sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ETNIA CABOCA: QUATRO SÉCULOS DE MISCIGENAÇÃO AMAZÔNIDA

 Seria Caboquice uma etnia forjada na mestiçagem geral da brasilidade, sarada na madrugada da Cabanagem até cantar o galo em plena Cidadania?

A palavra "etnia" deriva do grego ethnos e significa "povo". Era utilizado para se referir a povos não-gregos e tinha conotação de "estrangeiro". A palavra deixou de ser relacionada ao paganismo em princípios do século XVIII e seu uso do sentido moderno, próximo do original, começou na metade do século XX.

Uma etnia é uma comunidade humana definida por afinidades de língua e cultura. Tais comunidades étnicas reivindicam geralmente um território, esturtura social e politica próprias. Não se refere à raça ou sinônimo de minoria, pois a etnia compreende fatores culturais, como a religiosidade, a língua, gastronomia, hábitos de vestuário, tradições e costumes.

Então, existiria uma "etnia" caboca, tipicamente amazônica? Para responder a questão precisamos cercá-la pelas ilhargas desde suas circunstâncias de tempo e espaço, a fim de tentar enquadrar a coisa e surpreendê-la no próprio habitat, talvez. A empreitada não é fácil. Mas pode ser tentada, por que não? E isto para que, afinal de contas? Para revelar o "homem amazônico" e suas circunstâncias. Vejamos:

Tronco Submerso

Paulo André Barata

Tudo o que eu amei estava aqui
Do chão batido à cuia de açaí
Por isso não cantei Copacabana
Ainda que ela fosse tão bacana
No brilho dos postais que eu recebi
Tudo que eu amei estava aqui
Da mão de milho ao pé de miriti
E assim não falei da Torre Eiffel
Dos perfumes de Chanel
Nem do céu azul do Tenesse
Desculpe meu irmão meu canto agreste
Nutrido do jambu que não quisestes
Manchado de tijuco e de capim
Perdoa por favor meu pobre verso
Um tosco tronco submerso
No rio sem nome que se vai de mim
RUAS DA CIDADE
Milton Nascimento
Guiacurus Caetés Goitacazes
Tupinambás Aimorés
Todos no chão
Guajajaras Tamoios Tapuias
Todos Timbiras Tupis
Todos no chão
A parede das ruas
Não devolveu
Os abismos que se rolou
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial

Passa bonde passa boiada
Passa trator, avião
Ruas e reis
Guajajaras Tamoios Tapuias
Tupinambás Aimorés
Todos no chão
A cidade plantou no coração
Tantos nomes de quem morreu
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial .
http://letras.terra.com.br/milton-nascimento/405856/
 TRASTEVERE
Milton Nascimento
 
A cidade é moderna
Dizia o cego a seu filho
Os olhos cheios de terra
O bonde fora dos trilhos
A aventura começa no coração dos navios
Pensava o filho calado
Pensava o filho ouvindo
Que a cidade é moderna
Pensava o filho sorrindo
E era surdo e era mudo
Mas que falava e ouvia



"A aventura começa no coração dos navios"...  Onde? Talvez em Palos de la Frontera, talvez nas barrancas do Napo, Equador, na construção do bergatim roubado por Francisco de Orellana e Fray Gaspar de Carvajal para descobrir as monjas do Sol chamadas amazonas e depois fundar Belém e Manaus... Em Sagres por disfarce? Talvez em Lagos ou distante de olhos e ouvidos estranhos na Ilha da Madeira e nos Açores... 

O Cabo Verde sob a rosa-dos-ventos feita de sol e sal reparte o mundo achado ou por achar entre os reinos católicos de Espanha e Portugal (tratado de Tordesilhas de 1494, dito "o testamento de Adão" e a concorrência desatada dos presumidos herdeiros porém deserdados por Sua Santidade o Papa de Roma): o confuso meridiano a 370 léguas a Oeste do arquipélago. A linha imaginária passando, supostamente, sobre Belém do Pará e Laguna-SC, tangente à grande ilha do Marajó com seus mistérios e dúvidas até agora duma civilização pré-colombiana sem par... 

Mas, espera! Antes de mares nunca dantes navegados, onde estavam nossos avós d'aquém e d'além Rio-Mar? As pinturas rupestres da serra Paytuna e Carajás querem nos dizer alguma coisa... Nós é que ainda não as sabemos ler. Espera! Falta decifrar também os ideogramas da cerâmica marajoara, não se faça de besta... Anda depressa antes que a pisada dos búfalos termine a obra de demolição iniciada por Pinzón, arrastando da contracosta do Marajó os primeiros 36 negros da terra... Espera! Aonde vai com tanta pressa essa estória danada?



