sábado, 18 de fevereiro de 2017

Viagem ao Porto Santo

a bordo do navio encantado descendo o rio mar
a todo vapor antes do galo cantar e espantar os mortos
carregamento de lendas do aviamento da Borracha
em marcha para o progresso da indústria mundial
exportação em contrabando de letras tortas a horas mortas
o outro mundo emerge das funduras do Amazonas
batuques de casas de Mina com notícias quentes da Guiné
por destino o Tejo com transbordo em Funchal na Ilha da Madeira
escala de baldeação no Porto Santo
ilhargas do Araquiçaua: lugar mágico da Terra sem mal
aqui mora a Utopia (casamento da necessidade com o acaso)
não há fome, trabalho escravo, doença, velhice ou morte.

trabalhar é bom futuro e engrandece o homem
(contanto que ele não seja forçado a tanto pelo fado
ou rebenque em mão de patrão sem dó nem coração)
sem trabalho das próprias mãos ou alheias ninguém vive
masporém a vida não vale a pena se não há preguiça para todos.

conheci um rico fazendeiro que comprou o ócio 
e virou vagabundo por negócio...
Não antes de proibir em seus domínios todo tipo de opressão
fraternizando todo mundo desde a cozinha ao curral
os peões livres estão para fazer ou não fazer o que der na telha
sendo sócios do negócio de não fazer nada além do necessário,
lá o extraordinário é demais: e o mundo está mui curioso
a saber o que acontece na refazenda com aquela gente estúrdia
que adora não fazer nada
portanto visitantes pagam bom dinheiro 
para aprender a arte de não fazer coisa nenhuma
utilitária além da conta.

o diabo é que se todo mundo se der ao luxo da Preguiça
dos deuses e seus santos representantes na terra
logo os senhores deste mundo demente vão querer reinventar
o ditado furibundo dos campos de concentração 
e baixar o cacete com a lei do Cão.

por isto o civilizador Jurupari instituiu o segredo
da Casa dos Homens sob pena de morte enquanto as mulheres
fariam a educação pelo barro aprendendo elas mesmas
a guardar sigilo, lá delas, de vida e morte
pela arte do remédio e do veneno...

o Sol ata rede a pernoitar no fundo do rio até o galo cantar
Baixo Arari: o que dá pra rir dá pra chorar...
mocambos da Maravilha desta ilha da maré marajoara
senzala por que calas o tambor no negrume da madrugada?
cadê tição mãe de fogo pra inflamar a chama libertária?
por acaso ainda te assombra o terror do Viramundo?
Arrastam-se correntes na varanda e gemidos vem da cozinha
o  rei do gado está morto e o Diabo veio buscar-lhe o corpo
estava paresque montado numa besta cor da meia-noite
as ventas da alimária eram fornalhas do inferno 
de seus olhos acesos faiscavam raios, os cascos fendiam o solo
queimando campos distantes levantando labaredas pelas matas...

a cavalhada cabo-verdiana da fazenda assombrada criou asas
malhada de gado do vento espalhada pelo fantasmal boi selado
afogado em dívidas eternas o senhor morgado
há de empenhar a sesmaria dos arruinados barões assinalados
por dez réis de mel coado.

como vieste cá parar no Pará, ó Porto Santo de Portugal?
terá sido talvez na nau dos turcos encantados
portulanos secretos do infante de Sagres a esconder
no fim do mundo o reino das amazonas da Capadócia
(dentro do caroço de tucumã onde jaz a primeira noite do mundo)
travessia do Atlântico em montaria a remo
pelo rei mandinga Abu Bakari e seus dois mil canoeiros
plano redondo da viagem de circunavegação
antes que soubesse Fernão de Magalhães 
da existência da Terra do Fogo
rio das araras em céu de anil com arariúnas e guarás sem iguais
árvores de pássaros na paisagem de búfalos filosóficos
concerto de sapos em cantochão no igapó.

remessa de juros e dividendos dos séculos do rio Babel
defuntos mil da acidental civilização
tribos extintas no Diretório dos Índios
pletora de línguas e culturas em sepulturas modernas dos museus
vamos sem pressa enfrentar as calmarias e sesmarias caducas
viagem pelo avesso dos caminhos marítimos
encobrimento pétreo do velho mundo 
na contramão da Descoberta do novo.

por mares sempre navegados todavia nunca conquistados
vai a nave de fantasmas d'aquém mar
no timão rompendo procelas do ainda escuro firmamento
o poeta Pessoa bancando o profeta Bandarra sob comando
d'el-rei dom Sebastião morto no Marrocos
à beiramar ressuscitado em Pirabas do Pará
enquanto Padre Antônio Vieira faz o Sermão dos Peixes.


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