quarta-feira, 27 de novembro de 2013

VER O PESO DO OUTRO LADO (2).


                  célebre urubu do Ver O Peso



Ode ao urubu do Ver O Peso


Meu bom amigo e companheiro Urubu
tomo-te as dores, retiro de ti os insultos
humilhações e vexações 
atiradas contra tua honrada pessoa.
Sim tu és uma pessoa ou instituição
do patrimônio público
pois bem representas garis e lixeiros desta injusta cidade.
Tu, prezado Urubu, estás do lado dos camaradas
que trabalham sem descanso e feriado
hora extra, décimo terceiro e carteira assinada
nesta feira latrina americana e doca do veropa
exaltadas por imortais presepeiros da potoca
que aí não vão nem compram nada
e que foi outrora foz do extinto Igarapé do Piry
transformado em cloaca do centro histórico
logradouro do pixé do peixe morto e flato da urubuzada
objeto nojento da caçoada
desta gente inconsciente e consumidora de X-tudo
Mecdonis, pato no tucupi, maniçoba, caruru, peixada,
bucho, vísceras, carne verde, mocotó
e tudo mais que após a comilança sai pelo fiofó
da urbe e vai direto pelo esgoto sabe lá aonde
levar seus batalhões de coliformes fecais:
na natureza com certeza nada se cria, tudo se transforma...

Dizem até que alguns malvados tentaram afastar na marra
tua patota na hora do sagrado repouso do trabalhador
no dormitório das mangueiras
sito à praça Dom Pedro II a peso de foguetório
talvez comprado na casa Bechara Mattar
e o Ibama não disse nada?...
A molecada impedida de namorar na dita cuja
caçoavam a "praça dom peido imundo" gozando flato de urubu.
Vai ver o incêndio daquela famosa foguetaria
foi praga do urubu do Ver O Peso...

Ninguém se toca pra necessidade da limpeza pública
nem imagina o lixão do Aurá depois da farra do boi
sequer sabe que apesar de tudo
Belém do grão Pará ainda poderia ser a Veneza amazônica
bem limpinha que seria desde menina 
há 400 anos de idade.

E tu, Urubu velho de guerra à carniça, 
a limpar porcaria deixada por mal educados
e mal pagos do comércio e indústria da sociedade anônima
enquanto maus cidadãos avacalham a municipalidade
sobretudo no cartão-postal chamado o Ver o Peso
do centro histórico de Belém
candidato mal sucedido a patrimônio da humanidade
mas talvez futura paisagem cultural brasileira,
se não der azar.

Ainda assim alguns malvados
se pudessem te mantinham preso no mesmo veropeso
pra não fazer coisa pior contigo, amigo.
Pois eu acho justo que o poder público
e a sociedade votante pagadora de impostos
cuide melhor da limpeza da cidade das mangueiras
dando dignidade aos lixeiros e garis 
de feiras e praças da república municipal.

Já é hora de te aposentar, amigo Urubu preto
por tempo integral de serviço
do insalubre meio ambiente urbano
e te deixar ir cuidar da benemérita família Cathartidae
com mais igualdade junto a teu primo rico
Urubu gereba, nobre ministro Cathartes aura

urubu-real chamado.
Por exemplo, tu podias ir flanar
pelos campos gerais do Marajó onde reina fartura.
Quem te condenou ao fado de urubu do Ver O Peso
talvez ignora teu nome científico
Coragyps atratus digno de senador
e te considera ave de mau agouro
quando, na verdade, és benfeitor da vida natural
magnífico biodigestor voador
que nem um caça de última geração
pra detectar o inimigo da saúde pública
desde grandes altitudes com teus olhos de lince.

Me lembro meu velho daquelas horas mortas
no morno céu de Belém com curicas
papagaios, rabiolas ou pipas no ar dando laço
e tu nas alturas desfilando entre nuvens
com os teus semelhantes 
tal qual esquadrilha da fumaça da urubuzada
a planar com garbo aeronáutico.

Agora a gente chega no xís da confusão:
a causa da mentalidade dos ignorantes que te sacrificam 
ao fado fatal de urubu do Ver O Peso
mesma sina dos mais trabalhadores da limpeza urbana
feirantes, açougueiros, talhadores de peixe, balanceiros
da pedra
proibidos de mudar de destino e cuidar melhor da família.

Sim é verdade, mais do que preocupação com o bem-estar
da urubuzada na paisagem turística do cartão-postal
os trabalhadores unidos do veropa
também eles são cidadãos e têm todo direito de labutar
num melhor ambiente de trabalho pela sociedade solidária
tradição e modernidade com participação de lucros
melhor distribuição de renda em parceria com o Sebrae
financiamento público do BNDES
com acento no "S" de social.

O diabo é que os donos do pedaço gritam logo:
Epa, epa, epa; não mexam na feira! 
Farinha pouca meu pirão primeiro!... Sai debaixo, olha o jabá!
Lá vem retranca e enganação de eleição pelo meio.
Políticos do voto pronto sempre a dizer deixa pra lá, rapaz
pior que está não fica e chupa mais uma meia sola de esmola.

Então a solução é acrescentar farinha e ladainha
de São Benedito da Praia (Ossain orixá) pra todos e todas,
as erveiras e vendedoras de banho de cheiro principalmente.
Um projeto diferente que cuide em primeiro lugar da gente
desta antiga cidade:
O peixe frito nosso de cada dia ao azeite de patauá,
o que é que há? Mercado de ferro
doravante mercado do peixe frito bem bonito por fora
e por dentro...

Os peixeiros de sempre assistidos e capacitados
na modernização do negócio com novos sócios
Por que não se poderia casar bem com o açaí Pará da feira?
O Solar da Beira como ecomuseu e centro de educação popular
das ilhas do Guajará
Pelo amordedeus! Pára de pensar pequeno esta gente...
O Mercado Bolonha pelo mesmo conseguinte
terminaria a revitalização patrimonial com chave de ouro
promovendo açougueiro em "chef" de churrasco
do melhor búfalo orgânico da verde Amazônia brasileira.

E tu, amigo Urubu, sempre vigilante nas alturas
serás no futuro mais respeitado e considerado
enquanto o Mangal das Garças faz escola
e repovoa a orla desde o campus do Guamá
até Icoaraci com a graça pura de garças e guarás
a fazer magna morada na revitalizada foz do Piry.

Adeus amigão e obrigado por tudo: mande lembranças.

Nenhum comentário:

Postar um comentário