sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

RECADO À REDE GLOBO

novela das seis "Marajó" cria expectativa e deixa a "galera do Pará" com pé atrás


José Varella Pereira




olá Fernando Oliveira

seus comentários sobre a futura novela da Globo com nome provisório "Marajó" estão no Facebook compartilhados com seiscentos amigos de José Varella ... Cada um destes amigos podendo ou não multiplicar a notícia por mais ou menos seguidores da mesma rede, pelo Twitter, emails, etc.

Nós te agradecemos por compartilhar os preparativos dessa curiosa novela. Ninguém precisa fingir que é noveleiro ou que não gosta desta ou daquela emissora, a teledramaturgia brasileira é uma indústria poderosa com capacidade de levar imagens mundo afora, ela tanto pode contribuir ao desenvolvimento cultural de regiões "atrasadas", como também pode prejudicar ainda mais o que já se acha na pior... É isto que nos deixa em expectativa!

No caso, menos o gênero artístico em si, o que nos interessa é o título do trabalho e possibilidade da Cultura Marajoara receber o devido tratamento depois de longo isolamento da cultura nacional apenas quebrado com o prêmio "Machado de Assis" de 1972 (o primeiro para a literatura amazônica, veja os sítios www.dalcidiojurandir.com.br - www.museudomarajo.com.br e www.marajoara.com ).

oportunidade para a autora da trama, Elisabeth Jhin e outros responsáveis pelo enredo, descobrir a repercussão de seu trabalho numa região cultural do País com alto índice de apego às suas tradições, como em geral toda cultura insular.

o estado de alerta que a notícia causou não é, absolutamente, pelo fato da maior rede de televisão do país escolher esta região para um de seus trabalhos. Aliás, depois de uma série de reportagens profundamente negativas, porém verdadeiras sobre tráfico de seres humanos, pobreza, analfabetismo; quando houve oportunidade de mostrar algo positivo vimos uma reportágem do "Globo Repórter" decepcionante, que desperdiçou o talento do repórter Marcello Canellas para temas sociais. O trivial carimbó e outros clichês de moda, a superficialidade de tratamento sobre a pajelança, a incompreensão dos caruanas (espíritos telúricos) com almas de pessoas mortas, eis rapidamente os equívocos costumeiros. Sem falar na repisada bobagem quando se fala em cerâmica marajoara em confundir "igaçaba" (vasilha para água) com "camoti" (vaso funerário), etc.
vc conhece a "ilha" do Marajó? Certamente não será uma novela das seis que fará com que o Brasil ficará a conhecer a "maior ilha flúvio-marinha do mundo"... Mas a teoria da recepção (escola de Constanza) diz que os meios de comunicação devem formar o público para o conhecimento da obra a ser exibida. Como, p. ex., o público poderia curtir a mini-série "Auto da Compadecida" ou a novela "Cordel Encantado" sem uma noção mínima que seja da obra de Ariano Suassuna?

é isto que nos mete medo. Que o nome sagrado "Marajó" (afinal o que significa? o popularizado "barreira do mar"? O homem "malvado" que resistiu à invasão das ilhas do Pará e Amazonas? O que afinal de contas... Repito, não será uma novela das seis - com todo respeito ao segmento de entretenimento - que irá abordar estas quesões e evitar que a cultura marajoara sofra mais um dano permanente.

Quando "Marajó" deveria ser uma NOVELA na melhor tradição do romanço ibérico (vide pesquisa do folclorista Vicente Salles, Doctor Honoris Causa da UFPA) sobre o romance "Marajó", de Dalcídio Jurandir. Ou seja, a TV Globo poderá dessa maneira "queimar o filme" com a novela das seis se insistir com risco de tornar efetivo o nome "provisório"... Uma novela "espírita" na ilha dos caruanas poderá achar uma penca de nomes sem maiores problemas. Mas terá feito uma novela em solo marajoara, não uma novela marajoara! Que fique bem explicado para ninguém ligar a telinha e acabar com vontade de ir reclamar no PROCON (risos)...

pelo contrário, adotando como estratégia a novela das seis para reserva do nome MARAJÓ ao horário nobre poderá se preparar a disputar até título mundial da teledramaturgia e fará um bem enorme à auto-estima do bravo povo marajoara. Certo: nós não somos ingênuos, o padrão global dispensa nossas críticas plebéias. Mas, em tempos de internet toda arrogância será castigada... Não é mesmo?

A tal ilha está dispersa em diversos estados do país e no exterior, notadamente na Guiana francesa (onde a TV Globo chega tal qual nas redondezas do Chuí) a sete horas de vôo para Paris; e no Suriname com conexão a Amsterdam, devido o êxodo rural que alimenta a "imigração clandestina" no além Oiapoque. Somos talvez mais de um milhão de marajoaras no mundo. Dos quais quase 500 mil "cidadãos" brasileiros na dita "ilha" (na verdade um peculiar território com identidade insular, do tamanho de Portugal, formado pelo arquipélago e a parte continental de Portel, totalizando 104 mil km2). Na "ilha" (50 mil km2), um arquipélago dentro de outro maior com algo como 1.700 ilhas; cabem dois estados de Alagoas, p. ex.; são mais de 500 "aldeias" (comunidades locais) em 16 municípios. O menor deles, Salvaterra; é maior do que o país independente S. Tomé e Príncipe (cenário de uma novela de fundo histórico, super interessante, chamada "Equador", que acaba de passar pela televisão pública TV Brasil...).

Não estamos nos ensinuando para ser contratados da emissora do Jardim Botânico. Mas apenas passando uma mensagem  de que ficaremos vigilantes toda vez que o nome sagrado Marajó for evocado em vão.

saudações Marajoaras!
José Varella

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SEM EDUCAÇÃO NÃO HÁ SOLUÇÃO:
Amazônia Marajoara paisagem cultural do Brasil

"Os primeiros cacicados amazônicos surgem na ilha de Marajó, onde técnicas
de manejo de rios e lagos – com a construção de barragens e escavação de
viveiros de peixes – buscavam maximizar a pesca em áreas onde inundações
periódicas transformavam os campos em locais extremamente propícios para
a piracema (...) produzindo uma das mais sofisticadas tradições ceramistas das
Américas".
[cf. Denise Schaan ]

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