domingo, 23 de fevereiro de 2014

Canoagem, universidade da maré e a notícia histórica do rio de Guamá.


expedição de caiaques ao Alto Guamá (foto de Marenteza Canoagem, Ourém-Pará, fevereiro 2014).


Diz o geógrafo norte-americano Edward Soja, em "Geografias Pós-Modernas", que o espaço esconde as consequências. Como Ourém - tal qual a jangada de pedra de Saramago partida da Península Ibérica - atravessou o Mar português e veio habitar o Pará no alto curso do Guamá? Este velho nome caribenho, como veio ele ocupar o curioso rio que banha o antigo Caminho do Maranhão palmilhado pelo "bom selvagem" Tupinambá entre o Salgado e a terra dos Tapuias? Já escutou por acaso Paulo André Barata cantar "Eu sou de um país que se chama Pará / Que tem no Caribe o seu porto de mar"?

Presta atenção, canoeiro. Sabe dizer como foi que Ourém desfeita em areia e pedra do velho caminho do Maranhão para construção de Belém do Grão-Pará veio habitar o tempo do ultramar e se encontrar no Guamá velho de guerra, que um dia partiu de Cuba para a Terra Firme, tal qual Cuba outrora havia partido de Portugal na bagagem de Cristóvão Colombo para habitar o mar do Caribe? Geografização da história das antigas navegações...

O mistério se esclarece pela esquecida luta dos Tainos contra os conquistadores desde a ilha do Hayti, na primeira hora do choque colonial há mais de 500 anos. Estava à frente de combate o cacique Hatuey, Primeiro Rebelde das Américas, cuja estátua está de pé em Cuba em sua eterna memória libertadora. Este combatente ancestral depois de morto teve como continuador um tal Guamá, também cacique taino. 

Devemos estar lembrados de que estes tainos das Antilhas são parentes dos mais povos de línguas e culturas Aruak da América Central e do Sul, incluindo Marajó, Acre e Mato Grosso do Sul. E que a massagada aruaca, no passado distante, segundo o mito fundador saiu do ventre da mãe Terra por um buraco no alto Rio Negro para descobrir e ocupar o mundo pré-colombiano desenhando o circum-Caribe

Em guerra com os Kalina ou Galibi comedores de carne humana, que lhes invejavam as mulheres senhoras de segredos tremendos e contra os conquistadores cristãos que lhes roubavam a terra e os escravizavam ao trabalho, o povo de Guamá e Anakayuri empreendeu extraordinária migração em massa para as Guianas através da ilha de Trinidad: guiava-lhes durante a travessia o Cruzeiro do Sul. 

Assim nossos antepassados aruaques ocuparam o Oiapoque e depois se espalharam através do Cabo Norte (Amapá) em direção ao país do Arapari (constelação do Cruzeiro do Sul, Brasil). Fragmentaram-se em muitos grupos, como os Aruãs dentre os chamados "nheengaíbas" malvados (marajoaras), por exemplo, onde no arco das gerações um outro Guamá fez história do Pará nos inícios do século XVIII.

Quanto aos Tembés do Alto Guamá, eles são tupis, parentes dos famosos Tupinambás que o acaso fez inimigos hereditários dos Nheengaíbas e outros remanescentes de uma história do rio Babel que não se lê na feira do Ver O Peso como deveria ser, para o povo paraense entender completamente os 400 anos de invenção da Amazônia brasileira. Não se pode esquecer que o mapa não é o território e que o espaço esconde as consequências.

E nós com isso? Desde 2009, no Centenário de Dalcídio Jurandir, pedimos e ainda não conseguimos estabelecer diálogo com a Prefeitura de Belém para o Solar da Beira ceder espaço à Academia do Peixe Frito com um ecomuseu das Ilhas do Guajará: onde a cultura ribeirinha na paisagem cultural do Ver O Peso expresse livremente a história da criaturada grande desde os velhos tempos que não voltam mais.