Então a viagem secreta do cosmógrafo d'El-Rey Duarte Pacheco Pereira (1498) ao Grão-Pará tem fundamento? Achado não é roubado e descoberto é aquilo que se sabia mas escondia por segurança: a antiga terra do Brazyl, por exemplo... E assim, seguro da geografia de Tordesilhas, o que estava oculto pela teoria do segredo pôde ser descoberto sem receio; o país do futuro Brasil, em Porto Seguro-BA (1500), dez dias de abril; na pachorrenta passagem do fidalgo Dom Pedro Álvares Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo em embaizada ao marajá de Calicut, nas Índias Orientais, quando índios Pataxó e marinheiros folgaram e brincaram juntos. Mas, três meses antes. ao norte não houve amizade nem brincadeiras quando o navegador espanhol, piloto de Colombo, Vicente Yañez Pinzón pisou terra firme no Ceará,  janeiro de 1500, e no Marajó viu o caudaloso La Mar Dulce, depois Amazonas; e calou a boca na incerteza das ditas estipulações do referido Tratado...


Assim, o vasto mundo amazônico, apenas visto ao largo ou perturbado apenas no caso dos 36 índios levados de "Marinatambalo" [Marajó] como escravos, por Pinzón. E a passagem tumultuada de Orellana em seus dois bergantins fustigados pelas mulheres guerreiras "amazonas" (icamiabas) desde a confluência do Trombetas até as ilhas do estuário sob nuvem de flechas envenenadas; manteve-se isolado até inícios do século XVII. Quando aventureiros holandeses vindos das Guianas se infiltram no rio das Amazonas seduzindo os índios para o escambo de quinquilharias por "gados do rio" (peixe-boi, tartarugas e pirarucu) e "drogas do sertão".... Começa aí, de fato, o calvário ou purgatório destes povos indígenas extraídos do mato até invenção dessa figura ambígua conhecido na literatura brasileira como o tal "caboco"...


 ***

Longe ouço uma voz: notícia da morte de o Guarani pela Voz do Brasil. Pelas ondas do rádio também vem Milton Nascimento em figura do coração negro de Minas Gerais transformada em cantochão do gigante Brasil e música do mundo em geral: ressuscita a esperança latino-americana - Libertas quae sera tamem - que não cansa de sonhar e pelejar. Porém, estou no extremo-norte, em Belém à margem do Guajará e meu pensamento mora noite e dia no Grão-Pará e Maranhão afamado: quatrocentos anos de invenção da Amazônia por caminhos à margem da História oficial.  

A terra e o tempo desta gente vulgarmente chamada "caboca"... Gente da rede rasgada saída do mato debaixo de fogo e dentes de cachorro no rio das Almazonas: luta feroz de reconquista do Paraíso perdido resgatado do inferno verde a peso de mil e uma presepadas.


Afinal de contas, o que é ser "caboco" [kaa bok] neste ou noutros mundos? Se esta gente já deixou de ser "índio" ou "preto" e, na verdade, nunca chegou a ser e jamais será nem um pouco "branco"... Acho que esta é uma questão crucial para resolver a questão do desenvolvimento sustentável da Amazônia, noves fora a má fé da ocupação do "espaço vazio". Melhor dizendo, espaço esvaziado... Como foi que aconteceu a mistura fina da gentilidade amazônica? Onde há de se sustentar as regiões se não em sua própria gente em qualquer lugar do mundo? Por que na Amazônia isto seria diferente? Os impérios todos têm prazo de validade e o colonialismo é insustentável em quaisquer tempos e espaços!


Quer dizer, as Amazônias hão de ser autônomas nos respectivos países sustentadas pelas populações mestiças locais, ou não haverá o fim da história para Amazônia sustentável nenhuma. Haverá qualquer coisa, enfim, mas nada que valha a pena chamar Amazônia.


 ***

No dia 12 de outubro de 1492, nas Bahamas, aliás Guaanani; acidentalmente Colombo inventou as Índias Ocidentais: o tal descobrimento da América... Desde então, o que era um equívoco cartógráfico à força de repetição da mesma estória passou a ser verdade histórica. E os povos desta vasta porção da Terra foram, genéricamente, chamados "índios". O "país do vento" [Americ, em língua Maya] - somente descoberto séculos depois do "Descobrimento" e colonizado em homenagem ao italiano Amerigo Vespucci em detrimento da fama de Colombo - entrou em transe como as ilhas do mar e a terra-firme açoitada pela fúria de mil e um furações... 

