quinta-feira, 4 de novembro de 2010

COMUNA


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Belém do Pará ou da Amazônia, com 1,3 milhão de habitantes; vem de ser ultrapassada em população por Manaus com 1,7 milhão de habitantes. A capital amazonense cresceu mais de 20 % e passou Recife e Curitiba. Bom para os manauaras?  Há pouco tempo, paraenses cantavam de galo como "a maior cidade da Amazônia"... A estória da Copa do Mundo de 2014 é exemplar: colocaram a questão em termos de Belém ou Manaus, e uma meia-dúzia de macacos velhos chiando, "é Belém e Manaus"... Não deu outra, Manaus, dizem, com ajuda da poderosa São Paulo acionista da SUFRAMA!

A "leseira amazônica" (cf. Marcio Sousa) engendrou rivalidade idiota entre as duas maiores cidades da Amazônia. Mas, não é de hoje que alguns quixotes (eu entre eles) pregam no deserto a necessidade de um ajuri (mutirão) entre cabanos e descendentes de Ajuricaba - o AJURICABANO - no sentido de se desenvolver o que nos aproxima e evitar tudo mais que nos separa.

CENSO DE 2010:

São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Fortaleza são as cidades mais populosas do País. Entre as capitais, 12 têm população superior a 1 milhão de habitantes. A mais populosa é São Paulo com 10,6 milhões de moradores. A capital com o menor número de habitantes é Palmas, no Tocantins, com 223 mil pessoas.

Centro-Oeste
Brasília (DF) 2,4 milhões
Goiânia (GO) 1,2 milhão
Campo Grande (MS) 766 mil
Cuiabá (MT) 530 mil

Norte
Rio Branco (AC) 319 mil
Manaus (AM) 1,7 milhão
Macapá (AP) 387 mil
Belém (PA) 1,3 milhão
Porto Velho (RO) 410 mil
Boa Vista (RR) 277 mil
Palmas (TO) 223 mil

Nordeste
Maceió (AL) 917 mil
Salvador (BA) 2,4 milhões
Fortaleza (CE) 2,3 milhões
São Luís (MA) 966 mil
João Pessoa (PB) 716 mil
Recife (PE) 1,4 milhão
Teresina (PI) 797 mil
Natal (RN) 785 mil
Aracaju (SE) 552 mil

Sudeste
Vitória (ES) 297 mil
Belo Horizonte (MG) 2,2 milhões
Rio de Janeiro (RJ) 5,9 milhões
São Paulo (SP) 10,6 milhões

Sul
Curitiba (PR) 1,6 milhão
Porto Alegre (RS) 1,3 mi
Florianópolis (SC) 404 mil

Como algumas siglas tem fascínio sobre mentes cansadas de tanto discurso, vou tentar abreviar o que tenho a dizer sobre a necessidade da sociedade civil se organizar para impulsionar a democracia participativa e a melhoria de qualidade de vida das cidades, independente de governos do município, estado e do país; não necessariamente contra ou a favor dos mesmos.

Proponho algo como uma sigla COMUNA para "Comunidades Unidas Amazônicas", apelando à memória da história da Comuna de Paris (1871) ocorrida quando nem bem nossa Amazônia velha de guerra havia terminado de sarar feridas e enterrar os mortos da Cabanagem (1835-1840) e já a guerra do Paraguai havia recrutado "voluntários da Pátria" e deixado muitos paraenses perecidos em combate. 

A Comuna de Paris é lembrada como primeiro governo proletário do mundo. Entretanto, este título poderia ser reivindicado pelos combatentes paraenses dentre escravos libertos, negros, índios, tapuias, cabocos e brancaranas, ditos cabanos; que tomaram o poder em armas e se mantiveram no governo por mais tempo que seus camaradas comuneiros de Paris.

Ao contrário do que podem pensar, a memória da injustiça da guerra serve mais depressa para valorizar e preservar a paz - como nos ensinam o memorial do Holocausto em Auschwitz e do Apartheid em Pretória. Portanto, em tempos de democracia lembrar a Comuna deverá ser um modo de dizer aonde o povo queria chegar a fim de alcançar a justiça e a paz. Então, diziam os antigos: "se queres a paz, prepara-te para a guerra"...

