segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

CABANAGEM: DIA DOS RIBEIRINHOS


Palácio Cabanagem - Belém do Pará

Neste dia, há 178 anos, a Praça da Independência (Pedro II atual) em Belém do Pará amanhecia tomada pelo povo em armas. O Palácio do Governo, hoje Museu de História do Estado Pará - cuja imagem se vê refletida na fachada envidraçada do Palácio Cabanagem, onde o Poder Legislativo estadual constituído por representantes eleitos pelo Povo Paraense tem sede oficial -, estava em chamas ocupado por guerrilheiros cabanos vindos de diversas parte do interior através da margem esquerda do rio Guamá, notadamente a Ilha das Onças onde levantados do Acará, Abaeté. Barcarena e Marajó fizeram quartel-general a fim de invadir e tomar a capital vingando perseguições estúpidas por agentes imperiais e, de maneira especial, a morte do líder paraense Batista Campos, ocorrida às vésperas de natal do 1834, nas matas de Barcarena, que foi estopim da revolta.

Na verdade, longe de acabar nas lutas políticas e sociais das classes populares em nossos dias a história da Cabanagem começou a 7 de janeiro de 1619: quando. no Pará, o cacique tupinambá Guamiaba (Cabelo de Velha); depois da Nação Tupinambá ter se aliados aos portugueses desde o Ceará à cabo de muitas guerras entre os dois lados desde São Paulo de Piratininga e Guanabara; atacou o forte Presépio dando ressonância ao levante de seus parentes no Maranhão sob comando do cacique Pacamão, tuxaua da aldeia de Cumã. 

Este levante aconteceu depois que um mercador chamado Simão Estácio da Silveira, contratado como povoador do rio das Amazonas, fez papel de gato aliciando mão de obra entre pobres casais das ilhas dos Açores lhes prometendo o paraíso no Maranhão. Os colonos iludidos de Portugal ao constatar o logro e se achar no mato sem cachorro transportados com suas misérias; longe de seguir o exemplo do esperto Martim Soares Moreno que amancebou com a índia Paraguassu, filha do cacique de Jaguaribe habitando até hoje o romance indianista de José de Alencar; o qual aventureiro levantou seus "cunhados" para tomar a histórica de São Luís do Maranhão; escravizaram aqueles índios famosos pela guerra antropofágica de que Oswald de Andrade sublimou no "Manifesto Antropofágico" (1928). O resultado dessa traição dos portugueses a quem lhes deu a mão foi o massacre de uma centena de colonos e a vindita ibérica com um terrível banho de sangue desde o Gurupi ao Guamá pelo Caminho do Maranhão, onde se destou o sanguinário capitão-mor Bento Maciel Parente com seu lugar-tenente Pedro Teixeira, este último famoso pela viagem de Belém a Quito, levado e trazido são e salvo por mil e tantos arcos e remos tupinambás, sem que haja uma boa explicação histórica para a gritante contradição entre o serviço prestado a seus algozes e à cultura vingativa desta gente.

Então, na ignorância e indiferença amazônica a respeito destas duas datas marginalizadas e ocultadas pela imperial arrogância da historiografia disseminada pelo nobre IHGB sob o trópico de Capricórnio; prosperou o apartheid brasileiro. Em margens entrelinhas combatentes resistem por diversos meios na cabanagem cultural ao longo do tempo e do espaço. 

Naquele 7 de Janeiro de 1835, depois da longa noite colonial uma madrugada de fúria; sem comando unificado; desfeita em fogo e aço, Belém amanhecia em transe de laborioso parto de um rio de sangue. Enquanto restos de incêndio consumiam o palácio de Landi com sinais de fumaça escapando por janelas e portais anunciavam violências inauditas pelas ruas e bairros do centro histórico. Inocentes e culpados, naquelas horas terríveis, pagavam pela Tragédia do brigue Palhaço e outros crimes da conquista das Almazonas... 

