A história de um ajuricaba do Marajó para o mundo.

lançamento da obra "História de um Juricaba", de Agostinho Batista, na Universidade da Maturidade (Universidade Federal do Tocantins), em Palmas, foto do autor com a diretora da UMA professora doutora Neila Osório.
HOMENAGEM DO CABOCO JOSÉ VARELLA AO CIDADÃO DO MUNDO AGOSTINHO BATISTA, FILHO DE MUANÁ, NA ILHA DO MARAJÓ.
Claro
que as raízes bandeirantes do Gigante estremecem só de ouvir
conversa como esta. Mas é preciso fazer saber que a era negreira da
“plantation” já passou. E que o apartheid entre o
morro e o asfalto, o sítio e o edifício de condomínio vai acabar.
Doravante só o futuro nos interessa e a agricultura orgânica
familiar será a salvação da lavoura. Inclusive em meio urbano e
periurbano o verde de hortas e pomares há de ocupar o arranha-céu.
Segurança alimentar integrada à saúde preventiva em primeiro lugar
na sociedade local autogestionária conectada a um milhão de aldeias
do vasto mundo.
Carece
chamar atenção da gente, por exemplo, para existência pacata até
agora da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica
(OTCA), com sua sede na “ilha” de Brasília – ao pé do
monumento natural das Águas Emendadas, que poucos sabem onde se acha
e que é área-núcleo da Reserva da Biosfera do Cerrado,
fonte do São Francisco irrigando o Nordeste, do Paraná rumo ao
Prata e do Tocantins para a Amazônia – que precisa apressar seu
passo de cágado e trabalhar depressa ao maior sucesso do programa
multilateral da UNESCO “O Homem e a Biosfera” (MaB), no
âmbito dos países amazônicos, dando efetivo cumprimento da missão
desta agência da ONU em relação à aliança estratégica que deve
se aperfeiçoar entre Ciência e Conhecimento Tradicional.
Desta
maneira resoluta, seja na luta pelo desenvolvimento sustentável a
Amazônia brasileira referência mundial junto ao supracitado MaB.
Por que não? O que falta é provar, socioambiental e economicamente,
que conservação do meio ambiente é bom para as pessoas que vivem
em comunidades locais, para as regiões periféricas escapar da
ilusão do subdesenvolvimento. Bom para país e para todo mundo
esgotado e consumido de tantas guerras de conquista para suportar o
insustentável consumo mundial.
Há
que se sair do discurso para a prática. Cair fora da pajelança do
marquetingue alienante ou da doutrina fossilizada para poder entrar,
de fato, no negócio da mudança de vida sem precisar trocar de lugar
e migrar a terras distantes. Como outrora nossos antepassados
indígenas da mítica Terra sem males ou estrangeiros
assombrados pelo mito do El Dorado.
Enfim,
o paraíso terreno (terra sem males sonhada por cada um de nós, pela
qual matamos e morremos todos os dias) é aqui e agora!... É preciso
ver o peso da vida para dar mais valor a nossos dias.
Quero
dizer o seguinte, é preciso dar as mãos e metê-las à obra a fim
de cultivar nosso jardim e prevenir os males desta vida. Inaugurar o
terceiro milênio sem bilhete nem foguete de propaganda. Andar pelas
margens da História descolonizando povos mato adentro. Assim, como
quem toma mingau quente pelas bordas, a gente ribeirinha da
modernidade haverá de empoderar-se da cidade sem, na verdade,
precisar deixar o campo ao abandono.
Fazendo
o possível, no próprio lugar em que vive, quando menos pensar a
velha guarda da academia da maré terá tomado pé da realidade e
feito o impossível em rede nacional e internacional da terceira
idade. Quem viver verá? Creio que sim.
A
Amazônia é nossa riqueza na grandeza dos oito países do Tratado
de Cooperação Amazônica (TCA) – Bolívia, Brasil, Colômbia,
Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, mais a região francesa
da Guiana – , os Países Amazônicos, florão verde e azul da
América do Sul e Caribe. Coração pulsante do planeta Água.
Amazonizar
é preciso: ocupar regiões amazônicas, de qualquer jeito, não é
preciso nem direito. O povo carece saber, perfeitamente, que são
sete os estados amazônicos brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas,
Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. À Amazônia Legal
somam-se ainda Mato Grosso (Centro-Oeste) e, parcialmente, o
Maranhão (Nordeste).
O Plano
Amazônia Sustentável (PAS),
do governo federal, o qual não se ouviu mais falar considerava o
estado do Maranhão parte integral da Amazônia. A ver como, só pela
cúpula não se sustentam planos ainda os mais brilhantes que sejam,
se a gente não os habitar e pilotar desde as bases.
O conceito
de Amazônia Legal decorre da necessidade de planejar o
desenvolvimento econômico e socioambiental da região além do bioma
de floresta úmida. A Amazônia Legal corresponde a 59% do território
brasileiro perfazendo 5 milhões de quilômetros quadrados com 25
milhões de habitantes, residem nela 56% da população indígena do
Brasil, fazendo da região o coração da ancestralidade do bravo
povo brasileiro. Ou seja, espaço natural e paisagem cultural da
amazonidade em causa.
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Dito
isto, gostaria de possuir a singeleza e profundidade de sentimento
deste cidadão do mundo, brasileiro nato, nativo marajoara
descendente dos briosos nheengaíbas de outrora; o caboco
Agostinho Quirino Batista, poeta seringueiro e compositor
popular de ritmos da tradicional cultura do Pará, para o apresentar
a todo Brasil. Um legítimo representante da Criaturada grande de
Dalcídio Jurandir que abrilhanta a universidade da maré, na
Academia do Peixe Frito.
Agostinho
conquistou lugar ao
sol
na tradicional escola de Retóricos
de vilas e povoados da nossa velha e querida Amazônia. Onde,
outrora, a mocidade sossegada aprendia com os mais velhos a história
oral com a elegante “arte de vender o peixe” em longas conversas
de compadre. Eram rábulas de aldeia sabendo ler e escrever,
mestres-escola, que socializavam notícias de jornal, leitura de
livros clássicos, comentários da Biblia; propaganda a modo da
escola Peripatética de Aristóteles.
A
bom circular em meio ao povo pelo mercado, trapiche público, igreja,
prefeitura, câmara de vereadores, etc. Causando admiração entre as
pessoas e inveja aos iletrados. Ao que falava errado o retórico
corrigia na hora (sem sempre com bons modos), o mesmo para quem
escrevia mal. Uma pletora de “causos” acerca de problemas que uma
simples colocação de vírgula pode causar. E outros. Por exemplo,
um compadre que não sabia escrever pede à filha, malmente
alfabetizada, que faça bilhete a outro compadre no Alto Amazonas lhe
pedindo a graça de mandar pelo próximo navio: “1
o 2” macacos de cheiro. E o espanto do pobre ao receber,
sem falta, uma macacada com cento e dois bichos.... Quando, na
verdade, ele queria apenas “um ou dois” macaquinhos... Daí o
cuidado do retórico em falar e escrever bem. E a importância, acima
de tudo, dos velhos retóricos do lugar a fim de ensinar um discurso
claro e certo para o melhor entendimento entre as pessoas.
Para
mim é uma alegria e grande honra compartilhar estas modestas linhas
com Mestre Agostinho. O texto está destinado a se juntar a muitos
outros que nestes últimos anos tentam despertar a consciência da
sociedade brasileira a respeito do envelhecimento crescente da
população nacional e mundial, entretanto contempla o saber dos
idosos nas comunidades tradicionais amazônicas: retóricos,
também eles, de outros saberes.
Sem
deixar de olhar ao fenômeno global que precisa ser encarado com
tranquilidade, mas com responsabilidade. A velhice não é um fardo,
muito menos o fim da vida. Na verdade precisa ser compreendida como
um mérito individual e triunfo da coletividade que, pouco a pouco,
vai lutando para transformar
o mito da “eterna juventude” em objeto de pesquisa científica e
direito humano a uma vida melhor e mais digna.
Os
antepassados indígenas fizeram o “tour” do Brasil à
procura da Terra sem males. Ou seja, um lugar onde não existe
fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte. Esta busca está
na alma de cada ser humano e cada povo de diferentes modos. Muitas
vezes uma pessoa precisa só de um motivo para migrar como ave de
arribação. Na modernidade o que era apenas um mito torna-se objeto
de política, o paraíso terreno não mais procurado no espaço mas
no tempo através da Ciência e Tecnologia.
O
que é a missão da FAO, por exemplo, sobre a agricultura e segurança
alimentar no mundo de sete bilhões de habitantes? Onde, no Brasil, o
programa Fome Zero acabou elegendo seu formulador, Dr. José Graziano
da Silva, a diretor-geral da agência especializada do sistema ONU. A
medicina moderna, notadamente com a pesquisa imunológica e vacinas
cada vez mais eficazes vão evitando grande número de doenças. A
ciência aplicada a retardar
o envelhimento e a educação de terceira idade são responsáveis
pelos alentos antigos para enfrentar o medo da velhice e a fatalidade
da morte, graças a novas percepções sobre a vida em seus amplos
aspectos e a espiritualidade sobre bases religiosas ou filosóficas
afinadas à realidade do ser, colocam o Homem num patamar vitorioso.
Então, nós podemos dizer com os antigos filosofantes da Maiêutica
socrática, que há em cada ser humano as
respostas necessárias aos problemas da vida e da morte. E, com os
hindus, há auroras que ainda não brilharam.
No
entanto, o mundo contemporâneo assiste, apavorado, a um desastre
civilizacional. A chamada crise já não se refere apenas a uma
economia nacional, a um sistema ou à uma determinada sociedade
industrial ou tradicional à beira da extinção como certas espécies
da flora e da fauna. Desta vez, o planeta está em risco e mais que o
planeta a espécie humana. As soluções, todavia, não parecem tão
distantes em dimensões mirabolantes. A perguntas, talvez, até agora
não foram corretamente formuladas para dar o parto das ideias
libertadoras. Quantas vezes será preciso dizer que, muitas vezes, as
soluções mais simples são mais efetivas que coisas faraônicas e
mais custosas?
Quanto
mais longevas as pessoas forem na sociedade, mais haverá
oportunidade de acumular experiência de vida e há de pesar o saber
das pessoas idosas nas políticas públicas e nas obrigações dos
Direitos Humanos para todas idades.
Sobretudo, nos
distantes rincões da pátria onde ainda se guardam raízes de nossa
ancestralidade multifacetada e dispersa a par do conhecimento prático
da Biodiversidade. Esta velha gente, mais que na preservação do
passado, deve aplicar-se ao
presente na construção de
um mundo mais justo, seguro e solidário. Onde novas gerações se
reconheçam membros da grande família chamada Humanidade e
habitantes de um único
planeta. E, todavia, não se deixar enganar por velhas ou novas
histórias que perdem a memória dos lugares e dos acontecimentos
terminando por desenraizar e
desterrar a gente.
Belém
do Pará, 3 de dezembro de
2013.
José
Varella Pereira
...........................................................................
O
ESTADO ANTECEDEU A SOCIEDADE NA AMAZÔNIA: 400 ANOS
APÓS
A SOCIEDADE EMPODERA-SE DO ESTADO NA AMAZÔNIA.
O
estado colonial português precedeu a sociedade colonial na Amazônia
e esta última, depois da revolução de 1930, foi substituída pela
sociedade republicana tardia que hoje vai se democratizando sob a
Constituição-Cidadã de 1988.
Todavia,
é claro que existiram milhares de sociedades indígenas na Amazônia
antes da Colonização sob domínio de monaquias europeias. Cada
comunidade com sua etnia, língua e cultura diferente das outras
conforme usos e costumes particulares, no espaço ocupado, há pelo
menos cinco mil anos, de dispersão pelas margens dos rios, lagos e
igarapés com as suas várzeas e campos alagados, que se comunicam
entre si por furos e varadouros.
A
este vasto mundo, mais populoso do que os países de seus
colonizadores, o célebre Padre Antônio Vieira chamou de “rio
Babel” conforme ensina José Ribamar Bessa Freirei
entre outros historiadores da Amazônia. Era também o rio das
“Almazonas” como o “payaçu
dos índios”
queria expressar sua ambição de catequese e conquista das almas
indígenas supostamente ingênuas. A evangelização dos índios do
Brasil contou cedo com a Companhia de Jesus, desde 1549, com colégio
em Salvador. Chefiados por Manuel da Nobrega eram seis jesuítas
vindos na armada de Tomé de Sousa. Duzentos anos depois, centenas de
jesuítas estavam em confronto direto com o estado colonial português
e seus confrades em todo restante da América Latina com os índios
das missões formavam um estado teocrático dentro das respectivas
monarquias.
Adeptos
da escolástica aristotélica, entraram em conflito com a própria
direção igreja católica sacudida pela crise da venda das
Indulgências e que deu motivo à Reforma protestante. Colocada na
vanguarda da Contra-Reforma a Companhia de Jesus, muitas vezes,
recebeu oposição de outras ordens religiosas tais como dos
dominicanos. Isto se verificou na Amazônia, onde o bispo Dom Miguel
de Bulhões, da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) chegado a Belém
do Pará em 1749, a começo confia o Seminário de Nossa Senhora das
Missões ao jesuíta italiano Gabriel Malagrida e depois se tornou
aliado do Marquês de Pombal na expulsão e extinção da Companhia
de Jesus.
A
execução do Tratado de Madri de 1750 foi o pomo de discórdia entre
as monarquias ibéricas e os jesuítas os quais tendo, até então, a
tutela legal dos índios foram acusados de se opor e sabotar as
demarcações implicando remoção dos Sete Povos das Missões, na
fronteira meridional, e na Amazônia negar abastecimento e mão de
obra índigena para o serviço demarcatório ao qual o próprio irmão
do poderoso Marquês de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça
Furtado, com título de Capitão-Geral, Governador e Dermarcador,
fora nomeado. No início, Pombal havia demonstrado hostilidade a
Alexandre de Gusmão por considerar que o tratado era desvantajoso às
pretensões de Portugal.
Mas,
desde que Mendonça Furtado transferiu a capital de São Luís para
Belém a fim de ficar menos distante da fronteira, passando o antigo
estado a chamar-se do Grão-Pará e Maranhão (1751), o governo
português contratou técnicos na Alemanha e Itália e priorizou a
demarcação. Mendonça Furtado deixou a capital, em maio de 1753, e
subiu o rio Amazonas com a expedição demarcadora indo construir no
Rio Negro o Palácio dos Demarcadores. Apesar das visíveis carências
da colônia, a ordem de Lisboa era impressionar os demarcadores
espanhóis com receio de que estes penetrando a vastidaão da posse
portuguesa fossem tentados a invadir a fronteira. Entretanto, debalde
Mendonça Furtado esperou pelo demarcador espanhol, que impressionado
pela exuberância da Amazônia venezuelana se deixou ficar no caminho
a estudar a natureza e reforçar o povoamento, talvez com a mesmas
preocupações para evitar a ambição dos português já comprovada
diversas vezes.
Com
a subida do governador Mendonça Furtado para Barcelos, transformada
da aldeia Mariuá, no Rio Negro, o governo de Lisboa manda o bispo
Dom Miguel de Bulhões assumir o governo do Estado do Grão-Pará e
Maranhão pelo tempo que Mendonça Furtado estiver na fronteira. O
terremoto de Lisboa, em 1755, iria ser como a gota d'água para o
rompimento entre os Jesuítas e o governo do Marquês de Pombal,
Malagrida que já se encontrava em Portugal, diz em sermão que o
sismo fora castigo de Deus para os crimes de El-Rei e seu
primeiro-ministro contra os Távoras, cristãos-velhos aliados à
Companhia de Jesus. Pombal não trepida em mandar prender e torturar
o já idoso padre.
O
bispo dominicano e vice-governador do Pará, não hesita em se
colocar contra os Jesuítas colaborando para a expulsão da Compania
dos domínios portugueses. Em 19 de janeiro de 1759 – cem anos após
a pacificação dos Nheengaíbas pelo Padre Antônio Vieira – Dom
José I decreta o sequestro dos bens da Companhia de Jesus. Em
fevereiro do mesmo ano, Dom Miguel de Bulhões tomou posse do cargo
de Visitador e Reformador dos Jesuítas (uma função do Santo
Ofício): no dia 3 de setembro de 1749, o Jesuítas foram expulsos de
Portugal e seus domínios ultramarinos, levando ao encerramento das
missões e decadência das aldeias. No dia 12 de setembro de 1760,
Dom Frei Miguel de Bulhões e Sousa, eleito bispo de Leiria, deixa o
Pará: viaja no mesmo navio onde iam os jesuítas expulsos a ser
encarcerados no forte de São Julião da Barra. Entre estes, o padre
João Daniel que viria morrer na prisão e burlando pertinaz
vigilância de seu carcereiro conseguiu legar à posteridade a obra,
toda escrita de memória, o “Tesouro
descoberto
no máximo rio
Amazonas”.
Enquanto isto, a Europa iluminista que havia saudado no começo o
Diretório de Pombal horrorizava-se com as notícias da perseguição
aos jesuítas, notadamente o espetáculo dantesco da execução de
Malagrida na fogueira da Inquisição.
Mas,
na Amazônia a religião dos Tupinambás viria a sofrer tenaz
perseguição com os frades franceses declarando o espírito Jurupari
como personificação do próprio Diabo cristão vindo à América
arruinar a obra de Cristo, desde que o protestante Daniel de La
Touche, senhor de La Ravarière, foi obrigado a trazer ao Maranhão
padres católicos para fundar a França
Equinocial.
No Maranhão viviam os Tupinambás na aldeia de Upaon-Açu
em número entre 200 até 600 índios, segundo cronistas franceses,
entre estes religiosos frei Claude d'Abbeville. Este capuchinho
francês, em 1612,
participou da invasão francesa ao Maranhão. Ele ficou apenas quatro
meses, mas levantou grande quantidade de informações publicadas na
obra: “História
da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras
Circunvizinhas”,
publicada em 1614.
La Ravardière veio com cerca de 500 homens recrutados nas cidades
francesas de Cancale e Saint-Malo em 1612.
Responsável
pelos contatos entre índios e o senhor feudal de La Ravardière, o
aventureiro Charles des Vaux trouxe o colonizador francês ao Pará e
subiu o Tocantins com ele à frente de uma expedição, quando
através do Caminho
do Maranhão,
frequentado pelos índios há muito tempo, entre a costa do Salgado e
as margens do rio Guamá, chegou a notícia do ataque dos portugueses
a São Luís, prestes acontecer. Partiram os franceses a toda pressa
para o Maranhão.
O choque entre franceses e
portugueses sucedeu em novembro de 1614, quando os últimos venceram
os primeiros na batalha de Guaxenduba, na baía de São José. Em
1615, a tropa de Pernambuco comandada por Alexandre de Moura expulsou
os franceses e Jerônimo de Albuquerque foi escolhido para governar.
Daniel de La Touche foi feito refém em São Luís e o capitão-mor
do Rio Grande do Norte, Francisco Caldeira de Castelo Branco mandado
fundar uma fortaleza no Pará com o piloto francês Charles des Vaux,
que conhecia a região e falava a língua dos tupinambás, para
intermediar o acordo que resultou na fundação de Belém do Pará,
em 12 de janeiro de 1616.
