quarta-feira, 13 de julho de 2011

CULTURA CABANA EM TEMPO DE PAZ




O Cabano Paraense. Pintura de Alfredo Norfini, 1940. Museu de Artes de Belém.

parto da manhã: Cabanagens
Por José Varella


Antes que os lusíadas descobrissem o caminho das Índias
em santa ignorância a ultrapassar a mortal zona tórrida
das Antípodas da antiga teologia
que nem anjos de fogo guardavam as portas do Éden;
na inocência do rio Babel tapuias amazonas teciam história
e coziam barro pra conservar a memória da primeira noite do mundo
na cerâmica marajoara.

O gigante adormecido em berço esplêndido
colecionava lendas ao pôr do sol no porto Araquiçaua,
rio Arari: Jurupari
(o espírito que fala e ri pela boca dos pajés)
iniciava caraíbas aos mistérios da amazonidade.

A gente desta terra já descobrira o caminho da vida
a ser diferente do reino dos bichos nossos parentes:
não havia pecado original ou mortal nem ganância e lucros
extraídos do suor do mísero lumpem-proletariado
abaixo do equador.

Sequer os teólogos tinham inventado o limbo e o purgatório
pra atazanar a existência humana talvez por inveja dos imortais,
mas o velho mundo já era o inferno medieval
gemendo e chorando num vale de lágrimas
na sofrida expectativa do céu depois da morte.

Nestas paragens os trópicos úmidos não eram tristes como depois,
guerra e paz eram dois termos de um simples modo d’existir:
a passagem dos inocentes da esfera da animalidade à humanidade.

O guerreiro conquistador de renome do invejado inimigo,
a ser vencido em combate e eucaristicamente devorado pela tribo,
levava a gente a habitar junto ao herói a desejada Terra sem Mal:
lugar sagrado neste mundo onde todo sofrer da lida rude
converte-se em bem e preguiça de eterna maravilha,
que nem a mais avançada das avançadas civilizações
não imaginou jamais.

Viver é lutar até o sol da liberdade raiar pra nós todos:
Por isto
nunca peças a um índio que diga seu nome de guerra
ou a um cabano que revele a senha de combate,
ele se fechará mudo como caramujo uruá e nada te dirá
(paresque a Terra mãe gentil, no rito do Jurupari, guarda seus arcanos
à estulta curiosidade dos filhos e filhas ingênuas).

Segredo-mestre da vida que faz negro da terra ou da Guiné
dar no pé
ou cheio de manha suportar cativeiro até o fim das candeias:
luta libertária das malocas, quilombos e mocambos ‘Maravilha’
(codinome paresque d’escravos moçambiques cabanos
extraídos do lago Malawi e libertados por moto próprio no Curuá,
Pará, até passar as montanhas e varar no rio Maroni, Suriname),
imigrante clandestino, degredado ou refugiado irmanados
pelo arco revolucionário da espiral evolutiva:
grande Cabanagem até os últimos dias da luta de classes.

Conquista final da internacional Terra livre de todas opressões.

Tupã em confraria com Cristo Oxalá e orixás da boa morte dos heróis
fez da animalidade mãe da humanidade em marcha para a divindade
(que nem a escada de Jacó a espiral evolutiva subindo pra riba)
gente tirada por milagre do bucho da cobragrande-canoa boa,
pela qual a brava gente voltará a ser íntima dos ancestrais
e conquistar as estrelas do infinito futuro.
Donde o direito universal do Homem vem a par da divina preguiça,
graça que nem greve geral contra a desumanização do trabalho.

O homem veio ao mundo pra dormir e sonhar até o dia raiar:
sonho planetário da Terra sem Mal mãe de todas utopias,
a que há de todos nos salvar pela invenção do amanhã na lição do Kuarup.

Eis por que enquanto houver fome, escravidão, doença, velhice
e morte
em qualquer canto do mundo haverá Cabanagem.
Coisa de muita antiguidade: velhas matriarcas da ilha do Marajó,
tempos da vela quadrada de jupati avó das igarités motorizadas
segredos da vida e da morte com que transformavam
veneno em remédio e vice-versa.

O nome secreto do índio é última fronteira contra a Invasão,
a cultura cabana é resistência à exploração do homem pelo homem.

O bom selvagem é a sombra antiga do guerrilheiro cabano,
a Cabanagem marca a revolta do homem feito em fogo, suor
e sangue pelo arco das gerações em toda terra de males sem fim:
revolução na evolução pela seleção natural...
Cabanada norte-nordestina desde as Alagoas,
anima guia de Frei Caneca na confederação do Equador,
Tiradentes na Inconfidência Mineira,
a revolta dos malês na Bahia de todos santos,
o tropel dos Farrapos nas estâncias gaúchas,
vóduns benfazejos de Toussaint l’Ouverture na libertação do Haiti,
revoltas camponesas na Europa feudal,
barricadas ardentes da Comuna de Paris, a queda da Bastilha;
Coluna Prestes sertões adentro do Brasil até a Bolívia,
prestes a plantar a pedra fundamental
da união das nações sul-americanas;
a chama imortal em Cuba de José Marti iluminando o Caribe,
o exército crioulo de Simon Bolívar libertando a pátria grande,
a Grande Marcha com o camarada Mao à frente na venerável China,
trincheiras proletárias de Leningrado,
campos de sangue Jacobino regando flores da Democracia...

Neste passo acesso na memória do mundo em movimento,
não se há de negar que o espírito cabano pegou em armas no Araguaia!
E tudo isto por que, então; senhor meu mano?

Pergunta aos mortos da Cabanagem e o vento e a maré respondem
nas úmidas madrugadas do rio das Amazonas:
memória do fogo sobre águas ardentes daqueles dias sete de janeiro.
Quando, primeiramente, o índio humilhado levantou-se com fúria
contra a louca opressão do estúpido colonizador do país do El-Dorado, depois, o guerrilheiro da aldeia Murtigura (Vila dos Cabanos)
na ilha das Onças atravessou o Guajará
e pintou o sete com as vivas cores da bandeira do Pará.

Haja, pois, o Kuarup memorial no resto da primeira noite do mundo
pra acordar o galo da verdadeira democracia tecendo a manhã
sobre campas e campos no parto do novo dia esperado desde sempre.


no portal da Fundação Maurício Grabois
http://www.fmauriciograbois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=53&id_noticia=6118

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