Então, naquele dia distante se não a esperança; porém o espírito de vindita venceu o medo. E as "classes infames" - maltratadas e espezinhadas há séculos numa e noutra margem do Atlântico -, assumiram o poder. Batista Campos estava morto e Bernardo de Souza Franco somente seria chamado pelo governo do Rio de Janeiro a promover a paz no Grão-Pará depois que o Império do Brazil havia metido as mãos pelos pés e cometido um genocídio: para a sonhada Adesão do Pará à Independência do Brasil Inez era morta... Dali em diante o sonho cabano passaria a ser a República Brasileira para todos brasileiros e regiões do Brasil. 

Mas, ainda não nasceu o Nelson Mandela tupiniquim...

POR QUE A CABANAGEM AGORA?

Nunca dantes na história desde país, o Povo esteve tanto em moda. Todavia, a democracia brasileira ainda está longe se ser verdadeiramente democrática... E o risco destas conquistas anunciadas pela Constituição-Cidadã se tornar miragem é deveras considerável. O bolo econômico cresceu, mas a fatia prometida às camadas mais pobres vai saindo a fórceps. Cada migalha social conquistada é uma batalha e os investimentos públicos visam antes que tudo a grande empresa do que a tirar a Criaturada grande da lama... 

Os nobres representantes do povo paraense exercem seus mandatos num palácio envidraçado, curiosamente, chamado "Palácio Cabanagem" que, a exemplo da cidade, está de costas para o rio. As 'cabanas' (barracas sobre palafitas) na margem oposta do Guamá e as barracas da feira do Ver O Peso são estranhas à maioria de deputados e servidores graduados do palácio legislativo, onde de quando em quando pipocam escândalos de corrupção. O povo, bestificado, praticamente não sabe nada do que foi a Cabanagem. Nem mesmo o contributo do arquiteto de Brasília e do edifício das Nações Unidas, Oscar Niemeyer, no Memorial da Cabanagem construído no Entroncamento goza das atenções das autoridades e do conhecimento do público entretido com novelas e campeonatos de futebol até à náusea.

Do palácio dos deputados não se explica o motivo pelo qual ficou sendo o edificio, de uma arquitetura ambígua notável que, afinal de contas, tem lá  certo apelo brega; da Cabanagem... Podemos até mesmo duvidar se no distrito industrial de Vila do Conde a igreja histórica de São João Batista, onde Angelim lançou proclama convidando filhos dos "Ingaíbas (nheengaíba) e Ajuricabas" a empunhar armas contra a humilhação e opressão sofrida pelos amazônidas em mãos do vacilente império do Rio de Janeiro dependente da Inglaterra antes mesmo que do trono de Portugal. 

Para os 400 anos de Belém (2016), a cabanagem cultural poderia animar os senhores deputados a não deixarem eles o Palácio Cabanagem trocar de nome quando a Alepa mudar-se da Cidade Velha para o bairro do Marco. Vizinho ao Museu de História do Estado do Pará e ao vetusto Solar do Barão de Guajará - que foi residência do primeiro historiador da Cabanagem -, entregue às calendas do Monumenta; onde o rico acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará espera, pacientemente, que a sociedade paraense e o poder público cumpram com seu dever restaurando não só o edifício mas todo mais acervo que lá se acha lacrado há tanto tempo.

O Palácio Cabanagem deve ser objeto de algum projeto criativo na área de Educação e da Cultura, considerando a vocação do turismo cultural integrado a seu entorno no centro histórico. Onde faz falta roteiro da Cabanagem à semelhança da contemporânea Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Por exemplo, a praça D. Pedro II deveria voltar a se chamar "Praça da Independência" --- vejam a triste contradição dos legisladores paraenses de várias gerações que se abrigaram num estranho palácio supostamente para homenagear a memória dos cabanos, mortos miseravelmente sob o trono de Pedro II; e conservam sem discussão o nome do imperador diante de monumento histórico dedicado ao General Gurjão, que brilhou numa guerra injusta contra o Paraguai! --- ; é preciso estudar e contar sem medo a história dos verdadeiros acontecimentos de 1835 - 1840. 

O público agradeceria saber, que no terreno nº 23 da antiga Praça Independência onde se acha agora o palácio legislativo foi fundada a Imprensa Oficial do Estado em 1891, esquina da Travessa da Vigia (Félix Rocque) e que o nome de "Palácio Cabanagem" foi emenda aprovada do deputado Carlos Vinagre a projeto de Resolução de iniciativa do deputado Lauro Sabbá que pretendia chamar ao mesmo "Palácio Ruy Barbosa", inaugurado em 30 de novembro de 1970, tendo endereço atual no nº 130 da Rua Aveiro. 

