TRAGÉDIA BREGA: A PRESEPADA DOS BISNETOS DO SARGENTO-MOR SEVERINO SACACA DOS SANTOS. Ou, Com Quantos Paus Se Faz Uma Canoa.


Praia do Pesqueiro - Soure - Ilha de Marajó - PA
Nós, os cabocos, tirados do mato a laço e baraço pra ser vítimas da fome no ventre avultado do Diretório dos Índios, obrigados a trabalhar de sol a sol pra sustentar a imensa colonização amazônica; somos acanhados descendentes de "negros da terra" na antiga terra dos Tapuias. A gente carece saber de todas estas coisas pra nos libertar sem ódio e medo do outrora inimigo conquistador das Antilhas e da Terra Firme. Vencer o complexo de inferioridade que habita o fundão do inconsciente coletivo. Criar coragem de acordar os sumanos "caboclos" confusos que ainda dormem, paresque, "mundiados" pela Cobragrande do Mar-Tenebroso, bicho do fundo que veio debaixo da quilha das caravelas nas marés grandes de sizígia e subiu rio acima, diz-que, para ocupar o "espaço vazio" do rio Babel. Ou, das Amazonas, até os confins... 

Tragédia brega da desmemoriada descendência daqueles nossos 36 parentes Aruãs da Contracosta, levados a muque como primeiros escravos da América do Sul, em fins de um janeiro inglório do ano de 1500, do "descobrimento" oficial do Brazyl, durante a gentil passagem daqueles dez dias de abril da frota de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, na Bahia de Todos os Santos, a caminho das Índias Orientais. O assalto da aldeia Aruã e sequestro dos índios da ilha Marinatambalo [Marajó] foi cometido por um tal capitão Vicente Yañez Pinzon, piloto de Cristovão Colombo. 

Mas, como um caboco qualquer poderia saber que os tais 36 negros da terra eram índios "aruans", já que isto não está escrito em nenhuma bendita fonte de história chapa branca? Tão só pela arte preciosa da suposição como poderosa verruma da História... Suposição? Justamente! Suposição é sinônimo de cenário, pressuposto, suspeita, teoria, conjectura... 

No mato sem cachorro das fontes canônicas, sem suposição e arrojo na demanda da verdade, a história da gente não vai pra frente. Só idiotas de carteirinha assinada em papel passado fazem fé absoluta da "verdade verdadeira" chancelada pela turma da nobreza (ver a obra guia de encomenda do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), sob auspícios do Imperio Brazileiro, Como se deve escrever a história do Brasil”, de Carl Friedrich Philipp Von Martius). 

Com raras exceções, nossos descobridores, conquistadores, colonizadores e civilizadores em geral não sabiam da milenar História oral do Brasil brasileiro: esta, na verdade, é um descobrimento tardio cá próximo aos anos 80 do século passado, à luz do últimos conhecimentos da Antropologia e Arqueologia Americana. Até então, nossos mentores do Diretório Pombalino estavam cegos e surdos, todavia prontos a ensinar e mandar de qualquer maneira: sempre com o ditado à ponta da língua: manda quem pode e obedece quem tem juízo...  Sendo, todavia, o primeiro rebelde da América um certo índio taino chamado Hatuey, cuja memória resiste ao tempo da infâmia num monumento granítico erguido, lá no Caribe, na ilha de Cuba.

No que diz respeito especialmente aos olvidados "Nheengaíbas" (Marajoaras) todos aqueles descobridores do passado colonial eram ignorantes de pai e mãe sobre o verdadeiro tesouro que ainda hoje o Brasil e o mundo não sabem (noves fora poucos pesquisadores acadêmicos), existe há mais de mil e tantos anos no interior da terra Tapuia, pelos centros desconhecidos da ilha grande dos Joanes. Ou, Marajó.

Daí a razão maior para lembrar, em dose dupla, o libertador dia 20 de Novembro - DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA e DIA NACIONAL DA CULTURA MARAJOARA (data nacional ainda a ser oficialmente reconhecida) - as duas faces da mesma moeda da luta brasileira, do Oiapoque ao Chuí, para fundar o pensamento descolonial no mundo inteiro. 

Portanto, carece saber: a gente deve tratar muito bem o irmão Búfalo (Bubalus bubalis), vindo lá da Ásia pelo caminho inverso das Índias, que nem os "nossos índios", trazer força de trabalho animal, carne e leito para alimentação do nosso povo em segurança alimentar na economia solidária, sobretudo na agricultura e agropecuária familiar. Mas, o Búfalo não nos representa como símbolo cultural, deixemos de besteira. 

Quem representa, de verdade, os cabocos e cabocas brasileiros (índios iberianos "saídos do mato") é a cerâmica marajoara de mil e tantos anos de idade: certidão de idade do Brasil brasileiro lavrada em páginas de argila pela escrita ideográfica das matriarcas da amazonidade. Primeiro patrimônio histórico e artístico nacional destinado a recuperar a memória da brava gente levando o antigo país do Futuro a descobrir o mundo, lá fora, pelos caminhos da História. 

Portando, O Nosso Museu do Marajó a par da futura Universidade Federal do Marajó (UnM), em esforço concertado para melhorar o IDH da região, deve vir a ser amparado decisivamente pela União Federal, o Estado do Pará, a comunidade de Municípios marajoaras e, principalmente, por todos nós. Para este museu do homem marajoara vir a ser preparado, condignamente, em cooperação internacional com a UNESCO a recepcionar repatriamento do acervo exilado no exterior desde a Exposição Universal de Chicago, ocorrida nos Estados Unidos, em fins do século XIX.

