sábado, 18 de fevereiro de 2017

Viagem a Caviana






na boca da noite quisera eu partir do Porto do Sal
Cidade Velha portas e quintais 
sono ferrado na fachada fechada e vitrais da Sé
sair a remo rumo ao meu velho Itaguari em busca de mim
caminho da façanha dos Aruãs além Caripi
canal do Carnapijó baía afora para o Marajó velho de guerra
da mea avó
passar uma semana ou talvez um mês na ilha Caviana.

quisera eu quisera ter a calma da praça do Carmo
em horas mortas
ficar sentado à ilharga da memória da aldeia enterrada
espiar ossamentos da história daquilo que já era
mas nunca se foi:
subir à riba da garupa pelo ar da garça morena
retardatária do último raio de sol que vai dormir
ao ninhal de sonhos da terra sem mal
Araquiçaua
Arari rio de araras invisíveis: aqui voavam outrora...
pra nunca mais
voar agora apenas com as penas da imaginação
seguir viagem em canoa doida movida a remo de ilusão
ao romper do dia eu estaria varando o furo Anajás Mirim
adentro do Anajás Grande
antigo reinado de índio brabo transformado em jebre
roubo de gado, fome e febre malárica
tão diferente hoje em dia daquela brava gente
ao tempo do valente Guamá cacique dos Aruã e Mexiana 
procurado vivo ou morto desde o Pará até Caiena
antiga capital da Paricuria e cacicado do galibi Ceperu.

atrás de mim a tropa guarda-costa capitão Palheta ao comando
quem manda eu me meter a besta?
sustentar esta velha guerra perdida
pega que pega cacique bandoleiro, soldado desertor
pretos fugidos... um terror
aí de mim! careço dar no remo e chegar depressa ao Cajari
pegar igarité de meu compadre poeta Antônio Juraci Siqueira
não é bandalheira, esta gente
preciso me aviar em Afuá pra atravessar a Vieira Grande
escuro que nem breu: vamos que vamos, sumano Juraci
a tropa já vem aí perto da boca do rio Cajari
o que dá pra rir dá pra chorar: amoitado no Charapucu
no ventre da lenda da primeira noite do mundo
que nem dentro do negrume dum caroço de tucumã
seu Raymundo de Moraes, homem do Pacoval 
nos mostre o caminho imaginário da Terra sem mal
Alfredo com medo dos olhos mortos de Eutanazio
refeito em vagalumes
fugindo pelos campos de Cachoeira a saber o segredo
do teso dos Bichos: hoje esta noite grande já é primeira manhã...
Içar a vela e aproar ao Cajuúna a fim de embarcar
o sumano Franklin piloto da canoa lendária até Caviana.

quisera eu quisera me transformar em ave guará...
caruana encantado da Caviana a fazer amanhecer
que nem o Farol da Caridade alumia a navegação 
pondo pescador a salvo da tenebrosa mundiação
da iracunda boiúna Maria Caninana
a escuridão avulta fantasmas do passado obscuro
banzeiro tamanho: a barca virou deixou de virar...
por causa deste menino que não sabe navegar
Nossa senhora vai dentro indiozinhos a remar
rema rema remador que estas águas são de amor...

o piloto Franklin tem nome de gringo só pra chatear
Franquilim para os parentes
está na cara que o cara é aruã desde sempre
na cidade grande o tapuio põe banca de advogado dativo
dum povo altivo que nunca se rendeu ao invasor
do qual é embaixador
caboco criador de caso, fazendeiro do ar dono de gado do vento
grande pescador tradicional de linha e rede social
conhece como ninguém antigos lugares secretos
de índios rebeldes, pretos de mocambo e desertores do regime.

O poeta Juraci jura que ele é boto que virou gente
disto eu não duvido: masporém desconfio também
o sumano é profeta descendente de caraíbas
por parte de seringueiro nordestino cujo destino
é inventar o Norte brasileiro por conta dos Tupinambá.

vou pra Caviana com estes dois super-heróis a paisana
descendentes de antigas tribos inimigas reconciliadas
em Mapuá por artes de Malazarte 
(ou seja, o mago payaçu Antônio Vieira)
me esconder da guarda-costa que vem perto da Contracosta
além disto há tantos perigos nesta ribeirinha vida
estirão do equador, Ilhas de Fora
ponta do Maguari, Bailique, Maracá, Cabo do Norte
a morte rondando pelo céu, terra e mar...
gente na lida fazendo e lutando pela própria vida
A Pororoca troando que nem um deus pagão de muita antiguidade
capitão Palheta também ele a tremer como vara verde
a tropa toda se borrando pegando-se com frei Bernardino
terço de Nossa senhora dos navegantes
missa e confissão dos pecados na madrugada...

quisera eu quisera ter a fé lírica do poeta-boto
que se não há de perder de vista o Farol da Caridade
certeza de Franquilim que a gente há de cruzar
o canal da Pororoca antes do primeiro dos três vagalhões
três pretinhos da Guiné fumando cachimbo de birra
surfando o banzeiro debaixo de pampeiro de vento e chuva
paresque zumbi da flotilha de caiaques do rei mandinga Abu Bakari
passagem da corrente equatorial marítima 
para as Guianas e a mágica ilha do Haiti nas Antilhas
meu medo é não saber a hora certa que dá maré de sigízia
pra travessia entre a noite grande e o grande dia.

Zeus é grande mas o Mar-Oceano é maior
viajar é preciso viver não é preciso já dizia o tal Pessoa...
quisera eu quisera me gerar em caruana e restar na Caviana
deixar o capitão Palheta com a tropa passar em frente
ir furtar o café Caiena e voltar sem jamais encontrar a gente
escondidos nesta ilha filha da Cobragrande.

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