segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cidade Amazônia (PA), Brasil

Um amigo me perguntou se acaso eu sou ingênuo ou um grande "artista"... (no sentido de muito esperto). Não pude responder sem primeiro me perguntar a mim mesmo se, por acaso nesta vida, a gente carece passar pelas cortes palacianas como criança travessa que, de repente, com viveza natural grita: "o rei está nu!"... Ou, então, se achando entre humildes sem eira nem beira deve respeitá-los igualmente para ter grandeza de compartilhar as luzes do Espírito, conforme as tenha, na oportunidade de falar a "verdade verdadeira" no momento certo. 

Em suma, aquela coisa de ser altivo entre os grandes e humilde junto aos pequenos: pois é minha crença que não existe sábio que não tenha algo a aprender, nem parvo que não possa ensinar alguma coisa...


E você, amigo leitor, o que acha? Veja esta utopia amazônica que mais adiante se desenha: só um sábio ou louco há de vislumbrar semelhante coisa no fim de quatro séculos de conquista e colonização do grandíssimo "rio das almazonas" ou Rio Babel para dar lugar a uma genuína ecocivilização amazônida, mediante renascença da antiga Cultura Marajoara de 1500 anos de idade.


As imagens acima são do rio Xingu e cidade de Altamira, no Estado do Pará. Servem apenas para vestir uma ideía surdida da paisagem invísivel do Futuro.

ARTE DIALÉTICA: O NÃO QUE VIRA SIM E VICE-VERSA

Ontem, dia 11 de dezembro de 2011, o povo paraense tocado por espírito cabano escreveu um capítulo importante da história da Amazônia e disse NÃO à divisão do Pará para criar dois novos estados na região amazônica, enquanto ferve a questão da construção da hidrelétrica de Belo Monte. 

Entre mortos e feridos da batalha de Itararé amazônica escaparam todos... Todavia, no clamor da "vitória" surgiu espontaneamente a retomada de uma ideia formulada outrora pelo ex-governador Almir Gabriel - repelida, prontamente como palpite infeliz, por memorável editorial de primeira página do jornal "O Liberal" - qual seja a hipotética construção de uma nova capital estadual tendo em vista as compensações dos impactos causados por Belo Monte, aliás a barragem Kararaô. 

Olhando pelo retrovisor e sabendo um pouco da nebulosa história da exploração de recursos naturais da Amazônia, fica a impressão de que o desrespeitoso pito editorial que a autoridade pública levou, seria talvez como se diz na gíria "pau mandado" por conta de interesses agora pouco a pouco revelados nos últimos capítulos da história recente, derivada do antigo estado-colônia do Grão-Pará e Maranhão; envolvendo a expansão de negócios multinacionais e o infeliz projeto de criação de dois estados deficitários desde o nascedouro a pesar mais ainda sobre as burras da União, na sangria desatada dos Incentivos Fiscais e FNO, numa hora em que a crise mundial bate pela proa da nau Brasil... 

Mas, a bem da verdade e da inteligência econômica socioambiental, já não está na hora de mudar essa velha história?  Mudar a Capital estadual para segurar a barra separatista do Baixo Amazonas e Sul do Pará, mas mudar também do Centro-Sul brasileiro para a região metropolitana de Belém recursos técnicos, científicos e financeiros suficientes para fazer acontecer o desejado desenvolvimento sustentável num centro econômico e financeiro de economia de escala no trópico úmido sul-americano.

Se assim for, o NÃO deve ter outra leitura, como vitória do SIM em suas mais legítimas e fecundas reinvindicações democráticas, malgré os arrivistas "mui amigos" sempre prontos para iludir e explorar o povo em seus melhores sentimentos e necessidades humanas.  E a prova do que se acaba de dizer é a oportuna retomada da ideia de levar a Capital do estado para mais perto de Santarém e Marabá, em algum lugar da terra do meio entre os rios Tocantins e Tapajós... Se você pensou Xingu acaba de ganhar um bônus para o futuro de seus filhos e netos!

Que me perdoem os bem pensantes e os puros filhos da mãe natureza, mas não se diga, por exemplo, que o Pará é indivisível por toda eternidade nem que o rio Xingu é santuário da vida selvagem. Devagar com o andor que o santo "desenvolvimento" tem pés de barro como o insustentável império de Nabucodonosor no sonho do profeta Daniel ...  E já diziam os sábios da Antiguidade, muito antes da Psicanálise e da linguagem esquecida segundo Erich Fromm; que "Deus antes de matar, dementa": eis, pois, revelada a alma atormentada da "ocupação" da Amazônia diante da enlouquecida cobiça estrangeira! Porém, quem pagou o pato foram índios, pretos e pardos...

O antecedente mais remoto da sacanagem colonialista e exploração dos povos que gerou a leseira amazônica é de 1618, desde aquele suspicaz panfleto do mercador Simão Estácio da Silveira, ávido pelo "ouro" das lendárias Amazonas, dedicado "aos pobres de Portugal" lhes prometendo o paraíso no Maranhão (naquele tempo, significando toda a Amazônia)... 