Não tardou, todavia, para os
portugueses abusar e escravizar índios e o conflito estalar entre os
novos ocupantes e os tupinambás do Maranhão e Grão-Pará. No dia 7
de janeiro de 1619, o cacique Guaimiaba (Cabelo de Velha) comandou
ataque dos tupinambás ao forte do Presépio e morreu já sobre os
muros da fortaleza. Sem comando os índios se dispersaram, foram
perseguidos e massacrados pela guarnição portuguesa. No Maranhão,
enganados por um certo Simão Estácio da Silveiraii
casais dos Açores chegados em São Luís em 1620 para plantação de
cana e produção de açúcar e aguardente, por sua vez capturam
índios para ser usados mão de obra escrava na lavoura. Contra tal
estado de coisas e particularmente para vingar-se de ofensa cometida
pelos filhos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque, que lhe
roubaram uma arma de guerra e a mulher mais nova; o cacique e pajé
da aldeia de Cumã, Pacamão; liderou um levante onde muitos colonos
foram massacrados. A represália dos portugueses foi duríssima.
Forças comandadas desde São Luís por Bento Maciel Parente e de
Belém do Pará por Pedro Teixeira fecharam os índios no rio Gurupi,
divisão do Pará com o Maranhão; onde mataram e capturaram grande
número de índios rebeldes.
Nossas
sociedades pré-coloniais amazônicas, feitas por povos originais da
região, formaram cacicados que – à luz da atualidade – podem
ser consideradas como comunidades locais autônomas a partir do
neolítico. O relato de frei Gaspar de Carvajal (1542) sobre a
jornada de Orellana desmonstra existência de diversos cacicados
auto-sustentados ao longo do rio das Amazonas até o arquipélago do
Marajó junto a foz. Enquanto a numerosa expedição de Gonzalo
Pizarro para conquista do “país da canela” (Amazônia
equatoriana) tinha se tornado um pesadelo; vencida pelo
desconhecimento do terreno, violência contra os índios e sua
consequente fuga para a selva, o desânimo e a fome absoluta levando
a muitas mortes dos conquistadores espanhóis do Peru. O assalto a
aldeias ao longo do rio para roubar comida dos índios se tornou
então, para Orellana e seus companheiros, um caso de vida ou morte:
foi assim que os desertores do acampamento real de Gonzalo Pizarro
“descobriram” o rio Amazonas e sofreram ataques de represália
forjando a estória das mulheres guerreiras (tais quais as amazonas
da lenda da Capadócia) para inventar o alibi para escapar da forca
por crime de roubo dos dois bergantins e deserção cometido.
Depois
destes bárbaros amazônidas ter se cristianizados no grande
Cativeiro que a região conquistada se transformou e feito a adesão
à independência do império do Brasil, com referência da Vila de
Muaná, na ilha do Marajó, em 28 de maio de 1823; resultou a criação
de diversos municípios emergentes da histórica conquista do “rio
Babel” e da utopia evangelizadora do “payaçu dos índios”
(Padre Antônio Vieira), pacificador dos índios (notadamente, os
“ferozes” índios guerreilheiros da “Ilha dos Nheengaíbas”
[Marajó], em 27 de agosto de 1659, dando termo a 44 anos de guerra
desde a tomada do Maranhão).
O
primeiro cacicado da Amazônia surgiu cerca do ano 400 da era cristã,
nos entornos do lago Arari, na ilha do Marajóiii.
O sítio ou teso (aterro) arqueológico Pacoval, no igarapé do
Severino, que deságua na “boca do Lago”, é testemunho deste
passado milenar ora esquecido ou totalmente desconhecido do povo
brasileiro. Hoje quase totalmente saqueado e destruído para extrair
peças e coleções que se acham no Museu Nacional, no Rio de
Janeiro; e Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém do Pará; assim
que museus estrangeiros como o Museu do Quai de Branly, em
Paris, por exemplo; foi achado em 20 de novembro de 1756 pelo
fundador da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do
rio Arari (1747), Florentino da Silveira Fradeiv.
Com
alguns fragmentos de cerâmica pré-colombiana, chamados vulgarmente
“cacos de índio”, coletados entre restos do saque do teso
Pacoval e outros sítios arqueológicos achados em igual situação,
pescadores e vaqueiros ao perambular pelos campos e beiras do rio em
busca do peixe ou da caça – mal vistos pelo fazendeiros e
geralmente acusados de roubo de gado – deram esplêndida
contribuição ao padre da paróquia de Santa Cruz do Arari (antiga
fazenda confiscada aos jesuítas pelo Marquês de Pombal) para ser
doada aos Contempladosv,
Giovanni Gallo, para feitura do Museu do Marajó, em 1972.
Este
museu comunitário foi transferido de Santa Cruz do Arari para a
cidade de Cachoeira do Arari, em 1981, organizado espontaneamente mas
com extraordinária criatividade, pode ser considerado talvez como o
primeiro ecomuseu brasileiro. Constitui uma verdadeira odisseia onde
um padre visionário acabou sendo intérprete e porta-voz de
amnesiados remanescentes da primitiva sociedade marajoara, conforme
pode-se ler no livro-reportagem “Marajó, a ditadura da água”,
“Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara” e “O
homem que implodiu”, de autoria de Giovanni Gallovi.
Muitos
destes antigos cacicados, já esboçando sociedade de classes e
elementar organização de estado com seus caciques e grupos
parentais dominadores da gente em geral, localizados em aldeias
sedentárias ou semi-sedentárias dispondo de território tradicional
de caça, pesca coleta e roças, tendo sobrevivido à conquista do
“rio das Amazonas” e colonização da Tapuirama; acabaram
dando lugar a aldeias tuteladas por missão religiosa (governadas por
franciscanos, jesuítas, mercedários e carmelitas) que, na segunda
metade do século XVIII, foram transformadas em vilas e lugares sob o
regime do Diretório dos Índiosvii
(1757-1798).
Entretanto,
do ponto de vista historiográfico oficial o “jovem país”
Brasil, descoberto por Pedro Álvares Cabral em 1500, faz tabula
rasa do longo passado do povo brasileiro desde suas raízes
indígenas. E a razão da amazonidade é levantar evidências da
ancestralidade brasílica no arquipélago dos Brasis. Onde a Tapuya
tetama ou Tapuirama (terra dos Tapuias), pela
convergência de antigas migrações de norte a sul e de sul a norte;
se tornou com a criação do Estado-colônia do Maranhão e
Grão-Pará, em 1621, a Amazônia brasileira, depois da adesão à
Independência do Brasil, em 1823.
Então,
o estado de que se trata nesta região chegou pré-fabricado na
Europa desde as postulações do tratado de Tordesilhas (1494), com
as primeiras tentativas de ocupação do território amazônico pelos
espanhóis com Francisco Orellana, de volta ao “rio das Amazonas”,
em 1544, para fundar a Nova Andaluzia (Amapá e Marajó)
quando ele desapareceu no Pará sem conseguir mais achar passagem
para dentro do rio Amazonas. Nos fins do século XVII mercadores
holandeses em camaradagem com os índios penetraram o Amazonas e o
Xingu praticando escambo. A estes, geralmente chamados de Hereges
(protestantes) se juntaram ingleses, escocesses e irlandeses apoiados
por Companhias comerciais adversárias da União Ibérica
(1580-1640). Porém foram expulsos da região pela união de
portugueses e tupinambás (1623-1647).
Já
o “cunhadismo” pelo enlace do cristão-novo marroquino Martim
Soares Moreno e a índia Paraguassu, filha do murubixaba Jacuúna,
havia atraído os Tupinambás de Jaguaribe (Ceará) para o lado dos
portugueses. Assim, seus parentes maranhenses fizeram corpo mole
quanto começou a tomada do Maranhão (1615) aos franceses. Estamos
dizendo que sem a nação Tupinambá não poderiam sozinhos os
portugueses inferiorizados econômica e politicamente dentro da União
Ibérica frente aos espanhóis sempre adversários, conquistar e
ocupar o ambicionado rio das Amazonas.
Tampouco
sem arcos e temos tupinambás o capitão Pedro Teixeira não teria
conseguido realizar a extraordinaria viagem, de Belém a Quito
(Equador), entre 1637 e 1639, ida e volta. Precisaria localizar e
refazer a Casa das Canoasviii
para a sociedade compreender o processo histórico da redução da
diversidade cultural do “rio Babel” na conformidade da região
Norte atual. E como esta drástica redução deu começo a devastação
da Floresta Amazônica que dizimou também sua biodiversidade.
A
massagada tapuia, catequizada nas aldeias das Missões, passou pronta
para ser o lumpem-proletariado da cabocada saída do Diretório dos
Índios. Mas o grande choque, a formidável agitação, com que cada
tribo dispersa nos confins – filhos dos nheengaíbas e ajuricabas
da pátria grande – concorre para engrossar a corrente humana da
emancipação dos povos, cada escravo isolado nas senzalas rompe
cadeias para se encontrar com seus semelhantes e até mesmo
indesejáveis da civilização, deportados e degredados da Europa se
irmanam com massa marginália, aconteceu entre os anos de 1835 a 1840
com a revolução amazônica chamada Cabanagem: seu custo exorbitante
de um genocídio feriu a consciência da amazonidade e pesa até hoje
na memória do Império brasileiro somente amenizada pelo progresso
da Democracia em sua lenta e sofrida evolução. Empoderar-se da
História da libertação das Índias e conquistar o mundo: eis o que
impele a criaturada ao longo do tempo e do espaço.
E,
portanto, com a revolução de 1930, vagamente depois da derrota dos
Cabanos, esta gente começou a se reencontrar consigo mesma. E a se
identificar por acaso com personagens do romance aquaviário de
Dalcídio Jurandir. A contra-cultura lançada por Bruno de Menezes na
revista Belém Nova e a Academia do Peixe Frito fazendo
bonito, na feira do Ver O Peso, o que era feio, malvisto, mal
afamado, fora da etiqueta social... Foi então aí nessa revirada,
fazendo eco da Semana de Arte Moderna de 1922 no Norte; que cronista
Eneida de Moraes cunhou a frase “Criaturada grande de Dalcídio”
para significar o mundão de gente sem eira nem beira vivendo à
margem da História.
Até
aí, então, a criaturada fez um longo percurso. O estado absolutista
ibérico, que gerou o Estado do Maranhão e Grão-Pará, precedeu a
sociedade amazônica emergente que, a duras penas, desde os primeiros
choques entre índios e colonos eclodiu na Cabanagem e resistiu ao
tempo para, desde 1988, retomar a luta já no campo político da
Cidadania.
Agora,
na antevéspera dos 400 anos de fundação de Belém do Pará, do
Norte brasileiro deve-se elevar o grito e partir a marcha da
ecocivilização do maior país amazônico da Terra, o Brasil:
outrora, país do futuro e agora esperança de um mundo seguro,
fraterno, feliz e multicultural. Mas a Amazônia não é nem será
jamais “celeiro do mundo” nem “almoxarifado da nação”. Ela
é berço da Cultura Marajoara de 1500 anos de idade, a primeira
sociedade complexa da Amazônia e matriz da arte primeva do Brasil. A
Amazônia somos nós, ela fala por nossa voz. Os que aqui nascemos,
vivemos e um dia morreremos nela e por ela se preciso for.
Quem,
porém, poderia dar prontamente o amazônico recado ao bravo povo
brasileiro para o Brasil vir a ser portador da esperança de um novo
mundo ao mundo inteiro, onde o orgânico em grande escala há de
prevaler e ter mais valor que tudo mais enquanto artificial e
quimérico?
Uma
Terra sem males, velha utopia do Bom Selvagem,
afinal por necessidade e acaso diretriz ideal do planejamento
universal da humanidade moderna, gestada antigamente no Paraguai
pré-colombiano e aculturada na Amazônia pré-colonial através da
contradição das migrações em busca do paraíso.
Migrações
que até hoje continuam, sem se saber por quê exatamente, na
perseguição da sorte e maldição dos garimpos, contrabando e
outros males infinitos: projeto e construção de um novo mundo
sem fome, sem trabalho escravo, sem doenças, sem velhice e sem
mortes.
Contra
o patrimonialismo ibérico, contra o pragmatismo anglo-saxão, contra
o elitismo herdado dos faraós alma mater de todos apartheids.
O sonho Tupinambá imortal que, como todo mundo devia saber, visitou
o velho mundo levando embaixada lá fora exportando a a sugestão da
Revolução Francesa de 1789, segundo Montaigne e Rousseau. Índios
da América do Sul ensinando civilizados na Europa a fazer revolução:
como se não bastasse o ouro e a prata extraída das minas com
trabalho escravo para acumulação primitiva da Revolução
Industrial.
E
aí?... Quem vai pendurar o guiso no pescoço do gato? Por acaso
crianças exploradas em sua inocência e pobreza, atacadas pelas
piores explorações do homem pelo homem, poderiam se incubir desta
grave missão se elas, muitas vezes, nem tem escola nem o que comer?
Jovens desorientados pelo vício das drogas, o consumismo desvairado,
a alienação e hipocrisia dos adultos quando são atacados
miseravelmente em seus instintos naturais e anseios existenciais,
explorados em suas vulnerabilidades sociais e políticas, seriam
estes os melhores embaixadores da tal mudança de paradigma?
Ou
ainda os jovens serão soldados e guardas da “última fronteira da
Terra”? Serão eles suficientes para defender esta Amazônia dos
melhores sonhos do mundo enquanto corpos militares recrutados nas
mais distantes regiões do País? Recrutas adventícios a ser jogados
à selva das fronteiras, tão somente com armas à mão contra a
devastação e a cobiça estrangeira ao mesmo tempo?
Eu
acredito que sim, é preciso vigilância e defesa das fronteiras no
mundo dito “sem fronteiras”. Limites territoriais feitos antes
para dividir e separar, agora servem para aproximar e integrar.
Todavia, não sejamos ingênuos: a Ciência não tem pátria, mas os
cientistas tem...
Do
mesmo modo, a Diplomacia em geral luta para evitar as guerras, mas
diplomatas e estadistas não arredam pé dos objetivos supremos de
seus países, nem sempre coincidentes para o bem de todos.
Portanto,
sem querer ser mais realista que o rei; não acredito que se possa
abrir mão da soberania nacional enquanto houver no mundo
imperialismo sob qualquer forma, inclusive o imperialismo tupiniquim
de nossa elite saudosa de velhos tempos do Império do Brazil, Dom
Pedro II, com seu manto imperial revestido de plumas de papo de
tucano, por exemplo, hoje teria cometido crime ambiental
inafiançável. Já imaginaram o que isto significa em termos de
mudança de paradigma de consumo?
Apesar
da democracia popular ou populista, para alguns; aparecer com vigor
aos clarões da América, não acreditamos também que os
países-irmãos estejam prontos a deixar usos e costumes de caudilhos
das suas classes dirigentes, indecisos ainda em inventar uma nova
América feita à imagem e semelhança da velha Europa ou a descobrir
a originalidade e antiguidade deste solo para, daí, desenhar um
futuro melhor para todos no seio da pátria grande latino-americana
como reza nossa Constituição.
Para
conservar, então, o patrimônio das regiões amazônicas é
indispensável preservar o saber tradicional das comunidades
amazônidas: para isto velhos e velhas das localidades devem ser
reconhecidos e considerados como esteios das respectivas
nacionalidades dos países amazônicos a par da Biodiversidade como
direito natural da terra.
Ou,
por acaso, não é ou deve ser assim também no resto do mundo? Cá
na antiga terra dos Tapuias, a Criaturada grande formada por índios,
quilombolas e cabocos deve estar em primeiro lugar no conjunto das
políticas públicas de proteção do patrimônio nacional e de
desenvolvimento humano sustentável. Em nossa sociedade, facilmente
manipulável pela longa dominação colonial de corações e mentes,
há muitos que confundem ONU com Ong e que colocam todas organizações
não-governamentais sob suspeição.
Mas
uma coisa é uma coisa e cada coisa é cada coisa. Para assistir as
notícias é preciso saber o enredo da informação. Mesmo a Santa Sé
passa hoje por maus pedaços que não são de agora exatamente, mas a
transparência dos meios de comunicação está deixando expostos. Já
foi dito que a guerra é um assunto sério demais para ficar nas mãos
dos generais. Portanto, pode-se dizer também que os interesses
nacionais são demais sérios para ficar exclusivamente em mãos dos
políticos. Como a reforma da ONU não pode ficar num círculo
fechado entre estadistas de primeiro mundo.
E
já se deveria saber que a guerra é negócio de homem, logo a paz
deve ser assunto de mulher: são elas que sabem quantas mães ficam
sem seus filhos, mortos em combates ou bombardeios estúpidos, por
engano, em ataques de alta precisão militar ou não. Quantas viúvas
choram a perda de seus companheiros que deixam famílias inteiras ao
desamparo. Mas há uma outra guerra, não declarada, onde jovens,
velhos e crianças perdem a vida no trânsito caótico de cidades
desumanas. As vítimas desta guerra invisível somam mais que as de
guerras conhecidas. E o número de suicídios é alarmante, sobretudo
nas sociedades industriais desenvolvidas e classes abastadas onde o
consumo de drogas lícitas e ilícitas faz girar a roda da fortuna ou
infortúnio. Em contraste a isto, a violência nas favelas e na zona
rural onde pobres lutam pela vida e matam seus semelhantes a troco de
“trinta dinheiros”...
Esta
é a questão: tupi ou não tupi... Ser ou não ser verdadeiro
cidadão brasileiro, lutador de um país mais justo, generoso e
seguro para todos. Cá no Norte, não demasiadamente tupi a ponto de
perder a noção de tempo e lugar sobre ser esta terra Tapuia antes
que tudo. Pois a coisa já foi além do tolerável. Urge amazonizar
os brasileiros e naturalizar estrangeiros, a exemplo de Ermano
Stradelli, Curt Niemandeju, Koch-Grunberg, Giovanni Gallo e tantos
outros gringos que nasceram em diferentes partes do vasto mundo, mas
naturalizando-se pela Amazônia escolheram ser mais brasileiros que
muitos nacionais de cuíca e tamborim na mão só pra inglês ver.
Digo
mais, o Brasil brasileiro que nossa pan-Amazônia encerra na antiga
terra dos tapuias; ainda poderá impulsionar mais depressa a
integração da Pátria grande latino-americana, do que todas
convenções comerciais e normas de mercado regional traçadas pelo
alto das nuvens das mais nobres intenções interamericanas. Por que,
na verdade, a embalagem atrai a vista nas feiras e supermercados
porém é o conteúdo do produto que faz freguês no varejo. Assim
também o ajuricabano das comunidades integrando e conservando
a amazonidade pelas bases locais.
O
cerne desta coisa de eterna juventude no país tropical, abençoado
por Deus e bonito por natureza; que nem na velha e admirável Grécia
mãe da civilização ocidental, é o savoir faire das
sociedades de grande antiguidadeix,
no Brasil emergente neste século cheio de contradições; sua gente
idosa desafiadora do tempo, zeladora de antigos saberes.
Longe
de uma velhice assim ser peso morto da sociedade ela é, em
realidade, uma riqueza humana. Uma oportunidade para mais valia do
País, cada vez mais velho e mais feliz apesar de tudo. Que poderá
revelar todo seu valor humano através do programa federal do MEC
Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI), uma boa
iniciativa com potencial de vir a alcançar elevado patamar de
mobilização da sociedade através da Extensão universitária em
educação continuada.
A
Extensão universitária é a maneira mais inteligente do ensino
público superior devolver à nação os recursos gerais investidos
em Educação desde a alfabetização. Sobretudo quando as
universidades públicas se tornarem mais ousadas, criativas e
vanguardeiras – verdadeiramente abertas à comunidade de cidadãos
trabalhadores e pagadores de impostos, não mais apenas usinas de
diplomas sem emprego no mercado de trabalho formal e porta de entrada
a carreiras de pesquisadores sem compromisso social nem sempre
interessados, de verdade, com o Bem Comum – passando assim a
competir, estrategicamente, com o setor privado do mercado de
Educação à Distância.
