terça-feira, 30 de abril de 2013

HISTÓRIA DO MARAJÓ: SALVE 30 DE ABRIL!

Nossa Várzea - povos das águas: Criaturada grande de Dalcídio Jurandir






Na linha do tempo, hoje a terra natal do romancista Dalcídio Jurandir, Ponta de Pedras, completa 135 anos de emancipação. Na capital do Pará, no conjunto dos Mercedários, lugar de memória da Cabanagem, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), órgão da Presidência da República; e a Secretária do Patrimônio da União (SPU), do Ministério do Planejamento; reunem-se para concluir oficina de nivelamento de informações consolidadas e implantar projeto piloto para Observatório Socioambiental do Projeto Nossa Várzea no Pará.

Na ACADEMIA DO PEIXE FRITO, a primeira ideia que passa por nossas cabeças é que esse Observatório deveria prestar homenagem ao idealizador da regularização fundiária das populações ribeirinhas do Pará, Neuton Miranda. Patriota dedicado à causa da emancipação social das classes marginalizadas da sociedade brasileira, Neuton dedicou seus últimos dias de vida ao sucesso do Projeto NOSSA VÁRZEA; quando a morte o supreendeu no rio Tapajós, sem aviso prévio, cortando subitamente o entusiasmo com que ele e a força-tarefa de abnegados servidores públicos bem há pouco haviam começado árdua missão republicana da regularização fundiária de terras da União nas ilhas do Marajó.

Confrade carola da ACADEMIA DO PEIXE FRITO, Neuton Miranda, foi atraído a ela em 2009 pelas comemorações do primeiro centerário de nascimento do "índio sutil" marajoara (como Jorge Amado saudou Dalcídio Jurandir, na Academia Brasileira de Letras, como orador oficial para outorga do Premio Machado de Assis de 1972). 

Interessante verificar coincidências de datas e fatos históricos da história do povo marajoara. O ano de 1972, por exemplo. O jovem Neuton na cladestinidade da resistência ao golpe militar de 1964 lutava no movimento estudandil com a UNE. Dalcídio, levado pelo amigo e camarada Jorge Amado, obtinha da Academia Brasileira de Letras reconhecimento do conjunto da obra iniciada, em Gurupá (começos dos anos 30) e Salvaterra (1939), com a elaboração do romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira" e "Marajó". Este último, recepcionado por Vicente Salles (derradeiro membro da primeira fase da ACADEMIA DO PEIXE FRITO que aconteceu entre 1930 e 1950, aproximadamente) como "o primeiro romance sociológico brasileiro". 

Na série romanesca Extremo-Norte, "Marajó" ambientado no intercurso dos rio Marajó-Açu e Arari com o lago Arari suas vilas, sítios e fazendas é o único no qual Alfredo, alterego do escritor, não está presente. No Extremo-Sul figura aquele romance do Rio Grande do Sul, "Linha do Parque", mal recebido pela direita e pela esquerda, por motivos obviamente opostos. Os primeiros por ver no romance uma obra "comunista" encomendada e os segundos, por discrepar do chamado realismo socialista exaltando a figura heróica dos trabalhadores. De todo modo, ao sentar a poeira da aventura gaúcha do romancista marajoara a obra acaba sendo, de verdade, "o primeiro romance proletário brasileiro, digno deste nome". No qual, em conflito com o capitalismo, homens e mulheres obrigados a alugar sua força de trabalho para não morrer de fome sofrem e nutrem esperanças de liberdade como qualquer outro ser humano no planeta.

Anos de chumbo. As forças de resistência atuavam de diferentes modos, no exterior com diversos exilados políticos e no país em meio à clandestinidade em ações armadas ou não, com exemplo maior da guerrilha do Araguaia que, vista ao longo do tempo, acaba sendo continuidade da Cabanagem até os dias de hoje pela democratização da chamada democracia "representativa" da vontade popular.

Pois bem, nesta quadra, os meios católicos tradicionalmente conservadores viram-se sacudidos pelos ventos do Concílio Vaticano-II, onde a Teologia da Libertação com sua opção preferencial pelos pobres deitou raízes recuperando a antiga militância de padres e freiras pelos direitos humanos indígenas, com nomes de nomeada. Como frei Bartolomeu de Las Casas no espaço colonial espanhol e Antônio Vieira, no mundo português. Ora, no Marajó na década de 60 até a virada do século, Vieira teve um seguidor da Teologia da Libertação, que foi o bispo da Diocese de Ponta de Pedras, Dom Angelo Maria Rivatto S.J. e na prática menos provável, o insubmisso e turrão padre Giovanni Gallo S.J., pároco de Santa Cruz do Arari, inventor por necessidade e acaso do sui generis MUSEU DO MARAJÓ naquele estranho ano de 1972.