A geografia de Edward Soja entra nesta conversa por apresentar crítica radical ao historicismo e seus efeitos castradores da imaginação geográfica. Ela viaja pela obra de autores consagrados como Foucault, Henri Lefebvre e outros para sustentar um materialismo histórico e geográfico repensando a dialética do espaço, do tempo e do ser social. Qualquer viagem ao rio de Guamá, em cujas margens se acha o campus da UFPA, deveria suscitar descoberta como esta. O remo mágico Porantim deve inspirar canoeiros de nossa história ribeirinha.

Em Belém do Pará vivendo de costas para o rio muito acadêmico de alto bordo pensa que nossa Academia popular (não pegaram a ironia antropofágica da coisa)existe tão só pra gente comer peixe frito com pirão de açaí... Taqui pra ti, cara pálida. Festejam as vendedoras de banho de cheiro na feira e jamais souberam que o orixá Ossain e São Benedito da Praia são duas figuras sincréticas do mesmo avatar.

Claro, no Pará velho de guerras cabanas é contrassenso falar em geografia "pós-colonial" se nem ao menos na marretagem geral pré-capitalistas somos... Habitamos a periferia da Periferia que é esta antiga província do Grão-Pará onde a modernidade está embargada pela modernização conservadora à lá pato no tucupi. 

O pato da história, não há dúvida, é o humilhado e marginalizado povo parauara. Dizer uma coisa desta é que nem cutucar onça com vara curta. Mas, dá pra tapar o sol com peneira?

Sem descolonizar ideias preconcebidas de fora para dentro de casa, esta região amazônica não será jamais brasileira de verdade... A brava gente teme a cobiça estrangeira como se esta fosse novidade no extremo-norte tupiniquim ou pudesse ser evitada mediante preceito moral entre as nações. 

Carece amazonizar o Brasil para este país vir, enfim, nacionalizar a velha Amazônia de mais de 1000 anos de criação da original Cultura Marajora: arte primeva do Brasil brasileiro.

Mais depressa nosso Brasil se assumirá como o maior país amazônico do mundo ao dar uma remada pela beira dos rios - ressignificando a geografia histórica - e re-visitando a historiografia com olhar crítico do que na enfadonha pletora de workshops, colóquios, seminários e outros eventos a respeito da insustentável lerdeza do desenvolvimento regional e idolatria dos heróis imperiais com seus falidos barões assinalados, imperadores do samba, viscondes de sabugosa, reis e rainhas da cocada preta.

Menos discurso e mais vivência de nossa natureza. A gente carece empreender a reconquista pós-colonial e ressignificar o espaço amazônico, qualquer atalho dito "pós-moderno" será risco de reafirmação do inferno verde de antigos barracões e seringais distantes na Floresta Amazônica habitando a leseira regional para maior glória da Capital neocolonial e do capital selvagem. 

Mera repetição da farsa da Borracha destinada a apagar a servidão da gleba e o remorso da Cabanagem massacrada na memória nordestina da "belle époque", importando do velho mundo a insustentável beleza urbana de Paris n'América.

Nos 400 anos Belém deve ser invadida de um novo espírito cabano redimido do ferro e do fogo pelo sangue derramado ao chão encharcado e lavado pelas águas da amazonidade. Na parte que me cabe deste latifúndio, como diletante da universidade da maré, eu vos digo remem por rios e mares da História. Parodiando Fernando Pessoa, no célebre poema "Mar Portuguez", não canso de repetir o bordão: tudo vale a pena se a alma não é panema...

Educação de terceira idade, hospitalidade pelo turismo de base comunitária, esporte e lazer para todos: estratégia a fim de recuperar a memória e firmar a paz entre rios e ruas.
  
Dependendo do olhar e da consciência do remador, uma excursão de canoagem ao Alto Guamá poderá ser como viajar a bordo da história do Pará antes mesmo da viagem do capitão Pedro Teixeira através do Mar Português para vir ao norte do Brasil matar índios bárbaros e enterrar seus próprios ossos na Feliz Lusitânia transplantada à beira do Igarapé do Piry. Digamos que tudo para o jovem soldado lusitano foi ensaio até a grande viagem ao Alto Amazonas no bojo da história da Amazônia portuguesa. 

A famosa jornada do velho capitão-mor, de Belém do Pará a Quito (Equador), ida e volta, levado por 1200 índios e mamelucos de arco e remo. Dois anos de viagem de conquista do rio das Amazonas. Desmentindo a lenda de Carvajal e Orellana. 

