segunda-feira, 27 de junho de 2011

INTEGRAÇÃO SOLIDÁRIA AMAZONAS-PARÁ

Há trinta anos, o caboco que vós fala em conversa de compadres (Cleo Bernardo, Jaime Beviláqua, Antístines Pinto, Jorge Tufic, Max Carpentier, Arthur Engrácio, Mário Rocha e outros intelectuais de Belém e Manuas, pelas páginas de jornais regionais da época) apelou para que amazonenses e paraenses abrindo caminho a todos mais estados amazônicos brasileiros e paises amazônicos, deixem de banda velhas rixas, preconceitos e intrigas. 

O debate de ideias, timidamente, se fez em torno de boa provocação lançada por Jaime Beviláqua em resposta a meu quixotismo assumido pela união combativa de "ajuricabas e cabanos" contra a alienação regional, com nome para movimento amazônico e/ou projeto AJURICABANO (junção do nome do herói antiescravagista do Rio Negro, Ajuricaba, cacique dos Manaus; e dos combatentes cabanos contra o neocolonialisto luso-brasileiro com corte imperial do Rio de Janeiro). A palavra-chave é "ajuri", que na fala amazonenses oriunda do Aruak significa o mesmo que "mutirão" na fala paraense através do Nheengatu, 'cooperação' no vernáculo.

Até as pedras e as sujidades da Ladeira do Castelo, em Belém-PA, e o velho marco encardido de fronteira Portugal-Espanha, de 1750, fincado na praça de Barcelos-AM; sabem que unidos o gigante Amazonas e o grande Pará fariam do Brasil orgulho planetário em ser o maior país amazônico do mundo. Porém separados e brigando entre si os dois estados abrem a região Norte às piores desgraças, deixando a nação brasileira envergonhada perante a opinião pública internacional.

Ora, o problema amazônico "é a economia, estúpido!", gritaria um valente homem de negócios com investimento na bolsa de futuros e seus representantes políticos e aliados na mídia em face de sonhadores ambientalistas e militantes sociais dos direitos humanos. Esse notável homem prático, sabe mas não lhe interessa que outros saibam o fato de que sim - nós também acreditamos na Economia como base desta questão - , mas o problema da conservação compatível com o desenvolvimento é onde a porca torce o rabo. Melhor dizendo, falta política econômica mais calibrada. E no arsenal de ferramentas um dos principais instrumentos constitui o fomento econômico do turismo receptivo e do mercado da cultura criativa como salvação da lavoura, em qualquer parte do mundo, mas principalmente em uma região sensível tal qual nossa verdejante Amazônia... 

Agora que já sabemos como salvar a lavoura do trópico úmido com valor de mercado, também será preciso, para tirar o discurso do desenvolvimento sustentável das calendas gregas; que os responsáveis pela Cultura e o Turismo nacional saíbam que uma cooperação estratégica entre a FAO, OTCA e EMBRAPA, por exemplo, poderia oferecer a Amazônia oportunidade de ouro a fim de demonstrar de fato novo paradigma de desenvolvimento regional economicamente competitivo, ambientalmente sustentável e socialmente justo.  

E não nos digam, pelo amor de Zeus!, que a exportação bruta de minérios com baixo valor agregado, produção hidrelétrica, 'plantation' de soja e logo mais de arroz em campos naturais, extração devastadora de madeira de escala industrial é pensando na melhoria da qualidade de vida de 25 milhões de habitantes das regiões amazônicas. Arranjem outra lorota boa!


Como assim? A lavoura pode salvar a Amazônia sustentável... Sim, desde que a FAO pelo voto majoritário dos países-membros (notadamente América Latina e o G-77 dos países não alinhados, com destaque asiático e africano) acaba de dar um recado ao primeiro mundo com a eleição do pai do programa brasileiro FOME ZERO, doutor José Graziano da Silva; para comando geral da luta internacional pela segurança alimentar e erradicação da pobreza, a qual sem arranjo produtivo de base toda indústria e comércio de escala é insustentável e perigoso à convivência dos povos com crises recorrentes e bolhas de prosperidade feito soluços sem fim.


Consequentemente, se a Amazônia na verdade é tão importante assim como dizem para equilíbrio ecológico planetário, mesmo já se sabendo da patranha do tal "pulmão do mundo", com que o santuarismo esperto das velhas potências industriais quer manter as populações amazônicas em jejum e castidade num novo jardim do Éden com crescimento zero em favor das novas gerações civilizadas; será justo pagar pela prestação de serviços ambientais e financiar pesquisas de inovações em ciência e tecnologia próprias para regiões do Trópico Úmido planetário.
 
Que melhor recurso tem a Amazônia além de seu capital humano para o desenvolvimento sustentável? Além do óbvio patrimônio genético e savoir faire de "índios", "quilombolas" e "caboclos" (uma diversidade étnico-cultural de milhares de anos, que resiste à estúpida colonização e redução de milhares de linguas e culturas únicas na Terra) há ainda que considerar saberes da população amazônida oriunda de migrações dos Açores, Galiza, norte de Portugal, Líbano, Marrocos, Japão, etc., sobretudo descendentes de meio milhão de "soldados da borracha" (nordestinos) descendentes de antigos conquistadores tupinambás e mamelucos aliados aos brancos invasores.
 
