quarta-feira, 17 de abril de 2013

A INVENÇÃO DA AMAZÔNIA E A GRANDE "ILHA" DAS GUIANAS




Em um mundo em crise social, econômica e ambiental a Amazônia parece ser a última fronteira da Terra ou paraíso perdido. A região está numa encruzilhada na qual o caminho se bifurca entre o desenvolvimento sem fim, prometendo mais do mesmo; e uma trilha ainda desconhecida com nome ambíguo de desenvolvimento sustentável. Nas comemoração dos 500 anos do descobrimento da América, o Papa em Santo Domingo – antigo QG da Conquista –, pediu o perdão de Índios e Negros aos crimes do Cristianismo ligados aos descobrimentos marítimos.

Mas o gesto retórico de Sua Santidade ficou suspenso no ar e logo caiu no esquecimento midiático. O Caribe continuou com sua história de genocídios, revoluções e tragédias naturais ou políticas em contraste com o panorama explorado pelo turismo e paraísos fiscais. Tampouco deixou de suscitar furações e ciclones que terminam por se abater sobre o País do Vento – Amerik, palavra de origem maya com referência às montanhas do entorno do lago Nicarágua. Com a colonização apagou-se o nome nativo do continente para homenagear o navegador italiano Amerigo Vespucci.

Agora, como o fim do “fim da História”, é hora de lembrar que o “animal político” do velho Aristóteles é parte da natureza e não seu dono. Podemos e devemos estudar as leis naturais para nos beneficiar delas ou em proveito da humanidade: mas jamais poderemos mudar as leis da natureza. Para verdadeiro progresso da ciência é necessário rever o processo histórico compreendendo, com as luzes do presente, as possibilidades do futuro evitando que a história se repita.

Reiventando a Amazônia

Há 400 anos, no Maranhão e Grão-Pará, a improvável aliança entre arcos indígenas e armas lusitanas realizou o impossivel, misturando messianismo tupi com sebastianismo. Isto somente começou a ficar claro ultimamente com novos estudo da história do indianismo brasileiro, na década de 1980; fato que explica o “milagre” da invenção da Amazônia brasileira.

44 anos de guerra lusitana, começada sob pavilhão da União Ibérica (1580-1640) e terminada já na restauração da monarquia de Portugal, contra concorrentes Hereges. A cruzada entre Reforma versus Contra-Reforma abaixo do equador, desde a tomada da França Equinocial (Maranhão) do colonial huguenote Daniel de La Touche, em 1615, até destruição de feitorias holandesas e britânicas no Amapá, Marajó, Xingu e Baixo-Amazonas, de 1623 a 1647, para finalmente concluir a pacificação dos bravos Nheengaíbas (marajoaras) em 1659. Sem estas prelinares, incluindo a entrada de Pedro Teixeira, levado são e salvo pelos mamelucos Bento de Oliveira e Bento da Costa com 1200 índios de arco e remo, do Pará ao Equador, de 1637-1639; hoje não estávamos nós a contar história. Além disto, foi preciso o longo passado nativo de 5000 anos. Cujo apogeu foi a Cultura Marajoara (400 – 1300) tendo o Circum-Caribe como contexto de uma ecocivilização que se acha viva na cultura popular da Amazônia e Antilhas.


A velha 'canuá' tecendo rede de aldeias tibeirinhas


A canoagem e a venerável vela de jupati foram meio ancestrais de comunicação e trocas de produtos entre milhares de aldeias do Rio Negro ao Pará; do Orinoco ao mar das Caraíbas. Doravante, canoagem e vela poderão ser um poderoso instrumento esportivo e indústria ligados à educação ambiental, à cultura e desenvolvimento territorial sustentável das populações tradicionais das regiões e províncias em harmonia com as respectivas sociedades nacionais. O programa da UNESCO “O Homem e a Biosfera” (MaB na sigla em inglês) poderia, em abordagem assim, tirar proveito para obter o impacto necessário ainda não alcançado junto a países-membros e perante a opinião pública mundial, notadamente para conservação do litoral marítimo, com seus berçarios de vida aquática e de ninhais de aves migratórias em zonas úmidas.