Lembramos que o "Adelantado del Río" e donatário de "Nueva Andaluzia", o descobridor do rio das Amazonas, Francisco de Orellana; morreu em lugar incerto e não sabido, em 1544, entre o rio Capim, tributário do Guamá; e o Baixo Tocantins talvez, por erro de navegação do Pará.

O geógrafo Armando Levy Cardoso, em sua apreciável "Toponímia Brasílica", afiança que o rio Guamá que banha a cidade de Belém deve seu nome ao cacique dos Aruãs e Mexianas, do Marajó, de mesmo nome. Através do historiador Arthur Cézar Ferreira Reis sabemos que um certo "Guayamã", "Guamã" ou "Guaiamar" assaltava aldeias de índios "mansos" (cativos) nas ilhargas de Belém cerca do ano de 1723. Para capturar o cacique bandoleiro que praticava comércio de escambo trocando índios mansos dos portugueses por armas e munições com traficantes franceses, foi mandado inicialmente o capitão João Paes do Amaral à fronteira do Oiapoque donde voltou par ir ao Amazonas reforçar tropas de combate ao cacique dos Manaus, o imortal Ajuricaba.

Consta que os Aruãs faziam frequentes viagens a Guiana francesa onde se refugiavam junto a seus parentes próximos Palikur. O tal Guamá ou Guayamã fazia acampamento no dito rio de seu nome e chegou a subir até o igarapé do Aurá passando, por terra, à aldeia dos índios Murubiras capturando alguns deles para levar a Caiena. Nessa época o contrabando, fuga de escravos e desertores através da fronteira era significativa. Foi, então, que o capitão Francisco de Mello Palheta foi em busca do abusado Guamá com ordens para trazê-lo vivo ou morto. Não o trouxe, mas sim o café furtado de Caiena que faria história em São Paulo tempos depois. Como também o Jardim Botânico do Rio de Janeiro haveria de florescer durante ocupação da Guiana francesa (1809-1817)por tropas do Pará sob comando luso-inglês...

Sabemos como o contrabando de café para as Guianas por acaso salvou o Pará de maior pobreza e como os ritmos caribenhos nos tiraram do ostracismo do carimbó da vovó. Mas, o nome do rio de Guamá aparece na crônica paraense anteriormente à façanha da tropa de guarda-costa comandada pelo sargento-mor da Vigia do Pará, Francisco Mello Palheta. Os primeiros roçados de cana de açúcar e engenhos começaram pelo Guamá, as primeira cabeças de gado e cavalos cabo-verdiano cresceram pelas rocinhas de Belém e fazendas do Guamá, antes de 1680, quando foi levantado o primeiro curral na ilha do Marajó. De maneira que, de fato, o tráfego fluvial entre as duas margens do imenso estuário amazônico é mais antigo do que se pode imaginar. E, como ensina José Saramago, as viagens são aquilo que se vê mais o que se imagina.

Quando o capitão-mor do Rio Grande do Norte, Francisco Caldeira Castelo Branco; com indispensável ajuda dos Tupinambás paraenses, acabou de fundar o Forte do Presépio seguiu para levar a notícia ao Maranhão o capitão Pedro Teixeira com escolta e guias indígenas pelo Guamá até próximo à aldeia dos Caetés (hoje Bragança) para chegar à costa e tomar canoa pelo mar até a ilha de São Luís do Maranhão.

"Roteiros... roteiros... roteiros", já dizia o antropófago Oswald de Andrade. Do Gurupi ao Guamá durante a revolta dos tupinambás (1619), nossa primeira cabanagem, abriu-se um rio de sangue a cabo da escravidão dos índios com a violenta e desproporcionada repressão dos portugueses que tudo deviam, até então, aos "bons selvagens". É justo que passados quatro séculos se revelem estas coisas através dos meandros dos cursos de água de rio e mar; em espírito de verdade e reconciliação para libertar nossa história de suas visagens e assombrações. O novo nome da paz é Cidadania pelo concerto planetário das nações livres e soberanas. O resto é farsa da História.

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