quarta-feira, 9 de outubro de 2013

No mês de outubro em Belém do Pará, a mensagem de fé da Amazônia para Terra sem males ao ver o peso do Círio de Nazaré.

Cerca de 2 milhões de pessoas participaram da procissão
são esperados dois milhões de romeiros no Círio iniciado, simplesmente, há 221 anos.


Para turista de primeira viagem, fica o espanto ao ver o peso da multidão semelhante a um grande rio de gente. Como quê tomada de transe parecendo cerimônia pagã igual àquelas seculares procissões nas margens do sagrado Gânges, na Índia. Tudo colabora a esta impressão hindu, inclusive a situação ribeirinha da cidade, a cara de índio do povão e o ar oriental da antiga arborização da "Cidades das mangueiras". A mangueira amiga de gente e periquitos, inimiga de asfalto e automóvel; árvore emblemática naturalizada na região que os nativos já acreditam ser da flora amazônica, tal qual os búfalos e a tradição nazarena que também veio do Oriente para o Ocidente à semelhança do aparente curso do Sol em torno da Terra. 

Ao intelectual visitante do Pará velho de guerra o Círio é carnaval devoto. Como tal, de qualquer modo, respeitável em sua manifestação onde o sagrado e o profano fazem vizinhança nem sempre tranquila: já vimos, inclusive, que o Círio virou alegoria no Sambódromo no Rio de Janeiro... Já a romaria fluvial no sábado salta do rio fervilhante de embarcações de todas cores e tamanhos para o Cais do Porto e a Santa pisa terra firme vai logo recolher-se em preparação à Trasladação, à luz de velas e círios, para a Catedral da Sé até domingo do Círio. 

Enquanto isto, o Arrastão do Pavulagem irrompe em batuque marchando com o povo de santo e da Santa a fim de sacudir com toada de boi e carimbó pelas ruas de Belém rumo ao casario da Cidade Velha a fazer inauguração da Festa que vai durar, por toda quinzena, no Arraial de Nazaré...  Haja saúde, paz e felicidade a todos e a todas.

Ao devoto de pés no chão agarrado à Corda da Berlinda, todavia, o céu e a terra se acham, aqui e agora, em Belém da Amazônia na eternidade enquanto dura o amor dos filhos de Deus à Sua santa Mãe. 

Se alguém diante do magnífico cenário amazônico feito de sol, calor, mãos, pés, braços, rostos, corpos desfeitos em suor, lágrimas, sangue quente correndo nas veias pela força bruta despendida, pedindo água - muita água, a maior sede do mundo diante do maior rio da Terra e do Mar-Oceano - , se então alguém pensar um instante na grande Vida mãe de todas vidas e mortes, creio eu, não pecará contra a humanidade nem faltará com a verdade da vida. 

Não sei se devo rezar a ela e me ajoelhar a seus pés seja na forma de um ícone materno, diante de uma criança ou da mulher amada. Mas sei que a vida é sagrada e que toda vida é bela: o corpo - seja humano, vegetal ou animal - é seu verdadeiro templo como ensinam velhas tradições da humanidade. Enfim, todos nós numa diversidade infinita somos apenas um: que nem esta multidão de diferentes classes e origens unidas pela fé à Virgem de Nazaré... 

Eis a leitura da nazarena metáfora de Belém do Grão-Pará pelos caminhos da Dispersão do velho mundo até a "última fronteira da Terra", Amazônia. Como, então, podemos nos ferir e matar mutuamente sem esse antigo Mal recair sobre cada um de nós e de todos indistintamente? Como podemos aceitar sem remorso a salvação de poucos e a danação de muitos? Como podemos acreditar que os frutos do mal que praticamos não hão de recair sobre nossos filhos e os filhos de nossos semelhantes? Como aceitar que aquele Jesus de Nazaré, filho do pobre carpinteiro da aldeia, tendo morrido na Cruz por todos, a sua obra seja motivo de crimes contra a humanidade, como clamaram os padres Las Casas e Antônio Vieira, por exemplo? 

Então, se as tradições religiosas ainda não foram bastante para converter o impiedoso coração deste mundo curvado pela fome, escravidão, doença, velhice desamparada e morte sem perdão... Pelo menos a ciência, iluminada pelo amor à vida, seja ela capaz de santificar-se e mostrar uma saída à razão desumana e à fé cega, faca afiada, da intolerância.