Para obter a mais valia do capital humano amazônico, carece dar voz a esta brava gente a fim de fazer contraponto ao recalcitrante iluminismo e bandeirantismo doutras eras. Não vale a pena declarar guerra à tecnoburocracia que avassala os Brasis... É preferível baratinar o discurso da resistência cultural para refundar a República Federativa mediante uma dialética fundada nos direitos humanos universais e na soberania nacional, capaz de conquistar corações e mentes para plantar a rosa rubro-verde da amazônidade no seio da pátria amada Brasil.

Então, cairão as escamas dos nossos olhos: veremos como o Turismo é indústria e comércio; que ele não vive do vento nem se alimenta só de marketing e propaganda; sem agricultura moderna e tradição gastronômica não há rede de resorts, bandeiras hoteleiras e vôos charters que se sustentem. O turismo na agricultura familiar não pode ser uma presepada para angariar votos a caciques políticos, mas ser prioridade para conferir responsabilidade social a eventos como, por exemplo, o Festival de Parintins onde a gastronomia regional não deve ficar ausente da massa de turistas do Bumbódromo ansiosos para assistir a ópera ribeirinha amazônica...

No Pará, o pólo Marajó tem mais do que Boi-Bumbá e, portanto, a criatividade deve ser chamada para dar concretude ao "Inventário Nacional de Referências Culturais - MARAJÓ" que o IPHAN já entregou ao público. O estado do Pará se ele quiser liderar processo de desenvolvimento regional sustentável terá, necessáriamente, que apostar no Turismo economicamente competitivo, ambientalmente sustentável e socialmente justo... Pará isto só a PARATUR, relegada ao segundo ou terceiro escalão administrativo, separada do HANGAR como usina de eventos; não dá nem pra começo de conversa. Teria que ser criada a todo vapor a Secretaria de Estado de Turismo e Desenvolvimento Sustentável, que todos governos passados evitaram não se sabe bem por que cargas d'água e sempre tecendo as maiores loas à "indústria sem chaminés". Claro que para tal a impessoalidade de programas e projetos deve se impôr às incompatibilidades de personalidade entre dirigentes de áreas afins, tais como a economia, a cultura e o meio ambiente.
Estas questões são de interesse público, mas a conhecida carência de empregos, insufiente aperfeiçoamento profissional e o caciquismo partidário conspiram para perpetuar a cultura que ensina que na prática a teoria é outra...

O diabo é que tudo isto a gente sabe num discurso mais velho do que a Sé de Braga, porém a tal vontade política dos governos de direita ou esquerda é manga de colete, com as manhas de sempre para favorecer certos financiadores de campanha que ridicularizam coisas tais como Bolsa Família, PRONAF, Fome Zero e torcem descaradamente pelo setor minerário bruto, guseiras, soja, madereiras como única via de "desenvolvimento"... Pelo menos, não há ilusão quando a maioria de eleitores revoltada com as promessas de mudança refuga candidatos ditos de esquerda para se vingar elegendo a direita. Então, fazer o quê?

Aí fica difícil dar crédito ao Turismo que a Amazônia precisa e o Pará se vê ameaçado a ser dividido pelo mesmo tipo de eleitores cansados de esperar por Godot e ficar sempre fora da História. Sem patrimônio  histórico, natural, cultural o que vale nosso Pará velho de guerra? Morrendo de inveja, eu vi na TV os 3 dias de Festival de Parintins . Acho que o Ministério da Cultura deveria estudar com carinho a cultura de fronteiras combinada com a integração solidária da América do Sul e Caribe: para o que os grandes estados do Amazonas e Pará podem dar projeto demonstrativo.
 

Troca de informações entre Parintins e Marajó, por exemplo, seria auspicioso no sentido de criar produto marajoara com base na experiência dos bois Garantido e Caprichoso: uma ÓPERA POPULAR MARAJOARA com base no folclore e na cultura tradicional.

Parintins já chegou num estágio superior, em que o bairrismo está caindo a olhos vistos: o levantador do Garantido fez questão de mostrar e proclamar o folclore do Xingu-PA e de Juruti-PA, telespectadores no Brasil inteiro e no exterior ficaram sabendo que figurantes de proa do boi Caprichoso são paraenses, inclusive filhos de Igarapé-Mirim. O modelo Parintins, permitiria um mix turístico-cultural em Marajó e Belém, nos fins de ano como o antigo Projeto Preamar bolado pelo poeta João de Jesus Paes Loureiro, em que toda produção cultural paraense vinha a Belém, e agora amazônica fará maré cheia no estuário, incluisive Macapá atraindo turistas através das Guiana e Caribe.
Como diria o poeta Thiago de Mello, "faz escuro mas eu canto"...

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