quinta-feira, 3 de outubro de 2013

NOSSA UNIVERSIDADE DA MARÉ








frutos de Jupati (Rhafia vinífera) palmeira riberinha largamente encontrada pelas margens de rios sob influência da maré e na costa do Atlântico das regiões equatoriais da África e América. Conhecida desde muito antigas populações tradicionais, a palmeira Jupati fornece material para pesca, navegação à vela, arquitetura, remédio caseiro, artesanato e objetos de culto numa extensa civilização atlântica ribeirinha de grande antiguidade.



O TEMPO DA VELA DO JUPATI NA ERA DA INTERNET

Com a globalização e a educação continuada à distância hoje só não aprende quem não quer. Entretanto, quanto o ter precede o ser é claro que o saber fica reduzido ao interesse do mercado. O diabo que este reducionismo economicista, muitas vezes, escamoteia importantes segmentos de economia popular não-monetárias que são bases de comunidades locais e regionais.

Nas regiões Amazônicas - periferias da Periferia -, por exemplo, que seria das populações tradicionais sem usos e costumes ancestrais que não figuram nas estatísticas do IBGE e muito menos da Bolsa? Não faz muito tempo que produtos agroextrativistas como Açaí, copuaçu, bacuri ou o "peixe do mato" e de segunda categoria não figuravam na pauta de exportação e consumo pelas classes sociais privilegiadas.  Entretanto, o cacau e castanha-do-Pará como produtos nativos movimentaram o ciclo de "drogas do sertão" sob o eufemismo das "tropas de resgate", para mascarar a caça ao índio para o mercado regional de trabalho escravo.

Desta massagada emerge a "Criaturada grande de Dalcidio" (populações tradicionais ribeirinhas) com sua mais valia, seus conhecimentos, culturas, modos de falar, sua história marginalizada e geografia de resistência em quatro séculos de conquista e colonização do Extremo Ocidente tropical desde um passado de, pelo menos, cinco mil anos de idade. A Cultura Marajoara, com apoio na antropologia americana, é indubitavelmente a mãe da civilização amazônica. Espelho para a Ecocivilização do amanhã.

A invenção da internet não apenas é a principal ferramenta da globalização do mercado. Ela também produz a sua própria contradição anti-mercadológica, quando desenterra conhecimentos pela arqueologia digital e fomenta valores ecossocioeconômicos que pareciam perdidos ou nunca dantes foram conectados, mas existem aí bem debaixo do nariz do sistema econômico e monetário internacional. A história natural do Jupati ou Palha da Costa (Raphia vinífera), por exemplo.

Por suposto e para ficar só aqui, numa provocação ao pensamento econômico regional, quanto foi contabilizado peixe, camarão e açaí fornecido por famílias produtores de pesca e agroextrativismo da ilha do Marajó ao mercado de consumo do distrito industrial de Barcarena e Vila do Conde? Dirá, talvez, um aluno de primeiro ano que trabalhadores da Albras/Alunorte não comem Raphia vinífera. Muito menos o lucro da multinacional norueguesa Norks Hydro, controladora da indústria produtora de alumínio no Pará, contém um tostão sequer de trabalho da população caboca extrativista de Jupati.

Ledo engano! A alta tecnologia que alimenta o primeiro mundo come, muito, do trabalho extrativista, dos conhecimentos tradicionais e do IDH das populações da Periferia. Sem Jupati não há cacuri nem matapi. E o peixe e camarão regional encontrados em feiras e mercados locais, inclusive Barcarena e Vila dos Cabanos; ficariam mais caro se produzidos com tecnologia diferente. O que, aliás, já é a tendência para fazer face ao esgotamento de recursos pesqueiros. De todo modo, não se pense que poderá ser esquecido sem prejuízo o modo de produção tradicional, pois mesmo com a aquicultura de escala haverá sempre necessidade de pesquisa ictiológica, criação de centros de estudo e reprodução com captura de exemplares na natureza.