Será
justo, então, que pessoas de classe média paguem pelos cursos em
EaD de universidades públicas da mesmas forma como fazem alunos da
rede privada. Todavia, idosos em geral matriculadas em cursos de
extensão e alunos de todas idades em cursos de graduação e
pós-graduação, compravada nestes últimos casos falta de emprego e
renda, devem ser isentos de pagamento de taxas e mensalidades a ser
tranferida às instituições prestadoras de serviço conveniadas à
universidade pública. A qual ficará sempre encarregada do controle
de qualidade, mediante aulas presenciais e exames parciais e final do
sistema, com direito a diploma ou certificado, conforme o caso.
Abram
os olhos e ouvidos sem preconceito os planejadores da Educação
Nacional e do Desenvolvimento Sustentável do país das palmeiras e
antiga terra dos tapuias. Não é brincadeira. Cuidado com os
velhinhos e velhinhas da nação! Eles ainda podem causar revolução
das melhores ou piores, conforme as circuntâncias, ao fazer a cabeça
de filhos e netos. Os idosos serão aliados ou adversários do
sistema dependendo da maneira como por este forem tratados.
Enquanto
país emergente, a sexta economia do mundo em marcha para ocupar o
quinto lugar nas próximas décadas, devemos nos perguntar o que é
que fica de fato para o povo brasileiro na distribuição do famoso
PIB? Qual foi a educação que as velhas gerações transmitiram às
novas gerações possibilitando a estas separar, de modo justo e
perfeito, o joio do trigo?
Com
franqueza, enquanto sociedade precisamos fazer o 'mea culpa'
quando se vê o que acontece, em plena democracia; com a maioria de
nossas crianças e com a juventude nos dias de hoje não apenas das
classes mais pobres, mas também entre ricos e famílias de classe
média. Não existem mais “ilhas” de fantasia e bairros ricos
como outrora a salvo da vingança das massas marginalizadas e da
crise da sociedade de consumo. O racismo e a xenofobia nos países de
primeiro mundo, que pareciam banidos com a carta da Nações Unidas e
a Declaração Universal dos Direitos Humanos, voltam a decepcionar o
mundo com a Civilização de modo geral. E o “ópio do povo”
arrebanha fiéis como nunca, mais uma variada gama de drogas naturais
e sintéticas giram milhões de usuários e de dólares nas redes de
narcotráfico que a criminalização mais parece promover do que
combater. A crise já não parece um surto passageiro de natureza
financeira ou econômica, mas estes aspectos figuram ser, na verdade,
a ponta do icebergue de uma crise civilizacional de longa duração.
As
periferias, então, poderiam ser como em um organismo afetado de
grave doença infeciosa, capazes de provocar a resiliência
necessaria para recuperar a vitalidade e saúde global? Oxalá que
sim! Não somos nós, cabocos da Amazônia subdesenvovida –
“periferia da Periferia” – , que dizemos isto mas analistas da
ONU que os países pobres continuarão a fazer girar a roda da
fortuna em favor dos ricos. E, se eles pararem de rodar abruptamente,
ninguém sabe o caos que poderia ser...
A
qualidade profissional de portadores de diploma de ensino superior,
com exceção de cursos mais recomendados, deixa muito a desejar. Os
edifícios custam os olhos da cara, porém a cultura geral entrou em
baixa e o domínio dos especialistas não compensa totalmente o
antigo bacharelismo que não sabia projetar automóveis e aviões,
mas possuia um certo sentido de mundo que já não se vê mais se não
entre alguns velhos intelectuais insubstituíveis que durante a
mocidade liam jornais e livros ou viajavam não só por dinheiro e
diversão. As viagens eram a escola de Rousseau e o flaneur de
Walter Benjamin havia muitos imitadores, que hoje não seduz o
turismo de massa ou as viagens de negócio. Os modernistas queriam
conhecer os sertões e visitar o reino das amazonas, enquanto hoje o
agronegócio passa o rolo compressor no interior para mandar tudo
para o exterior.
A
teoria do brasileiro cordial (de Sérgio Buarque de Holanda) foi a
nocaute pela violência não apenas que desceu os morros para o
asfalto, mas também no campo onde outrora reinava a paz armada de
jagunços entre a casa-grande e a senzala. Custa-nos reconhecer, mas
é a realidade, e a pergunta que não quer calar: que herança
deixaremos a nossos filhos e netos?
basta
prestar assistência social aos idosos das classes pobres da
sociedade, nem satisfazer as necessidades dos idosos de classe média.
A universidade brasileira também precisa refazer a mentalidade
iluminista na qual foi forjada para aprender com a vida da maturidade
tudo aquilo que ainda falta fazer para descobrir a felicidade em
qualquer parte ou situação de vida. Se a infância é a primavera e
a idade do paraíso – e por isto velhos e crianças se entendem bem
– a velhice é o outono a caminho do inverno com sua introspectiva
sabedoria. E o envelhecimento da população também quer dizer
alguma novidade à existência humana...
Com
certeza, o sangue de Chico Mendes derramando no impossível chão da
Floresta Amazônica sangrada e calcinada pelo antigo bandeirantismo
na febre de malária e ouro, hoje se faz florada e já começa a dar
copiosos frutos. E assim, o ouro ficou verde e a esperança
encarnada, no coração pulsante desta brava gente. A utopia duma
Terra sem males dos índios acaba sendo o chamado Desenvolvimento
Sustentável através do feliz casamento da Ciência com o
Conhecimento Tradicional como, por exemplo, aconteceu no Alto
Amazonas, lá no lago Mamirauá. Quem ouviu falar?
AJURICABANO:
integração
e empoderamento da Criaturada amazônida
Convém
explicar ao leitor ou leitora o neologismo “ajuricabano”.
A palavra nova no vocabulário histórico brasileiro nos remete ao
parto da amazônidade durante as lutas dos povos indígenas e seus
descendentes contra a escravidão e dominação estrangeira na
Amazônia, notadamente nos séculos XVIII com a federação dos
Manaus no Rio Negro, liderados por Ajuricaba; e no XIX na revolução
dos Cabanos, iniciada em Belém do Pará, que incendiou também o
Amazonas e terminando por engrossar mocambos (quilombos) do Baixo
Amazonas desde o Curuá acima, passando ao Cuminá e Trombetas até
ultrapassar a fronteira das Guianas para dentro da bacia do rio
Maroni, entre o Suriname e Guiana francesa.
Há
400 anos, os Tupinambás, depois de ocupar o litoral do Maranhão e
desalojar para o sertão os Timbiras, que moravam ali desde muito
tempo; como nos fala a memória de Tapuitapera
(“tapera tapuia”), aportuguesada para vila de Alcântara, hoje a
base espacial brasileira; convidaram corsário franceses para vir
morar com eles e os ajudar a conquistar a terra dos Tapuias que se
estendia além do Pará-Uaçu
(“grande mar” de água doce, que veio a ser o Grão-Pará dos
portugueses). A ambição dos caraíbas ou pajés-açus, como se
sabe, era a conquista do paraíso terreno por eles chamado Yby
marãey
(“terra sem mal”). Até ao Maranhão tinham chegado os
antropófagos buscadores da utopia selvagem depois de um enorme
percurso através do Sudeste tendo descido o Peabiru
(“caminho do Peru”) para Piratininga (São Paulo).
Entre
Piratininga e a Guanabara, em luta contra os Tamoios, se destacou o
tuxaua Arariboiax.
Entretanto, quantos usuários da ponte Rio-Niterói aborrecidos com
engarrafamento do trânsito ou quantos passageiros chateados com a
deficiência de serviço de travessia da baía Guanabara se perguntam
quem, de fato, foi o índio da estátua que se acha na estação das
barcas e quanto o Brasil deve a ele e seus descendentes? E, no Norte,
quem é que sabe da história do guerrilheiro Ajuricaba? Ou da
história do café, furtado em Caiena, pela tropa de guarda-costa
mandada prender o cacique bandoleiro da ilha do Marajó metido com
tráfico de armas e escravos com contrabandistas franceses? Estamos a
falar das conexões de tempo e espaço na história do bravo povo
brasileiro.
E,
no entanto, carece revitaliza a pax
dos Nheengaíbas... Pela qual, através do feliz casamento da
necessidade com o acaso, tapuias e tupinambás conseguiram vencer o
ódio hereditário que reinava entre si para construir em comum o uti
possidetis
do território amazônico, tal qual havia sucedido na construção do
Forte do Presépio pela união de índios tupinambás e soldados
portugueses.
A
necessidade da paz e amizade entre cidades amazônicas, hoje, vem ao
encontro do diálogo entre as duas maiores cidades amazônicas, a fim
de amazonizar o Brasil: Belém, metrópole da Amazônia oriental e
Manaus, metrópole da Amazônia ocidental unidas pela memória do
poeta da negritude Bento Bruno de Menezes Costa, simplesmente Bruno
de Menezes
(Belém-PA, 21 de março de 1893 – Manaus-AM, 2 de julho de 1963),
precursor do Cooperativismo na Amazônia e intelectual modernista,
que iniciou o ajuricabano através da Academia
do Peixe Frito,
em Belém, e o Clube
da Madrugada,
em Manaus.
Para
desabono da amazonidade, a rivalidade histórica entre amazonenses e
paraenses. Ajuricaba, cacique do manaus, morreu lutando contra
“tropas de resgate” (caçadores de escravos) enviadas do Pará ao
Rio Negro. A serviço de colonizadores portugueses tais tropas eram
comandadas muitas vezes por mamelucos (filhos de índias com
portuguses), guiadas e guarnecidas de índios tupinambás de arco e
remo. Na Amazônia, desde o Maranhão em direção ao norte e do
Baixo Tocantins etnias ditas Tapuias (genérico para não-tupis),
mais antigas da região resistiam à invasão da poderosa nação
índigena Tupinambá.
Como
sabemos, a conquista do “rio das Amazonas” pelos portugueses não
poderia ter sido realizada sem ajuda de arcos e remos tupinambá. Mas
o curioso em nossa história é que a Tapuia tetama ou
Tapuirama chamada por estes índios conquistadores,
antropófagos e andejos renomados; dispunha duma multidão de etnias
e línguas em maior parte de tronco Aruak e Carib também dividas
entre si por rivalidades ancestrais.
Em
Manaus, a figura emblemática do herói da Pátria Ajuricaba paira
sobre corações e mentes amazonenses. Mas, em Belém do Pará, o
valente cacique tupinambá Guaimiaba (“Cabelo de Velha”),
precursor cabano no ataque suicida ao Forte do Presépio de 7 de
Janeiro de 1619, que se renovaria duzentos anos mais tarde no assalto
dos cabanos a Belém do Pará a 7 de Janeiro de 1835; resta esquecido
e ignorado pela maioria dos paraenses continuando exilado da história
do povo paraense.
Na
velha língua dos aruaques (“nheengaíba”, a “língua ruim”
nas ilhas do Marajó por oposição à “boa língua” nheengatu) a
palavra Ajuri corresponte ao tupi Puxirum
(aportuguesada em mutirão). O herói manau tomou para si o nome
Ajuricaba como declaração de guerra à escravidão na Amazônia,
significando “reunião de cabas” (na acepção de mutirão
de marimbondos ou vespas). Analogia ao ajuntamento de guerreiros
indígenas de etnia aruaque usando zarabatana e dardos envenados de
curarexi.
Como se deve saber, os povos Aruak ou Arawak tendo origem no Rio
Negro e ocupado grande extensão territorial, chamada na antropologia
americana circum-Caribe, encontrados desde as ilhas do Caribe
até o Pantanal e o Acre sob diversas etnias como os Tainos, Baniwas,
Palikur, Aruãs, Terenas e muitos outros povos; foram os primeiros
nativos americanos a receber o impacto da Conquista hispânica.
Os
Aruak, já acostumados a se defender de ataques do inimigo
hereditário Kalina, em caso de guerra de defesa se confederavam
elegendo um cacique como comandante militar único. No Haiti, o herói
legendário Hatuey levantou o povo Taino contra a opressão dos
espanhóis e conduziu uma grande migração para Cuba alertando seus
parentes sobre a falsidade da religião dos cristãos, que chegavam
falando do grande Espírito dos brancos, chamado Cristo; mas na
realidade o deus dos conquistadores era o vil metal ouro... Dizia
Hatuey que os índios deviam jogar ao mar seus adereços feitos deste
metal dourado, esconder caminhos para jazidas e fugir ao mais longe
possível.
O
genocídio para obrigar os índios a mostrar onde havia minério e
fazê-los escravos é relatado pelo padre dominicano Bartolomeu de
Las Casas. Hatuey acabou aprisionado e condenado a ser consumido vivo
numa fogueira atado ao poste. Resta dele a história de bravura e uma
estátua mandada levantar pelo povo cubano como exemplo de
resistência e luta contra o colonialismo: foi sucedido pelo cacique
Guamá cujo nome, por coincidência, se acha no rio que banha
o campus Guamá, da Universidade Federal do Pará, e a capital
do Pará.
Segundo
o geógrafo Armando Levy Cardoso, o rio Guamá seria corruptela do
nome do cacique Guayamã, dos Aruã e Mexiana, das ilhas do
Marajó, o qual incursionava frequentemente ao dito rio. O
historiador das fronteira amazônicas, Arthur Cezar Ferreira Reis;
revela que o cacique Guaiamã, Guaiamar ou Guayamá
foi contemporâneo de Ajuricaba e tal qual este seu parente
amazonense, o marajoara lutou contra portugueses aliados ao inimigo
hereditário Tupinambá.
No
Rio Negro, o heroi manau foi acusado de tráfico com os holandeses da
Guiana, mas teve em defesa de sua honra ninguém menos que o grande
abolicionista Joaquim Nabuco e depois um senador da República,
Arthur Virgílio, atual prefeito de Manaus, para mandar inscrever seu
nome no panteão dos heróis da Patria amada Brasil com apoio da
senadora Marta Suplicy no papel de relatora do projeto de lei e no
momento Ministra da Cultura.
Tal
reabilitação histórica ainda não aconteceu com relação ao
cacique Guamá ou Guamã dos Aruã, que ficou sendo apenas um vulgar
bandoleiro, protótipo de contrabandistas de café e uísque dos anos
60; metido com traficantes franceses em Caiena: dele não se fala e
nem dos antecedentes históricos da falsa pax do Marajóxii
prometida em lei de abolição dos cativeiros por El-Rei Dom João
VI, o Restaurador da independência de Portugal, que, naturalmente,
levaria mais depressa essa gente dos confins aos braços de
concorrentes estrangerios dos portugueses chamados de cegos no
“Sermão aos Peixes”, proferido em São Luis do Maranhão,
em 1654, quando o Padre grande dos índios se dirigia a Lisboa, quase
clandestino, para arrancar d'El-Rei a famosa Lei de abolição dos
cativeiros de 1655.
A
História não é para os mortos. E a historiografia se fossiliza
como vestígios do passado no presente, tal qual esqueletos de
dinossáurios e múmias não param de mostrar novidades na
atualidade. O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral, por
exemplo, não significa dizer que os portugueses já não soubessem
da existência do “novo continente”. Muito menos, que do Oiapoque
ao Chuí e da Paraíba até o Acre nosso país-continente não
estivesse habitado por milhões de “brasileiros”, chamados
“índios”. Como ficaram sendo na Europa os povos americanos,
desde o célebre equívoco de Cristóvão Colombo ao chegar na ilha
Guaanani (Bahamas), em 1492, pensando ele ter descoberto o
caminho ocidental para as Índias.
Aliás,
o nome do “novo mundo”, América, vem da palavra em língua maya
Americ ou Amerika , significando o “país do vento”
referente às montanhas próximas ao lago Nicarágua, na América
Central. Não é exatamente, como dizem propagandistas europeus por
ignorância ou má-fé, homenagem ao navegador italiano Américo
Vespúcio (Amerigo Vespucci).
Na
verdade, depois de 1992 com as comemorações dos 500 anos do
descobrimento da América; quando na cerimônia em Santo
Domingo (capital da República Dominicana) o Papa João Paulo II
pediu perdão aos Índios e Negros em nome da igreja católica;
acelerou-se o redescobrimento com a revisão histórica que
antes já estava em curso. Agora estamos nos 400 anos de invenção
da Amazônia, desde a fundação da França Equinocial (Maranhão) em
1613.
Antes
disto, porém, no ano de 1498 o cosmógrafo do rei de Portugal
(cartógrafo real), Duarte Pacheco Pereira, veio ao Pará em viagem
secreta fazer medições astronômicas a respeito da linha de limites
entre as duas coroas ibéricas, segundo o Tratado de Tordesilhas
(1494), a fim de possibilitar com segurança o descobrimento
do Brasil: nasceu desta cartografia secreta a noção de
Costa-Fronteira do Pará tendo a margem esquerda do Grão-Pará
(Pará-Uaçu, “grande mar” de água doce dos tupinambás)
como limite amazônico entre Espanha e Portugal.
Em
janeiro de 1500, o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón havia
visitado o Nordeste brasileiro e achado a foz do río Santa María
de La Mar Dulce (Amazonas), quando diz ter assistido o fenômeno
da pororoca, pela primeira vez descrito na copiosa crônica
amazônica; onde fantasia e realidade se misturam. O relato da viagem
de Pinzón, guardado a sete chaves durante séculos, conta que na
ilha Marinatambalo [Marajó] foi assaltada uma aldeia de
índios e capturados os 36 primeiros “negros da terra” (escravos
indígenas) da América do Sul, provavelmente aldeia dos Aruã junto
a Contracosta, onde hoje é município de Chaves.
Depois,
no mesmo ano, finalmente no mês de abril houve o descobrimento
oficial do Brasil com todas solenidades descritas na famosa carta do
escrivão da frota Pero Vaz de Caminha, aproveitando a passagem de
Cabral para as Índias através do caminho oriental marítimo
recentemente descoberto por Vasco da Gama. Na historiografia da
época, descobrimento significava dar conhecimento público a
um achamento de terra supostamente de “ninguém”.
É
aí que mora a grande questão do empoderamento territorial e da
identidade dos povos indígenas remanescentes da Conquista e
populações quilombolas e afrodescendentes implicados com a
soberania dos países amazônicos e a cobiça estrangeira do tal
“celeiro do mundo” propagandeado na Europa por Humboldt, La
Condamine e outros naturalistas famosos das chamadas “viagens
filosóficas” de exploração geográfica do mundo, então
desconhecido dos europeus.
Claro
que que os povos originais do Brasil não se chamavam ainda
brasileiros e o Brasil pré-colonial era conhecido geralmente por
Pindorama (“terra das palmeiras”), enquanto que a Amazônia
para suas mais velhas populações, era apenas o grande rio Guiuene
(do aruaco, wene, “água, rio”... donde os derivados
Guainia, Guayana, Guyene e Guiana), como se lê no Tratado de
Santo Ildefonso de 1777: onde se resolveram embargos hispânicos a
tratados anteriores sobre o reconhecimento do uti possidetis
português de 1750, defendido por Alexandre de Gusmão.
A
nação Tupinambá, que chegou ao Grão-Pará não muito antes do
Descobrimento,
chamava de Tapuya
tetama
ou Tapuirama
(terra dos Tapuias) a região cobiçada. A utopia selvagem que trouxe
este povo guerreiro para o “rio das Amazonas” apresenta
evidências de ter sofrido uma mudança dramática à altura da
Paraíba (“mar ruim”)... O mito da Terra sem males (sorte de
paraíso, no início existente onde nasce o sol, seria um lugar onde
não há fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte) levou os
caraíbas a buscar o oceano Atlântico no litoral do Brasil à frente
de grandes migrações.