Era uma vez a grande área ecocultural guianense, de Trinidad e Tobago ao arquipélago do Marajó... Ciro Flamarion Cardoso, autor de “Economia e sociedade em áreas coloniais periféricas, Guiana Francesa e Pará, 1750-1817”, Rio de Janeiro: Graal, 1984; ensina que fronteiras definidas por rios e outros cursos de água, longe de separar aproximam e integram comunidades confinantes. Não significa que populações vizinhas vivam em boa paz, se olharmos a foz do Amazonas iremos nos deparar com um estado de guerra permanente, antes e depois da presença dos europeus na região. Ainda hoje existem conflitos entre comunidades de vizinhança e certamente irão sempre existir. Todavia, a integração e cooperação regional possibilida a solução de conflitos de maneira mais justa e satifatória para todas partes envolvidas.
Esta experiência de convivênia entre etnias diversas, pela guerra e a paz, correu ao longo do tempo em toda Amazônia, conforme Gastão Cruls observou. Com base em antigas migrações indígenas pré-colombianas e posteriormente negros africanos formando quilombos, Flamarion Cardoso pôde detectar relações históricas e geográficas numa vasta área sul-americana indo do Marajó (Pará) e Baixo-Amazonas até a ilha de Trinidad, no Caribe. Configurou-se assim a grande “ilha” das Guianas, condomínio amazônico compartilhado pelo Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e região francesa da Guiana.
O geógrafo Elisee Reclus teria sido o primeiro ou um dos primeiros a constatar o caráter insular das Guianas, pelo efeito tardivamente estudado, da interligação fluvial do Rio Negro ao Orinoco através do Canal do Cassiquiare (“rio do cacique”, em língua de tronco Aruak). O brasileiro Raja Gabaglia também demonstrou a peculiar conformação geográfica das Guianas ao escrever sobre a “grande oval insular” circundada pelas águas do Amazonas, Rio Negro, Canal de Cassiquiari, Orinoco e oceano Atlântico.


Naturalmente, há milhares de anos, o espaço guianense junto ao Circum-Caribe foi uma babel de línguas e culturas ameríndias que deu início à civilização das terras baixas do Novo Mundo até os nosso dias. Na ilha do Marajó ocorreu a primeira cultura complexa, tipo cacicado na Amazônia, cerca do ano 400 da era cristã. A destruição das Índias ocidentais pela conquista e colonização europeia deu fim a esta diversidade humana e cultural reduzindo-a drasticamente até os dias de hoje.
Até aí o caminho das águas como elemento de integração e cooperação. A poluição de rios, lagos, mares e oceanos era impensável. Mormente a excassez de água potável. Porém a mudança de paradigma produtivo, com a hegemonia rodoviária e aeroportuária desviou o olhar do mundo do fato mais evidente do mundo: que somos, tal como o planeta Terra, feitos de sessenta por cento de água.


Caminhos da integração: passado e futuro


A partilha das Américas pelas potências europeias, após o Descobrimento, introduziu fronteiras coloniais à revelia das populações locais. Todavia não necessariamente prejudiciais a elas, visto que em muitos casos os limites adotados pelas cortes imperiais era decorrência de alianças e adesões de povos nativos na sucessão dos acontecimentos. Os grupos indígenas, nas circunstâncias, jogavam o jogo aliando-se oras a um grupo de colonos ou outro conforme interesses e rivalidades locais explorados pelos colonizadores. Foi o caso especial da nação Tupinambá, por exemplo, inicialmente amiga dos franceses no Maranhão e, finalmente, aliada aos portugueses na conquista do Grão-Pará para eles a Tapuya tetama (terra dos Tapuias).


