uns negócios que não prestam, como o senhor gosta..." (Giovanni Gallo, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara).

Eram "cacos de índio" no falar caboco marajoara, fragmentos de cerâmica tirada de "tesos" (sítios arqueológicos) geralmente para contrabando. E que por falta de técnica e para fugir ao flagrante vão se esbandalhando e deixando cacos pelo chão. Por necessidade e acaso, o provocador Vadiquinho, sem saber, encontrou o sujeito certo para depositar aqueles cacos de índio, por lei "protegidos" pela República Federativa do Brasil. Eureca! Ou o estalo do padre Antônio Vieira... Cacos (ruínas) são férteis sementes de tempo e espaço para novas renascenças.



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Arco do Triunfo em Paris.

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