domingo, 13 de outubro de 2013

E a Cabanagem se fez Cirio e romaria fluvial

Imagem aérea da procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, na manhã deste domingo (13).FOTO: ELISEU DIAS/ AG. PARÁDATA: 13.10.13BELÉM-PARÁ
o povo toma as ruas de Belém para acompanhar o Círio de Nazaré (13/10/2013).

O que move tanta gente nas ruas de Belém do Pará durante o mês de outubro? Desde os primeiros dias do mês os sinais do Círio se fazem notar, não só na capital mas em todo interior do Pará. Em especial no abastecimento da feira do Ver O Peso e em comentários nos lares, bares e lugares de trabalho como se fossem preparativos do Natal ou, noutras culturas, o grande dia de confraternização... Acredito que a resposta a esta pergunta não é simples de dar e nunca foi ou será. 

Trata-se, verdadeiramente, de um complexo cultural, social e econômico que liga a cidade de Belém, na Amazônia, a seu interior e ao exterior. Um fenômeno regional e universal ao mesmo tempo. Onde cada pessoa que comparece à romaria ou que se liga a ela pregada ao rádio, à TV ou outros meios de comunicação, tem motivo particular para participar do acontecimento que converge num grande culto ao ar livre, reunindo hoje algo em torno de dois milhões de romeiros. Procissão que se repete há 221 anos. A dona de casa, o trabalhador, profissional liberal, intelectual, crente ou não-crente; se deixa levar pelo rio de emoções que invade a cidade grande no mês de outubro. 

Digamos que a represada Cabanagem das acumuladas injustiças e frustrações do tempo, que jaz no fundão inconsciente da falta de memória e na falta de realizações pessoais e coletivas, manifestada aos poucos no varejo dos dias como um vulcão adormecido emite fumo ainda de quando em quando; converte sua sulfúria energia num ar de tempo bom... As diferenças sociais e individuais se por acaso não se anulam durante o Círio, pelo menos, se atenuam na esperança do Milagre e da catarse pelo pagamento das promessas e graças alcançadas. 

Há uma espécie de trégua no duro combate da vida aos pés da Virgem mãe. Símbolo do universo encontrado na floresta amazônica à beira do antigo caminho indígena do Maranhão. Sabemos como os Jesuítas foram hábeis artesãos barrocos e modeladores da alma indígena. E não importa quão poucos se deem conta da Tradição matriarcal impregnada na alma da gente, anterior até mesmo à romanização e ao cristianismo na Europa. A mundialização da Esperança, que assiste a todas migrações, começou um dia no passado remoto com a primitiva diáspora do seio da mãe África (portanto, o fascínio das virgens negras prenhes de magia e encantamento na Europa branca). Uma tão grande antiguidade habita o tempo da humanidade filha da animalidade. E "o homem é um animal político" (Aristóteles, o pagão pai da escolástica, que se converteu em base da doutrina social da Igreja católica ("universal"). No mundo moderno o tempo voa, todavia enquanto a gente se comunica agora com a velocidade do raio pelos fios invisíveis de satélites artificiais conectando à rede mundial de computadores; a alma coitadinha vai devagarinho pelos meandros obscuros da antiguidade que habita os corações.

Na Terra Plana das imaginações do mundo, as caravelas descobriram o espaço curvo. Deste modo, na globalização os "extremos" Oriente e Ocidente acabam por se confundir em qualquer lugar, notadamente por acaso às margens do grande rio das Amazonas. Última fronteira da Terra. Na partida desta nau tão antiga que navega o mar tenebroso está em Belém da Judeia ou da Palestina e a chegada está nesta Belém da Amazônia, cidades interligadas umbilicalmente pelo cordão mitocondrial nazareno. 

Desde a aldeia de Nazaré, na Galileia, passando pelo sítio da Nazaré, em Portugal. Uma ponte suspensa sobre o tempo e o espaço reunindo caminhos de lendas, promessas, enganos e desenganos, vidas e mortes, paixões e ressurreições em profusão de graças alcançadas. O Menino Deus no colo de sua Mãe e mãe dos homens, que nem Guaracy (o Sol, "mãe dos viventes") na religião natural de nossos antepassados indígenas: pela herança portuguesa, o Menino Jesus imperador do "Quinto Império do Mundo", utopia ecumênica plantada nas várzeas do Grão-Pará pelo "payaçu dos índios", o Padre Antônio Vieira, imperador da língua portuguesa segundo o poeta Fernando Pessoa. Profecia e poesia não se apartam dos caminhos de Belém através do mundo.

Somente uma vez, em 1835, no início da Cabanagem (1835-1840), não se realizou a procissão do Círio de Nazaré. Este hiato é um paradoxo. Compreensível, sobretudo, pelo estado de guerra-civil naquele momento: dado que ambos acontecimentos complexos são essencialmente manifestação da esperançosa alma paraense em movimento através das provações do eterno Futuro.