Tapuia (do tupi antigo tamu, avô) era nome genérico para as mais antigas etnias não-tupis; passando depois a “inimigo”, como em Tamoio. É preciso compreender as motivações messiânicas dos Tupinambás – em busca da mítica “Yvy marãey” (terra sem mal) –, com Florestan Fernandes e outros, para se dar conta das enormes migrações desta nação extraordinária, que, inclusive, em contato com os franceses na baía da Guanabara tiveram emissários em viagem à França, recebidos na corte de Henrique IV, quando teria nascimento a legenda do bon sauvage difundida por Montaigne e Rousseau na incitação da revolução de 1789.


Na faixa amazônica tordesilhana, a posse portuguesa (1494-1823) e depois brasileira pela Adesão do Pará à Independência do Brasil (1823) foi estabelecida principalmente graças a arcos e remos tupinambás: Belém do Grão-Pará nasceu como boca de sertão, contando dias para atravessar o largo rio levando a guerra de expulsão aos holandeses e ingleses que andavam pela outra margem. Só assim poderia botar as mãos aos imensos tesouros que imaginavam encontrar. Todavia, havia uma “pedra” no caminho... Esta era a infinidade de índios tapuias, mais conhecidos pelo nome genério de Nheengaíbas (“falantes da língua ruim”, diversos idiomas nuaruaques). Inimigos hereditários dos aliados Tupinambás, que não permitiam a estes ocupar as ilhas e dominar a passagem para dentro do Amazonas, a fim de prosseguir a busca da Terra sem mal.


Longe de agir com prudência para conseguir a confiança dos índios da magem direita e afastar do inimigo Herege (holandês e inglês da reforma) os índios da margem esquerda do Pará, os portugueses desde o Maranhão começaram a vexar e escravizar os orgulhosos Tupinambás: o resultado foi a revolta com morte de casais açorianos, enganados pelo mercador Simão Estácio da Silveira que os trouxera com promessa de vir encontrar o paraíso na terra. Vendo-se mais necessitados que antes e sem conseguir vencer o clima e a aspereza da floresta, estes pobres de Portugal começaram a roubar roças e escravizar índios.
No dia 7 de janeiro de 1619, o cacique Guaiamiaba (Cabelo de Velha) atacou o forte do Presépio sendo morto em combate. No Maranhão, o cacique e pajé Pacamão, da aldeia do Cumã, levou terror aos colonos portugueses vingando-se de ofensas cometidas pelos filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque. Então, uma feroz represália comandanda por Pedro Teixeira e Bento Maciel Parente produziu talvez o maior banho de sangue que já houve entre o Gurupi e o Guamá.


Fazia mais de cem anos que Pinzón abordara o Ceará e arrastara 36 negros da terra (escravos índígenas) da ilha Marinambalo [Marajó]. O relato desta viagem ficou guardada a sete chaves. Mesmo quando Orellana passou pelas ilhas, em fuga para o Oceano debaixo de uma nuvem de flechas, quarenta e dois anos depois; os espanhóis não estavam seguros da tal “linha” de Tordesilhas. Mas a geografia dos índios da margem esquerda do Amazonas era outra.
E eles tinham 5000 anos de ocupação destas terras... O Amazonas não existia com tal nome; sequer se chamava Marañón, como os espanhois diziam. Ou mesmo Paraná-Uaçu, conforme os tupinambás, igualmente invasores. Para a massagada aruaca, o rio era simplesmente o Rio (Uene ou wune; donde os derivados Guainia e Guiene, Guyane, Guayana, Guiana).


