domingo, 12 de janeiro de 2014

Chove a cântaros nos quatro cantos de Belém






Ela não podia faltar
Presente de aniversário da cobragrande Boiúna
Para a filha das águas
Trezentos e noventa e oito janeiros
Chegou cedo através do céu sem pássaros
Sem avião
Uma preguiça enorme para arrumar a festa.

Ela veio sem falta
Para alagar o Ver O Peso e lembrar
O aterramento besta do Igarapé do Piry
A extinção dos velhos igapós e o fim da Comedia do Peixe Boi
que se foi sem dizer adeus aos filhos seus
Que deram lugar às baixadas do inferno verde
Chove na Campina e na Cidade Velha indiferentemente
Acordar os arquitetos com goteiras sobre a memória
Veneza amazônica desfigurada
Por espigões sobre camadas de asfalto e piçarra
Terra Firme se transforma numa feia e suja baía
Jurunas debaixo d'água naufraga na enchente
e desabriga sua gente
Guamá e Vila da Barca salvam-se do dilúvio
na Arca de Noé reconstruída em mil e uma palafitas.

Trezentos e noventa e oito janeiros chuvosos
que nem a estória do urubu esperando passar a chuva
pra fazer sua casa...
quando acaba enxuga as asas com raios de sol
voa, vai embora e a estória se repete como farsa
Tribos extintas descendo na enxurrada
pelas bocas de lobo reviram o lodo da história perdida...
O forte do Castelo impávido colosso resiste ao mau tempo
Apontando seus inativos canhões para a boca do rio
contra inimigos invisíveis.

Trezentos e noventa e oito anos faltando dois para 400
A gente dormindo ainda certa de que há do sol nascer
para todos
do Presépio refeito por índios e portugueses 
a paz entre o rio e a cidade, entre cultura e natureza
será feita
logo que passar a chuva de Belém do Pará.



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