sábado, 19 de janeiro de 2013

Vamos "vender" melhor o Ver O Peso...


cedo ou tarde o Ver O Peso oferecerá peixe frito no mercado de ferro, em vez do costumeiro pescado de geleira: nessa hora, a gastronomia tradicional paraense será importante indicador de encerramento de um capítulo da história regional a dar início à industria alimentar sustentável, quando a expressão geográfica de Belém mostrará toda potência que a natureza fluvial e marítima dotou o Pará.


Nenhum estado brasileiro tem tanto a ver com o mercado do peixe do que o Pará. Desde a fundação de Belém até a metade do século XVIII arroba de peixe seco ou defumado era a única moeda corrente na região. Além do vulgar escambo, nas transações diretas, pagavam-se com peixe seco ou defumado na falta de sal, o soldo da tropa, o salário dos empregados do comércio, os vencimentos do funcionalismo e a côngrua dos padres. 

Logo, a pesca de gados do rio era monopólio da Coroa mediante gestão local de diretores dos índios e trabalho escravo dos ditos cujos em pesqueiro real, como no Marajó; e lugar de moqueio, no Mosqueiro. Não foi por acaso que, depois da independência, os pescadores foram organizados em colônias de pesca sob supervisão da Marinha de Guerra e somente com a criação do Ministério da Pesca e Aquicultura, seguido de secretarias estaduais, o setor da pesca começa a dar sinal de inovação à altura daquilo que o Brasil poderá fazer, sobretudo, em matéria de aquicultura de escala no campo da segurança alimentar de estados e municípios pesqueiros.

Ora, Belém do Pará é das poucas cidades do mundo onde as águas salobras do estuário oferecem frutos de rio e mar com abundância invejável. Embora a maré não esteja mais para extrativismo puro, mas ao contrário; é a vez e a hora da ciência e tecnologia dos recursos aquáticos. Com que já não se compreende mais o motivo pelo qual, desde a década de 70; falem tanto na construção de aquário amazônico como vitrine das virtudes ictiológicas e hidrológicas do Pará sem que isto aconteça na prática. 

O "Mangal das Garças" é uma dentre outras provas inequívocas da capacidade técnica, econômica e da vontade política paraense em "vender" a natureza e a cultura, na forma de produtos inteligentes; sobretudo no mercado doméstico. Onde o direito ao lazer pelo cidadão belenense se mostra assegurado sem conflito com o turismo receptivo. Lá, sem dúvida, aves aquáticas são vedetes do espetáculo e mestras em educação ambiental, podendo até dar o ar da sua graça em outros pontos da cidade ao longo da orla e noutros lugares onde, outrora, cursos d'água faziam da capital do Pará a Veneza amazônica. 

Todavia, o segredo de um lugar extraordinário recriado na  Cidade Velha -- onde, de início só existia um simples aningal ao lado de estaleiro abandonado do tempo da Borracha e não havia um único pé de mangue, nem garça de qualquer espécie, salvo mariscando de passagem em disputa com alguma arisca ariramba --, está na reprodução de peixes em cativeiro de espécies nativas que se encontram à base da cadeia ecológica da vida aquática. Da mesma maneira, um grande aquário poderá contar a história natural da região com sua aventura humana de mais de cinco mil anos de pesca de gapuia (à mão), passando pela mais antiga cultura complexa da Amazônia; a Cultura Marajoara pela invenção de pequenos currais de peixe construídos de terra, seguida esta das culturas Tapajônica e Maracá; todas elas como as aves, naturalmente, sustentadas pelo milagre dos peixes.


VER O PEIXE PARA DESCOBRIR O PESCADOR ANCESTRAL

Ver o peixe sob todos aspectos é uma contingência incontornável do futuro socioambiental e econômico do Pará. Não precisa ser vidente para predizer que a madeira de floresta nativa vai acabar e o manejo florestal tem restrições naturais comparáveis a seringais de cultivo. A província minerária não é eterna nem a sociedade paraense tem que esperar desta fonte mais do que já obteve até agora. Sobre as hidrelétricas, igualmente como na extração mineral, pesa uma hipoteca externa que escapa às decisões e rendimentos locais. 

O agronegócio baseado no latifúndio agropecuário e na soja também não se pode dizer que é a melhor coisa do mundo para o desenvolvimento humano sustentável do povo paraenses, cujo sentimento de frustração com a belle époque da Borracha ainda está latente.

