terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Apocalypso: revelação das coisas evidentes e reveladas por princípio, porém jamais assimiladas devido à cegueira e indisposição mental das pessoas supostamente civilizadas.


  preparação ao ritual do Kuarup pelos povos indígenas do Xingu


Prosseguindo em seu fado, este blogueiro presepeiro escreve a todos e a ninguém. A modo da inverossímil carta-patente que em prisca era o padre Antônio Vieira fez, em bom português, e enviou através de embaixadores indígenas que não falavam a língua de Camões aos sete caciques Nheengaíbas, senhores das ilhas na boca do Amazonas, os quais não sabiam ler nem escrever tal qual hoje em dia milhares de seus descendentes no Marajó, lhes prometendo pazes e liberdade eternas em nome de Deus e d'El-Rei.

Neste ano de 2013, como as escolas primárias e paróquias deveriam saber, sobretudo visitantes do Museu de Arte Sacra do  Pará e igreja de Santo Alexandre; se completam 360 anos da intrigante chegada do Padre Antônio Vieira ao rio Babel (Pará-Amazonas). Aonde ele veio salvar as "almazonas", segundo dizia; em missão para levar avante a catequese dos índios pagãos iniciada pelo mártir Luiz Figueira, supostamente devorado junto com onze jesuítas pelos bárbaros índios do Marajó, em 1643 (menos verdade: os ditos padres foram massacrados nas praias de Joanes, mas não foram comidos pelos índios, pois a brava gente marajoara nunca foi canibal que nem seus inimigos hereditários Galibi e Tupinambá).

Todavia, por obra do acaso ou da divina providência, Vieira atirou no que viu e acertou em que não viu: sem poder adivinhar tal coisa a seu tempo, o payaçu que profetizava a ressurreição de Dom João VI (falecido em 1656), como o poeta Bandarra anunciou a volta de Dom Sebastião na pessoa do rei Restaurador Dom João de Bragança; acabou agora ressuscitado na Bahia em figura de cacique de catimbó, misturando belamente o Quinto Império com a Terra sem males, habitados de todos santos Orixás. Para, enfim (ai de mim) advento do Apocalypso. Ou o fim da globalização, sem choro e vela; fazendo por milagre Cristo nascer num presépio de Casa de Mina em Belém do Pará, rodeado por negros da terra e pacíficos animais da idade messiânica. 

ÍNDIOS SABEM QUE A VIDA É ETERNA ENQUANTO DURA, PARA NEGROS AFRICANOS O TEMPLO DA VIDA É O CORPO HUMANO: A GENTE CARECE SE LIBERTAR DA ESCRAVIDÃO DOS SENTIDOS.

Pena que o profeta da "História do Futuro" não ouviu falar da ressurreição segundo o rito do Kuarup pelos índios do Xingu. Apesar de ter sido pacificador das nações indígenas dos Nheengaíbas, da antiga Cultura Marajoara com a pajelança além do Bem e do Mal ele sequer desconfiou na astuta manha dos catecúmenos. Se soubesse, com certeza, mais sermões fulgurantes no púlpitos das igrejas por arte barroca e mais depressa ele pregaria o reino de paz entre todas tribos perdidas pelos impérios do mundo: judeus, cristãos, islâmicos, pagãos ou ateus seriam todos filhos de Deus, Zeus, Tupã, Alá, Júpiter ou apenas criaturas da mãe natureza... 

A rústica cristandade malmente saída das barbaridades da idade média, povoada de anjos e demônios, desembarcou no Maranhão com armas e bagagens, transportada em navios corsários depois que os Timbiras foram empurrados sertão adentro em luta ardida com os caraíbas em marcha de conquista da Terra sem males na terra dos Tapuias, há mais de 400 anos. E a França Equinocial perdeu a parada -- graças a Zeus! -- por que frades capuchinhos eram ignorantes da religião dos Tupinambás diabolizando o santo espírito Jurupari, guia protetor do Bom Selvagem. Seria preciso talvez esperar pela trindade Darwin, Marx e Freud: pai, filho e espírito santo da modernidade...

Sorte do reino de Portugal que os nautas lusíadas não entendiam patavina da teologia de Santo Agostinho: se não, nunca as caravelas teriam ultrapassado a zona tórrida das antípodas. Região infernal da Terra entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, por onde somente os anjos podiam transitar pelas fronteiras ardentes sob a quentura do Sol sem perigo transformar suas asas seráficas em cinza...

