quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Viagem a Portugal continuada na Amazônia iberiana.



Torre de Belém - Lisboa, Portugal.

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Forte do Presépio - Belém, Amazônia.



REVISTA IBERIANA
da Amazônia para a CPLP e países iberos-americanos
Nº 1 - Ano I - Belém (Pará), Brasil - outubro de 1999


CARO LEITOR,
A REVISTA IBERIANA vem hoje para focalizar a Amazônia em seu contexto histórico e geográfico, dirigindo-se opcionalmente ao mundo lusofônico e ibero-americano. Traz à reflexão o fenômeno global da civilização ultramarina encetada pela Península Ibérica, na revelação deste espaço amazônico.
Pretende ser iberiano na medida em que os elementos ameríndios, africanos e ibéricos - na América do Sol - se integram e realizam a síntese equinocial.
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Belém do Pará, Outubro de 1999
José Varella Pereira

Começou assim, há 18 anos, nossa tímida tentativa de dialogar com viajantes do vasto mundo que os nautas lusíadas descobriram. A Novíssima Viagem Filosófica - da arte iberiana das viagens e aliança pós-colonial afro-ibero-americana, é a nossa garrafa de náufrago lançada ao mar pelos degredados, os pobres casais de Portugal enganados para vir povoar o paraíso na terra bruta do Maranhão; testamento das tribos perdidas e da destruição das Índias Ocidentais: o modesto ensaio iberiano, entretanto, como o sapo no alagado mira o reino da Lua acima das nuvens, viajante atrevido que olha alto e ousa seguir, embora claudicando, a rota de viagem de dois monstros sagrados: 

Primeiro o sábio naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, na Viagem Philosophica , em seguida o memorável Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, na Viagem a Portugal, que vai na trilha de Garrett revendo vilas e lugares lusitanos cujos nomes emigraram para colonizar o Rio Babel: Almeirim, Alenquer, Aveiro, Barcarena, Barcelos, Bragança, Caldas da Rainha, Chaves, Óbidos, Oeiras, Ourém, Salvaterra, Melgaço, Portel, Porto de Moz, Santarém, Sintra, Soure, Souzel e outros mais à ordem de Pombal no rescaldo da expulsão dos Jesuítas do Grão-Pará. 

A loucura do viajante da novíssima viagem é comparável a uma pequenina semente crioula que sonha em se transformar num colosso da floresta, ínfimo grão coberto de seda vegetal solto no ar pela altíssima Samaumeira (Ceiba pentandra), que o vento leva e carrega a esmo. Essa ideia de Quixote desterrado talvez ainda encontrará, por sorte, uma nesga de terra fértil onde o sol e a chuva farão nascer e crescer, no seio do mato, a plantinha rasteira até ela crescer e aparecer sobre o cimo da selva. Sabíamos que não era fácil o pequeno grão crioulo do Grão- Pará topar lugar próprio ao sol na densa floresta-mundo. Mesmo assim ela ainda pulsa e não deve perder esperança de vir a florir, tal qual aquelas sementes selvagens que mais resistem a secas e queimadas prontas a brotar com a primeira chuva de estação. 

A palavra mestiça iberiana nasceu, por acaso, no espírito do viajante amazônida ao fim de uma luminosa tarde de verão no Planalto, que não acabava nunca. Operários da construção de Brasília ainda trabalhavam nas fundações do novo Palácio Itamaraty. O poderoso bate-estaca fazia estremecer a poeirenta terra vermelha povoando o espaço do Cerrado de um som antigo e monótono: parecia àquela hora tardia vir de eras pretéritas da Ibéria avoenga, desde um longínquo estaleiro de além mar onde, secretamente, se inventaram caravelas da descoberta do mundo.

Foi então que, imerso na magia do tempo, me ocorreu pensar que a nau capitânia da frota de Pedro Álvares Cabral poderia vencer os limites de Tordesilhas no tempo e espaço para navegar o ribeirão Mestre d'Armas e ir fundear no lago Paranoá. Ó estupenda viagem! Até aí foram parar os nautas de Portugal. E os barões assinalados plantaram, duzentos anos depois, o velho padrão do Tratado de Madri de 1750 no átrio do novo Palácio Itamaraty em Brasília. O qual marco histórico dos futuros países iberianos na América do Sul ficou mergulhado no fundo do Rio Negro, no Amazonas, a se abeberar de mitos fecundadores da terra de Ajuricaba na fantástica inculturação amazônica entre padres, pajés e babalorixás.