Sabemos a história da importação da pobreza europeia e da escravização dos índios levando à revolta dos Tupinambás liderados pelo pajé Pacamão, da aldeia de Cumã-MA, com que pagaram com a vida os ditos pobres portugueses das ilhas dos Açores, iludidos das promessas de seus feitores e a brutal repressão aos índios rebelados, com que se incendiaram aldeias do Maranhão até o Pará e aqui se levantou o cacique Guamiaba (Cabelo de Velha) atacando o forte do Presépio, em 7 de janeiro de 1619: ato inaugural da Cabanagem de 7 de janeiro de 1835, ajuntando negros, tapuios e brancaranas continuada pela luta desesperada das "classes infames" que nem na Guerrilha do Araguaia, luta de David contra Golias - de derrota em derrota até a vitória final da Democracia ("governo do povo").


"CIDADE AMAZÔNIA", NOVA CAPITAL DO ESTADO DO PARÁ

Uma nova capital, pra quem cara pálida? Para os índios bastaria uma boa aldeia bem conservada e saudável longe das doenças e vícios do brancos... E não adianta a União "comprar" as terras indígenas depois que os colonos as roubaram e os sicários dos bandeirantes mataram e destruiram milhares de povos indígenas. A emergência do Brasil - antigo País do Futuro e atual sétima econômia da Terra - no cenário mundial justifica a cancioneta de fim de ano que a TV está cantando e anunciando aos quatro ventos que o futuro já começou... Será? É, pode ser.


Vem aí a conferência mundial Rio+20 disposta a dar balanço de duas décadas após a ECO92... As últimas notícias da COP 17 em Durban, África do Sul; dizem que o país do pau-brasil está bem na foto, embora em geral não são a modo de prometer grandes avanços em 2012. Todavia, uma reflexão a respeito da famosa "Carta do Cacique Seattle" http://www.ufpa.br/permacultura/carta_cacique.htm   - pudesse servir para baixar nossa taxa de arrogância iluminista e que se tenha a coragem da humildade para entender o que nos diz o Outro, a verdade é que a nau da civilização está à deriva - , que tal repensar o "modelo" de desenvolvimento da Amazônia... santa inocência! De acordo com os povos originais do Brasil pré-colombiano! Sim, não temos ilusão, dito isto há algumas décadas apenas nós seriamos internados à força no hospicio dos loucos. E na Idade Média nós iríamos queimar na fogueira da Inquisição como endemoiados.


Mas, pensem bem uma nova capital do Pará na vizinhança de aldeias indígenas poderia ser qualquer coisa de revolucionária para o Brasil e o mundo. Sei que uma coisa destas soa como um absurdo inominavel! E por que? Porque o Brasil europeizado só se reconhece indígena e afrodescendente através da modernidade da Europa: é preciso visitar, por exemplo, o museu do Quai de Branly, em Paris, para re-descobrir a África, a Ásia, a América e Oceania no solo da mãe gentil pátria amada, Brasil. Não é verdade? E, todavia, o bom selvagem Tupinambá foi a França levar a ideia da revolução de 1789 como se fora a tocha do fogo sagrado da humanidade.


Em primeiro lugar, uma capital de estado em coexistência pacífica com aldeias indígenas e hidrelétricas no rio Xingu é, sem dúvida, uma utopia pra lá de 2030. Ah, sim o gigante da América do Sul despertou do berço explêndido e o mundo tem fome de aço, alumínio, madeira, soja e outras mercadorias à bon marché... Então, sejamos sinceros: não existe tecnologia nem vontade politica para fazer diferente disto. Entretando, o tempo contemporâneo é tão veloz que, de repente, o que antes parecia loucura se revela a mais sensata das sabedorias...

Em segundo lugar, porém nem menos importante; a mudança de capital seria o maior bem que Belém do Pará pode receber como presente de aniversário em 2016. Tempo para refazer-se. A Universidade Federal como parceira estratégica em nome da União pensaria a Amazônia Oriental que temos e a que queremos para todo o século 21: abriria suas portas aos mais países amazônicos e do mundo inteiro na invenção da Amazonologia.


Nessa nova Belém cada bairro seria uma comuna autogestionária. Os transportes públicos prevaleriam sobre os particulares com eixo viário num moderno metrô de superfície. O centro histórico todo ele revitalizado como uma usina de criatividade, gerando emprego de qualidade e renda com turismo e cultura; teria de volta bondes e canais. 

A nova capital e a Cidade Velha paraense, mais que nunca, seriam as duas faces da mesma "cidade amazônica. Ali a Universidade Estadual do Pará (UEPA) seria o celeiro de recursos humanos para a aventura urbana da Amazônia neste século. Aqui, a UFPA ela mesma se renovando para fazer face ao desafio em conjunto com a Câmara Municipal e Prefeitura de Belém daria plenitude às locubrações visionárias de Coudreau e Eidorfe Moreira.

Mas é claro que isto não passa de provocação de um caboco velho metido a besta do Apocalypso!

Sonhar mais um sonho impossível / Lutar quando é fácil ceder/ Vencer o inimigo invencível / Negar quando a regra é vender / Sofrer a tortura implacável / Romper a incabível prisão / Voar num limite improvável / Tocar o inacessível chão / É minha lei, é minha questão / Virar este mundo, cravar este chão / Não me importa saber / Se é terrível demais / Quantas guerras terei que vencer / Por um pouco de paz / E amanhã / se este chão que eu beijei / For meu leito e perdão / Vou saber que valeu / Delirar e morrer de paixão / E assim, seja lá como for / Vai ter fim a infinita aflição/ E o mundo vai ver uma flor / Brotar do impossível chão.

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