Na distância, auto exilado em seu retiro numa mansarda em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Dalcídio era ele mesmo em pessoa algo como um "Observatório" de tudo que dizia respeito a sua Criaturada grande... Auxiliado nas margens plácidas do Guajará pela fiel correspondente Maria de Belém Menezes, filha dileta do fundador da ACADEMIA DO PEIXE FRITO, o poeta Bruno de Menezes; logo ele se deu conta de que algo diferente estava acontecendo no Marajó velho de guerra: no lago Arari (berço da civilização marajoara), o padre italiano além de inventar o museu e a pastoral do pescador; fazia-se repórter do fim do mundo publicando na imprensa fotos espetaculares e textos impactantes sobre a desigual luta diária pela sobrevivência em condições de extrema pobreza da população em meio à rica biodiversidade

O escritor agnóstico mandava recados ao padre dos pescadores, "reúna artigos e publique um livro": nasceu assim o agora clássico "Marajó, a ditadura da água".  Um exemplar desta obra imprescindível, que não poderá faltar agora ao futuro Observatório socioambiental, foi mandada de Soure ao Presidente da República, em Brasília, com autógrafos dos presentes ao seminário de integração do PLANO MARAJÓ e programa Território da Cidadania - Marajó, realizado em 2008, devendo-se esperar que o livro em apreço esteja agora na biblioteca do Instituto Lula, em São Paulo. 

O projeto NOSSA VÁRZEA vem de 2005, anterior aos ditos plano (2007) e programa (2008). Todos juntos formam o mais importante instrumento de desenvolvimento territorial sustentável que jamais existiu no Marajó, em todos os tempos, há mais de 350 anos desde a pacificação dos Nheengaíbas (povos rebeldes nuaruaques do Marajó), em 1659.

De seu exílio carioca Dalcídio também viu à distância, através da correspondência de Maria de Belém, a ação do bispo Rivatto com as duas cooperativas de feição kibutzianas, que existiram em Ponta de Pedras. Era notável a improvisação de lideranças, de uma maneira prática de aprender fazendo. Por isto ainda uma referência de concretude da teologia da libertação na terra natal do "índio sutil". Aquilo bem que poderia lembrar a criativa ficção do romance "Marajó", com a inverossímil "reforma agrária" de Missunga, herdeiro do rico latifundiário Coronel Coutinho, no rio Paricatuba fronteiro à vila de Ponta de Pedras...  Um rio paradigmático, na primeira sesmaria e terras da fazenda São Francisco (1686), doada ao contemplado sargento-mor Domingos Pereira de Moraes, em 1759, vindo a ser parte do território do município de Ponta de Pedras (1878); onde o célebre Diretório dos Índios (1757-1798) fez um dentre diversos outros laboratórios da caboclização mediante casamentos forçados de índias catecúmenas e colonos portugueses tangidos pela pobreza de Portugal, notadamente imigrantes das ilhas dos Açores, da Madeira e norte de Portugal; para ocupar o "espaço vazio" (em realidade, esvaziado) do Grão-Pará.

O bispo Rivatto afinal de contas, ao contrário do atilado padre Vieira que ele tanto venerava, se revelaria mau aluno de economia, desperdiçando recursos captados no exterior. Seu mais contundente crítico não se achava entre os duros fazendeiros, mas dentro da ppria Socieade de Jesus e da Diocese, na figura do padre Gallo, dizendo este que o dinheiro para obras sociais enviado pela igrejas-irmãs na Itália, Suiça e Alemanha saiam em maior parte do bolso de trabalhadores imigrantes (vide "O homem que implodiu", autobiografia de Giovanni Gallo", Secult: Belém, 2002). 


Nas cooperativas assistidas pela Diocese de Ponta de Pedras, a sustentabilidade econômica era manga de colete, qualquer coisa comparável a uma bela canoa furada... Todavia, do ponto de vista socioambiental o sucesso ainda pode ser medido até hoje com uma simples visita às cerca de quatorze comunidades remanescentes, indo de Praia Grande próximo à foz do rio Marajó-Açu até Porto Santo, no Baixo Arari; percorrendo a antiga Costa-Fronteira do Pará com faixa de terras, indubitavelmente, do patrimônio da União

Portanto, no desenvolvimento pragmático do projeto NOSSA VÁRZEA, o Observatório do IPEA/SPU no Pará não poderá desconhecer este significativo "case" de insucesso acompanhado em procissão por outros semelhantes fracassos, num cruel rosário de esperanças que perderam a fé nos poderes da terra e do céu. Tais como o badalado Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia (POEMA), da UFPA em cooperação internacional, em Praia Grande; o projeto piloto de Agricultura Familiar Sustentável, da EMBRAPA, em Jaguarajó e o famigerado e, finalmente, amputado e fraudado Projeto de Execução Descentralizado (PED Guaianá). 