NA PAZ E NA GUERRA O POVO EM PROCISSÃO NA BUSCA DE IDENTIDADE E SALVAÇÃO: IMAGEM DA DISPERSÃO.

Raymundo Heraldo Maués ensina que o Círio de Nazaré é peça de resistência na constituição e expressão da identidade amazônica. Síntese de muitas migrações num espaço prenhe de religiosidades - assim no plural - como a dizer catolicismos e suas oposições em contexto extra-ocidental. Uma identidade construída pela histórica relação dialética e contradição entre nativos e colonos num meio ambiente peculiar do Trópico Úmido planetário.

Neste contexto de conquista e resistência territorial, desde os primeiros dias em conflito permanente entre colonizadores católicos e protestantes, entre índios de diferentes nações e escravos africanos de culturas e crenças diferentes. A encantaria nativa e africana vão dialogar no interior do sertão; a maloca e o mocambo ensaiam a grande mestiçagem. Unir forças contra o dominador branco. Mas o antropófago acaba devorado pelo grande irmão branco sob império da Lei. Todavia, cedo degredados e trânsfugas europeus aprenderiam na sobrevivência na selva que os índios e os negros fugidos do cativeiro eram-lhes mais próximos do que seus semelhantes colonizadores. 

Começa aí, em meio à tragédia de que Las Casas e Vieira denunciaram, o embrião da Cabanagem que, desde os primeiros levantes indígenas afogados em sangue e fogo, eclodiu na revolução popular amazônica de 1835. E, por mil e uma peripécias, permanece até os dias de hoje por diferentes e complexos modos cabanos (nome histórico dado aos moradores ribeirinhos de palafitas amazônicas). Para, como uma onda no mar mergulhar na multidão do Círio em romaria, a pedir justiça, paz e prosperidade para todos.

A história do Círio guarda uma tensão entre a espiritualidade popular, caótica e diversa; a formalidade do clero e o domínio do estado colonial, sucedido pelo império brasileiro e depois pela república centralizada no eixo sudeste do país. O governo e a igreja na província nem sempre estarão em sintonia, muito pelo contrário. Todavia, um e outro disputam o controle do povo, seja a massa de colonos ou a mão de obra indígena. Deste modo, o Círio e a Festa de Nazaré durante uma quinzena, como expressão de fé popular ou como espetáculo profano ("carnaval devoto") torna-se uma ópera magnífica. Onde tensões internas acabam por ganhar harmonia externa, tal qual a obra arquitetônica de uma catedral. Na qual a força da gravidade distribuída entre elementos díspares de sustentação dá lugar ao sagrado e ao belo, esteticamente falando.

Os santos canônicos comandam o espetáculo, mas pelas margens e nos escaninhos do cenário santidades africanas e ameríndias comparecem de maneira clandestina, porém perceptíveis aos olhos dos iniciados. O que faz do Círio de Nazaré um rico evento multicultural, malgrado tentativas de autoridades eclesiásticas e do governo, ao longo do tempo, em domesticar o bicho de sete cabeças da diversidade religiosa ou simplesmente cultural, dos seus diferentes participantes. Restando uma conclusão, a título precário: sem tal diversidade de expressão popular poderá, no limite, haver procissão. Mas, não haverá Círio propriamente dito.

BREVE HISTÓRIA DO CÍRIO

O Círio de Nazaré, é uma devoção a Nossa Senhora de Nazaré, considerada a maior manifestação religiosa católica do Brasil e um dos maiores eventos religiosos do mundo. Em Portugal é celebrada no dia 8 de Setembro na vila da Nazaré. Na cidade de Belém do Pará o Círio de comemora desde 1793, no segundo domingo de outubro. Com a migração paraense, se realizam procissões em outras cidades. O termo "Círio" tem origem na palavra latina "Cereus", que significa vela grande. No Brasil, no início era uma romaria vespertina, e até mesmo noturna, daí o uso de velas.

No ano de 1854, para evitar a chuva torrencial como a que havia caído no ano anterior, a procissão passou a ser realizada pela manhã. O Círio foi instituído em 1791 em Belém e até 1882, saía do Palácio do Governo. Em 1882, o bispo Dom Macedo Costa, em acordo com o Presidente da Província, Dr. Justino Carneiro, instituiu que a partida do Círio seria da Catedral da Sé, em Belém.

Portugal



Imagem de Nossa Senhora da Nazaré, Portugal.
Segundo a Lenda da Nazaré, a antiquíssima imagem da Virgem teve origem na aldeia de Nazaré, na Galileia. Representa a Virgem Maria sentada, de cor escura, tendo no seu colo o Menino Jesus, o qual amamenta. A estátua, entalhada em madeira e identificada como original dos primeiros séculos do Cristianismo, percorreu a cristandade desde Nazaré (Israel) passando por Mérida (Espanha) até surgir no ano de 711 em Nazaré (Portugal). No século XII, tornou-se símbolo de fé do cavaleiro D. Fuas Roupinho, que mandou erigir a Capela da Memória em agradecimento à Virgem (1182), após milagrosamente ter se salvo de um acidente muito grave quando, montado a cavalo, perseguia um cervo.

