segunda-feira, 11 de julho de 2016

RELENDO MARAJÓ DE DALCÍDIO JURANDIR / 2




4a. edição - Belém: Editora Universitária / UFPA; Rio de Janeiro:
Casa Rui Barbosa, 2008.


As escamas dos meus olhos [2]

José Marajó Varela

2 – Missunga, 83 anos: Deus e Darwin nas ilhas do Marajó.

A volta ao Marajó em dez dias, nas páginas do romance homônimo de Dalcídio Jurandir: fui assim devagar seguindo os dramas miúdos da criaturada e as façanhas malinas dos brancos. Segui do rio Paricatuba com a canoinha da releitura, passei ao Marajó-Açu numa remada ligeira, pisei terra na vila de Ponta de Pedras, pela estrada fui a Mangabeira em companhia de Orminda, ao Jaguarajó com Ciloca, o leproso... Morei numa barraquinha de seringueiro no rio da Fábrica assistindo a depressão de Missunga roído de remorsos pela morte de Guita e “vi” os delírios de Alaíde atacada pela febre de malária; na vila da Cachoeira subi a torre da igreja pra espiar a marca da sina de Orminda possuída pela Pomba Gira, deitada em riba do assoalho com o diabo em figura de sacristão... Montei o Cavalo Marinho encantado no Alto Arari a fim de escutar de novo as chulas de Ramiro; chorei a morte do vaqueiro Gaçaba comido pelas piranhas. Visitei o pajé Mestre Gesuíno no Camará, em Salvaterra me lembrei do “índio sutil” a escrever dois romances de uma vez; ... Soure, Cajuúna, Pesqueiro, Anajás, Muaná, Bagre...  

A geografia humana de Dalcídio, na paisagem cultural desigual, emendando campos e florestas, história de verdade e jogo de ficção, encantaria e realidade. Complexidades da terra e do céu. Meandros de rios, lagos, furos e igarapés que evoluem em ressonância com os meandros dos sonhos e imaginações da terra e da gente (São Pedro Safadinho e Darwin em ardida discussão acerca da teoria da Origem das Espécies. Deus e o Diabo a disputar o terreno da malhada em luta marajoara, que nem dois touros búfalos agigantados no meio da chuva grossa entre raios e trovões). Ofende?

Em 1756, o capitão Florentino da Silveira Frade saiu do Igarapé Puca (rio da Fábrica) abaixo e retornou ao mesmo ponto de partida, depois de 22 dias de viagem redonda, a toda pressa, encostando na beira apenas para dormir, rodeando a ilha grande – esta uma maior que os Países Baixos – ia ele em canoa ligeira esquipada de 4 remos por banda... Marajó é um mundo! Mundão de rezas a Deus e aos santos, invocação aos espíritos telúricos chamados caruanas: prova viva da seleção das espécies... Pouca gente sabe que o naturalista inglês Alfred Russel Wallace, co-autor com Charles Darwin da teoria da Evolução,  fez curiosas observações na ilha Mexiana e na Contra-Costa da ilha do Marajó, na segunda metade do século XIX: saiu ele dizendo que o caboco marajoara é um tremendo despistador e que a cantoria dos pretos, que não agradou a seus ouvidos britânicos, é na verdade a memorização repetitiva de uma gesta do quotidiano surdida da tradição oral:

Siriá, meu bem siriá.
Estava dormindo, vieram me acordar.
Siriá, meu bem siriá.
Estava dormindo, vieram me acordar.
Se eu soubesse, não vinha do mato.
Pra tirar sarará do buraco.
Se eu soubesse, não vinha do mato.
Pra tirar sarará do buraco
”....

Antão, ao contrário do que disse o preclaro Euclides da Cunha, o homem não é intruso no cenário amazônico (vírgula, o homem amazônico propriamente dito... Aquela subespécie que, risonhamente, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira classificou de Homo sapiens var. Tapuya, na “Viagem Philosophica”)... No caso, a verdade verdadeira é que o intruso em questão foi o homem branco europeu querendo o bruto conquistador impor os seus costumes e as suas leis, na busca louca de tesouro e fama por força das armas e os barões assinalados... Já que o preto trazido preso na corrente também ele não veio convidado dos índios, masporém mais depressa pela necessidade o negro se fez irmão dos índios, os antigos senhores deste estúrdio chão.