Objetivamente,
supõem-se que a expansão do império Inca da Quatro Partes do Mundo
(Tawantinsuyu
em quíchua), ao pressionar diversos povos vizinhos a ser súditos do
“filho do sol” submetidos à teocracia do mitimac
(sistema de servos da gleba) teria motivado surgimento de diversos
líderes tupis e guaranis chamados caraíbas (“senhor malvado”)
ou pajés-açus (“grande mago”), capazes de causar a morte de
algum desafeto com um simples olhar conforme a crença da
comunidade... Estes caraíbas medonhos eram temíveis caudilhos.
Mas,
se pode adivinhar como eles começaram a perder prestígio no momento
que o lugar mágico prometido permanecia distante da costa ao largo:
o frenesi, quando os índios viram por primeira vez “deuses”
brancos com suas grandes caravelas saindo do Mar-Oceano em direção
aos portos costeiros. Porém, quando estes tupis e guaranis
experimentaram uma nova opressão do trabalho escravo para extrair
pau-brasil e abarrotar navios, pelo ano de 1530 em diante, um novo
ciclo do mito terá sido reelaborado a partir das lembranças e
história oral dos grandes feitos dos caraíbas. O espírito Jurupari
ditou, por certo, uma nova direção da utopia. No Maranhão,
notadamente, o lugar de guardar canoas de pesca ficou sendo chamado
de “Araquiçaua”
[ara,
dia; ky,
rede; xawa;
sítio ou “lugar
onde o sol ata rede de dormir”].
Pontos notáveis de por do sol sempre com a ancestral sugestão
mítica da Yvy
marãey
(terra sem mal). A topografia costeira deixou demarcado o sonho do
Bom Selvagem em direção ao Norte... Há pelo menos dois lugares com
este nome no Baixo Arari, na ilha do Marajó, e no rio Araguari, no
Amapá.
Relato
de 1538, atribuído ao mameluco Diogo Nunes, conta do encontro deste
com alguns parentes, no Peru, em número de 300 tupinambás,
aproximadamente. Estavam todos escravos dos espanhóis certamente
depois de haver fugido dos portugueses. Faziam parte de uma grande
migração que saiu de Pernambuco pelo sertão com 14 mil pessoas
incluisive mulheres e crianças. Diz que precisaram de 12 anos para
chegar ao rio Solimões. Difícil compreender como puderam fazer isto
sem antes chegar às barrancas do rio dos Tocantins (“bico de
tucano”) e passar pelos Estreitos de Breves para subir o rio
Amazonas...
Se
o percurso foi, realmente, este, como parece que não poderia deixar
de ser, então é certo que houve guerra sangrenta nesta e outras
ocasiões entre Tupinambás e Nheengaíbas. A pergunta, então, é:
que afinal de contas poderia mover esta gente para tão longa e
difícil migração? A copiosa literatura etnográfica sobre os
Tupinambás já respondeu de diferentes modos e reiteradas vezes.
Porém, para a história do Brasil é como se não fosse nada. E a
descoberta do “rio das Amazonas” por Orellana e Carvajal, em
1542, foi posterior ao relato do mameluco Diogo Nunes. O historiador
chileno José Toribio
Medina e o governador Oviedo da ilha Hispaniola
aventam possibilidade dos dois bergantins de Orellana e Carvajal
terem sido atacados pelos índios das ilhas do Marajó, quando da
saída ao Mar do Norte (Atlântico), devido a lembrança do sequestro
dos 36 escravos capturados por Pinzón quatenta e dois anos antes.
Sem
dúvida, tupinambás e tapuiosxiii
guardaram “intra muros” suas diferenças, mas de toda maneira não
esqueceram as piores lembranças dos ibéricos fossem eles
castelhanos ou lusitanos. Ajuricaba era cacique da nação indígena
dos Manaus, no início do século XVIII. Quando a historiografia diz
“portugueses”, leia-se “paraenses” e pensem na nação
indígena dos Tupinambás. Diz a historiografia brasileira que os
Manaus se tinham aliado aos holandeses da Guiana (hoje Reopublica
Cooperativista da Guiana, com capital em Georgetown, sede da
Comunidade das Caraíbas (CARICOM) e país-membro da Organização do
Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), a conexão para isto seria
a bacia do Rio Branco).
Portugueses
escravistas, para justificar a “guerra justa”, tal como
pretenderam para reduzir os Nheengaíbas das ilhas do Marajó à
extinção e cativeiro, em 1656; acusaram Ajuricaba de desafiar à
soberania portuguesa ostentando em sua canoa de guerra a bandeira
holandesa. Indiferentes ou ignorantes do que se propalava em Belém e
Lisboa contra eles, os Manaus bem armados e voluntariosos
enfrentavam os portugueses atacando as missões do Rio Negro,
resistindo e impedindo a ação das "tropas de resgate"
(tropas de caça a escravos indígenas). Os coloniais temiam que o
exemplo dos Manaus fosse, assim, abrindo caminho a uma invasão
holandesa no Rio Negro. Após negociações de paz, que não duraram,
os portugueses começaram a "guerra justa" contra os Manaus
em 1727. Então, Ajuricaba foi preso e enviado a Belém. Durante a
viagem, preso em ferros como estava sucedeu uma tempestade e os
índios foram levados a ajudar a retirar a água que invadia a
embarcação. Neste momento, Ajuricaba aproveitou para se atirar ao
rio, preferindo morrer afogado que sofrer a escravidão. Morto o
herói se tornou mais vivo do que antes. Virou lenda poderosa e
terminou tendo seu nome inscrito no Livro dos
Heróis da Pátria, a par de Zumbi dos
Palmares, Sepé Tiaraju e outros grandes nomes da nacionalidade
brasileira.
O
heroísmo de Ajuricaba e devoção a sua memória pelos membros de
sua etnia e amazonenses em geral, "esperavam por êle, como pela
vinda de El Rei D. Sebastião esperam os nossos sebastianistas",
reconheceu o historiador colonial Ribeiro Sampaio. A revisão
histórica do papel de Ajuricaba na amazonidade completou-se com
Arthur Cézar Ferreira Reis na sua História do Amazonas (1931),
confirmando que o cacique dos Manaus foi "um guerreiro ilustre,
dos primeiros a batalhar pela liberdade na América".
Ajuricaba
além de ter sido reabilitado e revalorizado, tornou-se referência
para o povo amazônico e, em especial os amazonenses. A Amazônia
toda simboliza no herói a resistência da população às forças
colonizadoras. Se a etnia manaus é dada como extinta, é certo que
ela está eternizada no nome da capital do Estado do Amazonas.
Projeto Nossa Várzea
Quando o falecido Neuton Miranda me convidou a colaborar com a força-tarefa que foi a região das Ilhas começar a executar o Projeto Nossa Várzea de regularização fundiária em terrenos de marinha, aceitei sem hesitar. Na minha modesta opinião isto já deveria ter acontecido há décadas. Pelo menos, desde a Adesão do Pará à Independência, há 190 anos. Podemos crêr que se o Império brasileiro houvesse feito algo semelhante escutando o “maluco” Felipe Patroni e o cônego Batista Campos, muito provavelmente, a história seria diferente. Os horrores da Cabanagem seriam evitados. Pois, exatamente, os cabanos lutaram primeiramente para abolir a escravidão e cada família ribeirinha achar sua beira e eira em paz sob proteção do poder central.
Atualmente a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), depois de um largo período exclusivamente dedicado à administração imobiliária de próprios nacionais; passou a se preocupar também com a responsabilidade socioambiental do patrimônio da União. O Projeto Nossa Várzea: Cidadania e Sustentabilidade na Amazônia Brasileira é um exemplo dessa nova política. Ele que garante às famílias e comunidades ribeirinhas reconhecimento de sua posse tradicional e o papel de agentes promotores de conservação do meio ambiente e da promoção do desenvolvimento sustentável local.
Além da União, como
titular dos terrenos de marinha, reconhecer oficialmente a ocupação
garante diferentes benefícios à Criaturada, tais como a
comprovação de domicílio, atividade agroextrativista ou rural
para fins de aposentadoria junto ao INSS; acesso ao crédito e
outros programas sociais do Governo Federal dentre outros. Desta
maneira, o Projeto faz justiça e previne conflitos fundiários. Ao
mesmo tempo fortalece a participação das famílias
agroextrativistas, rompendo perversa exploração da mão-de-obra
análoga a trabalho escravo.
No Estado do Pará,
desde 2005, 60 mil famílias foram atentidas pelo Projeto,
equivalente a algo em torno de 240 mil pessoas. Os Estados do Amapá,
Acre, Amazonas e Tocantins também estão contemplados pelo Projeto
Nossa Várzea. Respeitando características culturais e ecológicas
do Acre o projeto recebeu títulos de "Projeto
Nossa Floresta" e no Maranhão
"Campos Naturais da Baixada
Maranhense".
Muitas vezes, agentes
do poder público cumprem suas funções de maneira maquinal e
desconectada do fato de que o servidor público é ao mesmo tempo um
funcionário e cidadão. Daí que o conhecimento histórico das
populações atendidas por programas e projetos de desenvolvimento
territorial ajuda a mlhorar o serviço público e a facilitar o
relacionamento entre o público e o privado. No caso, específico do
Projeto Nossa Várzea os esforços da SPU não podem nunca ser um
fim em si mesmo. Ele aproxima as comunidades locais a diversos
serviços públicos exercidos, por exemplo, pelo INCRA, ICMBio,
INSS, Estados e Municípios, garantindo a presenção do Estado
Navional nos recantos mais isolados e distantes dos centros urbanos,
reduzindo desigualdades sociais e disparidades regionais.
Várzeas
federais,
acrescidos de margem de rios federais, ilhas federais, acrescidos de
marinha ao longo da zona costeira e rios estaduais e sua ilhas
fluviais com influência de maré, dentre outras, são áreas da
União com forte presença de comunidades tradicionais vivendo da
pesca artesanal, do extrativismo de frutos e agricultura de
subsistência. Como bens da União, definidos no art. 20 de nossa
Constituição Federal, estas áreas serão sempre de domínio
público, razão pela qual devido sua importância socioambiental,
econômica e geopolítica, a
SPU precisa de meios para afastar a insegurança fundiária destas
áreas.
A
regularização
fundiária das comunidades tradicionais
é dever prioritário do Estado Democrático, sobretudo na Amazônia
Legal, onde a proteção ao patrimônio cultural está aliada ao
combate ao desmatamento e mais atividades predatórias do meio
ambiente. Na Bacia Amazônica milhões de comunidades ribeirinhas
vivem há muitas gerações do manejo dos ricos recursos naturais
para sua sobrevivência. A segurança alimentar, socioambientar e
fundiária é fundamental para promoção
das políticas públicas.
O
NOME MARAJÓ E A CRIATURADA GRANDE DE DALCÍDIO
O
nome “Marajó” é traduzido, vulgarmente, como “barreira
do mar”, do nheengatu “Mbarayó”. Todavia, fontes
jesuíticas, mais recuadas, no século XVII, citadas por Serafim
Leite S.J. na volumosa e fundamentada obra “História da
Companhia de Jesus no Brasil” (1946), com pesquisa no arquivo
dos jesuítas no Vaticano; informam que o rio “Marajó-Guassu”
[Marajó-Açu], que banha o município de Ponta de Pedras originado
da primeira sesmaria que a mesma ordem religiosa teve na ilha do
Marajó, em 1686, onde foi fundada a fazenda São Francisco, doada
posteriormente ao contemplado sargento-mor Domingos Pereira de
Moraes, quando a da expulsão dos jesuítas do Pará, em 1760; dá
nome a toda ilha e mais derivados deste topônimo em língua tupi.
Ora,
sabemos que os primeiros habitantes da, até então, “ilha dos
Nheengaíbas” ou “dos Aruans” [depois, Ilha
Grande de Joanes ou Marajó] eram de diversas etnias de
tronco linguístico e cultura Aruak, inimigos hereditários dos
Tupinambás e o rio Marajó nada, absolutamente, tem a ver com o Mar.
A menos que este “mar” seja a baía do Marajó dizendo, então,
“baía da ilha” do mesmo nome que vem de ser dito derivada
daquele rio, onde os jesuítas tiveram além da fazenda São
Francisco e a aldeia das Mangabeiras. Depois freguesia de Nossa
Senhora da Conceição de Ponta de Pedras (1737) e Lugar de Ponta de
Pedras, em 1758; junto com a aldeia do Guaianazes [Guaianá] meia
légua abaixo, que foi elevada a Lugar de Vilar, durante à mudança
toponínica que se seguiu após a expulsão dos jesuítas.
A
questão da tupinização da geografia tapuia acaba sendo quebra
cabeças aos pesquisadores da Amazônia, como bem notou entre outros
o géografo das demarcações de limites, Armando Levi Cardoso, em
sua obra “Toponímia Brasílica”. Nunca antes do final do
século XIX se teve notícia de nome que os próprios “marajoaras”
davam a sua ilha. Neste caso, segundo Domingos Soares Ferreira Penna,
os Aruã a chamavam de Analau Yohankaku.
Começa
que o tupi, por influência da catequese, se tornou a principal
língua brasílica. Até hoje o português falado no Brasil é
carregado da “tupi mania” e de africanismo, através da
língua-geral (Nheengatu, a boa língua). E houve a língua-geral do
Brasil e a língua-geral da Amazônia... Apesar da redução do rio
Babel há diversos falares amazônicos. Em meio à ruína linguística
dos velhas idiomas bárbaros amazônicos, topônimos de diferentes
origens se confundem, por contato e empréstimos mútuos, na paz e na
guera, como em qualquer parte do mundo.
Fica
patente que o mesmo Tupinambá indispensável ao colonizador para
tomar posse da região, foi guia e protetor dos missionários,
sertanistas e soldados portugueses empregados na grande empresa
amazônica. Na contraparte se achavam os mais antigos ocupantes da
terra conquitada. A antropologia brasileira ensina que os Tupinambás
não estavam no Brasil para fazer favor a nenhum estrangeiro, mas que
focados em sua própria utopia foram capazes até de vencer os
maiores escrúpulos para seguir lado a lado com inimigos, passando
por cima da sua própria religião da vingança. Pelo contrário, não
pouparam nem mesmo quem nenhuma ofensa lhes fizera, como os
holandeses amigos de seu inimigo hereditário, o malvado “Marajóxiv”,
falante da língua ruim.
Deste
modo, as populações tradicionais (“Criaturada grande de
Dalcídio”) vão reconquistando o tempo e o espaço perdidos e
habitando o mundo através da Educação e o a luta pela Cidadania.
Notícia antropoética: os Marajó da vida
1
Atravessado na boca do maior rio do mundo – ovo primordial da biosfera na goela da cobra grande! – existe um arquipélago do tamanho de Portugal, já dizia o Padre Antônio Vieira em carta a El-Rei, na segunda metade do século XVII... Apenas a ilha grande sozinha já excede em tamanho os Países-Baixos, por exemplo. Esta ilha imensa foi “achada”, entre a Amazônia azul e verde, pelo navegador espanhol Vicente Pinzón, em 1500. Cerca de três meses antes do “descobrimento” do Brasil: conforme o tratado de Tordesilhas (1494) a ilha caía na posse de Espanha (lembrando que a “linha” de divisão, por um meridiano de pólo a pólo a 370 léguas a oeste de Cabo Verde, passaria sobre as futuras cidades de Belém do Pará e Laguna, em Santa Catarina). A gente marajoara sempre quis ligar as ilhas à Terra-Firme (continente), desde as grandes migrações das Antilhas para a costa marítima da Amazônia, em busca do Arapari (país da constelação do Cruzeiro do Sul) enquanto conquistadores brancos, como loucos furiosos, procuravam o El-Dorado e caraíbas selvagens comiam gente em demanda da Terra sem males... Mas, isto não está no Gibi nem na História oficial do Brasil.
2
Começou mal a história do desencontrado encontro de nativos e europeus nestas paragens ilhadas. O relato da viagem de Pinzón dá uma pálida idéia da ilha Marinatambalo donde foram extraídos a ferro e fogo os primeiros 36 “negros da terra” da América do Sul. Seria preciso apelar à arcaica filosofia de Vico cada vez mais pós-moderna, para abordar, sob ponto de vista nativo; a triste inauguração das relações internacionais na Amazônia pré-amazônica... Ironia da história: potências que introduziram trabalho escravo na região se tornaram paladinas dos direitos humanos. Mas porém, para os caboclos, tanto faz! Não importa a cor do gato, contanto que ele mate o rato...
3
Só a poderosa imaginação, segundo a antiga arte dos pajés, poderia talvez romper a dura crosta da historiografia acadêmica carente de interesse a respeito do sentimento desta gente. Que impressão aquelas grandes velas causaram a olhos indígenas assombrados pela indesejável visita? Um dia de chuva, provavelmente. Naus saídas do mar tenebroso como encanto entre as ilhas Caviana e Mexiana adentrando à barra do rio grande... Quem poderá saber, por exemplo, a emoção duma hipotética visita de OVNI num remoto resort, terminando por assalto com armas mortíferas desconhecidas; o seqüestro de trinta e tantas pessoas levadas para além a fim de fazer escravos, sem mais notícias... Pois assim foi, mais ou menos, que aconteceu o parto desta história de 500 e tontos anos...
4
O cronista espanhol Oviedo ao comentar o ataque de índios da foz do Amazonas, em 1542, aos dois bergantins de Francisco de Orellana saídos da aventura “das Amazonas”, aventou a possibilidade desta gente, por natureza pacífica no trato com estranhos, estar prevenida contra castelhanos dado o crime cometido pelos homens de Pinzón (noves foras o genocídio caribenho que Castela promovia em nome de Deus e dos Reis Católicos e que chegavam ecos todo dia às Guianas até as ilhas do Marajó)... Por natural grandeza física, biodiversidade e potencial sociocultural poder-se-ia talvez dentro desta ilha grande – dita Marinatambalo, Ilha Grande dos Nheengaíbas, dos Aruans, de Joanes, Marajó, aliás Analau Yohynkaku em língua nativa aruã – fazer mais de uma dezena de cidades-estados semelhantes ao tigre asiático Cingapura, para dar uma idéia disto que resta ao abandono entre chuvas e esquecimento.
5
Entre a morte de Orellana, em 1544, na louca tentativa de reencontrar a entrada do rio das Amazonas aonde ele ia fundar a Nueva Andaluzia e as primeiras feitorias holandesas nos começos de 1600; as ilhas foram poupadas da sanha colonial. Continuaram mais cem anos entregues simplesmente a seu modo tradicional de viver de mil anos, entre guerras e pazes locais limitadas aos usos e costumes da região. Podemos admitir que apenas forasteiros àquela altura poderiam desejar algo vagamente compreendido como Civilização. Foram os brancos que forjaram a idéia de que a humanidade precisava tirar “índios” e “negros” da “selvageria” em que eles viviam para (quem dera!) usufruir benesses que o Ocidente lhes prometia.
6
Mercadores holandeses fugindo à míngua
da Batávia em luta aberta contra o império dos Reis Católicos
vieram se avizinhar dos índios para os seduzir mediante cobiça de
missangas (contas de vidro, tecidos, espelhos, facas, machados de
ferro, anzóis, etc.). Bons calvinistas esses comerciantes de escambo
propuseram troca de manufaturas por “drogas do sertão” [cacau,
urucu, resinas, tintura vegeral e outros produtos extrativos] e
“gados o rio” [peixe-boi, tartaruga, pirarucu e peixes em geral].