Do Arapari tapuia à UNASUL passando pela Adesão do Pará


As Guianas e Caribe foram posse imperial de Espanha, nos termos do “testamento de Adão” (tratado de Tordesilhas (1494-1750), homolago pelo papa Bórgia, Alexandre VI, contestado pelo rei da França, Francisco I. Os caciques indígenas não sabiam ler direito canônico nem tratados de limites, todavia sabiam e sabem ainda ler as estrelas onde moram os heróis ancestrais com suas predições do futuro. Quando das migrações das ilhas do mar para a terra-firme, tal qual a do legendário Anakayuri que fixou seu cacicado no Oiapoque, em recuadas era; a guia de travessia era a constelação do Cruzeiro do Sul (“arapari”, cercadura do sol; os limites do país continental a ser conquistado). Por acaso, num marco divisório da fronteira se acha escrito: Aqui Começa o Brasil...
Talvez os pajés Aruak e Galibi soubessem disto antes mesmo que espanhóis e portugueses plantassem o padrão ou pedrão de fronteira da alegada doação de Filipe II ao donatário Bento Maciel Parente às margens do rio de Pinzón. Na distância de Lisboa e Madri, ou até de Belém do Pará, cidade morena que cresceu de costas para o rio. Quem guardaria o pedrão de limites imperiais com as Quinas e as armas de Castela, assinaladas lado a lado no granito até que o tempo se consumasse no porvir da Independência Americana? Até que a revolução haitiana deitasse fora a escravidão... Até que a República viésse à luz do dia... E ainda lá estão os Palikur, Karipunas, Galibis com seus compadres crioulos e cabocos a contar estórias prenhes de realismo-mágico, onde relatos verdadeiros e lendários tecem a História.
Para que a tese do diplomata luso-brasileiro Alexandre de Gusmão vingasse nas cabulosas negociações de 1750, foi necessário conhecimento geográfico apurado pela parte portuguesa, capaz de iludir os negociadores espanhóis com o famoso “Mapa das Cortes'. Diz a historiografia luso-brasileira que a base cartográfica lançando por terra séculos de arrogância hispânica sobre o pequeno reino portucalense, deve-se à ocupação do Brasil por bandeirantes façanhudos, a devassa dos sertões por sertanistas audazes e a catequesa levada a efeito por missionários temerários até o limite da loucura rios acima e terra adentro. É verdade. Mas tudo isto é só metade da história.


Conhecimento geográfico indígena no mapa do Brasil


O famigerado bandeirante Raposo Tavares com seus comparsas jamais transporia o Tietê para chegar até as barrancas do Madeira e Solimões, numa marcha verdadeiramente descomunal; se não tivesse guias e mateiros índios, malgrado todas vicissitudes e violências, que de fato conhecessem o terreno e convergissem em interesse de chegar aonde chegaram. Fora desta constatação chega ser ridículo acreditar que meia dúzia de matabugres armados de arcabuz arcaico e reduzida munição bastassem para obrigar numerosos índios a mostrar os segredos dos confins. O mesmo vale para a famosa expedição do espanhol Gonzalo Pizarro ao País da Canela (Amazônia equatoriana), quando os aventureiros acabaram morrendo de fome e alguns se salvaram comendo a sola dos próprios sapatos: daí a deserção de Orellana e a descoberta, por acaso, do “rio das amazonas”...


Mas, sobretudo, muito mais que a façanha do capital Pedro Teixeira em viagem de Belém do Pará a Quito (Equador), durante dois anos entre ida e retorno, de 1637 a 1639; o uti possidetis real mediante a catequese dos missionários e a adesão dos povos indígenas. Começa nos anos de 1980, com a luta pela redemocratização, o processo histórico de reconhecimento nacional da contribuição dos povos índigenas na formação territorial do Brasil brasileiro.


Portugueses em contato com índios e mamelucos, através do Peabiru, estrada incaica que vinha dos Andes até o litoral do Brasil em Piratininga (São Paulo) tinham notícia de uma grande migração da poderosa nação dos Tupinambás, em 1538, indo de Pernambuco até a atual Amazônia peruana (cf. Viagem do mameluco Diogo Nunes, em “O Novo Éden”, Nelson Papavero et. al. ed. Museu Goeldi: Belém, 2000). Prova de que muitos povos indígenas percorreram o grande rio e conheciam seus meandros, desde o nomadismo paleo-índio, notamente o Rio Negro e Canal do Cassiquiari (“rio do cacique”, em língua de tronco Aruak) interligando a bacia do Amazonas com a do Orenoco.


