RELENDO MARAJÓ DE DALCÍDIO JURANDIR / 3



Neuton Miranda - um marajoara honoris causa que está fazendo falta à Criaturada grande de Dalcídio Jurandir, na lembrança de uma despedida inesperada.





  As escamas dos meus olhos [3]

José Marajó Varela

3 – Sem saber me estava despedindo do camarada

Por causa da bola de leite de mangaba, que a tia Armentina me deu de presente, eu fugia da tabuada e do catecismo que nem o diabo da cruz, e ia jogar no meio da rua. Além disso, fui ao sítio do meu avô com a tia, Osmarina e a Lila a bordo de canoa montaria armada de panacarica (o milagre foi mamãe me deixar ir). Papai saiu para contratar a viagem com seu Papa Osso e mais dois remadores ajudantes. A maré deu à noite e desde a montaria largar do trapiche da Casa da Beira a escuridão tomou conta do rio Marajó-Açu.
Nas beiradas o carvão da noite desenhava monstros e castelos a meus olhos espantados onde, de dia, imperava a varja com mangues, açaizal, miritis, jupatis e aningal... Ciganas cantavam, paresque, no ninho da primeira noite do mundo acompanhando o voo das corujas... À saída da lua, em vez de chuvinha passageira de costume, uma chuva torrencial desabou, verdadeiro toró, castigando a viagem ao Serrame na noite fechada. 

Só estiou na virada da maré. Seu Papa Osso era calado e os dois cabocos ajudantes remavam e remavam sem abrir a boca. Certa hora, o piloto encostou a canoa na beira para tomar fôlego e enxugar o corpo: o dia vinha raiando devagar, a maré virou no Canal. Euzinho acordei do colo quente da tia e chamei por José do Ourém pra vir ajudar os três remadores. José nem seu Souza... Dormia, paresque, o sono da pedra com todos mais moradores do rio, encarnados ou encantados. O pequeno missunga – que eu queria ser àquela hora - tremia de frio ensopado de chuva e os escravos que antigamente abriram o Canal a braço estavam todos encantados no fundo do rio ou libertos nas estórias do lugar...

Quando o dia clareou completamente, nós íamos abaixo do sítio Terras Caídas com a força da vazante levando a montaria e dando folga aos remos, logo eu reconheci as escarpadas ribanceiras do sítio Meia Noite à direita e do Serrame pela margem esquerda: os barrancos de terra nunca se acabaram de cair com a erosão ou a Cobragrande. A ribanceira era, paresque, a marca do antigo lombo de terra que existia ali e se escavou a braços escravos ao tempo do Barão de Marajó, no governo da província do Pará, para abrir o Canal e diminuir distância entre as vilas de Cachoeira e Ponta de Pedras... Antigamente, uma viagem dessas saindo de Ponta de Pedras era obrigada a dar uma volta enorme subindo o rio da Fortaleza até o igarapé do Arapiranga varando pelos campos para pegar as cabeceiras do Moirim e sair ao rio Arari rumo à vila da Cachoeira (na verdade, o “outro rio” – como os goiabas, pontapedrenses chamamos ao Arari – nunca teve nenhuma cachoeira: era um pequeno salto que se mostrava no verão e deu nome à freguesia de Nossa Senhora da Conceição da cachoeira do rio Arari, em 1747, depois vila da Cachoeira). Hoje em dia, com a erosão das margens e o assoreamento do leito, seja inverno ou verão, não aparece mais a tal “cachoeira” do rio Arari.

Não tenho ido ao Marajó já faz um par de tempo. Se não me falha a memória, a última vez que lá estive foi em Cachoeira do Arari a acompanhar meu camarada Neuton Miranda, em 2010, numa entrega de títulos de autorização de uso de terras do patrimônio da União, do Projeto Nossa Várzea de regularização fundiária. Aposto que se Dalcídio vivo fosse lá no Rio, a sua fiel correspondente Maria de Belém Menezes adoraria lhe colocar a par dos acontecimentos; dizendo ela que, enfim, tinha chegado a vez e a hora da Criaturada grande. Tal qual ela fez quando das reportagens do padre Giovanni Gallo (do correio Belém-Rio saiu o livro “Marajó, a ditadura da água”, de Giovanni Gallo, como todo mundo sabe: “Lendo-o fico com as minhas raízes marajoaras estremecendo” ... “Que o padre tire uma coleção de reportagens e faça um livro que será retrato da terra e da gente de Jenipapo.” (Dalcídio Jurandir / Correspondência com Maria de Belém Menezes).