Em pouco mais de meio século, que durou o comércio e amizade entre
mercadores “hereges” (holandeses, britânicos e franceses
prostestantes) e índios do Amapá e Marajó chegaram a
aproximadamente 20 navios/ano a exportar carne de peixe-boi em
conserva à modo indígena (mixira, cozida e conservada na própria
gordura e transportada em tonéis). Como vemos, o insustentável
“desenvolvimento” começou logo no primeiro dia de invenção da
Amazônia...
7
Para explicar o retardo sócio-econômico e o porque do escasso desenvolvimento humano desta ilha grande do Brasil gigante, chave territorial da conquista da Amazônia brasileira; o povo insulano que aí habita à margem da história, há muitos séculos; e que, com certeza, faria a fortuna de um singular país neotropical abençoado por Deus e bonito por natureza; com engenho e arte; rindo-se do próprio infortúnio inventou a fabulosa teoria da “caveira de burro” a rebater sem dó a empáfia acadêmica de anêmica inteligência do trópico úmido.
8
A tal caveira fatídica estaria talvez enterrada em algum lugar destas paragens, tiradas do mato pelas aldeias das Missôes e convertidas por decreto no famigerado Diretório dos Índios (padastro das comunas ribeirinhas de ingrata sorte). Para alguns especulativos, tal caveira não é brincadeira: mas feitiçaria da grossa. A “coisa feia” estaria enterrada debaixo de prefeitura... Outros acreditam que a maldição se esconde debaixo do chão de antiga igreja donde o sortilégio se espalha por contágio às demais ilhas e até ao continente, na terra-firme.
9
A população das ilhas do golfão marajoara soma algo mais que o número de habitantes do estado do Amapá ao lado. A gente amapaense e das ilhas do Pará juntas com toda Guiana brasileira (Amapá, Marajó, Calha Norte paraense, Calha Norte amazonense e Roraima), noves fora migrantes que vieram se mesclar com os nativos; são como carne e unha no que diz respeito à etnologia e ancestralidade original nascida do homem paleo amazônida de 12 mil anos de idade.
10
Alguns marajoaras e outros brasileiros ou estrangeiros movidos por este descobrimento neotropical pelejaram para dar notícia da existência desta gente engenhosa remanescente da primeira cultura complexa da Amazônia (ano 500 dC). As primeiras gerações da ilha grande deixaram por testemunho de sua vivência célebres aterros onde edificaram aldeias peculiares e deixaram cerâmicas muito antigas, dentre as quais as mais elaboradas, de, aproximadamente, 1500 anos de tempo arqueológico. Ora, os sábios do Brasil varonil contam o tempo nacional exclusivamente a partir do fidalgo Pedro Álvares Cabral. E, quando carecem de alguma ancestralidade, a vão emprestar de contemporâneos de lusitano Viriato, na outra margem do Atlântico...
11
Ultimamente, na contramão da história oficial, formou-se no extremo-norte brasileiro o denominado grupo GDM / Unilivre-MAM constituído de militantes da causa de revalorização da gente e da cultura marajoaras. Não precisa dizer que se trata de um exército Brancaleone sob bandeira de Dom Quixote. Estes voluntários fazem questão da inclusão social e cidadania do povo marajoara na República Federativa do Brasil a partir de uma nova história mais bonita, todavia jamais escrita. Cujos começos se acham nas raízes humanas dos primeiros grupos que habitaram as ilhas em busca de cardumes e aí – por necessidade e acaso – inauguraram o que veio a ser chamada a cultura “marajoara”, não exatamente por este povo cujo nome original se perdeu, mas pelo próprio conquistador do “rio das Amazonas”. Que foi, como todo mundo sabe, o Bom Selvagem tupinambá. Guia, arqueiro e remador indispensável do colonizador português.
12
Militantes do GDM / Unilivre-MAM são signatários da iniciativa de Muaná (2003) – lugar de memória da Adesão do Pará à Independência do Brasil de 28 de Maio de 1823 – , que propõe implantar finalmente a área de proteção ambiental do Arquipélago do Marajó – APA Marajó (Art. 13 da Constituição do Estado do Pará de 1989). Advogam que de conformidade com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) reserva da biosfera é um modelo internacional de conservação compatível com uma APA, exceto pela existência de uma área-núcleo de conservação integral. Que, portanto, a APA-Marajó estadual não conflita com a existência de um mosaico de unidades federais de conservação existente dentro da configuração territorial daquela. Pelo contrário, seria desejável ampla cooperação federativa (governo federal, estados e municípios para na estratégia do ZEE estadual colocar em prática ações visando o reconhecimento da APA como reserva da biosfera. Claro, que estas considerações visam sobretudo demonstrar o interesse da sociedade civil e criticar a inércia dos respectivos serviços governamentais da União, Governo estadual e Municípios. Na missão de esclarecer a comunidade o grupo GDM / Unilivre-MAM informa que a primeira vez que a imprensa mencionou proposta de criação de reserva da biosfera em Marajó, deu como autor do projeto o deputado federal Antônio Feijão (Amapá). Esta noticia não teve boa acolhida no Pará, sobretudo, pela maneira como ela se apresentou ao público, o que pode ser verificado ainda em pesquisa de jornais da época.
13
Na ocasião o GDM não existia, seus fundadores atuavam como grupo marajoara da SOPREN: decano do movimento ambientalista amazônico. O trabalho decorria em parceria com a Pro-Reitoria de Extensão da UFPA na ilha do Marajó; então quase por unanimidade criticou-se a abordagem impositiva para propor a reserva da biosfera a partir da Câmara Federal em vez de promover esclarecimento público junto aos municípios e incentivar iniciativa da sociedade civil. Em Muaná, entretanto, deu-se justamente o contrário e Brasília não passou recibo e o Palácio dos Despachos, em Belém, não tomou conhecimento...
14
Em 20/12/1994, o grupo marajoara da SOPREN depois de nove encontros de educação ambiental no Marajó, realizados desde 1985, criou o Grupo em Defesa do Marajó (GDM), que agora ao completar 13 anos está sendo formalizado como associação promotora de futura fundação Universidade Livre Marajó-Amazônia (Unilivre-MAM). Entre 28 e 30/04/1995, o GDM em parceria com a UFPA e SECTAM (governo estadual) firmou a carta do Marajó-Açu que inaugurou atividades desse voluntariado.
15
O GDM faz parte da demanda popular contra a exclusão social e ausência do poder público nas Ilhas do delta amazõnico, assim apoiou ostensivamente o documento dos Bispos da Diocese de Ponta de Pedras e Prelazia do Marajó, em 1999, assinando texto de apresentação do documento eclesial de denúncia do baixo IDH da população ribeirinha. Em diversas manifestações, o GDM fez opção preferencial pela conservação do Museu do Marajó e desenvolvimento da agricultura familiar sustentável da obra social da Diocese de Ponta de Pedras como uma experiência que deve ser reconhecida, amparada, melhorada e reaplicada a todos municípios da mesorregião, inclusive no que diz respeito ao projeto-piloto Praia Grande, realizado em programa de parceria pela UFPA/ POEMA, e a experiência de Jaguarajó pela EMBRAPA, analisados prós e contras.
16
O GDM tomou parte do Colóquio Dalcídio Jurandir (2001), promovido pela UFPA e UNAMA; desde então, o GDM assumiu sua feição cultural e começou a desenhar com parceiros o projeto Unilivre-MAM www.unilivre.org . Instrumento de consolidação da obra iniciada pela SOPREN no Marajó desde fins dos anos 60, junto ao antigo programa universitário CRUTAC. Justo momento para agradecer ao médico e ambientalista Camilo Martins Viana e prestar homenagem póstuma à professora Ana Rosa Bittencourt, iniciadores do processo de resgate da cultura e do meio ambiente do Marajó. Donde, em seguida, viu-se surgir as cooperativas da Diocese de Ponta de Pedras e o Museu do Marajó, a partir de 1972.
17
Demonstrando como, poucos voluntários podem tecer a história do movimento marajoara continuado, ao longo do tempo e de gerações, através do coordenador do projeto Unilivre, o GDM tomou parte da fundação do Instituto Dalcídio Jurandir, no Rio de Janeiro; passando a sensibilizar agentes públicos e iniciativa privada na formatação de roteiro para turismo literário com base na restauração da Casa de Dalcídio Jurandir, em Cachoeira do Arari.
18
Deste modo, através da Paratur, o grupo GDM / Ulinivre recebeu apoio para promover mudança econômica com base no entendimento e a cooperação para o desenvolvimento sustentável. A Paratur, então, visando a estimular estudos de turismo rural com ênfase ecológica e conservação de sítios arqueológicos. contratou especialista em turismo no Mato Grosso. Com parceria do GDM, a Paratur estabeleceu acordo com a AMAM e FAEPA no sentido de estabelecer no Marajó produtos diferenciados com característica das ilhas, principalmente. Então, fazendeiros coordenados pela AMAM e FAEPA puderam receber daquele especialista informações sobre ecoturismo na ecorregião do Pantanal...
19
Começou, assim, no âmbito técnico do Governo estadual, afin com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) a idéia política de uma reserva da biosfera capaz de motivar, finalmente, implantação da APA-Marajó (1989) determinada pela Constituição do Estado do Pará. A iniciativa de Muaná 2003 faz parte desta história, onde se insere o GDM com a militância da ong CAMPA e da cooperativa de mulheres CEMEM fundamentais na convergência de esforços que chegam a 2007, na inclusão da proposta da Reserva da Biosfera do Marajó no Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó.
20
Esta notícia serve, então, de registro do fato da Reserva da Biosfera do Pantanal ter sido espelho para sensibilização do segmento de pecuaristas marajoaras para o diálogo que ainda se precisa intensificar e aprofundar, sem preconceito nem imposição a fim de servir de referência em harmonia com áreas protegidas co-irmãs da rede amazônica de reservas da biosfera. Para que? Para que as comunidades tradicionais possam ser, doravante, reconhecidas e amparadas pela República como verdadeiros esteios da brasilidade a mais profunda no seio mesmo da humanidade inteira.
José Varella /// Belém, 07/10/2007
Flauta
e Uirapuru no encanto da Mata Atuá-Anajás
Em
memória de Rodolpho Antonio Pereira,
meu
pai. Aprendiz de música que se prezava
de
ter sangue cabano e descender de índios.
Não
direi (dizendo) como Pascal, “creio, porque é
Absurdo!”. Mas, tão simplesmente, creio. Porque pelo
sentimento do seu coração o plácido caboclo Agostinho Batista
achou a paz universal, no umbro das matas do alto Atuá e Anajás.
Misterioso cerne da Biodiversidade, que antigamente o profeta Isaias
anunciou e o Santo de Assis cantou sem contradição nenhuma com a
Ciência pura. Por necessidade e acaso aos centros da Ilha do Marajó,
no delta estuarino do “Mar Doce”: o maior rio do Planeta.
Enquanto o seringueiro solfejava a flauta doce p’ra matar as suas
mágoas ele se viu, face à face, diante da sutil presença da poesia
concreta. Viva, alada e sonante. Que só vendo para crer mais do que
nunca.
Naturalmente,
a maravilha se fez plumas e canto do Uirapuru como a leveza do ar que
se respira com aroma de flor silvestre. Naquela hora suspensa dos
movimentos aparentes do dia, no sítio mágico não se duvidaria do
poder divino da mãe Natureza. Como da aparição da Virgem a
qualquer andarilho vagamundo, em busca de salvação da sua vida.
Abriu-se na humana consciência da biosfera um espaço que antes
jazia oculto desde o descobrimento do Novo Mundo, um portal ao
mundo novo.
Na
verdade, o paraíso procurado na terra não estava ali nas cabeceiras
dos contravertentes do Amazonas e Pará, pelos âmagos preservados da
Ilha do Marajó entre árvores de borracha e lagos encantados no
esquecimento da devastação amazônica. Coração (quase) imaculado
da Ilha Grande. Que, no dizer do naturalista Alexandre Rodrigues
Ferreira, era a “menina dos olhos” do inspetor Florentino da
Silveira Frade (talvez o autor anônimo da primeira Notícia
Histórica da Ilha, na metade o século XVIII, donde o sábio
da Viagem Filosófica bebeu nas primeiras fontes a fim de
escrever também a sua Notícia de 1783, baseada naquela e
aumentada de observações e impressões próprias). Tampouco se
recuperaria o Jardim do Éden pelo remendo social de Missunga,
herdeiro do coronel Coutinho, no rio Paricatuba (na foz do
Marajó-Açu), onde meu pai dizia os tangarás-da-mata outrora vinham
bailar a horas mortas do dia, constante das páginas do romance
Marajó, de seu irmão Dalcídio. Mas, o caminho à primitiva
morada sagrada passava perto das cabeceiras do Atuá-Anajás,
qualquer um acreditaria ao ouvir o que tem a dizer o seringueiro e
folclorista Agostinho Batista, tradicional morador do Muaná.
Alarmado com a perspectiva de dragas e tratores entrarem triunfantes
como o Dragão da maldade rio acima a profanar o sítio onde o
caboclo toca flauta e o Uirapuru canta.
Dirão
os coloniais “cegos” do Sermão aos Peixes do padre
Vieira, é a Preguiça mãe de todos os vícios. Direi com os
sociólogos e economistas humanistas, é o Ócio pai e mãe da
filosofia e apanágio de nobres cidadãos, que em exigência
crescente não sabem donde vem o que consomem e querem sempre do bom
e do melhor... O desequilíbrio ecológico começa no coração do
homem consumidor nas cidades: não será levando o alienado
“progresso” urbano aos sertões, mas – ao contrário –
importando a paz do interior para as ruas, casas e apartamentos de
mini-cidades e aldeias sustentáveis que a gente haverá futuro algum
dia.
Como
se sabe, uirapurus e tangarás são indicadores biológicos da
devastação da natureza, pois só sobrevivem na mata virgem. Eis a
questão sucinta do caboclo do Muaná, decidido a não trocar a
primogenitude da sua gente naquele rio por um “prato de lentilhas”
sob forma de cestas básicas ou salário-mínimo. Argumento que na
maioria das vezes daria ar de riso a arrogantes devotos do deus
Progresso (já se sabe que não de graça), acostumados que estão a
passar por cima de tais ponderações “românticas”. E, portanto,
estamos todos na cidade ou no interior “no mato sem cachorro” e
nos mais diferentes recantos do globo os ricos cada vez mais ricos,
os pobres cada vez mais pobres. E como a “coisa” já foi longe
demais deliberei por consciência própria e fidelidade da defesa do
Povo marajoara, dar eco ao singelo apelo de meu colega caboclo
Agostinho Batista.
Mas,
do mesmo modo como o milagre se manifestou a ele daquele modo; também
no seu vivo argumento dá-se casamento justo e perfeito da fé com a
razão. Ou, melhor dizendo o verdadeiro equilíbrio entre a qualidade
de vida e o ganha pão dessa gente do fim do mundo. Pelo que valeria
a pena assinalar o sítio desse acontecimento extraordinário como
algo maior: nunca menos que uma ermida dedicada à Nossa Senhora do
Tempo ou do Livramento, conforme a tradição dessa nossa gente
católica iberiana. Assim como carece ainda recuperar, no Mapuá, o
sítio da Igreja do Santo Cristo que os sete caciques
nheengaíbas levantaram e o padre Antônio Vieira consagrou para
todos juntos – marajoaras, tupinambás e portugueses – celebrarem
a paz do Grão-Pará (Amazônia). Ora, quem conhecer a antropologia
americana levantaria as mãos aos céus, ao saber desse acontecimento
singular da história da Amazônia brasileira.
O lugar onde
todos os lugares se resumem ou a quarta dimensão
Quando
Uirapuru canta a mata se encanta. Tudo queda em silêncio e paz,
dizem velhos mateiros calejados da “lei da selva”. E, portanto,
aquele evento extraordinário seria ponto certo de Mutação
para nova ciência do espaço-tempo relativo: na ínfima fração de
um décimo de segundo, a eternidade se fazia presente. Pois, enquanto
a paz é infinita a vida fica mais bonita no seio da maré. Todos os
tempos e lugares se resumiram num único Lugar: que nem o Aleph,
do vidente e escritor cego Jorge Luís Borges.
Paresque,
o cantador da mata virgem surge do nada e ao nada retorna após o
concerto. Por acaso, o som doce da flauta do seringueiro atraiu
o passarinho em necessidade de companhia. Quando um tocava, o outro
calava: e tudo era a mesma música. O profano e o sagrado interagiam
naquele concerto da mata virgem, que vinha da preteridade do mundo,
desde os Princípios.
Pelo
fio do tempo se desatava a Corda da romaria tecida de
elétrons, íons, prótons, nêutrons e a
infinidade de coisas que a gente não sabe e talvez nunca jamais há
de saber... (com amável licença do filósofo da Latinidade, Edgar
Morin). Aí, o tempo marajoara passava gota a gota. Como o sereno
caindo fino das folhas, madrugada adentro, durante a
evapotranspiração da floresta. Devagar, devagarzinho, quase
parando... Isto o caboclo achava muito bom. Não carecia pressa ou
lucro. Mas porém, não há dinheiro nenhum que pague.
Não
é curioso, por exemplo, que no Velho Mundo se considera o leão,
devido à força, “rei” dos animais. E, na Amazônia, um simples
passarinho com sua simplicidade e canto maravilhoso reina e encanta a
floresta? Que sentido o mundo poderia tirar desta lição da
natureza? Quando se sabe, ademais, que aqui vieram convergir
anseios de conquista incontroláveis, com tribos antropófagas e
guerreiros medievais movidos compulsivamente por ambições de
diferentes paraísos. Nós não somos ingênuos quando às diversas
cobiças de Norte ou Sul, aqui na faixa do Equinócio. Porém
temos esperança – pela paz verde do
Uirapuru – em conquistar o mundo, convencendo-o
primeiramente de que a região equatorial não é “celeiro” nem
“almoxarifado” de ninguém. Mas, nada menos que oportunidade
única de se criar uma nova civilização. Este é o dilema
amazônico, na metáfora da herança primordial e o evasivo prato
feito de lentilhas do imediatismo da fome desde as Origens, que as
Escrituras falaram. Erro secular do nosso colonialismo congênito.
O empate da
hidrovia e a mais valia da biosfera
A
Vila de Muaná (1823) já nos deu régua e compasso. O desconhecido
rio dos Mapuá (1659) mostrou a autodeterminação das nações
indígenas marajoaras a todo mundo – velho ou novo – a caminho da
justiça e da paz. Enfim, a Ilha Grande de Joanes ou Marajó (aliás,
Analáu Hohynkáku, Marinatambalo, Ilha Grande dos
Nheengaíbas, idem dos Aruans) foi vestibular do sábio
Alexandre Rodrigues Ferreira (ajudado pelo inspetor Florentino da
Silveira Frade e o sargento-mor índio Severino dos Santos), na
Viagem Filosófica ao interior da Amazônia, e nos mandou a
sua Notícia Histórica (1873).
Aqueles
que, num simulacro de democracia, decidem graciosamente sobre o
destino da brava gente marajoara sem a escutar e interpretar legítima
e verdadeiramente. Ou falam de boca cheia sobre “a maior ilha
marítimo-fluvial do mundo” no estuário da maior bacia fluvial do
planeta; por acaso, sem jamais saber o que significa sobreviver
naquelas condições ilhadas:
Já
leram sobre a Carta-Patente do Pe. Antônio Vieira aos Sete
Caciques Nheengaíbas? Sabem todas as conseqüências históricas e
jurídicas da resposta (sem a qual a viagem de Pedro Teixeira teria
sido mera curiosidade geográfica semelhante à “descoberta” das
amazonas por Orellana e a revogação da “linha” de Tordesilhas
impossível, em 1750) à luz do Direito Internacional moderno e suas
possíveis interpretações no campo da democracia contemporânea?