O deputado Carlos Vinagre descendia da família Vinagre, na qual se destacaram Antônio Vinagre como principal comandante da terceira e mais dura fase da Cabanagem, morto em combate na tomada do Arsenal de Guerra (Convento dos Mercedários), quando foi substituído pelo jovem Eduardo Angelim, terceiro presidente cabano com apenas 21 anos de idade. Casado com rica fazendeira e tendo mandado fuzilar escravos na tentativa de conter tumultos (como Vicente Salles informa na obra "O Negro no Pará") perdeu a confiança dos cabanos que lutavam pela abolição da escravidão e não conseguiu negociar com o governo imperial decidido a esmagar as "classes infames"... Francisco Vinagre foi o segundo presidente cabano, sucedendo a Clemente Malcher assassinado pelos cabanos por não ter apoio da maioria armada. O presidente Vinagre foi aclamado como chefe do governo insurgente a 20 de fevereiro de 1835 ele tentou organizar a revolução restabelecendo a guarda municipal de Belém, décadas antes da Comuna de Paris, Belém teve sua comuna cabana e Vinagre prometeu eleições. 

Entretanto, a sombra da independência e abolição da escravidão no Haiti junto com a revolução francesa chegando ao Pará por "contágio" através de Caiena desde o regresso das tropas de ocupação, em 1817, assombrava as elites paraenses e seus semelhantes nas mais províncias. O trabalho escravo estava no cerne dos acontecimentos das regiões amazônicas e ainda permanece até hoje em seus aspectos, mais ou menos, ostensivos e dissimulados. E, portanto, a Cabanagem continua atual enquanto não houver plena cidadania aos mais de 30 milhões de brasileiros na região Norte. 

O fazendeiro Malcher, aliado aos revoltosos pelas circunstâncias da cegueira e estupidez política do governo imperial; pagou imediatamente com a própria vida nas mãos dos cabanos que desconfiaram de ter sido usados apenas para derrubar um governo tirânico a ser trocado por outro. Também os pequenos agricultores Vinagre e Angelim, envolvidos pela tormenta; não estavam à altura do desafio de liderar e encaminhar a Força Bruta para uma situação aceitável; talvez o cônego Batista Campos pudesse ter melhor sorte se o padre Diogo Feijó, no governo do Império; houvesse chegado antes da tragédia amazônica: vencendo com sua pregação liberal descentralizadora a política centralista e neocolonial anglo-lusitana de seu inimigo político José Bonifácio. Mas tudo isto são cogitações apenas para ilustrar o percurso do passado e mostrar como chegamos ao presente.

A Cabanagem, espalhada por quase todos rios amazônicos, contava com a participação de indígenas, negros, libertos e pequenos sitiantes brancos. Como acontece em todas revoltas o povo invadiu armazéns, expulsou colonizadores e tomou armas onde as encontrassem. Um dos grandes líderes cabanos da região do baixo Madeira foi o cacique Mawé Leão Crispim, por exemplo. Apesar de suas tentativas, Francisco Vinagre não conseguiu levar adiante as esperanças dos cabanos, das quais a abolição da escravatura vinha  em primeiro lugar. Ao concordar em negociar com o Império causou grande contrariedade entre seus comandados que não queriam passar o governo da província ao enviado do Rio de Janeiro, que havia mandado a Belém uma esquadra com cerca de seiscentos homens e o novo presidente da província, Manuel Jorge Rodrigues. Em vez de dialogar com os líderes da sublevação para acalmar os ânimos e procurar fazer justiça moderadamente, tão logo Manuel Jorge assumiu o governo, ouvindo conselhos temerários de seu staff militar; deu voz de prisão a Francisco Vinagre e o manteve refém colocando em risco vidas e propriedades dos portugueses que permaneciam em Belém após os primeiros confrontos.