O lengendário Ajuricaba, como Zumbi dos Palmares, morreu em luta contra a escravidão. O primeiro levante de índios na Amazônia aconteceu em Belém, no dia 7 de janeiro de 1619: dois séculos depois, eclodiu a guerra civil dita a Cabanagem em 7 de janeiro de 1835... Durante a ditadura de 1964 ergueu-se a guerrilha do Araguaia (luta de David contra Golias) até o povo brasileiro voltar à democracia. O que vem de mostrar sua mais valia com o voto popular se impondo à burguesia, inclusive a favorecer a alternância pacífica no poder com governos estaduais de oposição ao governo federal.
De modo que para melhor conhecer a história do bravo povo amazônida, defender suas conquistas democráticas e perseverar no progresso da democracia participativa é que se propõe as aqui denominadas "Comunidades Unidas Amazônicas" (COMUNA).
Alguns pontos a refletir e debater a fim de não cair na inércia:

  • ao contrário de um certo ufanismo ingênuo, uma cidade amazônica de mais de um milhão de habitantes é desastre socioambiental anunciado;
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  • do ponto de vista do gerenciamento urbano, toda cidade com mais de 100 mil habitantes é ingovernável: na Amazônia isto é um caos;
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  • que fazer, então, para redefinir uma cidade socialmente desigual, ecologicamente arruinada e geoeconomicamente complicada, como nossa querida Belém, a fim de que ela se torne uma cidade solidária e sustentável?
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  • Antes que urbanistas, arquitetos, engenheiros, sanitaristas, legisladores e outros especialistas entrem em ação; a parte mais delicada é Política (com P maíúsculo) com os próprios cidadãos de todas classes e condições de vida a deixar de lado a comodidade individual para dar prática efetiva à CULTURA PÚBLICA; 
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  • mas isto equivaleria a uma revolução, inteiramente pacífica porém com intenso compromisso e paixão. Sem cultura republicana nossas esquizofrênicas cidades estarão perdidas; transformadas em arenas e rinhas medonhas (mais do que já estão, depois de décadas de egoismo social elitista e políticas neoliberais alienadoras); 
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  • em mais uma década, 62% da população humana da Terra será urbana... já foi dito outrora que a guerra é um assunto sério demais para ficar em mãos dos generais: do mesmo modo, podemos dizer que a Política (a arte e ciência da "polis", cidade) é coisa muito séria para ficar, exclusivamente, na alçada dos políticos; 
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  • então, a sociedade civil deve assumir papel político ativo frente aos partidos e governos fazendo-os compreender claramente que o estado democrático é formado e mantido pelos cidadãos na forma da Lei; que todo poder emana do Povo nos termos constituicionais; 
  • o espaço político por excelência é a Cidade: nas regiões amazônicas a luta de salvação da Floresta e das Águas está sendo travada nas cidades antes de chegar à zona rural e ao meio ambiente regional;
  • em 2015 terminará o prazo prometido à ONU para cumprimento das metas do Milênio: por coincidência, a Amazônia brasileira completará 400 anos [tomada do Maranhão (1615) e fundação de Belém do Grão-Pará (1616)];
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  • ótima oportunidade para se redesenhar a "cidade amazônica" do futuro a partir da cidade amazônica do passado: e, na verdade, a primitiva aldeia amazônica tem 1500 anos de idade, com a invenção da Cultura Marajoara, conforme nos ensinam as arqueólogas Anna Roosevelt e Denise Schaan;
  • sem dúvida, os tesos da ilha do Marajó são engenharia do barro e organização social e política dos primeiros cacicados da Amazônia: se os brasileiros não sabem atualizar tal conhecimento para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, não devíamos ficar tão ofendidos quando estrangeiros parecem nos dar lições ou sugerir que não temos competência para ocupar a região: vimos que o "testamento de Adão" foi inútil; que homens e mulheres audazes nossos antepassados escreveram outra história à revelia das metrópoles; 
  • uma cidade grande não é mais do que conglomerado de pequenas cidades, que se chamam "bairros"...
  • estas cidades-bairros, em Belém ou Manaus e mais capitais da região, podem ser - se seus cidadão quiserem de fato - se transformar em Comunas vivas, autogestionárias e produtivas. Assim, evitar a explosão do caldeirão urbano que já está, desde "ontem", prestes a estourar.


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