Tiveram eles a acima dita Notícia Histórica? Conservam dela
o essencial sobre a antiguidade humana e a riqueza biogeográfica da
ilha? Que o naturalista diz ter visto nesta Ilha Grande (50 mil km²,
povoada desde 1000 anos antes da Era Cristã) o potencial de uma
província. E, pode-se dizer até, credencial suficiente para as
Ilhas ser consideradas os “Países-Baixos” do novo trópico, por
exemplo.
Os
nobres senhores sabem a história verdadeira da adesão do Pará à
independência do Brasil? Os amazônidas não faziam parte do Brasil
antes de 1823 (isto é, há apenas 180 anos), nem o Grão-Pará
esteve diretamente ligado ao Vice-Reino do Brasil durante a
permanência da Família Real no Rio de Janeiro, mas sempre ao Reino
de Portugal. Os paraenses deliberaram conquistar a nacionalidade
brasileira, a 14 de Abril em Belém; e proclamaram tal decisão, a 28
de Maio em Muaná, pagando o gesto de liberdade com o próprio
sangue. Porém, o arreglo neocolonial de 15 de agosto deixou
cair a máscara ente 16 e 17 de outubro; perpetuando a humilhação
do Povo do Pará até à convulsão popular de 1835 e a repressão
genocida de 1836 a 1840: traições e falsificações históricas
hereditárias e a previsível ira popular.
Se
honestamente os senhores não sabem – pelo amor à República
Federativa e à pátria comum latino-americana de seus filhos e netos
– voltem depressa aos bancos escolares. E escutem, por favor, o que
essa gente cabocla tem a dizer! Pois, a repetência colonial do
gigante adormecido Brasil no berço esplêndido da América do Sol
ainda não deixou aprender a lição: não há meio que se sustente
nem ambiente que preste, onde a gente da terra for excluída dos
benefícios da Obra. Os ecos da Cabanagem reboando pelas entranhas da
varja nos açaizais povoados de más lembranças, em frente à
cidade, não nos deixam dormir sossegados...
Então,
vi o velho seringueiro conhecido de Chico Mendes e afeiçoado amigo
de Giovanni Gallo (que Deus os tenha). Ele falava a verdade do seu
sentimento quando explicava as razões contra a escavação e
dragagem do canal da Hidrovia do Marajó nas cabeceiras dos rios Atuá
e Anajás. Achou importante que se cogitasse, na hora, implantar na
Ilha uma reserva da biosfera. Este assunto ele pouco entende, porém
aprovaria qualquer coisa para deixar de lado a destruição de lagos
e matas donde extraiu as mais interessantes lendas do seu repertório
e as cento e tantas “estradas” de seringa que foram sustento de
sua gente.
Dizendo
ele que, ao contrário do que se ouve a favor da obra de seus
pesadelos, os caboclos ribeirinhos nada têm a ganhar com o projeto
adorado por alguns empreiteiros e transportadores de carga. Que a
gentinha dos rios apartados tem seus nomes tomados em vão para
dourar a pílula da devastação daqueles estirões. Que, na verdade,
seria deixada a ver navios. Visto que a hidrovia não mostra nenhuma
ação direta de inclusão social se não em tese, com os decantados
benefícios indiretos do “progresso”. Mas tão só a redução de
alguns quilômetros para economia de fretes e aumento de lucros no
transporte de cargas.
Segundo
deu a entender, em vez de fixar caboclos nas terras de seus
antepassados, a súbita abertura de trechos isolados à concorrência
de fora seria mais depressa motivo para os ribeirinhos deixarem os
sítios da sua pobreza e ir aumentar invasões da miséria nos
subúrbios das cidades, à vizinhança de outros atropelados do
Desenvolvimento. Em princípio, o nosso amigo seringueiro não é
contra hidrovias. Aliás, o que é um rio navegável? Por que não
cuidam antes das “hidrovias” naturais que são rios, furos, lagos
e igarapés? Será que só vale a pena meter draga onde seria melhor
conservar a natureza? Há – diz ele –, qualquer coisa que não
entende nessa discussão. E, portanto, está contra – tão-só –
à destruição de recantos remotos da sua estimação, nas funduras
da mata entre rios Atuá-Anajás.
Crente
do poder divino das coisas naturais e sobrenaturais gravou na memória
cenas vividas na solidão dos centros da Ilha Grande. Onde plasmódio
e curupiras fazem permanente morada. E onde o comum dos mortais nunca
meteu os pés ou jamais colocou as mãos em cima. O atento ouvinte
parece ver nas pupilas acendidas daquele um a vidência de tempos
pretéritos e futuros, como num filme que o próprio personagem vai
narrando com voz firme e serena.
Primeira
Conferência de Meio Ambiente do Marajó
O
tempo, vários ataques de malária e carências mil da lida botaram
marcas inconfundíveis no amável rosto do seringueiro. A gente
acabava de ouvir histórico discurso proferido pela senhora prefeita
de Muaná, anfitriã do encontro, dona Ortensia Guimarães. Digna
matriarca na melhor tradição marajoara do relevante papel da mulher
na comunidade. A gestora marajoara declarou abraçar a causa da
reserva da biosfera em Marajó, proposta pelo Grupo em
Defesa do Marajó – GDM, a Cooperativa
Ecológica das Mulheres Extrativistas do
Marajó – CEMEM e a Corporação
Associativo-Ambiental Panamazônica – CAMPA; acolhida
por unanimidade no encontro de Muaná.
Causou-nos
grata surpresa a Conferência preparatória às conferências de
Belém e Brasília, donde partiu o apelo democrático do Marajó
dirigido à ONU, através da República Federativa do Brasil, que não
poderia ter melhor lugar a sua legitimação. Pois se trata do povo e
da cidade que afrontou no passado o poder colonial, proclamando com
todas as conseqüências a luta popular, resistência armada, prisão,
humilhações, deportação e mortes no Tejo ingrato e distante.
Padecimentos no cárcere de S. Julião, onde penaram também outros
mártires da Amazônia. Tais como o sábio jesuíta João Daniel,
primeiro naturalista da região amazônica.
Pois
foi em Muaná que ocorreu a gloriosa Adesão da província
ultramarina do Grão-Pará (Amazônia portuguesa) à independência
do Brasil (28/05/1823). Sem dúvida, o vetusto e singelo monumento da
praça 28 de Maio, com a lápide dos heróis de Muaná, embora
desconhecido da intelectualidade tupiniquim, representa o melhor
testemunho dos justos e originais motivos da Cabanagem.
Daí
porque barões assinalados da historiografia oficial desconhecem os
feitos da cidade-monumento de Muaná. E relegam a praça da adesão à
inclemência do sol e das chuvas para destacar, indevidamente, datas
e sítios desfocados da realidade histórica. Compensada apenas pelo
aprazível consolo das tardes ao pôr do sol, quando da chegada de
bandos ruidosos de japiins que vêm pernoitar na arborizada praça ao
lado e entoar o réquiem dos heróis esquecidos da amazonidade
brasileira.
Com
tais antecedentes, a candidatura do Marajó ao programa “Homem
e Biosfera” da UNESCO e à rede mundial de reservas da
biosfera (à semelhança do Pantanal, Cerrado, Caatinga e Amazônia
Central, no Brasil; e mais de 240 reservas em todo o mundo) tem sabor
de um resgate extraordinário. Longe disto representar a temida
“internacionalização” da Amazônia, significará ao contrário
reconhecimento da autonomia regional democrática assegurada pelas
leis do País.
Ao ouvir as
explicações dadas pelos proponentes, o caboclo adverso à
construção do canal da hidrovia nos confins das “suas” matas
onde canta o uirapuru suspirou pelo sucesso da reserva da biosfera.
Acho que ele teme que a construção – ao longo de 32 quilômetros
de canal, o dobro em diques de contenção e docas de manobra para
balsas de até 8 metros de largura com mais de um metro de calado –
venha a perturbar o sossego da mãe do rio (a Cobra grande). Podendo
vir daí algo temível também no plano metafísico, além da chamada
ecologia... Não é por causa um vago conceito de meio ambiente que
ele está contra. Ou por molestar teorias complicadas que não
entende nem morto. Mas, sim pelo motivo de que tal escavação seria
o túmulo do seringal da sua vida. Cemitério dos derradeiros
“mondongos”; fim dos berçários de alevinos e reservatórios da
fauna e da flora aquática. Até as onças que ainda restam
escondidas por lá e os jacarés e cobras que escaparam da sanha
humana, teriam que se defender atacando animais domésticos. A,
assim, acabariam os seus dias caçados até a extinção total.
Considero
o caboclo de quem falo (como tantos outros da mesma escola) mestre em
“desenvolvimento sustentável”. Método supimpa de produção,
distribuição e consumo que, talvez, foi vislumbrado desde as
entrelinhas da História do Futuro, na utopia barroca de
Antônio Vieira. E no fabuloso Tesouro Máximo Encontrado no
Amazonas, da escrita arcaizante do padre João Daniel. Este fez
observatório no Moju (séc. XVIII) e Vieira (séc. XVII) anteviu a
vocação natural hidroviária do planeta amazônico; ao deparar
“avenidas, ruas e praças d’água” nos Estreitos de Breves:
“clímax igapóreo” da Terra, na expressão de Eidorfe Moreira. O
Padre grande esteve a poucas léguas do sítio ecológico que o nosso
amigo jurou defender.
E,
portanto, cristãos novos e velhos do Grão-Pará careciam de
entendimento justo e perfeito da Carta do Apóstolo Tiago às
Tribos Perdidas, segundo a Bíblia Sagrada. Nosso personagem tem nome
de convertido, talvez por necessidade e acaso da conservação da
memória e do meio ambiente de seus antepassados na preocupação de
seus netos e da mais descendência que há de vir. Ele se chama,
simplesmente, Agostinho Batista. Ademais, folclorista e escritor
popular, além de seringueiro, mateiro experiente e flautista
encantador de passarinhos da mata. Uma extraordinária atração
ecoturística do Marajó a procura de empreendedor que o queira
transformar em “produto”, com a nobre finalidade da geração de
empregos e renda na comunidade tradicional de Muaná.
Marajó um
lugar não como qualquer outro
Tal qual o
convertido Agostinho marajoara, também eu sou caboclo “educado”
para matar ou morrer na dura lei da selva, que a sobrevivência nos
sítios ensina sem compaixão. Aqui a gente não carecia de cartão
de crédito, botijão de gás, vale transporte e cesta básica até
há pouco tempo. A gente só precisava da ajuda de Deus primeiramente
e, depois, de cachorro farejador, munição, espingarda e pontaria
certeira. Fora disso, qualquer um se tornava “panema” e – Deus
o livre! – precisava de caridade alheia todos os dias. Se desse,
então, p’ra “mexer” na propriedade dos brancos a coisa ficava
“peor” e cedo ou tarde, acabava dando com os costados na cadeia
de São José...
Assim,
a gente se ri do pessoal da cidade. Que, diz-que, quer porque quer o
tal “desenvolvimento” a qualquer preço. E, subjugados à lei do
Cão, ficamos ilhados e peiados a ver navios levar madeira de lei,
minério e peixe ao estrangeiro a troco de um prato-feito de
“lentilhas” na figura ridícula do salário mínimo
(quando há). Por esta inglezia já fui adepto do Progresso e
da Civilização. Por sorte, tive algum curupira por padrinho que me
desviou do caminho da devastação. Tal qual, paresque,
aconteceu com o parente Agostinho Batista. Eu escrevi loas à
criação de um território federal do Marajó (anos 60) e fiz
propaganda da hidrovia (anos 80), sem medir as conseqüências da
economia de alguns quilômetros a menos entre Macapá e Belém.
Continuo eu, sim, favorável à óbvia opção das hidrovias
naturais da Amazônia. Que são os rios, com o
mínimo de intervenção e o máximo de prudência científica e
responsabilidade social e ambiental.
Já pairava uma
dúvida em meu espírito sobre a mais valia para a população
tradicional entre uma reserva da biosfera ou a construção de um
canal artificial de navegação de 32 quilômetros, rasgando áreas
isoladas e quase intocadas. Eu não me impressionava com a conversa
fiada do impacto ambiental sobre peixinhos misturados e confundidos –
diziam – pelas águas emendadas. Quem conhece nossa hidrografia
dava boas risadas dessa estória, com razão. Considero que não
existe parto sem dor, assim como não há desenvolvimento econômico
com custo ambiental zero. O que faz a diferença é a verdadeira
questão do IDH da população local: o resto, conversa mole p’ra
boi dormir...
Agora,
todavia, percebo que a hidrovia não seria apenas um parto, mas um
estupro. Tendo por vítima além da natureza também a gente
ribeirinha, ao contrário do que se dizia... Muito me impressiona
saber do enorme volume de mais de 13 milhões de metros cúbicos de
terra, lama, biomassa e material orgânico a inevitavelmente entrar
em decomposição, quando for retirado dos “mondongos” para dar
lugar ao canal de navegação. Neste caso, o mínimo que se tem a
fazer é ir em expedição tirar as dúvidas in loco, levando
gregos e troianos ao terreno.
Onde
será depositado o material extraído do “valão”, sem enterrar e
entulhar o entorno? Aí mora o perigo. Para depositar mais longe,
implicaria custos mais elevados que talvez justificassem alternativas
que não a construção do canal. Dentre as quais, melhor
aproveitamento dos cursos naturais com inovação tecnológica em
equipamentos de transporte e navegação. Na verdade, a maioria dos
membros do GDM não está convencida da necessidade do “furo”
artificial, numa região que, por natureza, já se chama Furos de
Breves.
Talvez
os pesquisadores não soubessem, exatamente, e só ouviram falar do
ecossistema a ser atravessado e alterado pela hidrovia. Nossas canoas
motorizadas cruzam os centros da Ilha em diversas direções, ao
tempo das cheias. A alegada abertura do canal para socorro de
caboclos ilhados lembraria que a dragagem do Canal Tartarugas em
meios a debates pela imprensa, depois de feita caiu em silêncio e
não teve estudo a posteriori. De modo a prever as
conseqüências possíveis sobre escavação de novo canal, este com
maiores impactos para passagem de balsas e barateamento de fretes
entre Macapá e Belém. Significativamente, uma região de
extraordinária vocação hidroviária e de recursos aquáticos não
tem centro de pesquisa e formação técnica especializada à altura
do potencial.
Penso
que uma alternativa à Hidrovia do Marajó se oferecerá a partir da
Alça Viária, que ainda não havia nos anos 80; quando se aventou a
idéia dessa ligação transmarajora em Macapá. Franklin Rebelo e eu
(em artigo publicado em “O Liberal”) fizemos eco na
imprensa em Belém sobre o assunto. Com o distrito industrial e
portuário de Vila do Conde, entretanto, mudou-se o eixo viário do
Pará em direção à bacia do Tocantins. Assim, em vez de abrir os
centros da ilha do Marajó sem estudos ecológicos completos melhor
será investir na perenização do lago Arari e na infra-estrutura
portuária de Abaetetuba (centro tradicional de intercâmbio com as
Guianas). Que, não só melhor atenderia o transporte hidroviário
para as microrregiões de Portel e Furos de Breves, no Marajó, como
também faria a ligação com a Zona Franca Santana-Macapá e a área
metropolitana de Belém com transporte modal mais moderno e mais
rápido, implicando, portanto em melhor produtividade. É claro que
esta opção não existia ao começo dos estudos para o projeto em
questão.
Tendo
em vista a construção das eclusas de Tucuruí para aproveitamento
da Hidrovia Araguaia-Tocantins, eventual operação de carga em
Abaetetuba com destino ao Amapá e as Guianas poderá ser feita sem
prejuízos com o cancelamento final do projeto da hidrovia do Marajó.
Pois a ligação portuária Abaetetuba-Santana substituirá com
vantagem a inicialmente prevista com projeção rodoviária para o
Oiapoque em direção a Caiena e Puerto Ordaz (Venezuela) em face de
Trinidad e Tobago e o rosário ilhéu do Caribe, via a hidrovia
natural do Tajapuru.
Deste
modo, entre mortos e feridos, escaparemos todos e o seringueiro
Agostinho Batista agradecerá com o dueto com o Uirapuru da sua
estimação, assistido alguma vez por ecoturistas maravilhados. Não
antes que meu fraterno camarada Franklin Rebelo haja vencido o cruel
isolamento da Contracosta. Com a inclusão da sua sonhada “Rodoleste”
(rodovia do leste marajoara) ao projeto governamental Costa do
Sol. Pelo qual, a ligação em ferry-boat
Barcarena – Ponta de Pedras se estenderá por estrada pelos campos
de Ponta de Pedras aos campos de Cachoeira, continuando por Santa
Cruz do Arari até às margens da Contracosta, em face da Ilha
Mexiana.
A
exemplo do Pantanal, o Marajó deve fazer opção preferencial pelo
seu potencial ecológico com inovação tecnológica compatível, de
modo a se tornar referência ecoturística do Pará. Muito melhor
para todos e não apenas para alguns.
José Varella,
do GDM.
Belém
do Pará, 12/10/2003.
manifesto
pessoal
do
marajoara Zé Varela:
O
Nosso Museu do homem marajoara, promotor de inclusão socioambiental
da criaturada de Dalcídio no território da Cidadania brasileira e
da humanidade
Proposição
para criação do Banco
do Povo Marajoara
(Fundo Amazônia) mediante compromisso da Agenda 21 / Metas do
Milênio para estabelecimento da meta regional Marajó
IDH 0,80 (2020)
e amparo público-privado ao tombamento e extensão do Museu do
Marajó conjunto à casa de Dalcídio Jurandir como
instrumento-piloto de promoção do desenvolvimento sustentável da
região de integração Marajó, do Estado do Pará: do chalé
confronte à árvore de Folha-Miúda na beira do rio e fazendola
vizinha do bairro do Choque, em Cachoeira do Arari, à passagem da
criaturada grande de Dalcídio ao primeiro plano da paisagem cultural
Belém-Marajó e suas curiosas travessias ao Rio de Janeiro e outros
Brasis no mundo de fora e adentro de florestas e sertões.
Para
muitos, o casamento da necessidade com o acaso não é santo mas, às
vezes, faz milagre na vida e ressureição da antiguidade da história
natural do homem na Terra, em qualquer parte do mundo: o caso do
Museu do Marajó, por exemplo... A maioria da gente, entretanto,
acredita que nada acontece por acaso (segundo folclore muito recente,
Giovanni Gallo foi “reencarnação” de um grande cacique
marajoara). Carece saber a arte das palavras para entender quantas
vidas teve ou terá o rei dom Sebastião morto em batalha entre
mouros e cristãos, no Marrocos. Já Jorge Amado, que não pode ser
chamado de místico, mas como todo bom bahiano reverenciava o
Candomblé era obá.
Uma dignidade de Xangô, uma espécie de ministro do terreiro. Como
tal reconheceu seu camarada Dalcídio Jurandir na qualidade de “índio
sutil”...