Na juventude fui discreto ativista do "partidão" (PCB) entrei no PCdoB por causa da Criaturada grande de Dalcídio, quando se iniciou no Marajó a regularização de terras de marinha. Neuton Miranda Sobrinho além de me convidar a ser voluntário da força-tarefa do Nossa Várzea no Marajó, sabendo que o gesto fazia homenagem à família do “índio sutil”, mais de uma vez levou-me a participar de reuniões públicas para entrega de títulos de autorização de uso de terras de marinha pela população ribeirinha. Um pequeno grande passo para resgate de uma dívida histórica enorme...

Para se compreender o antigo conflito entre a pesca tradicional e a pecuária (inclusive a origem do roubo de gado a partir do abigeato) seria necessário ler a obra do padre Gallo e saber como foi que ele se meteu na briga marajoara, que nem cego em meio ao tiroteio e acabou por “implodir” (ler “O homem que implodiu”, pessoas próximas do autor dizem que ele cogitou dar título de ‘o homem que virou bosta’ a sua autobiografia). Melhor, descobrir o romance socioambiental dalcidiano (digo eu) a fim de revelar o Marajó profundo. Onde – na terceira margem do rio – espectros de índios, negros e brancos quase pretos de tão pobres; se confundem aos diversos dramas dos vivos. Por exemplo, quando o personagem emblemático de feitores de latifúndio (mais realistas do que o rei), Manuel Raimundo suposto gerente das fazendas do Coronel Coutinho (símbolo do morgadio marajoara herdeiro da Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665-1757) e do Diretório dos Índios (1757-1798) com os Contemplados) fecha o Abaí para reservar água unicamente ao gado e proíbe a pesca; o conflito social estala e agita o protesto do cantador de chula Ramiro traduzindo o drama miúdo, quase desprezível, da criaturada.

Naquele dia nem eu nem Neuton sabíamos que era a despedida e o fim da inédita parceria na última viagem a Cachoeira do Arari, inclusive visita ao Museu do Marajó, donde nós dois saímos com o livrão da arqueóloga Denise Shaan, “Cultura Marajoara”: um circunstanciado libelo contra a leniência federal, estadual, municipal e da sociedade em geral a respeito (ou antes, falta do dito) ao mais antigo e representativo patrimônio histórico e artístico nacional. Neuton me deu a honra de entregar pessoalmente o documento a um antigo morador do Caracará: nunca fui ao Caracará, porém esse lugar mora em minhas recordações de infância por via de um pitoresco relato de juventude que meu pai fazia sobre a história duma acirrada disputa sobre cerca entre terras de criadores de gado vizinhos (história digna de romance de Dalcídio Jurandir: no Marajó, “criador” é quem pratica agropecuária familiar e mora no lugar; fazendeiro dono de muitas cabeças e muitos hectares de terra geralmente de herança e reside na cidade: que nem Coronel Coutinho, personagem do romance “Marajó”, faz parte efetiva do poder local e da oligarquia da província).
Os ditos criadores do Caracará pelejavam na comarca. 

O juiz despachara uma diligência “in loco” e talvez por amizade a meu avô capitão Alfredo, rábula considerado; nomeou papai como um dos “desempatadores” ad hoc... A diligência se transformou em excursão, na verdade uma pândega a custa dos litigantes... Ao amanhecer zarpou do Trapiche municipal de Ponta de Pedras a lancha do município “Siqueira Campos”, suponho, lotada de autoridades da justiça, o Meritíssimo a bordo em pessoa. A “Siqueira” venceu o Marajó-Açu, alcançou o igarapé Puxador no tempo previsto de viragem da maré, varou o Canal para o rio Curral Panema, passou o Furo das Laranjeiras contornando a ilha de Santana; e chegou coisa de meia hora da tarde à Boca do Arari.

Ainda faltavam muitos estirões até a casa da fazenda. A lancha subiu o rio Caracará aonde a água deu calado... Para continuar, a comissão ad hoc teve que deixar a Siqueira esperando o regresso da diligência, dali adiante só havia um rego d’água descendo dos campos de Cachoeira. Então, todos embarcaram num possante batelão que avançava a peso de varejão empurrado por dois pretos parrudos, daquela qualidade de preto azul de tão preto... Meia légua depois era o fim do caminho para varejão. Masporém, ainda não terminava a viagem de desempate da cerca. Daí em frente, dois vaqueiros com feição de índio, atrelaram o dito batelão ao rabicho de dois búfalos erados (quer dizer animal de era, adulto e bem crescido). 