O Rio Negro é berço da dispersão indígena dita Circum-Caribe na antropologia americana. Daí os primeiros Aruak ocuparam o Canal do Cassiquiari e rio Orinoco passando, lentamente, às ilhas do mar Caribe através das Bocas do Drago e da ilha de Trinidad donde toparam populações mais antigas, provindas do México e costa da Flórida com as quais teriam se incorporado. Em seguida, povos menos desenvolvidos porém mais belicosos, vindos da Floresta Amazônica com uma cultura guerreira fundada na antropofagia semelhante aos Tupis, subiram o Rio Negro dando inicio a longo conflito étnico pelo território. Estes vieram a ser conhecidos como Karib estabelecendo dicotomia com os Aruak passando os dois grandes grupos étnicos a lutar entre si até as últimas ilhas do mar.


Da guerra antropofágica caribenha, nasceu a palavra amaldiçoada “canibal' e o canibalismo aos olhos dos brancos. Falso como a crença de Colombo em ter chegado a Cipango (Japão) e a Índia... Lá ficamos nós sendo as Índias 'acidentais' e os “selvagens” canibalescos rotulados de índios. A ver que uma mentira civilizada vale mais que uma verdade bárbara. Mas, a verdade diz que o ritual antrofágico é eucaristia bárbara de culto aos heróis (“Manifesto Antropofágico”, Oswald de Andrade, 1928). E tal antropofagia foi a redenção do Outro pela mestiçagem de corpos e espíritos... Sartre diria que o Diabo são os outros: entretanto, pajés-açus ou caraíbas do Jurupari diabolizado pelos padres e agora pelos pastores evangélicos, sabiam que as virtudes do heroísmo não apenas poderiam ser imitadas como na religião de Cristo morto na Cruz para perdão dos pecados do mundo: mas também por arte mágica, como uma viva fé, mediante ingestão da carne e do sangue do inimigo valente e invejado. Menos dramatico, todavia mais sensível a religião de ingestão de cinzas mortuárias dos parentes falecidos misturadas ao mingau de banana, praticada pelos Ianomami.


Foi assim através de tal complexo civilizatório do mar das Caraíbas que os inimigos hereditários Aruak e Kalina passaram a ser uma única família Nuaruaque dentro da mesma aldeia, com os filhos da invejável mulher Aruak pela ciência secreta que ela tinha em lidar com variada gama de venenos e remédios passando de mães para filhas, e os filhos da trabalhadeira mulher Kalina vivendo como irmãos, compartilhando as duas línguas, usos e costumes de ambas culturas.
Estavam assim, em um complexo processo de guerra e paz em tudo semelhante ao confronto inter-étnico dos Andes que levou à guerra entre Aimaras, Incas e Quitus. Ou, nas terras baixas do Chaco e Paraguai Tupis, Guaranis e Tapuias; quando sucedeu – nas ilhas Guaanani (Bahamas), em 1492 – a fatídica chegada de Cristóvão Colombo. Já os Aruak e os Kalina caribenhos em guerra continuada estavam migrando de volta às Guianas quando os conquistadores com suas matanças inauditas pressionaram tais migrações. Numa de suas viagens à terra-firme, sempre com a crença de haver descoberto o caminho ocidental paras as Índias; Colombo chegou ao delta do Orenoco donde pretendeu ter avistado os rios mitológicos que banhavam o Jardim do Éden... Os castelhanos instalados na ilha Hispaniola (Haiti e República Dominicana) filtravam informações colhidas no novo continente. Assim, Orellana e Carvajal levaram a notícia fantástica do reino das Amazonas e do ouro de Manoa, que passou a povoar os espíritos mais aventureiros dos conquistadores.


Alfred Wallace, parceiro de Darwin na teoria da evolução das espécies; em sua viagem à desconhecida Amazônia (na segunda metade do século 19), foi um dos primeiros a perceber que os índios, apavorados pela fama de perversidade (ástya em Kalina) dos europeus, desenvolveram extraordinária capacidade de dissimulação. Ao ser questionados respondiam de acordo com que os estrangeiros pareciam acreditar, mas sempre no fito de os afastar das aldeias induzindo-os a ir em busca de ouro às mais distantes e fictícias paragens... Assim, diz Wallace; surgiu a lenda das amazonas.