Embora a
necessidade, solteira ou casada, ela existe de qualquer maneira. Seja
lá como for, em realidade, o descobrimento científico tardio da
Cultura Marajoara prova que do encontro da fome com a vontade de
comer peixe do mato sem cachorro; noves fora cachorrinho-do-padre ou
anujá (Parauchenipterus
galeatus),
nasceu, por acaso, o primeiro teso (aterro). Ou seja, sítio
arquelógico da primeira cultura complexa da Amazônia, “lá pelo
ano 500 depois de Cristo” (cf. Origem
e Significados da Cultura Marajoara,
Denise Shaan in
Giovanni Gallo, Motivos
Ornamentais da Cerâmica Marajoara: modelos para o artesanato de
hoje,
Cachoeira do Arari: 3ª ed., Museu do Marajó, 2005).
Por acaso ou destino, um menino
daltônico nascido na Itália fascista (Turim, 1927) veio ser
brasileiro de adoção (1982) e morrer na Amazônia (Belém, 2003) em
luta contra a ditadura da água na ilha do Marajó. Isto não teria
sentido se ele não tivesse em companhia de pescadores despossuídos
do patrimônio ancestral de seus antepassados, no lago Arari, criado
um museu no fim do mundo aonde seu superior jesuíta havia mandado
fundar uma cooperativa...
Pior do que o padre desobedecer
ao bispo e desviar a doação da igreja de imigrantes na Suiça para
o projeto da cooperativa dos pescadores do Jenipapo e, por decisão
pessoal; investir o dinheiro estrangeiro na prefeitura de Santa Cruz
do Arari para esta construir um posto de saúde pública; foi pisar
nos calos dos políticos locais sem consideração às implicações
da complicada teia de interesses que margeiam as relações entre os
diferentes estamentos da mesma oligarquia regional e suas diversas
ramificações locais, do que é notória a literatura de um certo
“índio sutil” conhecido nacionalmente com Dalcídio Jurandir.
Ora, sem a
gente ler (e não porque não queira, mas porque não sabe ler e
escrever, conforme o ditado “manda quem pode e obedece quem tem
juízo”) as cartas e sermões do Padre Antônio Vieira, a “Viagem
Philosophica”
inclusive a “Notícia
Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó”,
do sábio Alexandre Rodrigues Ferreira e “As
Regiões Amazônicas”
do Barão de Marajó, pelo menos, não se conhece não a Amazônia
profunda. Ainda que todos os satélites espiões da Terra apontem
seus olhos eletrônicos sobre ela os analistas verão apenas a cara,
mas não o coração da devastação da Floresta Amazônica.
Logo, muito
chefe de gabinete e assessor de governo ou kingOng não entende
porque projetos braçais tipo força-tarefa do Nossa
Várzea
de regularização fundiária são cruciais para o êxito final e
total do plano Amazônia Sustentável (PAS), nem sabem eles (como
dizia mestre Lucindo no carimbó tradicional do Salgado) a razão
porque no rio não dá tubarão e no mar não tem jacaré: a gente da
Cidade grande precisa saber porque é que o Plano Marajó é piloto
para a paz social regional e o PAS chegar a bom destino,
diferentemente dos predecessores planos de valorização ou de
desenvolvimento regional que deram com os burros n'água, como a
gente sabe mas não fala.
O Museu do
Marajó nasceu do inesperado encontro da resistência da brava gente
marajoara e da infinita teimosia de um padre que remava contra maré
e vento enchergado a paisagem com outras cores diversas do normal.
Ele mudou-se rio abaixo debaixo de incompreensão e pressão
política, como outrora o payaçu
dos índios (Vieira) saiu corrido pelos colonos do Grão Pará...
Entre 1661, em Belém do Pará, e 1981, em Santa Cruz do Arari,
repetiram-se mutatis
mutantis ("mudado
o que deve ser mudado", ressalvadas as diferenças)
320 anos de história de exclusão e falta de verdadeira saída para
construção de um sistema produtivo com justiça e paz para todos.
Gallo queria
ser santo, mas confessa que “pifou” no fim duma história local
conturbada (ver O
homem que implodiu).
O “imperador da língua portuguesa” (Vieira, segundo Fernando
Pessoa) defensor dos índios e dos judeus perseguidos pela
intolerância cristã, optou pela escravidão dos negros e não
repugnou castigos físicos aplicados a catecúmenos contumazes na
costumeira poligamia. Nem mesmo o caudilho cabano Eduardo Angelim
vacilou em mandar fuzilar camaradas negros fugidos da escravidão,
por lamentáveis razões politicas. Por isto perdeu ele a
guerra-civil contra o genocida general Andrea e o povo paraense unido
a chance de derrotar o neocolonialismo do Império do Brazil. Eis uma
das razões pelas quais a História padece nesta província
sacrificada a versões historiográficas gregas e troianoas fadadas a
repetir o insucesso crônico da utopia evangelizadora ou da busca do
Paraíso na terra dos tapuias.
O analfabetismo funcional se alia
ao analfabetismo político com grande desvantagem para a segurança
pública e a soberania do Brasil. Portanto, não basta devolver a
terra tirada aos índios a seus descendentes cabocos ribeirinhos.
Carece imediatamente erradicar o analfabetismo e promover o
desenvolvimento cultural como estratégia central para a economia
solidária de combate à pobreza e conservação do meio ambiente.
Se o diabo são os outros
(Sartre); nós que nos consideramos abençoados filhos de Deus e
afilhados de todos os santos, não ganharemos jamais a guerra pela
guerra, mas pela paz. Com que nas regiões amazônicas o desejável
sucesso tem o novo nome e sigla do PAS. Ora, o problema da maioria de
filhos de Deus é que eles acreditam mais nas maldades de seus irmãos
do que em suas próprias bondades... Daí a paralisia ética e moral
geral. A cabo e a rabo todos concordam que uma vez chegando ao poder
o que alguém a fazer é “se dar bem” (fazer mão de gato e
cuidar do pé meia). Qualquer um que tenha passado pelo governo e
saiu de mãos limpas é um otário e um besta. Certo é o esperto que
rouba, mas faz e deixou cair algumas migalhas aos amigos do peito.
O defeito,
então, é a tal avis
rara
em extinção, a senhora dona honestidade. Quando alguém grita na
rua “pega ladrão”!... já vem prontos ao pensamento os três
“p's” (pobre, preto, puta) de costume. Mas, quando colarinho
branco cai na rede de combate à Corrupção fazem-se caras e bocas
do mais fingido espanto da paróquia.
Não há uma mísera idéia ou um
único projetinho pé de chinelo que não tenha “dono” e marca
registrada: a fulanização é ampla e total. Em princípio, tudo é
lindo e maravilhoso... todavia, teum um porém: isto é do ministro
“a”, do secretário “b”; do partido “y”... vai servir
para elejer o político “x”. Mesmo uma ação de terceiro ou
quarto escalão pode ser brecada, pelo simples fato de que quem
decide não vai com a cara do executor. Ah, o que seria escândalo no
Japão aqui, não! Rende uma boa piada nas colunas de fofoca dos
jornais impressos ou eletrônicos.
Toda crítica soa como declaração
de guerra e ofensa pessoal, enquanto a inteligente palavra
autocrítica foi riscada do dicionário. Então, como retirar vendas
e tapagens de diante dos olhos para enxergar a saída? Caímos num
paradoxo terrível de uma ilha de pobreza cercada por um mar de
riquezas por todos os lados, cujos vários benfeitores brigam entre
si a ver quem mais ajuda sem os pobres, entretanto, jamais conseguir
levantar a cabeça.
A idéia que fica é que a
pobreza de muitos é lucrativa para uns poucos. Estes últimos,
logicamente, tudo farão para parecer a favor das mudanças mas, de
fato, ocupar o lugar e não deixar mudar coisa nenhuma. Senão
estraga o bem bom.
Os índios foram todos
exterminados e reduzidos a cativeiro. Todavia, os caciques deixaram
de lado penas e cocares para se enfeitar de paletó e gravata;
abandonaram a maloca pelo apartamento e automóvel com ar
refrigerado, lutam para ser eleitos prefeitos e deputados. Nas horas
vagas posam de empresários, sem deixar de ser marreteiros de
costume. Não há um só caboco que queira se lembrar que seus
avoengos foram indígenas e escravos e se acaso lhe aparece pela
frente alguém para lhe refrescar a memória o tomam por inimigo. É
cada um por si e Deus por todos...
Uns não sabem, porque não se
lhes ensinam. Outros porque não querem saber de nada, já
desenganados da História. Mesmo assim uns e outros querem dar
remédio a uma antiga doença que não conhecem: a cegueira congênita
que faz de orgulhosos colonizadores iguais a burros olhando porta de
palácio.
Decorre daí
que devolver as ilhas aos herdeiros e descendentes ribeirinhos dos
Nheengaíbas (no espírito da pax
de Mapuá, que completa 350 anos em 27 de agosto deste ano de 2009,
juntamente com o aniversário de fundação das aldeias Aricará
(Melgaço) e Arucaru Portel), embora indispensavel para romper o
círculo vicioso da Pobreza; resultaria semelhante a encher água com
paneiro, se não houver imediata organização social de mais de 500
comunidades locais do territorio da Cidadania e geração de renda na
produção familiar.
Carece uma revolução mental
para abrir os olhos e ver quantos empregos e renda a economia da
cultura pode fomentar aliada à prestação de serviços ambientais.
Para isto o Museu do Marajó existe para dizer que a “Cultura
Marajoara” de 1500 anos de idade, é insumo econômico renovável
de primeira ordem: mãe de todos os planos de desenvolvimento
sustentável que se possam imaginar nestas paragens.
Parceria entre
a mãe Natureza e seu filho Homem cujo teste de resiliência – por
necessidade e acaso – deu-se com a criação informal de O
Nosso Museu do Marajó,
ano de 1972, em Santa Cruz do Arari, há mais de 1400 dos primeiros
sitíos arquelógicos da ilha grande dos Nheengaíbas
[Marinatambalo
de Vicente Pinzón, Marãyu
ou Mbarayo
dos tupinambás, Marajó dos jesuítas, ilha grande de Joanes dos
portugueses, aliás Analau
Yohynkaku
dos aruãs],
“falantes
da língua ruim”, a babel Nuaruaque.
Nada
a mais e nada a menos, senhores meus manos!
o
financiamento para o progresso do IDH local
A
Constituição do Estado do Pará vai compeltar vinte anos, no seu
artigo 13, VI, § 2º, está escrito: “O
arquipélago do Marajó é considerado área de proteção ambiental
do Pará, devendo o Estado levar em consideração a vocação
econômica da região, ao tomar decisões com vistas ao seu
desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente
marajoara.
Nenhuma outra das 12 regiões de
integração do Estado do Pará recebeu da Constituinte paraense
destaque especial e enfático como este. Nem outra também já
ofereceu tantos governadores, autoridades, artistas e intelectuais
quanto o Marajó e nem o seu tesouro cultural autóctone se compara a
nenhum outro do Brasil.
Por que, então o arquipélago do
Marajó ostenta um IDH tão baixo em comparação ao conjunto do
Estado do Pará e do País? Se não for por castigo dos deuses
antigos ofendidos em sua dignidade pela invasão estrangeira, terá
que se encontrar uma razão inteligível.
Esta será talvez pelo
desencontro entre o que a gente quer e o que o Pais e o mundo
oferece. Não será, por acaso, um erro formidável da Civilização
impor aos “bárbaros” um padrão que eles rejeitam com quantas
forças podem resistir? Claro, há costumes bárbaros intoleráveis,
como, por exemplo, comer carne humana e caçar cabeças de inimigos
para colecionar. Não foi o caso dos marajoaras. Pelo contrário, se
não fossem os caribes canibais nas Antilhas e Guianas empurrar os
aruaque para as bocas do Amazonas, e por outro lado antropófagos
tupinambás acossar as ilhas, os marajoaras talvez não tivessem
cristalizado tão radicalmente sua identidade e apego ao seu
território ancestral.
Também os marajoaras não foram
caçadores de cabeça, como os temidos Jivaros, no alto Amazonas.
Porém, quando na guerra-civil de 1835-1940, muitos combatentes
vindos da ilha e tombados sobre campo inimigo diante de mercenários
recrutados às pressas nas cadeias do Nordeste tiveram o soldo pago
contra rosários de orelhas secas arrancadas de cadáveres de
cabanos. O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira informa que na
primeira remessa de peças para estudo em Coimbra mandou logo a
cabeça degolada de um tapuia.
- O Marajó, contudo tem lá suas especificidades, que será pena ser extirpadas em nome da sagrada civilização e do deus progresso. O Museu do Marajó poderá, mais uma vez, ser observatório e laboratório de ensaio para uma educação patrimonial comme il faut no Território da Cidadania. Aqui se carece de abordagem antropológica inovadora. Não só a iniciação científica precisa contemplar a geografia e ecossistema local. Mas, sobretudo. a história étnica dos marajoaras deve ser incluída do curriculum-vitae do gigante adormecido Brasil...
- Se povo sem passado é povo sem futuro, entende-se a razão pela qual um município que perdeu a noção da própria origem, tal qual Melgaço, por exemplo; não parece se interessar na re-fazenda de uma aldeia-memorial de Aricará (três séculos e meio de história esquecida). Mas, conforma-se a um IDH ínfimo e aceita enclave da Floresta Nacional de Caxiuanã (Flona Caxiunã) e Estação Científica Ferreira Penna (ECFP), em cooperação internacional, sem que sua população tradicional perceba o que isto significa e receba os benefícios correspondentes que deveria ter.
- Existe um abismo, salvo exceções de praxe, entre intelectuais e gerentes empregados em governos e empresas na Amazônia insustentável: este divórcio induz àqueles a perder tempo e a estes a se tornar cúmplices e/ou escravos da tecnoburocracia. Em Marajó, os índios perderam com a expulsão dos padres (não que estivessem felizes da vida com a santa missa e a redução cultural das aldeias, mas a Missão era para eles refúgio e um mal menor).
- Na semana da Pátria de 2003, diversos marajoaras e amigos do Museu do Marajó mandaram pedido de socorro ao Presidente Lula (“S.O.S lago Arari”, 07/9/2003): não tardou resposta através do IPHAN. Foi o começo do fim da indiferença e isolamento de Giovanni Gallo, Dalcídio Jurandir, João Viana e outros falaram.
O
governador do Pará, José Coelho da Gama e Abreu, Barão de Marajó,
em seu estudo clássico “As
Regiões Amazônicas”
praticamente repetiu o aviso do autor da Viagem
Filosófica
quando na “Notícia
Histórica”
considerando a grande ilha do delta Pará-Amazonas com potencial de
uma província. Antes de todos estudiosos de temas amazônicos Vieira
havia informado a Lisboa que a nação que tivesse os marajoaras por
amigos e aliados teria, por consequência, o controle de todo o vale
do Amazonas.
Disse
o Barão : “A
ilha de Marajó é uma das gemmas mais preciosas do Estado do Pará
sob todos os pontos de vista em que a olharmos. Pela sua vantajosa
posição no centro da immensa bocca do Amazonas, ella facilita sua
defeza, podendo talvez mesmo impossibilitar a entrada de navios
invasôres que queiram forçar a entrada, pois com as outras e
numerosas ilhas e canaes que se acham dispersas ou pelo lado N. ou
pelo lado S. será facil nullificar os esforços dos adversários”
(página
308, obra citada; 2ª ed. Belém: Secult, 1992).
“Sob
melhoramentos materiaes da ilha, os governos dp tempo da monarchia
contentaram-se com a nomeação de commissões e receber relatórios;
é de esperar que o govero republicano, cujos orçamentos de receita
publica tem quasi duplicado, alguma cousa faça em favor da grande
ilha... (idem,
p. 314).
“Não
é sómente pelo lado agricola que tem valor esta ilha; também pelo
lado scientifico offerece ella aos estudiosos de antiguidade e
história dos nossos aborigenes um vastíssimo e interessante campo,
e creio que em parte do territorio brazileiro se encontram tantos e
tão variados monumentos
(grifei)
servindo ao estudo ethnologico e archeologico do passado das raças
indias que dominavam aquelles logares antes da descoberta”.(idem,
p. 315).
Gama e Abreu fez o elogio do
fundador do Museu Paraense Emílio Goeldi, Domingos Soares Ferreira
Penna, pioneiro dos estudos sobre Marajó. E o juízo de ambos foi
retomado, em 1937, pela diretora do Museu Nacional, Heloisa Alberto
Torres. Abreu informa (p. 316), como comissário do Brasil que foi à
exposição pan-americana de Chicago, sobre as escavações feitas no
sítio “Pacoval no rio Arary” nos anos de 1870, para Frederick
Hartt; em 1871 para Derby; no ano seguinte para estudo de Ferreira
Pena; e mais duas, sendo a primeira para o Museu Nacional sob
Ladislau Netto e a segunda pelo próprio Barão de Marajó para
mandar à exposição de Chicago.
Assim,
o livro “As
Regiões Amazonica”
é uma das fontes sobre a extração e remessa de coleções de
cerâmica marajoara. Já o Barão lastimava as duas pragas do
contínuo empobrecimento da ilha: o roubo de gado e o saque estúpido
dos sítios arquelógicos. O Museu do Marajó, como esclareceu
Giovvani Gallo, nasceu no meio destes dois problemas, além da
devastação ambiental, intrigas políticas locais, confronto entre
fazendeiros e pescadores e fiascos tecnológicos memoráveis, tais
como o projeto Marajó de saneamento.
Os governos do Presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e da Governadora Ana Júlia de Vasconcelos
Carepa, se distinguem dos precedentes na Amazônia, desde a lei régia
colonial delegada aos Jesuítas, de 9 de abril de 1655, abolindo a
escravidão dos índios; por ambos terem sido os mandatários que não
apenas responderam aos apelos dos marajoaras, mas principalmente por
possibilitar a estes de praticar a democracia partipativa e realizar
deste modo um feito histórico; talvez a chamar atenção do mundo
inteiro em favor dos povos e populações tradicionais, notadamente
com o reconhecimento pela UNESCO da reserva da biosfera do Marajó.
- Mas, o Plano Marajó e programa Terrtório da Cidadania somente terão atingido suas finalidades quando a intelligenstia brasileira estiver à altura de compreender e defender a Amazônia brasileira. Para isto será preciso resgatar as raízes da mestiçagem de corpos e almas das regióes culturais dos Brasis. Fenômeno de cultura “antropofágica” por excelência, que fez de mais de um estrangeiro, brasileiríssimo da gema.
No Marajó, muita coisa aconteceu
depois que o padre Gallo “implodiu” e se foi. Nisto ele foi
profeta, quando disse que depois de morrer se tornaria “um grande
homem”. Conforme meu mestre em lingua e cultura caribe, o índio
Estevam Maiongong, da aldeia Auaris, na fronteira Brasil-Venezuela;
com acordo tácito de Guimarães Rosa; sem dúvida o criador do museu
do homem marajoara subiu ao céu onde virou estrela daquelas que
aparecem logo que a tarde cai.
Aliás, Giovanni não se foi para
muito longe, pois o corpo – como os dois vagalumes dos olhos do
morto, Eutanazio; no chalé de Dalcídio – ficou na terra fria
enterrado no teso à ilharga do museu antes saído de “cacos de
índio”, depois da massa falida da “fábrica Oleica”: pardieiro
que hospedou o sonho do resgate cultural depois de servir de curral
das éguas [triste memória da velha Sudam, querendo extrair azeite
de andiroba numa fábrica de ficção].
Como se sabe, o padre dos
pescadores do Arari era dado a valorizar “coisas que não prestam”.
Um alquimista talvez capaz de transformar fragmentos de cerâmica
quebrada por piratas e saqueadores de sítios arquelógicos em manual
de artesanato. E dum galpão de fábrica abandonada na falência
programada do desenvolvimento econômico da Amazônia, numa usina de
sonhos produtivos capaz de investir no capital humano.