Logo o viajante cristão-novo no país gigante da América do Sul, doravante andarilho bandeirante batizado iberiano pelas Águas Emendadas planaltinas, haveria de fazer infinitas circunavegações pela terra brasílica adentro, grande sertão de João Guimarães Rosa e Ilheus de Jorge Amado da Bahia através dos rios São Francisco; o Tocantins passando para a formidável bacia amazônica, onde a Criaturada grande de Dalcídio mora em palafitas ancestrais. E o rio Paraná a levar de canoa Mário Palmério ao Pantanal a caminho de Chapadão dos Bugres, olhar os Pampas em companhia de Érico Veríssimo a bordo do Tempo e o Vento; varar sem medo para terra do Papa argentino, no Prata.  Com José Mujica na extinta província Cisplatina, levar a paz e reconciliação ao Paraguai, pedir perdão pela guerra injusta da tríplice aliança vassala da pérfida Albion.

Não nos podemos esquecer do fato transcendental de que Deus é brasileiro... Se Ele não existisse precisava-se inventar um qualquer ser supremo em socorro dos fracos, oprimidos e mais sofredores da vida a fim de enfrentar o medonho desnorteio dos donos do mundo ou a loucura da multidão de deuses imortais tão parecidos das paixões humanas. Já dizia o Manifesto Antropofágico, "fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará"...

Alguns sinais nos permitem acreditar na utopia iberiana descendente do mito da Terra sem mal e do realismo mágico messiânico judeu-cristão. Entre estes sinais de fim do velho mundo e começo imediato da nova idade do Espírito Santo lembrai-vos do poeta-profeta Pessoa e da filosofia pós-sebastiana de Agostinho da Silva para chegar à inteligência coletiva de Pierre Levy e ao Homo sapiens / demens na complexidade de Edgar Morin, parente talvez do Homo sapiens Tapuya da Viagem Philosophica.

Aí chegamos nós, entre gregos e troianos, à grande Crise de nossos dias a bordo da contraditória revolução tecnológica do ciberespaço, onde 427 milhões de hispanófonos (2ª língua mais falada no mundo) e 202 milhões de lusófonos (6ª língua mais falada) poderão tornar-se internautas praticante do esperanto neolatino na rede mundial de computadores. Nada mal, uma comunidade multinacional e multicultural herdeira do passado ibérico que já ultrapassa a casa de 600 milhões de pessoas. Tudo é viagem... Se as caravelas já podem com tanta gente, haja navios de cruzeiro e super aviões... Quem não pode, embarca na jangada de pedra ibérica ou vai a remo pelos caminhos das águas da novíssima viagem iberiana.

Outra notícia auspiciosa dos novos tempos pós-coloniais, apesar da crise civilizacional em curso e da recessão econômica global desde 2008; foi a eleição do português António Guterres para o alto cargo de secretário-geral das Nações Unidas, quase tão surpreendente quanto o sopro do divino Espírito Santo ao ouvido dos cardeais romanos na escolha do jesuíta argentino Bergoglio como sucessor do renunciante papa alemão. 

Além de justificado orgulho de Portugal, a eleição do socialista Guterres dá oportunidade histórica à Comunidade de Países de Lìngua Portuguesa (CPLP) a ser porta estandarte da ONU no processo do desenvolvimento democrático e sustentável levando à erradicação da pobreza extrema até 2030. Aqui é que a Criaturada grande de Dalcídio (populações tradicionais amazônicas) esperam, enfim, sair da margem da História para se empoderar dos acontecimentos que dizem respeito a sua vida. Pois ao longo de mais de 300 anos já sofreram demais para esquecer a babel de suas línguas nativas "dificultosas" a troco da língua-geral Nheengatu e apanhar de palmatória a fim de falar português depressa, deixar de ser "índio" para ser súdito leal e pau para toda obra de Sua Majestade Fidelíssima.

Neste sonho meu, embarco no turismo responsável que se, deveras, foi inventado, ainda falta assumir maior protagonismo nas teias da economia solidária. Na primeira página da Novíssima Viagem Filosófica a citação de José Saramago dá boas-vindas ao leitor da REVISTA IBERIANA:

"Eis a boa filosofia: tudo é viagem.
É viagem o que está à vista e o que
se esconde, é viagem o que se toca
e o que se adivinha, é viagem o estrondo
das águas caindo e esta subtil dormência
que envolve os montes".
José Saramago "Viagem a Portugal", p. 198.