É demais conhecida a história da destruição das Índias, notadamente as civilizações antigas do México e Peru; para se ficar aqui a repetir as transformações e reinvenções do Novo Mundo até as Américas modernas ora em curso vir a ser outra coisa talvez melhor ou pior. 

Todavia, "última fronteira da Terra" a Amazônia, pela primeira vez desde a revolução popular dita a Cabanagem (1835-1840); tem possibilidade de reafirmar sua vocação repúblicana no seio do Brasil soberano e independente. Elo central de ligação sul-americana transcontinental entre os oceanos Atlântico e o Pacífico, através da calha do maior rio do mundo e os Andes. Como a geografia e a história das viagens de Orellana (1542 e 1544) e Pedro Teixeira (1637-1639) demonstram. 

Sem esquecer a impressionante migração Tupinambá de 1538, de Pernambuco ao Alto Amazonas (Peru) [cf. Nelson Papavero, "O Novo Éden", ed. Museu Paraense Emílio Goeldi], prova de que antes mesmo dos europeus se apossar da região povos originais da América do Sul já disputavam o rio Amazonas e que, no caso dos Tupinambás, nunca se deve esquecer a motivação do mito da Terra sem mal e o rito da Antropofagia como elementos genéticos e plasmadores da Tapuya tetama (terra dos Tapuias) na Amazônia em tela. 

Donde, com muito menos fantasia ou mentira deliberada do que o "descobrimento" da América; a pacificação do Marajó [Mapuá, Breves, 27 de agosto de 1659], acordada entre os sete caciques Marajoaras ("nheengaíbas"), El-Rei de Portugal (nos termos da lei de abolição dos cativeiros indígenas, de 1655) e, sem dúvida, os famigerados caraíbas tupinambás súditos portugueses já; corresponde ao fato primordial de existência, hoje, de uma Amazônia brasileira, reconhecida internacionalmente (Tratado de Madri de 1750 e seguintes), fazendo parte do Império do Brasil (1823), consolidada finalmente no corpo da República Federativa do Brasil e nos termos da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

QUEM É CABOCO?
Até hoje, segunda década do século XXI, o típico caboco amazônico é geralmente um índio amnésico, sangue misturado de degredados europeus e descendente de negros escravos. Indeciso entre a Floresta que lhe serviu de berço e a ilusão de Paris n'América na ambicionada civilização pela qual ele consome, em vão, sua energias; termina quase sempre por se desenganar quando já é tarde: aí deixa a vida o levar ao sabor da maré ela mesma em fluxo e refluxo eternos.

Há exceções, quando o caboco que nem bicho acuado toma tenência da sua sina sob humana condição de um condenado do império de um passado cruel. Então, ele se torna cabano por diversos modos. Entra na luta a par de seus iguais para escapar do laço de um destino infeliz. O índio ancestral que lhe habita o inconsciente coletivo resiste instintivamente às opressões da civilização. 

Porém, esta energia adormecida muitas vezes é semelhante às piores convulsões sísmicas. São necessários mil cuidados para domesticar o espírito guerreiro desnorteado por séculos de cativeiro e acumuladas injustiças. De tal modo que assustado com sua própria violência o caboco danado se entrega a estranhos rituais de apaziguamento debaixo de comando alheio, sem jamais experimentar a paz e segurança verdadeira que seus mestres tradicionais praticaram em liberbade no passado distante. 

Por outras vias, através da escola ou duma igreja por acaso o caboco briga contra seu Inimigo interior. Não raro ele perde a luta... Aí, então, se torna cínico, covarde, egoista e até perverso às vezes com os outros numa espécie de vingança social mesquinha. Na verdade, mais que seus antepassados degredados ou cativos este pobre ser humano, não importa quantos títulos ele conquiste ou propriedades venha a ter será sempre escravo do sistema. Claro, neste modo de ser particular se encontra uma lei geral de toda humanidade ofendida em qualquer parte do planeta: donde a conclusão, o mundo não terá solução - seja aqui ou na Cochinchina  - sem uma consciência internacional justa e perfeita. O vento que sopra aqui também sopra lá...

DENTRO DE CADA CIVILIZADO MORA UM BÁRBARO PRONTO A REAGIR

Gleilson Miranda/Funai/Reprodução
Depois de serem fotografados pela primeira vez, os índios invisíveis reagem a flechadas em selva no interior do Acre Depois de serem fotografados pela primeira vez, os "índios invisíveis" reagem a flechadas em selva no interior do Acre.