No estado colonial do Maranhão e Grão-Pará o português era falado apenas entre colonos e funcionários ou escrito na correspondência oficial com a corte. Enquanto a plebe falava nheengatu, inclusive os poucos escravos negros que até então havia. Estes escravos originários de diversas nações africanas, na maioria das vezes se comunicavam através da língua amazônica, ensinada por feitores mamelucos filhos de índias da terra com estrangeiro. 

O português foi imposto a todos habitantes da Amazônia lusitana depois de 1751, com o Diretório dos Índios e a mudança do estado para Grão-Pará e Maranhão transferindo a capital de São Luís para Belém. O Nheengatu, portanto, precariamente serviu de ponte linguística entre a Babel pré-amazônica e a colonização portuguesa, de cuja língua Vieira foi recepcionado como imperador pelo poeta Fernando Pessoa. 

No Brasil, entretanto, subverteu-se o cânone lusíada mediante mil e um barbarismos introduzidos pelo dia a dia dos colonizados: com grito de independência da Semana de Arte Moderna às margens do Ipiranga em 1922. Cujo eco tardio repercute na Amazônia através da antropofagia cultural praticando o ajuricabano desta confraria do peixe frito, em Belém, e do Clube da Madrugada, em Manaus.

Seguidor carola do método de "encomendas", autorizado pela coroa, empregado pelo dominicano Bartolomeu de Las Casas na América castelhana um século antes; na Amazônia Vieira viu-se diante de um grave dilema de comunicação face à multidão de índios de diversas culturas e línguas diferentes: os padres deveriam aprender a língua de cada povo para lhe falar dos Evangelhos, ou antes eram os índios que deviam aprender a língua dos padres?

Esta, como hoje sabemos, era um 'esperanto' dito Nheengatu (boa língua) ou Língua-Geral inventada por José de Anchieta e Luiz Figueira, com base tupi-guarani que é na origem uma mistura meridional de línguas guaraníticas empregadas por missionários, sertanistas e bandeirantes em seus contatos com a massa de índios domesticados.

Em qualidade de superior da Companhia de Jesus no estado do Maranhão e Grão-Pará (1621-1751), Vieira escreveu o regimento das aldeias com detalhadas recomendações aos padres para exercício da tutela administrativa e espiritual dos índios (cf. Serafim Leite, "História da Companhia de Jesus no Brasil"). Podemos apenas imaginar o que foi no passado uma aldeia tutelada por dois padres juramentados em zelar pela própria castidade e a liberdade dos costumes gentios. O próprio Vieira teria mandado recolher à prisão e deportar um índio Principal (tuxaua) contumaz no uso da poligamia. Escândalos e intrigas ficavam por conta do Diabo, que tem costa quente e é conveniente para justificar os desvios humanos. 

Santos de pau oco faziam contrabando de ouro, rio acima e mato adentro a história das conversões era outra (não por milagre, da igreja particular da América Latina acabou nascendo a teologia da libertação para horror do Vaticano, da CIA e outros serviços secretos da dominação da humanidade)...

No Maranhão, ano de 1654, o payaçu dos índios do Pará, padre Antônio Vieira, proferiu o célebre "Sermão de Santo Antônio aos peixes" com clara intenção de ralhar a cegueira dos colonos. Fazia apenas dois anos, o missionário havia chegado quase fugido de Portugal caído em desgraça na corte, por causa da perseguição aos judeus; e quase clandestino estava retornando com a finalidade de apelar ao rei em favor da abolição do cativeiro dos índios. Em 1655 arrancou do rei a lei de abolição dos cativeiros indígenas do Maranhão e Grão-Pará. Era a mesma legislação antes editada pelo rei dom Sebastião para o estado do Brasil e como estas outras leis "pra inglês ver" até nos nossos dias. Morreu Dom Sebastião numa doida loucura no Marrocos e ressuscitou Dom Sebastião em Bragança no dia 1º de dezembro de 1640, para restaurar a independência de Portugal, na figura de Dom João VI. Morreu Dom João VI em 1656... De muitas vidas e mortes se faz a história: se o mundo não acabou em 2012, poderá todavia renascer em 2013 ou 2016. Mas, que temos nós a ver com isto?  


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