Saramago, na portada da Viagem a Portugal, dedica a imaginária caminhada a quem lhe abriu portas e mostrou caminhos e também ele viajou guiado pela memória do mestre de viajantes Almeida Garrett. No fim da viagem, o autor se despede do leitor a dizer que volta já. Mas não é verdade, já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor: "O fim duma viagem é apenas o começo doutra ... É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já". Ao começo o viajante de Portugal advertira aos mais viajantes do mundo sobre o fato de que nenhuma viagem é definitiva.

Dá o primeiro passo ao atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal. Deveria ele começar por outro sítio que não fosse esse, tão carregado de memória dos povos que lá viveram e vivem ainda e dos viajantes que lá passaram e dos emigrantes que se dispersaram pelos caminhos do mundo levando a "fronteira" afora? Então, por onde passa a linha invisível da fronteira, na ponte virtual do espaço-tempo sempre em construção, "sobre as águas escuras e profundas, entre as altas escarpas que vão dobrando os ecos, ouve-se a voz do viajante, pregando  aos peixes do rio".

Por acaso mágico, na outra margem do Atlântico distante, o eco daquele sermão caminhando pela paz e fraternidade entre espanhóis e portugueses; da fronteira ibérica chegou até aos antigos contérminos amazônicos da fronteira de Tordesilhas. Onde, certo dia em 1654, o padre grande dos índios Antonio Vieira, escandalizado do trabalho escravo de "negros da terra", partiu de Belém do Grão-Pará a caminho de Belém Ocidental e, parando em São Luis do Maranhão, à maneira apostolicamente contundente de Las Casas, proferiu o elogio do peixinho Quatro-Olhos (Tralhoto, Anableps anableps) no Sermão aos Peixes contra todas cegueiras civilizadas e desumanidades da colonização, levando na mala a Lisboa duras queixas ao rei Dom João IV. 

Aos peixes pois, lá e cá de confundidas águas que irrigaram as duas civilizações abraçadas pela História sejam gratos viajantes e turistas, assim também deem graças aos pescadores que cedo madrugam para por a mesa o peixe frito nosso de cada dia. Amem?  

MEMÓRIA DAS DUAS IRMÃS BARCARENAS:
da Fábrica da Pólvora aos altos fornos do Alumínio.


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Quinta do Filinto - Barcarena (Portugal).


Não posso me despedir sem dar uma palavrinha de afeto e gratidão ao meu amigo Fernando Silva, de Barcarena (Portugal), benemérito editor de "A Voz de Torcena" e zeloso conservador da Quinta do Filinto, herdade de seu pai. Eu nunca lá estive, mas a cada mês eu viajo em pensamento a Portugal só para imaginar uma boa conversa com o Fernando Silva e sua gente, visitar a Quinta do Filinto mais uma vez, rever o museu etnográfico, na biblioteca folhear os livros que meu amigo português escreveu cheio de ternura e saudades dos Açores e, sobretudo, seu transbordante amor camponês aos heróis quotidianos do campo posto à mesa dos burgueses, "Os Filhos da Pátria Saloia" -- Breves lembranças vividas pelo povo da Região Saloia radicado na freguesia de Barcarena, suas histórias, suas aventuras, suas virtudes, traços reais que marcaram uma época e que tendem ano menos ano, a uma precoce extinção.

Em não duvido de que boa parte da história social de Portugal mora nas lembranças do Fernando, na Quinta do Filinto. Aí, então, eu invejo a constância do amigo e me lembro da sua vinda com a delegação de Oeiras a Barcarena e Belém do Pará - já se vão 18 anos! - o mesmo tempo da REVISTA IBERIANA com a "história atrevida" falando mal das arbitrariedades do Marquês de Pombal no Pará, que lhe autografei de lembrança da geminação entre as duas Barcarenas. 

Lembro-me que até dei uns passos de dança, no jardim da Paratur; com uma jovem 'macanita' do Rancho Folclórico as Macanitas. Pena que a festa e a geminação durou pouco. Porém não dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Estou velho e ando devagar, já não vou ao Marajó há tempos. E nunca fui a Portugal e a Galiza de meus avós ibéricos, todavia nunca deixei de lá estar e sei que não morrerei enquanto alguém, em qualquer canto da Pátria-Terra, tiver notícias destas estúrdias divagações. São as minhas pequeninas sementes literárias deixadas para florir no belo jardim do amanhã.

Só espero que a China, Noruega, Holanda, Portugal e todo mundo queira ajudar as Cidades Educadoras a ter pleno sucesso. Quem sabe a Quinta do Filinto com seu museu etnográfico sirva de exemplo a Barcarena do Pará para criar o seu comunitário Ecomuseu dos Cabanos?

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