É conhecida a frase que diz: 'o mundo treme diante de um rei que foi escravo'... A crônica colonial é abundante de exemplos de emigrantes miseráveis no país de origem que se tornaram tiranos na colônia. Em 1612, a colônia francesa do Maranhão abrigou protestantes perseguidos pela aristocracia católica na Europa, onde em Paris aconteceu a terrível noite de São Bartolomeu de 23 para 24 de agosto de 1572:



Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois


Os próprios índios Tupinambás, ansioso em obter armas e navios para levar a guerra contra seus inimigos hereditários na outra margem do grande rio Pará [Pará-Uaçu, Grão Pará]; convidaram corsários franceses para fortificar o Maranhão. A amizade entre tupis e franceses vinha do Rio de Janeiro e embaixadores tupinambás foram a França (donde a legenda do Bom Selvagem e a susgestão de Revolução Francesa, segundo Montaigne e Rousseau), também do Maranhão foram enviados príncipes indígenas à corte francesa com o rei e a rainha da França lhes servindo de padrinhos de batismo.

E, todavia, cedo se desvaneceu a concórdia na França Equinocial devido à ignorância e intolerância dos frades sobre a religião do Jurupari. Fonte de atrito com os pajés terminando, certamente, por romper a confiança entre os aliados bárbaros e civilizados. Fato histórico que pode explicar a virada portuguesa a partir de Olinda-PE e tomada de São Luís, sob a União Ibérica (1580-1640), mediante o enlace do cristão-novo aventureiro Martim Soares Moreno e a índia Paraguassu, filha do murubixaba Jacuúna, de Jaguaribe (Ceará). As fontes não falam de filhos mamelucos de Soares Moreno e Paraguassu (o casal paradigmático luso-brasileiro na literatura de José de Alencar), mas quantos outros foram molde da massagada pernambucana na conquista da Amazônia. Ao dizer Pernambuco, na verdade a gente está falando da Paraíba, da Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte e todo o Nordeste em marcha para Oeste e para o Norte... De fato, são os nordestinos povos muito andejos tangidos por inquitações ancestrais.

Diabolizado o espírito tutelar dos índios do Maranhão pelos franceses do protestante La Ravardière; todos sabemos como os portugueses ajudados pelos mesmos tupinambás dos quais antes foram inimigos, tomaram o Maranhão (1615) e sem demora aliados aos mesmos índios levantaram o forte do Presépio, fundação de Belém do Pará (1616).

Extraordinariamente, historiadores para um lado e antropólogos para outro; só nas primeiras duas décadas do século XX começaram os brasileiros a perceber que o Bom Selvagem havia um propósito bem definido em suas migrações messiânicas. Por força da sua religião, os Tupinambás desenharam no terreno o mapa do Brasil pintado em vermelho com o próprio sangue e de seus inimigos Tapuias, na passagem da Tapuirama para Amazônia. De tal modo, que um antrópologo como Pierre Clastres forjou a frase "se não existisse a guerra precisava ser inventada"; para ilustrar a saga dos Tupinambás. Os verdadeiros conquistadores da Amazônia brasileira, enquanto foram os portugueses os colonizadores até 1823, com a Adesão à Independência do Brasil.


Imigrantes portugueses à espera do navio para o Brasil, século XX

 O NORTE DO BRASIL FOI FORMADO A PARTIR DO NORDESTE



No Nordeste brasileiro nasceu a sociedade açucareira formada pelo colono português e escravos africanos. Para suprir a falta de mulheres portuguesas, a Coroa mandou ao Brasil órfãs que, ao invés de seguir a vida religiosa iam se casar na colônia. Entretanto, este recurso não foi suficiente e então a miscigenação aconteceu em larga escala: mulheres índias e negras africanas foram determinantes na formação do povo nordestino e nortista com número reduzido de portuguesas que acabaram modelando a ellite. 

Na demografia do Nordeste onde já se distinguiam o "negro da terra" (escravo indígena) e o "negro da Guiné" (escravo africano) surge também a curiosa figura do "branco da terra": filho de colono português com índia catequizada. Mais tarde, aparece o mulato, filho de europeu com mãe negra. O povo nordestino, então, recebe judeus e muitos cristãos-novos e ciganos. Sob o domínio holandês centenas de judeus sefarditas (de Portugal e Espanha) se instalaram no Nordeste contribuindo à diversidade étnica e cultural do Brasil colônia.