De acordo com o poeta Fernando Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena"... Assim, no Círio de Nazaré, não procurem a deusa Razão na cidade fundada pelo impossível acordo entre portugueses de corda e baraço e índios antropófagos. Já pensaram? Pensem naqueles de boa fé, como o caboco Plácido, devoto da Virgem de Nazaré. Pensem na mítica Terra sem males que conduziu a brava nação Tupinambá em busca do sonho em encontrar uma terra semelhante a dos antigos hebreus em busca da terra onde mana mel e leite... Pensem na Palestina dilacerada, tal qual, a Amazônia violentada pelas lendas do El-Dorado, das "amazonas" e do "celeiro do mundo"... Agora sim é a hora e a vez da teoria do milagre. Se há um lugar na Terra onde este decantado "milagre" existe ele se chama agora Amazônia, outrora Grão-Pará, antiga terra dos Tapuias.


 O QUE VOCÊ VAI FAZER EM KATHMANDU?

Como se sabe o Nepal tem no turismo religioso uma de suas principais fontes de renda. E o Pará pretende desenvolver o turismo religioso em torno do Cirio. Certamente, raros turismólogos e empresários do ramo de negócios turísticos concordariam com as "heresias" do leigo que digita este blogue estúrdio. Em primeiro lugar, comparar o Pará com o pequeno reino do Himalaia já é absurdo. Ainda mais traçar paralelo entre a maior festa religiosa dos paraenses, de tradição católica portuguesa; e o exotismo de Kathmandu com sua forte tradição budista e hindu.

Entretanto, há aspectos que se poderiam comparar entre os dois destinos de turismo religioso. A distância entre mercado emissivo e o destino; barreira linguística e cultural, insuficiência de infra-estrutura. Acredito que a maior parte de turistas que vai a Kathmandu chega até lá graças a uma curiosidade especial pelo tipo de turismo religioso oferecido e a um marketing bem sucedido.

Poucos desses turistas vão a Kathmandu por uma motivação religiosa propriamente dita, todavia a maioria demanda um tipo de espiritualidade que se poderia dificilmente chamar de religiosa conforme nos acostumamos a chamar. O principal atrativo turístico do Nepal é a natureza do vale de Kathmandu, declarado patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, em 1979. 

Trata-se de um sítio protegido cuja herança cultural é representada por sete monumentos e edificações que tornaram Kathmandu mundialmente famoso por sua produção artística e histórica. Fica claro que aí a natureza e a cultura foram parceiras pelas mãos de seus nativos. A UNESCO preocupa-se com o crescimento urbano para que este siga sendo harmonioso com o sítio. Não só o budismo serve de atração aos visitantes, que encontram também antigos templos hinduístas.

O mundo ocidental saturado de utilitarismo, concorrência e conflitos mortíferos procura nas viagens a lugares distantes e exóticos, um contraponto a estilo de vida que leva. A Amazônia lendária é percebida lá fora com uma aura de magia. A imagem da festa do Círio está prenhe de símbolos e mensagens que ainda precisam ser melhor compreendidas e estudadas pelos profissionais de cultura e ecossocioecnomia para se tornar produtos de turismo religioso. Inevitavelmente que o proselitismo religioso está presente neste produto, nem poderia ser de outra forma. Mas é importante aprender com o Nepal, o turismo religioso não é religião. Além disto, para os foros de cidade civilizada é auspicioso que a população de Belém tenha no Círio um momento ecumênico, se não eclético ou holístico; como prova o louvável concurso de membros da igreja pentecostal Assembleia de Deus para conforto dos romeiros do Círio.

Belém que já se notabiliza pela boa convivência entre judeus e libaneses e que foi palco da "heresia judaizante" do "payaçu dos índios", Padre Antônio Vieira, condenado pela Inquisição; dá passos largos para manifestar um exercício de tolerância mútua que se ainda está longe do ideal pelo menos sinaliza no sentido de que um outro mundo é possível. 



Abaixo, cena de evangélicos distribuindo café e pão a católicos e mais promesseiros do Cirio de Nazaré, Belém do Pará, em 2012


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