Assim, começou a terceira etapa da revolução paraense. Antônio Vinagre e Eduardo Angelim recuaram para o interior onde reorganizaram forças com tropas de tapuios, índios, cabocos e negros e voltaram a atacar Belém agora à frente de 3 mil homens. Após nove dias de luta acirrada, Belém voltou a cair diante dos cabanos. Entretanto, Antonio Vinagre foi morto em combate no Largo das Mercês e Francisco Vinagre foi tido por desaparecido. Então Eduardo Nogueira Angelim, com apenas 21 anos de idade, assume o governo da Província do Pará.

Paixão de juventude, Luísa era viúva de rico comerciante português, acusam Angelim de ter aproveitado o tumulto para matar o marido de sua amada e depois casar com ela. Uma das reivindicações dos cabanos era, como se sabe, a libertação dos escravos. Casado a fazendeira, Angelim não teve o discernimento a coragem de um Lincoln, por exemplo, que venceu a guerra com ajuda de armas de escravos libertos sob o fogo das armas. Pior que isto, querendo impor autoridade por terror, Angelim determinou fuzilamento de escravos acusados de assassinar seus donos. Diante do acontecimento, muitos escravos resolveram pela liberdade à maneira subindo rios, fazendo saques de fazendas e engenhos e matando quem se aventurasse a lhes barrar o caminho. Belém conheceu uma grande desordem durante três dias para comemorar, imprudentemente, está visto o sucesso das armas cabanas com danças, bebida e discursos inflamados pelas ruas.

Mas o efêmero  triunfo e a euforia da festa popular, logo mostrou que os cabanos tinham novo inimigo: a fome. Durante a guerra civil plantações foram abandonadas e a carne que vinha da ilha de Marajó foi bloqueada por navios da Marinha imperial, mesmo a pesca artesanal tinha que ser muito limitada diante da mira de fuzileiros a bordo ou estacionados na ilha de Tatuoca que ficou sendo sede do governo imperial, Arapiranga e outras ilhas do Guajará. A fome em Belém, segundo escritor da época, levou o povo a comer “ervas agrestes dos quintais abandonados, raízes e couro seco, reduzido a uma espécie de cola dura e indigesta”.

GENOCÍDIO AMAZÔNICO

Sem estrutura e organização, o governo Angelim viu aumentar os problemas para os quais ele e seus companheiros nunca foram preparados . Abatimento, doenças e falta de comida estimulavam intrigas e divergências. Em abril de 1836, chegava ao Pará o famigerado general Francisco José Soares de Andrea, nomeado pelo Rio de Janeiro para sufocar a Cabanagem, chegou acompanhado de grande número de soldados, mercenários estrangeiros e criminosos recrutados das prisões do Sul e do Nordeste. Os escrúpulos de Angelim em dar alforria aos escravos para defender a Cabanagem abaram sendo punidos pela falta de escrúpulos e os crimes de guerra cometidos por Soares de Andrea, português de nascimento e mais tarde agraciado pelo Império do Brazil com título de barão de Caçapava, por serviços prestados no Pará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sempre combatendo brasileiros que lutavam por liberdade.

Depois de falhar tentativas de negociação para uma saída honrosa e já sem condições de enfrentar o ataque em contagem regressiva, Angelim com seus leais cabanos conseguiram escapar para o interior, burlando o bloqueio em meio a uma tempestade; onde a resistência continuou por mais um tempo. A repressão desencadeada por Soares de Andrea foi terrível. Numa população estimada de 100 mil pessoas em toda província, entre 30 até 40 mil foram mortas quase 30 mil. Todo ribeirinho era cabano até prova em contrário. O soldo das tropas assassinas eram pagos mediante apresentação de colares orelhas secas ao sol tiradas de cadáveres. Os mais atingidos foram indígenas e tapuios. Na região do Tapajós, onde, em 1820, havia 30 mil indígenas, quarenta anos depois só restavam 3 mil. 

7 DE JANEIRO: DIA DOS RIBEIRINHOS

A covardia política exclui o povo de participar de sua própria história. O exemplo da África do Sul com seu processo de verdade reconciliação, longe de promover vingança insaciável fez com que o passado colonial e racista fique para trás, formando agora o país de Mandela um dos países emergentes do bloco BRICAS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] apostando no futuro. No que tange ao Brasil, a Amazônia não poderá ser sustentável sob a marginalização de suas populações e da ocultação da verdade.

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