Esta foi a primeira vez, que me lembro, ter escuta a palavra “búfalo”; pela descrição que meu pai fazia o bichão me pareceu desconforme como elefante que a gente via em foto. Os búfalos de verdade arrastavam o batelão a caminho da fazenda. Terminou o lamaçal, então os búfalos e seus vaqueiros cara de índio destribalizado ficaram pra trás...
Misericórdia! O doutor Juiz, rosado já que nem camarão frito; mal conseguia andar com as suas reúnas sobre as terroadas escaldantes. O resto da delegação da comarca a bom se abanar com grandes chapéus (sombreiros) de carnaúba. Onde, finalmente, a fazenda e a cerca da questão? Longe, muito longe ainda... 

Fome e sede assediavam a diligência, o sol já cambava pra riba do Araquiçaua na outra margem do Arari. Foi quando, no tremelique da canícula à distância, malmente, se começou avistar uma nuvem de poeira rasteira, um borrão que paresque se aproximava a galope: era a cavalhada... O secretário Ophir animou-se, queria logo montar o melhor animal, o mais fogoso depois da escolha pessoal do doutor Juiz, naturalmente... Um vaqueiro de confiança do dono da fazenda foi chegando e perguntou quem era o filho do capitão Alfredo. Disseram, Rodolpho... O homem vinha com recomendação para cuidar do rapaz, que não era acostumado naquelas bandas. Por acaso, o fazendeiro conhecia o Capitão Alfredo? Este um recomendou o filho? Rodolpho ficou encafifado...  Se calhar, seu pai e o fazendeiro do Caracará eram conhecidos ao tempo da intendência do coronel Bento Lobato, de quem o capitão Alfredo Pereira foi secretário municipal em Cachoeira... Ou, talvez quando a comarca passou para Ponta de Pedras o dito cujo foi se aconselhar com o Solicitador sobre a questão da cerca?

O vaqueiro nomeado anjo da guarda do filho do Solicitador (advogado aprovisionado, o dito Capitão meu avô) exagerava em seus cuidados ao moço desempatador ad hoc...  Precisava, então, um cavalo velho da raça do Rocinante, paresque? A cavalhada chispou. Ophir à frente de todos porfiava. A custo, Rodolpho conseguiu montar, mas o animal teimava em ficar parado com seu triste cavaleiro feito uma estátua equestre sob o sol lavrado... O vaqueiro cuidador de cavaleiro de primeira cavalgada, disse: “Sô menino, dei-lhe logo uma rimpada na anca e bata com o calcanhar no vazio, se não a gente não sair daqui hoje”...

Papai tinha medo que o cavalo se espantasse e lhe derrubasse da sela. O homem falou, “não tenha medo, o cavalo tá pedindo que o mundo não se acabe”... Aí o vaqueiro encostou sua montaria à ilharga do rocinante e pegando a rédea foi puxando o bicho para frente: deu certo... Mas havia um pequeno córrego no caminho e cavalo estancou o trote e baixou a cabeça, a modo medir o salto... Na hora, o cavaleiro bisonho viu-se arremessar violentamente ao chão para frente. Felizmente, evitado pelo salto quando, desta vez, quase caiu para trás... 

Passados dois sustos no mesmo instante, já o desempatador começava a se ajeitar atiçado pela fome. “Evém a chuva!”, gritou o vaqueiro. Rodolpho não respondeu, a ventania lhe tirou da cabeça o chapelão de palha que ficou preso pela tira no pescoço. Com a chuva o cavalo se espertou seguindo a égua montada pelo vaqueiro. Claro que os dois foram os últimos a chegar na fazenda, já ao fim da tarde. A diligência, o Juiz à frente; estava uniformizada com camisas e calções do time de futebol do Caracará visto que as roupas que levavam chegaram ensopadas. À noite vieram muitos vizinhos e vizinhas para ladainha e festa, era muita gente montada a cavalo e bois de sela. Dançaram a noite inteira e logo de manhã começaram a voltar a Ponta de Pedras. Sobre o desempate da cerca, propriamente dito, não se falou mais. 

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