sábado, 28 de janeiro de 2017

Tradição pinta cuia é uma arte amazônica de grande valor identitário.

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artista plástico Theo Lima, de Icoaraci, pintando mural baseado na iconografia marajoara ancestral


Devo ao amigo Adenauer Góes o incentivo e apoio institucional na publicação de meus ensaios diletantes Novíssima Viagem Filosófica - Revista Iberiana (1999) e Amazônia latina e a Terra Sem Mal (2002). Neste último, consagrei a terceira e última parte do livro (pag. 77 e segs.) à Educação pelo barro: humilde tentativa de dialogar com a "educação pela pedra" do fino poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto de Morte e Vida Severina: o nortista pelejando com a ditadura das águas grandes do grande rio Amazonas no barro planetário dos princípios do mundo. De outra parte, o nordestino a bom lutar contra as secas do sertão-mundo... Deste fado contraditório, de povos da Lua e povos do Sol saiu o casamento que pariu a ecocivilização amazônica.

Ao médico ortopedista de nome alemão não falta intuição. Por isto, Adenauer foi convocado para dirigir o time parauara do Turismo quando a empresa oficial estava condenada a sair de campo. Eu puderia destacar uns bons gols feitos, mas agora quero falar daquilo que faz a diferença entre o técnico acadêmico e o político atilado e sintonizado com inovações maluco-beleza e viagens na maionese que, sim, podem "dar samba". Ou melhor, um bom carimbó.

Lembro-me da vez em que Adenauer estava em Santarém com uma garbosa delegação e de repente descobriu, se não me engano, em Alter do Chão variedade de cueira de frutos pequenos, próprios para confecção de mini cuias.  O então presidente da companhia paraense de turismo não pestanejou em pedir um galho para plantar. Como se sabe, a cueira é árvore que só pega de galho. O doutor vestido de paletó e gravata não vacilou em dar um jeito para colocar um pedaço de galho de cuieira sob a camisa e embarcar de volta a Belém com o precioso "contrabando". 

Chegando, foi diretamente do aeroporto plantar o galho da cuieira de frutos miúdos no jardim da Paratur. A planta pegou bonito e cresceu até 2007, quando deixei definitivamente o serviço público após 43 anos passando pelos três níveis de administração municipal, federal e estadual, nesta ordem. Por fim, ignoro se a cuieira do doutor Adenauer frutificou não e se ela ainda está de pé.


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Cuieira (Crescentia cujete) - árvore da ecocivilização amazônica pré-colonial de 5.000 anos. 


Sertanistas quando percorrem regiões selvagens da Amazônia e encontram pés de cuieira em sabem que, provavelmente, por ali se encontra tapera de alguma maloca indígena extinta. Como outras tantas plantas nativas, a cueira chegou às populações cabocas como herança dos primeiros habitantes da região.

As cuias pintadas de Monte Alegre tornaram-se célebres e deram o apelido de "pinta cuia" aos habitantes desse município. Todo interior do Pará tem forte tradição no uso de cuias 'pitingas' (naturais) ou 'pintadas'; especialmente para servir tacacá, mingau ou o famoso "vinho" (suco) de açaí. 

Com tamanha importância na cultura paraense, a cuia foi valorizada também no artesanato antigo de Santarém com porta joias, suporte de pintura e outras finalidades. Ultimamente o artista plástico Theo Lima valorizou a cuia como suporte para grafismo com motivos ornamentais da cerâmica marajoara. Porém, agora a iconografia marajoara em cuias está em crise. E nós precisamos apoiar a arte do artista paraense e a tradição das cuias pintadas.


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grafismo marajoara aplicado a suporte vegetal de cuia em contraste à pedra de granito polida: artefato de Theo Lima, artista visual paraense.

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