A fundação de Belém em vias de comemorar 400 anos, como se sabe, não foi um projeto endógeno mas parte de uma luta entre monarquias europeias envolvidas pela guerra religiosa entre a Reforma e a Contra-Reforma. A verdadeira independência do Brasil começou a acontecer cem anos depois do Grito do Ipiranga, com a Semana de Arte Moderna em São Paulo. Na adesão do Pará à independência do Brasil o povo paraense pagou horrores até, enfim, depois de uma convulsão enorme contar com o primeiro paraense no governo da província, em 1840, com Bernardo de Souza Franco. E foi no Ver O Peso, dez anos anos depois da Semana de Arte Moderna de 1922; que os modernistas da "Belém Nova"inventaram a ACADEMIA DO PEIXE FRITO lançando a ideia da descolonização cultural em torno de nossa principal riqueza natural: o peixe! 


PEIXE FRITO AO AZEITE DE PATAUÁ

O governo federal em parceria com o governo estadual e o município estão realizando importante intervenção no centro histórico de Belém, que responde ao plano de revitalização urbana em curso nas últimas décadas pelo estado e ao plano estadual de desenvolvimento do turismo. Com certeza, Roma não foi feita em um dia e nem Belém do Pará poderá ser revitalizada cem por cento dentro dos próximos anos. 

Os dois mercados do Ver O Peso, da carne e do peixe; receberam recursos para restauro. O IPHAN se esmera para devolver o último à população com as cores originais de acordo com consulta popular dentre três das suas antigas pinturas. E isto é muito interessante para o povo de Belém se empoderar de seu patrimônio. E, portanto, a modernidade não é nem poderia ser inimiga da tradição. O mercado da carne, no futuro, poderá vender churrasco de búfalo e o mercado do peixe oferecer aos visitantes e aos próprios paraenses o inigualável peixe frito ao azeite de patauá como só antigamente havia no Pará. Trata-se da mais valia da gastronomia tradicional com que o lazer e o turismo respondem desde já com o segmento de maior expressão das atividades econômicas geradoras de emprego e renda enquanto declinam as exportações de matéria-prima e o trabalho de baixo valor agregado.

Em breve o Ver O Peso poderá ostentar oficialmente o título nacional de paisagem cultural tendo entre seus bens associados a célebre ACADEMIA DO PEIXE FRITO. A ser igualmente declarada patrimônio cultural imaterial da municipalidade de Belém. Entretanto, é importante que os cidadãos tenham em mente que são algo como quatro mil o número de trabalhadores da feira e dos dois mercados que, com seus fregueses e fornecedores; fazem efetivamente o Ver O Peso ser uma realidade social, política e econômica importante da capital do estado.

Assim sendo, urge que a comunidade acadêmica, pesquisadores e representantes políticos prevejam as inevitáveis mudanças de função do Ver O Peso a fim de que essas quatro mil famílias reunindo feirantes, vendedores de comida, ervas, açougueiros e talhadores de peixe vejam-se seguramente amparados e sujeitos de direitos. É legítimo que os políticos pensem em atrair os, aproximadamente, 20 mil a 30 mil votos que o Ver O Peso dá direta e indiretamente a cada eleição. Porém, mais depressa as entidades associativas ligadas ao Ver o Peso e seu entorno, inclusive nas trinta e nove ilhas do entorno de Belém, Acará, Moju, Barcarena, Abaetetuba e Marajó; deverão assumir protagonismo no processo de revitalização e desenvolvimento da economia criativa no centro histórico.

É claro que o Terminal Pesqueiro deve estar plenamente operativo e preceder à mudança de perfil do Mercado do Peixe, quando for o caso, passando este último da venda de peixe em espécie para gastronomia à base de frutos de rio e mar. Montevidéu (Uruguai), por exemplo, fez isto a uns trinta anos e outras cidades no mundo também foram por caminhos semelhantes. Nós estamos atrasados para assumir o destaque que temos direito no Brasil como referência nacional dos recursos aquáticos, quando todos mercados e feiras de subúrbio de Belém realizam a antiga função que era exclusiva do Ver O Peso, de abastecimento da cidade, há mais de trezentos anos. A rede de supermercados não deixa por menos no abastecimento de carne resfriada e peixe gelado. Falta coragem política para inovar. 

Há que se convocar o BNDES e o SEBRAE para vender o Ver O peso, como é devido, da melhor maneira: onde os trabalhadores com seus direitos sejam capacitados e aperfeiçoados em seu mister como o progresso profissional de qualquer profissão requer. Se o peixe é o negócio número um do Ver O Peso, que se passe a vender e degustar o famoso peixe frito como é devido numa paisagem cultural, sem par, pintada de garças e guarás.


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