Os degredados

A pena de degredo em Portugal era usada desde a Idade Média. Os condenados eram mandados para lugares mal povoados e zonas fronteiriças do país. Com as descobertas portuguesas, a partir do século XV, muitos condenados passaram a ser mandados para a África, a Índia e o Brasil. Os degredados eram considerados "desajustados sociais", indesejáveis em Portugal, que eram banidos por tempo determinado ou indefinidamente. A pena de degredo para o Brasil era a pior que havia, apenas superada pela pena de morte. No imaginário português, havia uma dicotomia em relação ao Brasil, ora era o paraíso e ora o inferno na Terra. A natureza virgem contribuía para criar a imagem do paraíso terrestre entre o clero.

Com a tomada do Maranhão (1615) e conquista do Pará (1616), o contínuo apelo da lenda do El Dorado no rio das amazonas com suas fabulosas riquezas imaginadas fazia as mentalidades fervilhar. Porém, Portugal se achava sob domínio dos Reis Católicos que deliberadamente mantinham a entrada do Amazonas aferrolhada, com os relatos de Pinzón (1500) sobre a entrada do rio Santa María de La Mar Dulce e de Carvajal (1542) sobre a descida do Napo até o Oceano, tracados a sete chaves. A ferocidade natural dos índios do Cabo do Norte (Amapá) e Marajó eram intencionalemtne exageradas para desanimar as entradas, uma vez que o Peru fornecia a prata através de Cartagena de Índias e o mar do Caribe.

Neste cenário, o mercador Simão Estácio da Silveira escreveu um panfleto dedicado aos pobres de Portugal dizendo-lhes que o Maranhão [Amazônia] era o paraíso procurado na terra (1618). Com esta notícia destinada a incentivar a colonização do rio Amazonas, com um plano mirabolante sobre o desconhecido, acorreram casais dos Açores mas, tão logo puseram os pés em terra descobriram a falsidade do plano e desesperados se atreveram a pilhar as aldeias e a fazer escravos entre os índios. Os enganados colonos não sabiam com quem estavam lidando e logo dezenas de brancos pagaram com a vida a aventura. Em 1619, estalou a revolta começada pelo pajé Pacamão, da aldeia de Cumã-MA e alastrada até Belém do Pará, no dia 7 de jaeneiro, com o assalto do cacique Guamiaba (Cabelo de Velha)  ao forte do Presépio. A represália lusa foi violentíssima com as forças do Pará e do Maranhão cercando os Tupinambás nas margens do Gurupi com uma matança enorme na qual deitaram fama de genocias Bento Maciel Parente e Pedro Teixeira.

Contrariamente, a fama de praticarem a religião da vingança (cf. Nimuendaju, Métraux, Florestan, Darcy Riveiro, Clastres, Vainfas...), os Tupinambás nem bem sararam as feridas e os frades de Santo Antônio lhes acenaram com a guerras para expulsar os holandeses e atacar o inimigo hereditário Nheengaíba; se apresentaram animosos com armas e abastecimento sob comando dos mesmo adversários. Como não se percebeu isto? Que força maior impulsionava essa gente guerreira e vingativa rio acima no rumo aonde o sol se deita para dormir? 

 
Na velha Europa, os relatos sobre a colônia também assumiam perspectiva negativa, com descrições reais ou fantasiosas, propagando que o Brasil era habitado por animais selvagens e monstros e dragões. Além da fauna e da flora exóticas e perigosas, a imagem dos índios era pintada de preconceitos, uma vez que eles eram como "animais selvagens" e a prática da antropofagia foi usada pelos europeus para demonizá-los. O degredo para o Brasil significava, pois, além de partir para uma terra desconhecida e perigosa, ter que enfrentar uma viagem oceânica torturante e a separação da família.

Com toda essa carga negativa sobre o Brasil, era natural que muitos portugueses temessem se transferir para a colônia. Povoar o Brasil e, consequentemente, estabelecer o controle português na região, foi uma tarefa difícil. Na Amazônia acrescia a dificuldade do clima e o desconhecimento do Trópico Úmido. Além do fato de que Portugal tinha uma população reduzida, eram poucos que se atreviam a se aventurar numa terra com a fama do Maranhão, como se chamou toda a Amazônia em seus primeiros dias. Em virtude disso, o degredo foi usado por Portugal como uma forma de povoar a colônia, mas na Amazônia foram mamelucos do Nordeste que se apresentam como "portugueses". E as tapuias amazônicas vieram a ser a verdadeiras "amazonas".