No caminho para o futuro, não devemos esquecer os fracassos do passado. Pois eles nos ensinam a não repetir a história. O anterior bispo de Ponta de Pedras fundava agrovilas, buscava mais e mais recursos no exterior, comprava terras improdutivas e assentava sem-terras espancados pela pobreza no êxodo rural, tudo por conta da igreja e fiado na fé em Deus.  O calcanhar de Aquiles do projeto social de Dom Angelo foi a má gestão dos recursos e a falta capacitação técnica dentro de uma perspectiva real de cooperativismo. Na verdade, as "cooperativas" de Ponta de Pedras não passaram de associações de agricultures tutelados por prepostos de escolha pessoal do bispo, ele mesmo sem conhecimento prático daquilo que pretendia fazer de boa fé. A personalidade extrovertida e dominadora do bispo foi causa de sucesso e derrota desta interessante experiência, comparável ao voo da galinha quando queria ir mais alto do que gavião-real. Um assunto que deve ser melhor estudado como base para projetos de inclusão social com sustentabilidade econômica e ambiental.

No dia 25 de julho de 1995, Dia do Produtor Rural; Dom Angelo celebrou missa campal na agrovila Antônio Vieira, que fora outrora aldeia dos índios "Guaianases" (segundo Alexandre Rodrigues Ferreira, na "Notícia Histórica" de 1783). E que, conforme carta de Vieira; foi nome de uma das sete nações nheengaíbas (marajoaras), cujos caciques fizeram as pazes de Mapuá de 27 de Agosto de 1659 com os portugueses e aliados tupinambás. Depois da ruina da identidade do território e apagamento da memória nativa pelo Diretório dos Índios (1757-1789) - quando índio "tirado do mato" foi transformado em "caboclo" - a extinta aldeia dos Guaianás ou Guaianazes deu lugar ao povoado Pau Grande (referência a uma alta samaumeira, que de longe se avistava desde a baía, servindo de rumo aos navegantes). 

Neste lugar simbólico, cheio de história, a induzida falta de memória da Criaturada grande deu morada a retirantes das grandes secas do Nordeste. Aqui, homens e mulheres flagelados no Ceará e Rio Grande do Norte vieram recomeçar a vida com a agricultura familiar, acolhidos e incentivados com justo interesse econômico coletivo pelo operoso "prefeito de tamancos" Fango Fontes, que desprezava pompas do cargo e amava ir para beira do roçado animar os parceiros, na hora do expediente. O magnífico Fango foi fundador sem discurso nem foguete da colônia da Mangabeira. 

Cujas origens históricas se reportam à primeira aldeia da missão dos jesuítas no Marajó, assentamento de índios catequizados levados das aldeias de Gebiré e Samaúma (Barcarena), para dar começos à efetiva ocupação e uso da sesmaria de 1686 no rio Marajó-Açu (fazenda São Francisco, ou Malato). Concedida aos padres da Companhia de Jesus pelo donatário da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes. Assim, a "aldeia das Mangabeiras" (1686) a meia légua da aldeia "nheengaíba" dos Guaianás; veio a ser freguesia de Nossa Senhora da Conceição (1737) e Lugar de Ponta de Pedras (1758). A vizinha aldeia dos Guaianás ou Guianases, seria elevada a Lugar de Vilar, decaída depois em povoado Pau Grande, para ser festejada agrovila Antonio Vieira. 

Assim, no tempo o espaço humanizado se faz história por obra coletiva da memória dos lugares. Dom Angelo na homilia da missa do Dia do Produtor Rural disse ter sido, exatamente, naquele sítio que ocorreu o esquecido encontro do Padre Vieira com os sete caciques do Marajó para celebrar a paz. Os ouvintes nunca tínhamos escutado falar em semelhante coisa. Os cabocos ali presentes, muitos deles provavelmente descendentes dos Guaianases ou Guaianás, como hoje se deve grafar o nome indígena da velha aldeia pontapedrense, "elevada" a Lugar de Vilar (1758), no campo "Mangueirão" à beira da baía do Marajó, ouviram aquela "estória" estúrdia por um ouvido e a deixaram sair pelo outro lado... 

Dom Angelo aparentemente fez leitura apressada do maçudo tomo da "História da Companhia de Jesus no Brasil", do historiador jesuíta Serafim Leite; na parte referente à pacificação dos Nheengaíbas. O tal encontro de paz reportado em carta, fantasioso em grande parte para impressionar a viúva do rei na regência do reino; não aconteceu às ilhargar da extinta aldeia e igarapé do Vilar, em Ponta de Pedras. Sim no rio Mapuá, município de Breves, que hoje depois de séculos de esquecimento e saque é a Reserva Extrativista Florestal Mapuá. Mas, valeu a dica de Dom Angelo. Como se acaba de ver.


http://patrimoniodetodos.gov.br/pastaimagem.2009-07-02.4357058635/conjunto-dos-mercedarios/image_preview
 Mercedários - patrimônio histórico da União


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