A correspondência postal de outrora entre a filha do poeta Bruno de Menezes, Maria de Belém Menezes; e o autor de "Chove nos campos de Cachoeira", sobre coisas do Marajó e Belém do Pará, hoje pode ser continuada, diariamente, não apenas por duas ou quatro pessoas mais grupos aos milhares. Uma verdadeira universidade aberta supletiva, notadamente à rede de universidades da terceira idade. 

Desta maneira, o marajoara Raimundo Pereira Dias, ribeirinho do rio Marajó-Açu, hoje vivendo no Rio de Janeiro postou a foto acima que aqui vai por ilustração do blogue, em grupo no Facebook destinado a filhos e amigos do município de Ponta de Pedras (um dos 16 municípios da mesorregião Marajó). Proponha ele ao grupo identificar a espécie dos frutos em tela. Ninguém acertou. Todavia todos algum dia colheram na vida benefícios da palmeira selvagem de beira de rio que viceja pela larga área intertropical.


O QUE É EDUCAÇÃO 
      apud Carlos Rodrigues Brandão
    EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES: APRENDER COM O ÍNDIO 
Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha.
Buriti quer todo o azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. 
Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.
           João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas


O blogueiro presepero que vos fala, que nem Guimarães Rosa com respeito ao pé de buriti ou miritizeiro ávido do infinito céu azul e ao mesmo tempo abeberando-se de sua beira d'água. Tem este caboco velho a palmeira Jupati em grande conta, como a palma de sua mão aberta aos quatro ventos e seus frutos entregues à maré que leva o pensamento ribeirinho à dispersão para saber quem inventou o vasto mundo. Masporém, com suas raízes afincadas nos tijucos desta vida, tal qual o jupati ele jamais se aparta de sua beira de rio imaginário. Onde ao pé da touça do jupatizeiro mágico canta a saracura e o cara se faz zelador da memória das terra de marinha com a Criaturada grande de Dalcídio por posseiros do verde vago mundo de Benedicto Monteiro. 

Um valor sentimental como lembrança duma querida avó rica em sabedoria. Avó Sophia (na verdade tia, avó postiça por morte da mãe índia de meu pai caboco) a qual ensinara a seu neto que a avó dela, índia marajoara da aldeia da Mangabeira (origem de Ponta de Pedras), quanto se referia a coisas de muita antiguidade dizia que isto ou aquilo era, paresque, "do tempo da vela de jupati"... 

Na imaginação do pirralho, em canoa tapuia (tapouille em língua crioula da Guiana e Antilhas) à vela de Jupati, a curiosidade singrava por mares nunca dantes... Como em outras regiões do mundo antigo, na América ameríndia predominou a vela quadrada. Quem é povo de maré sabe como, muitas vezes, indo-se em canoa a remo e o vento soprando a favor a gente improvisa "vela" expedita com ramo de mangue tirado da beira, uma palma de miriti ou de jupati... E aproveita a viagem para descansar os remos espichando a conversa e encurtando o tempo.

Gastão Cruls na grande, literalmente, "Hiléia Amazônica" (1944) dá razão ao educador Carlos Rodrigues Brandão quando diz que o cidadão moderno devia aprender com os índios. Pois estes têm imensa capacidade de aprender diretamente da natureza. Mais que nunca é preciso ouvir estrelas, conversar com árvores e plantas, aprender com os animais... Isto que há de operar a refazenda de um milhão de aldeias conectadas por satélites artificiais e a rede de saberes tradicionais. Religar os conhecimentos mediante costura da maturidade da população de terceira idade.

Descobrir, que a descoberta do Brasil através do caminho marítimo equatorial trouxe antes de Colombo, Pinzón e Cabral o imperador mandinga Abu Bakari II: e antes de todos navegadores os frutos do Jupati dentre tantas plantas dispersas pelas águas. Sem esquecer que em algum tempo geológico muito distante África e América foram um único continente. Ali a mãe de toda humanidade e aqui as esperanças de que, de fato, ainda se possa fazer um Novo Mundo.

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