ÁFRICA AMAZÔNICA


O fim do tráfico negreiro legal entre o Grão-Pará e a África (1834) não representou a interrupção desta atividade, pois já havia em atividade um comércio interno entre o Estado do Brasil e do Grão-Pará e Maranhão. Com isto, Belém não se limitava apenas em ser importadora de escravos africanos, mas também os exportava através do porto de Belém a fim de abastecer necessidades de mão-de-obra do mercado de trabalho de outros pontos da Amazônia interior. Já a Independência havia ocorrido em 1823, e a ocupação de Caiena (1809-1017) com os regresso de tropas mestiças tinha contaminado o Pará dos ideais republicanos e abolicionistas com notícias da Revolução Francesa (1789) e da independência do Haiti (1804), primeiro país latino-americano a se emancipar; sob liderança de Toussaint l'Ouverture com a libertação dos escravos. Quando Felipe Patroni agita a província com a revolução liberal do Porto, Portugal (1820), as condições históricas estavam prontas na Amazônia.


Porém, as forças absolutistas e escravagistas iriam se contrapor com todas suas energias, em São Paulo e Rio de Janeiro com o golpe do Grito do Ipiranga em torno do Príncipe herdeiro de Portugal, Dom Pedro I imperador do Brasil. O Norte e Nordeste tendentes à República e ao federalismo iriam gerar uma tensão interna, notável na Confederação do Equador (1824) e na Cabanagem (1835-1840). Esta insurreição da Amazônia, único movimento de sua época na América Latina quando o povo chegou ao poder; teve inconfundível motivação abolicionista em suas bases e republicana entre suas lideranças. O fracasso do movimento deveu-se em grande parte á falta de líder preparado após a morte do cônego Batista Campos o improviso e contradição de interesses pessoais levou a divisão de forças e erros de condução dos três presidentes cabanos, por último o jovem Eduardo Angelim que ao mandar fuzilar chefes dos escravos precipitou o abandono da luta pelos negros e sua dispersão para longínguos quilombos e mocambos no interior da selva.


No século XIX, no Brasil, ocorreu a luta para abolir a escravidão no país. No Pará, em Belém foi fundada a Sociedade Filantrópica Emancipadora da Província do Grão-Pará, criada pelo médico Carlos Seidl, em 1869. Em 1882, surgiram organizações abolicionistas como o Clube Felipe Patroni e o Clube Batista Campos. Em abril de 1888, com o Gabinete de João Alfredo, os abolicionistas criaram, no Grêmio Literário a associação denominada Liga dos Cativos da Província do Pará. Após discussão sobre o estatuto, decidiram que todos os membros da diretoria dariam liberdade aos seus cativos; que escolheriam a data de 13 de maio para a abolição total dos escravos do Pará; e como o dia 13 de maio estava próximo, adiaram para o ano seguinte (1889) a extinção do cativeiro.


Imagem retrata a redenção de Benevides do trabalho escravo. A Vida Paraense, Belém, 30/03/1884.


Sátira das festas de doação de cartas de liberdade aos escravos no Teatro da Paz. A Semana Ilustrada, Belém, 30/03/1884.


O jornal Diário de Noticias, de João Campbel, engajou-se na campanha abolicionista, denunciando o tráfico e desembarque de negros no Pará. Naturalmente, através do comércio com a Inglaterra e a presença de agentes da Maçonaria o liberalismo progredia:

“O vapor Bahia trouxe 13 escravos para serem vendidos nesta província, graças à proteção facultada pela assembléia aos especuladores dessa torpíssima industria.”
(Diário de Noticias, Nº 154, 06/07/1881, p. 2.)

“Do Maranhão entrou ontem o vapor Alcântara, trazendo o formidável carregamento de 57 escravos e 20 ingênuos. Esses infelizes vieram com destino a Olaria do Sr. Domingos Noguez. Esse facto depõe seriamente contra nós, e devemos o conceito péssimo feito a nosso respeito, dentro e fora do paiz, unicamente à politicagem dos nossos deputados.”
(Diário de Noticias, 24/06/1882, p. 2.)


“Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime
Se ele consente este crime
Que se chama escravidão;
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo,
Maior que a religião.”
(Tobias Barreto. Diário de Noticias, 02/07/1884. Citado em SALLES, Vicente. O negro na formação da sociedade paraense. Belém: Paka-Tatu, 2004. pp. 73-74.)


A Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, assinada pela princesa Isabel, aboliu a escravidão em todo Brasil. O presidente da província Miguel Almeida Pernambuco fez publicar um edital, determinando a execução do Decreto nº 3.353 em todo Pará. Seria o fim da luta dos Cabanos? Vemos que até hoje não cessam notícias na imprensa sobre trabalho escravo em pleno século XXI, e leis severas que não se cumprem fielmente. Então, quer dizer que a luta continua por outros meios, notadamente no campo dos Direitos Humanos e do progresso da Democracia.


Influência africana no Pará

O poeta Bruno de Menezes é o maior nome da negritude amazônica. A contribuição dos negros no Pará se manifesta nos folguedos populares, na culinária, no vocabulário e em vários aspectos do folclore regional. O negro que chegou como escravo, assim como o indígena e o branco degredado, contribuiu de modo notável na formação da sociedade paraense. O negro contribuiu com seu trabalho durante séculos, mas também com sua cultura, na culinária,  na luta de capoeira, na música e na dança.

Observaram Spix e Martius, nos anos de 1820, os negros e mulatos paraenses.

“Os mulatos são os mesmos também aqui; é a mesma gente facilmente excitável, exuberante, pronta pra qualquer partida, sem sossego, visando a efeitos espalhafatosos. Para a música, o jogo e a dança, está o mulato sempre disposto e agita-se insaciável, nos prazeres, com a mesma leviandade dos seus congêneres do sul, aos sons monótonos, sussurrantes, do violão, no lascivo lundu ou no desenfreado batuque.”
(SPIX & MARTIUS. Viagem pelo Brasil, 1817-1820. São Paulo, 1962, 3 v. p. 22.)


Grande participação de negros no movimento revolucionário da Cabanagem, onde escravos e libertos se destacaram, como Manuel Barbeiro, o negro liberto Patriota e o escravo Joaquim Antônio.


“Emergindo dos mocambos e das senzalas ou afluindo dos quilombos ignotos, no seio das selvas e nas praias desabitadas, os escravos acostaram-se à causa cabana, com o objetivo da reconquista da liberdade.”
(HURLEY, H. J. Traços cabanos. Belém: Off Gráficas do Instituto Lauro Sodré, 1936. p. 209.)


E O CABOCO O QUE É?


Caboclo é o mestiço de branco com índio; caboco, mameluco, caiçara, cariboca, curiboca. Antiga designação do indígena brasileiro. Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, defende a forma caboco, sem o l, que teria sido introduzida na palavra sem encontrar base nas diversas hipóteses etimológicas, como a que afirma derivar do tupi caa-boc, "o que vem da floresta" ou de kari’boca, "filho do homem branco".
Os cabocos formam o mais numeroso grupo populacional de todos nove estados da Amazônia brasielira e de alguns estados do Nordeste, como Rio Grande do Norte, Piauí, Alagoas, Ceará e Paraíba. Contudo, o número de pessoas consideradas cabocas no Brasil é difícil, pois segundo métodos usados pelo IBGE, entram na contagem de 44,2% de pessoas consideradas pardas, grupo que também inclui mulatos e cafuzoa e outras combinações da mistura de negros ou índios.
Caboclo ou caboco também pode ser sinônimo de:
  • tapuio, termo genérico de desprezo usado por determinados povos indígenas quando se referiam a indivíduos de outros grupos. Caboclo de cor acobreada e cabelos lisos; caburé.
  • Caipira, roceiro, sertanejo. A figura de Jeca Tatu, criação de Monteiro Lobato, foi imortalizada na música popular, no palco e no cinema por Mazzaropi.
No Brasil há o Dia do Caboclo, comemorado em 24 de junho. Também é o nome dado às entidades míticas, ou manifestações de religiões como o caboclo nos ritos de Camdoblé de Caboclo, no Catimbó, na Macumba, no Batuque e na Umbanda.

Para que serve a história

Ao consultarmos um dicionário, encontraremos a seguinte explicação para o verbete história:
"Narração metódica dos fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular na vida da humanidade, em geral", ou ainda, "Conjunto de conhecimentos, adquiridos através da tradição e/ou mediante documentos, acerca da evolução do passado da humanidade."
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3 ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1999.





Há ainda, outras explicações e outros significados elaborados por historiadores (especialistas em história) ou não. Veja outros exemplos:
"A história é o registro da sociedade humana, ou civilização mundial; das mudanças que acontecem na natureza dessa sociedade [...]; de revoluções e insurreições de um conjunto de pessoas contra outro [...]; das diferentes atividades e ocupações dos homens, seja para ganharem seu sustento ou nas várias ciências e artes; e, em geral, de todas as transformações sofridas pela sociedade [...]"
                       