A capela foi erigida sobre uma gruta onde estava a sagrada imagem. Em 1377 o rei D. Fernando (1367-1383) fundou um templo maior, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, para onde transferiu a imagem. Desde então, a 8 de setembro, todos anos, os portugueses se reúnem no Sítio da Nazaré, para a reverenciar. A principal romaria, o Círio da Prata Grande, vem anualmente do concelho de Mafra e transporta, numa berlinda, uma imagem de Nossa Senhora da Nazaré que não é uma réplica da Verdadeira imagem, pois esta está sentada e a imagem do Círio está de pé, existindo ainda outras diferenças. A imagem de Nossa Senhora da Nazaré venerada no Brasil, em Belém, é semelhante à imagem de Nossa Senhora da Nazaré do principal Círio português.

No Brasil


Nossa Senhora de Nazaré, Brasil
A introdução da devoção à Senhora da Nazaré, no Pará, foi feita pelos Jesuítas, no século XVII. Embora o culto tenha se iniciado na povoação da Vigia, a tradição mais conhecida relata que, em 1700, Plácido, um caboclo, descendente de portugueses e de índios, andava pelas imediações do igarapé Murutucu (área correspondente, hoje, aos fundos da Basílica) quando encontrou uma pequena estátua de Nossa Senhora da Nazaré. Essa imagem, réplica de outra que se encontra em Portugal, entalhada em madeira com aproximadamente 28 cm de altura, encontrava-se entre pedras lodosas e bastante deteriorada pelo tempo e pelos elementos. Plácido levou a imagem consigo para casa, onde, tendo-a limpado, improvisou um altar ou oratório. De acordo com a tradição local, a imagem retornou inexplicavelmente ao lugar do achado por diversas ocasiões até que, interpretando o fato como um sinal divino, o caboclo decidiu erguer às próprias custas uma pequena ermida no local, como sinal de devoção.

A divulgação do milagre da imagem santa atraiu a atenção dos habitantes da região, que passaram a acorrer à capela, para render-lhe homenagem. A atenção do então governador da Capitania, Francisco da Silva Coutinho, também foi atraída à época, tendo este determinado a remoção da imagem para a capela do Palácio da Cidade. Não obstante ser mantida sob a guarda do Palácio, a imagem novamente desapareceu, para ressurgir em seu nicho na capela. Desse modo, a devoção adquiriu caráter oficial, erguendo-se atualmente, no lugar da primitiva ermida, uma capela, hoje a suntuosa Basílica de Nazaré. Em 1773 o bispo do Pará, Dom João Evangelista, colocou a cidade de Belém sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré. No início do ano seguinte, a imagem foi enviada a Portugal, onde foi submetida a uma restauração. O seu retorno ocorreu em outubro desse mesmo ano, tendo a imagem sido transportada, do porto até ao santuário, pelos fiéis em romaria, acompanhada pelo Governador, pelo Bispo e pelas demais autoridades, civis e eclesiásticas, escoltadas pela tropa. Este foi considerado o primeiro Círio.

Desde então, o Círio de Nazaré é realizado anualmente, no segundo domingo do mês de Outubro. Entre os milagres mais expressivos atribuídos à imagem de Belém, encontra-se o que envolveu os passageiros do brigue português "São João Batista". Partindo de Belém rumo a Lisboa, no dia 11 de julho de 1846, a embarcação de dois mastros à vela veio a naufragar decorridos poucos dias da partida, sendo os passageiros salvos por um bote que os conduziu de volta a Belém. Este brigue seria a mesma embarcação que, anos antes, havia transportado a imagem de Nossa Senhora de Nazaré a Lisboa, para ser restaurada; o bote que salvou os náufragos também seria o mesmo que tinha levado a imagem até ao brigue ancorado no porto de Belém. O bote passou a acompanhar a procissão a partir do ano de 1885. Apesar do Círio de Nazaré de Belém (PA) ser o mais conhecido no Brasil, o Círio mais antigo do Brasil data de 8 de setembro 1630 na cidade de Saquarema no Estado do Rio de Janeiro. Após noite tempestuosa a miraculosa imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi encontrada por pescadores nos penedos que separa o mar da lagoa onde hoje se encontra a Igreja Matriz. Segundo a lenda, a imagem sempre retornava aos penedos onde foi encontrada, e por este motivo, os religiosos da época acreditando ser um sinal dos céus, resolveram dar início a construção de primeiramente uma capela, que mais tarde deu lugar ao templo atual. O Reconhecimento do Círio de Saquarema como o mais antigo do Brasil se deu com a visita da imagem peregrina de Belém (PA) em 23 de setembro de 2009.



Círio das Águas. Foto: Cristino Martins/Agência Pará
cerca de quinhentas embarcações de diferentes tamanhos transportaram cinquenta mil pessoas, aproximadamente, saindo de Icoaraci a Belém na romaria fluvial do Círio de Nazaré, no sábado, 12/10/2013.

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