Dalcídio conta na eternidade imaterial da letra do romance, a efemeridade da história real e imaginária sempre em fluxo no ciclo das águas deste mundo anfíbio do homem marajoara, largado aí ao deus dará... Mundo esfatiado, é bem verdade, ilhas grandes e pequenas, de dentro e de fora; noves fora a terra firme (microrregião continental de Portel, onde o homem branco pela primeira vez pisou e meteu os pés pelas mãos... Feitoria holandesa de Mariocai (Gurupá), inaugurado o escambo de miçangas por gados do rio, trazendo dependência do comércio de manufaturas, tráfico de escravos africanos e drogas do sertão, vício da maldita da cachaça ("mulher branca"), gripe, sarampo, alastrim, trabalho insano para os índios... Porção descosturada de diversos mundinhos federais, estaduais, municipais igualmente panemas...  E a misteriosa terra encharcado dos mondongos, o fundo do prato: a Jebre falada e imaginada, mãe da febre, refúgio antigo de índios bravios, desertores e escravos fugidos que existiam pelos centros da ilha e – por necessidade e acaso, diria Darwin – se tornaram contumazes ladrões de gado e discípulos fiéis de pajés de sete fôlegos. Cada cantão, tem santo de guarda, mãe do rio; dono branco, coronéis de barranco e patrão de fazendas e barracões, vilas e povoados que são que nem retiros e dependências de casa-grande...  

A Criaturada grande tem lá cinco mil anos de parentesco e evolução local com a mãe natureza no golfão Marajoara. Esta brava gente caboca apesar de deserdada de direitos humanos pela imperial doutrina cristã ocidental do jurisconsulto Gines de Sepúlveda é, sim, legítima herdeira da antiga Cultura Marajoara. Que hoje, teimosamente e por conta própria, o MUSEU DO MARAJÓ representa desde a ousadia desvairada do padre insubmisso Giovanni Gallo, em 1972, à margem do grande lago Arari onde a cerâmica marajoara atingiu seu apogeu no teso do Pacoval, cerca de 1300.

Há 83 anos, o tio preparava do barro dos começos do mundo aquela criatura danada pela Fatalidade das sesmarias dos Barões de Joanes, ladrões das terras indígenas dos Nheengaíbas (aliás, Nuaruaques): Missunga (senhorzinho, em língua banto), aliás doutor Manuel Coutinho (o esboço do romance com titulo provisório de “Missunga”, ano de 1933). Marinheiro de primeira viagem, há sessenta anos, eu devorei rudemente as páginas de "Marinatambalo" (1939) “Marajó” (1947) de um só fôlego, apesar de malmente saber ler e escrever: depois de minha primeira leitura de Dalcídio Jurandir, louvado seja o Divino Espírito na escolha do papa argentino Francisco para o Trono do Pescador anunciando a boa nova do Evangelho da alegria, deixando Jesus de Nazaré, com o peso da Cruz, entrar no luxuoso Vaticano e expulsar o Anti-Cristo imperador do reino deste mundo. 

Antão, paresque, o verdadeiro “fim da História” será o derradeiro suspiro da máfia rentista amasiada com a pecúnia na cúria romana, dos pedófilos dementes nos quais o velho rei do gado Coronel Coutinho se espelhava... Acabar com a mentira do celibato dos padres safados (no Muaná, antigamente, dizia minha avó, um padre velho e caduco numa igreja velha confundia padre nosso com ave maria; corregido de perto pela prestativa concubina tapuia durante as ladainhas à luz de candeia de azeite de andiroba); há que excomungar o deus Mercado e castigar os vendilhões do templo...

Me lembro que tia Mentica vindo de Belém do Pará a Ponta de Pedras em igarité de carreira acompanhada da sua concunhada Osmarina e da Lila prima de seu marido, o português de Póvoa de Varzim, tio Xandico; para ir de montaria a remo, urgente, ao sítio Serrame visitar meu avô Chico Varela que, diz-que, estava doente passando mal no rio do Canal (na verdade o velho se achava rígido e são como o campônio de Souto Maior (Pontevedra), na Galícia; que ele era apesar dos anos de desterro no Curralpanema entre açorianos esquecidos das suas próprias origens e igualmente desterrados, índios desmemoriados e mestiçados a beça e pretos descendentes dos alforriados da Princesa Isabel). 

Deu-me a tia, além do catecismo capa branca cheirando à tinta; também de presente uma linda bola de leite de mangaba, feita à mão pela boa gente da Mangabeira descendente de índios parentes de mea avó Antônia. Naquele tempo, havia um mangabeuara chamado Artur, por apelido Caminhão... Este um carregava aturá na costa cheio de rumas de gêneros da roça e alguma piraíba pescada de espinhel na maré da tarde, pra vender na vila. O Caminhão levava de volta a Mangabeira, mais dez quilômetros a pé; o querosene pra lamparina, sal, café e açúcar do costume. Agora em minhas lembranças na velhice se misturam o trabalho infantil na criancice roubada do tio Xandico, na pobreza portuguesa com certeza, e a carga pesada sobre o lombo do Artur. Aquele caboco feio com seu terçado a relampejar no caminho que me metia medo das histórias dos cabanos. 

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