KHALDUN, Ibn, citado em HOBSBAWN, Eric. Sobre história. São Paulo. Companhia das Letras, 1998.

"Disciplina que se ocupa do estudo dos fatos relativos ao homem ao longo do tempo [...]"
Nova Enciclopédia Barsa. São Paulo. Encyclopaedia Britannica do Brasil , 1999. v.7.

"História inclui todo o traço e vestígio de tudo o que o homem fez ou pensou desde seu primeiro aparecimento sobre a Terra."
                       
ROBISON, James Harvey, citado em BURK, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo. Unesp, 1992.


 http://filosofadeonibus.blogspot.com/2006/05/para-que-serve-histria_03.html


DIRETÓRIO DOS ÍNDIOS

Por Emerson Santiago
A expressão Diretório dos Índios  refere-se a uma lei, editada em 1755, e que reúne importantes dispositivos acerca da política indígena seguida por Portugal enquanto metrópole administradora do Brasil, mais precisamente no denominado período pombalino, onde o poderoso ministro do rei de Portugal D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, dominou o cenário político português, na segunda metade do século XVIII. Este mencionado regimento conta com 95 artigos, onde destaca-se a intenção do governo do Reino de Portugal de manter os povos indígenas fora do sistema escravagista, evitando além disso sua segregação, isolamento, e repressão ao tratamento dos indígenas como pessoas de segunda categoria em meios aos colonizadores e missionários brancos.
Além de várias outras medidas, o documento estabelece a proibição do uso da palavra “negro” (artigo 10), o incentivo ao casamento entre colonos brancos e indígenas, prometendo vantagens e prêmios aos brancos que se casassem com mulheres indígenas (artigos 88, 89, 90 e 91) e substituição da língua geral, o nheengatu  pela língua portuguesa (artigo 6), ensino das crianças nativas em escolas públicas (artigo 7 e 8), bem como punição contra possíveis discriminações (artigos 84, 85 e 86).
Através do Diretório dos Índios, os povos nativos conquistavam o direito à realização do comércio e posse de bens individuais. Até que fossem capazes de se inserir na sociedade civilizada, porém, os índios deveriam ter um Diretor, um em cada aldeia ou povoação, eleito na comunidade com funções predominantemente de orientação e instrução do que de administração.
Tal política de valorização dos indígenas, por meio deste documento e subsequentes esforços para seu cumprimento tinham também a finalidade de afastar os indígenas da influência dos jesuítas, além de fazerem destes súditos fiéis da Coroa Portuguesa, auxiliando na defesa das fronteiras da colônia e fazendo-os desistirem de saquear os caminhos e as cidades, vilas e aldeias. Foram ordenadas pelo rei a edificação de povoações civis de índios livres, o que servia para tais propósito, e o ensino de meninos e meninas em escolas públicas foi realmente posto em prática de norte a sul do Brasil, mesmo que de forma improvisada.
Como tantas outras disposições da administração do Marquês de Pombal, o Diretório dos Índios seria extinto através de Carta-Régia da rainha D. Maria I (conhecida como “a louca”, mãe de D. João VI e avó de D. Pedro I) de 12 de maio de 1798. Nela, os índios eram elevados à categoria de cidadãos comuns desde o nascimento, em igualdade com os outros vassalos do reino, sujeitos às leis do Estado e da Igreja.
O Diretório dos Índios foi decisivo na mudança linguística que se operou no Brasil no final do século XVIII. Antes desta sua intervenção, a língua geral, ou nheengatu, era comumente falada por todo o Brasil, e o português só se falava em poucos principais centros. Em poucas décadas, este entrou em decadência, mantendo sua importância apenas no estado do Amazonas. Em São Paulo, no início do século XIX, a população já se utilizava quase que somente do português, ao contrário dos três séculos anteriores.
Bibliografia:
ALMEIDA, Rita Heloísa de. O diretório dos índios: um projeto de “civilização” no Brasil do século XVIII . Reproduzido e disponível em: http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm .Acesso em: 23 jul. 2011.
Extinção do Diretório dos Indios . Disponível em: http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=269&sid=52&tpl=printerview .Acesso em: 23 jul. 2011.
FLEXOR, Maria Helena Ochi . A “civilização” dos índios e a formação do território do Brasil. Disponível em: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/artigos_frames/artigo_073.html.Acesso em 23 jul. de 2011.

http://www.geograficamentecorreto.com/2011/01/o-assunto-e-miscigenacao-ou-mesticagem.html

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