Na verdade, o Ínca vivia cercado das chamadas “Virgens do Sol” comparadas a monjas ou sacerdotisas pelos espanhóis. Na Selva peruana os índios as chamavam simplesmente “mulheres sem marido” (cunhã-teko-yma ou icamiabas, em tupi). Eram servas do cerimonial temidas pelo povo pelos poderes mágicos que acreditavam elas possuiam para proteção do imperador, filho de Inti (o sol). Os Quíchuas adoradores do Sol eram súditos dos Incas (uma elite real) e oprimiam diferentes povos que proviam a economia de subsistência do Império das Quatro Partes do Mundo. O sistema de mitimac (colonização) obrigava remoção de povos hostis ou inimigos para regiões cercadas por populações fiéis ao Inca. Portanto, o perigo de magias contra o imperador era constante competindo então às monjas a inspecionar e provar tudo quanto o Ínca comia ou bebia. Somente elas em seu ofício ritual, além da família real, podiam olhar ou dirigir a palavra ao “filho do Sol”. Comiam e bebiam sobras de comida ou bebida que ele deixasse para não cair em mãos de feiticeiros inimigos. Assim como recolhiam e cremavam cabelo, unha, roupas usadas, tudo por fim que pudesse causar mal ao quase-deus dos Andes. Contra este regime teocrático se chocou a tirania apostólica cujos crimes o padre Las Casas denunciou na primeira hora. O resultado foi uma superposição de mitos e lendas donde nasceu a invenção da Amazônia.


Mais tarde, o aventureiro inglês Walter Raleigh, favorito da rainha; na sua expedição de 1596 pelo Orinoco em busca do El Dorado, colheu informações entre os nativos sobre a interligação de um grande lago salgado. Seria o Parime, em cujas margens se situava a cidade lendária de Manoa. Relatos desta viagem acabou por difundir publicações geográficas da época, que também sugeriam a ligação da bacia do Prata com o Amazonas. O tal lago constava de mapas utilizados pela expedição de Alexander von Humboldt, no começo do século 19. Após Humboldt, autor do “celeiro do mundo”, o lago Manoa continuou nas cartas das Américas.
A primeira tentativa de descrição completa do canal natural entre o Orenoco e o Amazonas, não lago Parime, deve a um relato de 1639, pelo jesuíta Cristóbal de Acuña; sem muita atenção, embora não fossem poucas àquela altura as notícias sobre o Canal de Cassiquiari.
A primeira descrição testemunhal sobre a sua existência do mesmo aconteceu somente em 1744, às vésperas do tratado de limites de Madrí (1750) entre os reinos de Espanha e Portugal; quando o jesuíta Manuel Román ao subir o Orinoco topou caçadores de escravos portugueses vindos do Rio Negro. O padre Román acompanhou-os ao longo do Cassiquiare até ao rio Negro, regressando depois pela mesma via ao Orinoco. A notícia chegou alguns meses mais tarde ao conhecimento de La Condamine que apresentou a novidade à Academia Francesa. Contudo, ainda assim, pouco crédito foi dado ao descobrimento, manifestando-se a maioria dos académicos pela impossibilidade da existência de tão estranho canal. Ainda mais, como veremos, adiante o dito acidente geográfico
A existência do canal Cassiquiare apenas foi considerada como verdadeira quando o mesmo foi visitado, em 1756, Comissão de Demarcação espanhola conforme o tratado de Madri de 13 de janeiro de 1750. Para os tempos da Cooperação Amazônica e da União das nações sul-americanas, que viveram de costas umas para as outras durante cinco século; as artérias e veias do continente merecem uma consideração especial além do imediatismo econômico sob o peso insustentável do mercado global.





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