O
Museu do Marajó, para combater a pobreza material e imaterial da
gente marajoara pode ser considerado quase tudo, inclusive um museu
propriamente dito e um banco de fantasia. Desta pajelança
extraordinária pode sair programa do Plano Marajó a ser
denominado “Banco
do Povo Marajoara”.
Um
banco popular sob chancela superior do
Presidente Lula. Para o qual o Museu do Marajó não passe de
avalista moral junto à secretaria executiva de Coordenação
Integrada do Marajó, no colegiado federativo do Plano Marajó,
programa Territórios da Cidadania e Região de Integração Marajó.
Uma vertente dentre outras tantas do Fundo
Amazônia
para as regiões amazônicas.
O
importante é que as doações e gestão do BNDES não cheguem nas
500 e tantas comunidades da região Marajó como um pauzinho de
sorvete que derreteo sob o sol no trajeto entre Brasília e a
periferia da periferia. Aqui os projetos devem ser demandados desde a
elaboração de projetos, mas todos de execução descentralizada
pela própria comunidade local, já que o Fundo Amazônia é
destinado a financiamentos não-reembolsáveis de ações para
prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento da floresta,
além da conservação e uso sustentável de florestas no bioma
amazônico, os projetos encaminhados ao Banco
do Povo Marajoara
terão necessariamente estes objetivos condicionados a gerar renda na
comunidade demandante.
O BNDES, que
coordena captações de doações para o Fundo
Amazônia,
deverá apoiar a restruturação do Museu do Marajó a fim de dotá-lo
de meios gerenciais de controle operacional de financiamento de
projetos comunitários de execução descentralizada em conjunto com
os parceiros públicos e privados da supracitada Coordenação
Integrada do Marajó. De modo a cumprir os objetivos do Fundo
Amazônia no território marajoara, em apoio a projetos que visem a
gestão de florestas públicas e áreas de conservação ambiental;
controle, monitoramento e fiscalização ambiental; manejo florestal
sustentável; atividades econômicas desenvolvidas a partir do uso
sustentável da floresta; zoneamento ecológico e econômico,
ordenamento e regularização fundiária; conservação e uso
sustentável da biodiversidade; e recuperação de áreas desmatadas.
Buscando
reduzir desigualdades e disparidades entre os municípios do Marajó,
o destaque financeiro do Fundo
Amazônia
ficaria à disposição de populações locais para financiamento de
projetos em economia solidária e apoio a arranjos produtivos locais,
uma enorme diferença em relação a tudo quanto foi tentado antes na
região. O
programa auxiliar deveria ser indutor e acelerador do PAS
na área piloto de cobertura do Plano
Marajó.
Seria também experiência demonstrativa aos mais Territórios da
Cidadania nas regiões amazônicas.
________________
José Varella Pereira, da Academia do Peixe Frito (Ver O Peso / Belém-PA), ex-assessor de relações institucionais
do Museu do Marajó.
iJosé
Ribamar Bessa Freire – ver a história das línguas na
Amazônia, “Rio Babel”, tese de doutorado deste autor
fundamental para compreensão da amazonidade.
iiSimão
Estácio da Silveira – armador de navio, concebeu plano de
colonização do rio Amazonas escrevendo panfleto dedicado aos
pobres de Portugal lhes prometendo o paraíso no Maranhão (nome
geral na época para toda Amazônia). Na verdade, casais das ilhas
dos Açores atraídos pela falsa propaganda viram-se iludidos e
forçados a escravizar índios para fazer roças de cana-de-açúcar
provocando a vingança dos mesmos índios que mataram centenas de
colonos e receberam em represália uma matança seguida de largo
cativeiro dos sobreviventes, na qual se destacaram o genocída Bento
Maciel Parente e Pedro Teixeira, famoso mais tarde pela viagem a
Quito (Equador).
iiiCultura
Marajoara – ver Denise Schaan, obra “Cultura Marajoara”,
editora SENAC, Rio de Janeiro / São Paulo, 2010. O trabalho desta
arqueóloga brasileira, professora na UFPA; é indispensável para
compreensão histórica da formação da Amazônia brasileira a
partir de suas raízes indígenas, sua arte e sua cultura que
precisam ser mais estudadas e protegidas. Inclusive para
repatriamento de acervos de cerâmica marajoara que se encontram no
exterior e muito poderão auxiliar a educação e identidade das
novas gerações amazônicas, constituindo atrativo para turismo
diferenciado na ilha do Marajó.
ivFlorentino
da Silveira Frade – foi guia de viagem do naturalista da
Universidade de Coimbra (Portugal), Alexandre Rodrigues Ferreira,
célebre autor da “Viagem Filosófica” (1783-1792), em
sua excursão à ilha do Marajó, donde se tem relato em a “Notícia
Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó” (Lisboa,
1783).
vContemplados
– nome do grupo de homens-bons que foram aquinhoados pela coroa de
Portugal com as fazendas dos Jesuitas na ilha do Marajó em
reconhecimento por serviços prestados. A relação completa desses
contemplados se acha na “Notícia Histórica” de
Alexandre Rodrigues Ferreira.
viGiovanni
Gallo – criador do Museu do Marajó, deu importante
contribuição ao resgate da Cultura Marajoara e antropologia do
caboco marajoara. Pode-se considerá-lo junto com o romancista
Dalcídio Jurandir, como grande promotor dos Direitos Humanos das
populações tradicionais amazônicas.
viiDiretório
dos Índios – Portugal houve duas colônias nas Américas: o
Estado do Brasil com sede em Salvador, Bahia; e Estado do Maranhão
e Grão-Pará, com sede em São Luís. Durante o reinado de Dom José
I de Portugal (1750-1777) Portugal e suas colônias experimentaram
profunda reforma sob impacto das ideias modernas do Iluminismo e o
nome que ficou para a história destes 27 anos não foi do rei
exatamente, mas de seu primeiro-ministro Sebastião José de
Carvalho e Melo, o famoso “déspota esclarecido” Marquês de
Pombal. Marcaram o chamado período Pombalino a tentativa de
assassinado do rei namorador, a primeira tentativa de demarcação
de limites entre as colônias de Portugal e Espanha com a revogação
do Tratado de Tordesilhas (1494) pelo Tratado de Madrí (1750), o
terremoto de Lisboa (1755) e o Diretório dos Índios (1757-1798)
seguido da expulsão dos Jesuítas (1760). O modelo de governo das
aldeias indígenas transformadas em vilas e lugares (substituindo
nomes indígenas por nomes portugueses de vilas e lugares) veio a
ser a base histórica dos munícipios da Amazônia. O índio
catequisado pelos padres viria a ser considerado por lei,
“civilizado”; súdito da coroa de Portugal. Por fim, o “caboco”
ou “caboclo” tirado da selva para as luzes da civilização. Na
verdade, a Criaturada em sua lenta marcha para a cidadania
brasileira, desde a Adesão à Independência (1823), até os dias
de hoje.
viiiCasa
das Canoas – arsenal na cidade de Belém onde se registravam
saídas e entradas de embarcações das “drogas do sertão”
(produtos da floresta, cacau, urucu, ipecacuonha, cipós, banha de
tartaruga, carne de peixe-boi, etc) e “tropas de resgate” (caça
aos índios para serviço escravo). Belém do Pará foi um enorme
cativeiro de tapuias, principalmente; tendo nos mamelucos (mestiços
de português e índias tupi) como pilotos e nos tupinambás como
arqueiros e remadores a base do sistema. Inicialmente, a ilha do
Marajó e por fim o Rio Negro foram dois dos principais celeiros da
força de trabalho escravo no Pará. Encontrando-se em tais origens
remotas a animosidade acentuada mais tarde entre amazonenses e
paraenses. Por outra parte, Abaetetuba, Muaná (Marajó em geral),
Acará, Barcarena e Vigia onde o trabalho escravo existiu com maior
intensidade vieram a relevar grande mobilização de rebeldes
durante a Cabanagem (1835-1840).
ixMaiêutica
Socrática - significa "dar a luz (parto)"
intelectual, à procura da verdade no interior do ser humano.
Sócrates conduzia tal parto em dois momentos críticos: primeiro,
levava os discípulos ou interlocutores a duvidar do próprio
conhecimento sobre o assunto; no segundo, os levava a conceber de si
mesmos uma ideia nova, uma nova opinião sobre a questão. Por meio
de questões simples dentro de contexto determinado, a Maiêutica dá
à luz ideias complexas. O método se baseia na hipótese de que o
conhecimento é latente na mente do ser humano e pode ser encontrado
pela interação entre perguntas e respostas propostas de forma
perspicaz. A auto-reflexão, expressa no nosce
te ipsum - "conhece-te
a ti mesmo" - põe o Homem na
procura de verdades universais, que são caminho para prática do
bem e da virtude. A Maiêutica, criada por Sócrates no século IV
a.C., tem seu nome na profissão de sua mãe, chamada Fanerete, que
era parteira. Entretanto, há controvérsias a respeito do método
de Sócrates. Alguns historiadores afirmam que a denominação e o
método em tela vem da narração, não exatamente exata, da vida de
Sócrates contada por Platão.
xArariboia
- nome tupi, "cobra ararinha”, cobra d'água.
Cacique dos Temiminós, grupo Tupi. Nos meados do século XVI
Arariboi teve domínio da ilha de Paranapuã (Ilha do Governador),
na baía da Guanabara, Rio de Janeiro. Ele era filho do cacique
Maracajá-Guaçu, no seu tempo franceses em aliança com os Tamoios
tomaram a Guanabara, então Capitania do Rio de Janeiro fundada
pelos portugueses, em 1555. Os Temiminós sairam derrotados pelos
Tamoios (tapuias) e retiraram-se para a Capitania do Espírito
Santo, onde reorgnizaram sua aldeia e foram catequizados pelos
jesuítas ajudando os portugueses a expulsar invasores holandeses.
Enquanto isto, Portugal enviou ao Brasil seu terceiro
governador-geral, Mem de Sá; com um contingente para retomar a
Guanabara, que estabeleceu aliança com Arariboia conseguindo, desse
modo, reforçar os efetivos em cerca de 8 000 indígenas
conhecedores do território e inimigos hereditários dos Tamoios.
Naquele tempo, potências europeias colonizadoras estudavam as
línguas indígenas e costumes dos índios para tirar vantagem
deles, ora pela paz catequizando-os e oras pela guerra para os
escravizar e dominar ou tê-los como aliados contra concorrentes
coloniais. Os franceses criaram a França Antártica na Guanabara,
em 1556, e ocuparam a ilha de Serigipe com o Forte Coligny, sob
comando de Nicolas Durand de Villegagnon. Este aliou-se aos Tamoios,
estimativamente com cerca de 70 000 guerreiros no litoral. Com apoio
dos Tamoios, a força remetida da Bahia por Mem de Sá não
conseguiu expulsar os franceses. Então, o Governador-Geral pediu
reforço de Portugal chamando o seu sobrinho Estácio de Sá e o
incumbiu de adotar a estratégia dos franceses arregimentando ajuda
indígena em acordo com Arariboia. O combate mais violento aconteceu
em Uruçumirim (Praia do Flamengo), onde franceses e tamoios estavam
concentrados. Escalando penhascos, Arariboia foi o primeiro a entrar
no terreno inimigo, com uma tocha acesa ele fez explodir o paiol de
pólvora e abriu caminho para ataque surpresa. Durante a luta, uma
flecha feriu de raspão o rosto de Estácio de Sá levando-o a
morrer de infecção. Seguiu-se então uma matança noturna, com as
forças portuguesas e temiminós vitoriosas. O episódio histórico
recebeu, como sempre, contornos de lenda. Para uns Arariboia teria
atravessado a baía a nado a fim de comandar o assalto aos inimigos.
E a vitória de Estácio de Sá, apesar da sua morte, foi vista
pelos portugueses como milagre de São Sebastião em favor das armas
de Portugal. A partir daí, a cidade do Rio de Janeiro, fundada por
Estácio de Sá, em 1565, no sopé do Morro Cara de Cão, teve o
santo como padroeiro. Com a derrota da confederação dos Tamoios,
Arariboia recebeu como recompensa o terreno do atual bairro carioca
de São Cristóvão, próximo à Ilha do Governador. Posteriormente,
em 1573, recebeu outro terreno no outro lado da baía, com a missão
de vigiar e proteger a entrada da Guanabara. Esta sesmaria teve nome
de São Lourenço dos Índios, início da cidade de Niterói
(topônimo tupi, traduzido como "água escondida"). Como
os índios chamavam à entrada da baía onde as águas do mar
parecem se "esconder" na Guanabara. Porfim, Arariboia
converteu-se ao catolicismo e adotou nome de Martim Afonso de Sousa,
em homenagem ao navegador português.
xiCurare
– uma diversidade de venenos utilizados por povos Aruak na caça e
na guerra, era usado em dardos atirados por zarabatana. O
conhecimento e manipulação de matérias-primas vegetal, animal ou
ambas na fabricação do curare – aurelado de magia - era atributo
exclusivo de algumas mulheres entre as mais velhas da aldeia. Este
saber valioso como a ciência moderna era exclusividade feminina
entre os índios antigos, fazendo das mulheres aruaques objeto de
cobiça dos guerreiros Kalina (Karib), com que houve muitas guerras
entre grupos destas duas civilizações pré-coloniais, donde a
antropofagia ritual foi praticada pela parte dos Kalina, mais
conhecidos na crônica colonial como Galibis, deixando rivalidades
até aos dias de hoje. Do primitivo curare inventado pelos
índios a cirurgia moderna aperfeiçoou a anestesia.
xiiPacificação
da Ilha dos Nheengaíbas, ou Marajó – A Câmara de Belém
denunciou os índios do Marajó ao Governador do Estado do Maranhão
e Grão-Pará, André Vidal de Negreiros, com base na Lei de
Abolição dos Cativeiros de 1655; acusando-os de praticar
pirataria, rebeldia à fé católica e colaborar com os Hereges
(protestantes) inimigos dos portugueses. Esta lei arranjada, com
muita dificuldade, pelo Padre Antônio Vieira havia duas exceções
para adoção da escravidão dos índios (recusa ao batismo católico
e amizade com inimigos de Portugal). Evidentemente, o que movia os
colonizadores era o trabalho escravo dos índios e para isto pediam
ao Governador a “guerra justa” (eufemismo para cativeiro e
extermínio de “tribos” rebeldes). Os Jesuítas eram, então,
odiados pelos coloniais por levar os índios a aldeamentos
missionários onde a Lei de 1655 poderia ser aplicada sem
contestação dos escravagistas. Foi com base nesta legislação
que, por intermédio de dois índios “nheengaíbas” (marajoaras)
cativos do Seminário de Santo Alexandre em Belém, o Padre Antônio
Vieira mandou oferecer a paz a fim de evitar a “guerra justa”
requerida. A qual, dizia o Padre grande, seria uma guerra impossível
de vencer com os esgotados “índios cristão” (tupinambás
cristianizados) que eram pau para toda obra e já não podiam mais
arcar com tanta correria. Viviam livres os nheengaíbas na fortaleza
do labirinto das ilhas, estimados em número superior a cem mil... O
cacique Pié dos Mapuá aparece na história à frente de uma
federação de sete cacicados. Diz o “payaçu” dos índios que a
pacificação foi celebrada no “rio dos mapuaises” [Rio Mapuá,
município de Breves], no dia 27/08/1659. O evento deu termo a 44
anos de guerra geral desde a tomada do Maranhão aos francesses, em
1615. Entretanto, tão logo os colonos viram que os padres se
tornaram amigos e defensores dos índios do Marajó fundando as
novas aldeias de Aricará (Melgaço) e Aracaru (Portel) com os
outrora rebeldes Nheengaíbas; cuidaram logo de expulsar Vieira e
seus confrades (1661). Enquanto o sucessor de Dom João IV, o
mentecapto Afonso VI, fazia doação da Ilha dos Nheengaíbas a seu
secretário de estado, Antônio de Sousa de Macedo como capitania
hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665). E os tais
“nheengaíbas” como reagiram ao esbulho? Não sabemos
exatamente. Mas, pode-se imaginar e é certo que cinquenta anos
depois, aproximadamente, passadas umas duas gerações mais ou
menos; netos de Piié e de seus contemporâneos estavam, sob comando
de Guamã, assaltando aldeias (ou seriam “cabanas” sobre
palafitas?) de “índios mansos” (escravos) para os traficar a
troco de armas e munições em Caiena. Para interromper o tráfico
na fronteira do Oiapoque foi despachado, em 1723, o capitão João
Paes do Amaral com tropa de guarda-costa (e já se sabe que sem
indios Tupinambá de arco e remo ninguém iria a lugar nenhum) a fim
de capturar Guamã vivo ou morto. Foi Paes do Amaral até o Mont
d'Argent na baia do Oiapoque e voltou sem o cacique bandoleiro
morto ou vivo... Mandaram, então, o capitão reforçar a tropa de
guerra contra a guerrilha de Ajuricaba, no Rio Negro. E uma nova
expedição contra Guamã, desta vez comandada pelo sargento-mor
Francisco de Mello Palheta. Nunca mais se ouviu falar em Guiamã,
Guaiamar ou Guamã. Em compensação, começava a história do furto
do café de Caiena que acabou em São Paulo. Virou contrabando das
Guianas muitos anos depois e quem passar agora pelos aeroportos do
Brasil poderá tomar cafezinho de franquia Palheta e lembrar como
esta história começou.
xiiiTapuias
e Tapuios – Tapuia é o índio bárbaro tamu (avô),
genérico para etnias não-tupi ou guarani. O tapuio é este mesmo
índio já tornado “manso” e cristianizado em vias de se tornar
“civilizado” ou seja “caboclo” (prefiro a grafia “caboco”,
“tirado do mato”, extraído da barbaridade).
xivMarajó
– nossa hipótese é que os jesuítas que primeiro percorreram as
cercanias da ilha grande dos Nheengaídas ou dos Aruan, como o padre
Luiz Figueira (1645) e João de Souto Maior (1656), ambos mortos na
missão. O primeiro massacrado supostamente pelos Aruãs e o segundo
falecido com outros companheiros da “jornada do ouro” no rio dos
Pacajás, devido a febres e fadiga; poderiam ser dos primeiros a
ouvir de seus guias e remadores as piores referências ao inimigos
odiado, habitante daquela ilha cobiçada. O “marajó”, no caso,
pejorativo, é o “homem malvado” [do tupi/guarani
“marãyu”/marajó], falante da “língua ruim” (nheengaíba).
À época a famosa ilha era dos “Nheengaíbas”, dos
temidos “Aruans”... Estes últimos, em destaque, dentre
todos os nheengaíbas, com seus parentes Anajás, os piores: o
marajó malvado... Um nome que no século XVII era raro.
Somente os missionários mais arrojados para manifestar vontade de
se meter com tais feras humanas (vide carta de Vieira 11/02/1660
repetindo todas as calúnias que os tupinambás costumavam assacar
contra seus inimigos) teriam escutado aquele nome, misto de rancor e
temor. E já se sabe o fascínio que os bravos causavam sobre a
mentalidade dos antropófagos. Relatam as fontes da época que os
marajós causavam morte aos invadores das ilhas praticando a guerra
de guerrilhas e emboscadas pelas matas, armados de zarabatana feita
de braço de paxiúba e setas de talo da palmeita patauá embebidas
de veneno. Produzindo a morte quase instantânea pode-se imaginar o
terros que o “malvado” causava ao bravo guerreiro tupi.
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