Mas, se a consciência da negritude já foi reconhecida pelo Congresso Nacional, entretanto o primeiro cacicado da Amazônia (sociedade organizada com embrião de estado) reconhecido pela ciência como o mais antigo achado na ilha do Marajó resta ao abandono entre chuvas e esquecimento... 

... Por que será? Eis uma tímida explicação na imagem desfocada do antigo Pesqueiro Real - pálida lembrança do trabalho escravo sob regime do Diretório dos Índios - fim do mundo das velhas etnias Iona (Joanes ou Sakaka) - provavelmente, descendentes de antigos inventores da Cultura Marajoara, iniciada com o barro dos começos do mundo amazônico cerca do ano 400 -, paisagem morta que reluta em enfrentar o mal de Alzheimer coletivo. Uma história envergonhada que se esconde da memória dos "caboclos" a passos trôpegos por ínvias trilhas do prodigioso "potencial" do ecoturismo na Reserva Extrativista Marinha de Soure, a primeira reserva extrativista marinha na Amazônia em terras de antigas aldeias de índios "Maruanases" [Maruaná], beira de praia do Céu, Pesqueiro e Cajuúna na grande ilha dos Joanes ou Marajó... 

UM CERTO ÍNDIO SACACA QUE CHEGOU A SARGENTO-MOR DA VILA DE MONFORTE.

No mês de novembro do ano de 1783, há exatos 230 anos passados, o sábio de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira começava sua monumental "Viagem Filosófica" ao desembarcar na ilha do Marajó. Exatamente, a tal vila de Monforte improvisada pelo arbítrio do Marquês Pombal, se achava em riba do sítio arqueológico que, no passado distante, foi aldeia dos índios Joanes (hoje lugar de Joanes Velha, no distrito de Joanes, município de Salvaterra). Mas o sábio e seu competente guia de viagem, pisando sobre as ruínas do teso, não viram aquele sítio ancestral. Nem o velho sargento-mor de Ordenanças da vila, Severino dos Santos (um índio sacaca de mais de 70 anos de idade), fonte da história oral de seu povo, não lhes disse nada sobre isto e nem lhe perguntaram, segundo a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (separata da Viagem Philosophica), de 1783. Cada um com os seus segredos à parte a bordo da mesma viagem. 

O sábio de Coimbra não disse a que veio. Nem falou nada de seu venerável mestre carbonário, o sábio italiano Domenico Vandelli (Domingos Vandelli) contratado por Pombal para a reforma da Universidade de Coimbra e orientar o inventário de tudo quanto se pudesse extrair das colônias para enriquecer o reino... O Inspetor da ilha não informou o fato de que o relato anônimo "Notícia da Ilha Grande de Joannes", escrito cerca de trinta anos antes do primeiro capítulo da "Viagem Filosófica" (1783-1792) e que se iria achar mais tarde na Real Biblioteca do Porto (Portugal), era de sua autoria... Não informou porque era extrato de relatório de inspeção secreta para sequestro das fazendas dos jesuítas? E, portanto, a "Notícia Histórica" (1783) ao leitor de hoje parece claro como baseada naquela primeira "Notícia"... Por que, então, o velho índio abriria sua boca para dizer aos brancos mais do que o perguntado? Ou do que lhe interessava falar àquela hora oferecida pelo divino acaso ou calar-se para sempre... O evolucionista Alfred Russel Wallace ("Viagem pelo Amazonas e rio Negro", Londres 1853), que esteve no Marajó, em 1848, explica... Logo, sem o artifício da suposição na bagagem, o viajante do século XXI ficará mais perdido do que o "descobridor" do rio das Amazonas (Francisco de Orellana) em sua fatídica volta ao cenário amazônico, no ano da sua morte, 1544.

Na viagem à ilha do Marajó, estava Alexandre Ferreira em mãos do capitão Florentino da Silveira Frade. Como este último dependia, praticamente em tudo, aos índios mansos e pretos escravos da sua fazenda. Principalmente ao fiel Severino Sacaca para dar conta do recado sob regime do Diretório que substituiu as Missões religiosas. O dono da fazenda Ananatuba e fundador da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari em seu encargo nomeado pelo Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado descobriu, por acaso, o teso do Pacoval do rio Arari na data de 20 de novembro de 1756. Dele a primeira notícia (no citado relato anônimo), um registro lamentável é verdade. Mesmo assim, desde a desastrada viagem de Pinzón, a primeira vez em que se escreveu algo de interesse sobre a antiguidade dos povoadores indígenas da ilha do Marajó. A moderna arqueologia marajoara com Denise Schaan, trezentos anos depois do achado de Florentino Frade, diria mais do que se trata em realidade.

Junto ao teso famoso (motivo da obra "O homem do Pacoval", de Raymundo de Morais) - imagem da destruição da Cultura Marajoara - sai o Igarapé do Severino. Que Severino será este? Será que ninguém nunca jamais se perguntou? Pois é preciso ler o que o sargento-mor Severino dos Santos contou ao naturalista Alexandre Ferreira. Se o viajante quiser aventurar-se a andar pelos campos de Cachoeira a visitar os tesos do caminho das águas será melhor para o exercício das muitas suposições que assaltam o leitor desnorteado pelas falsas pistas deixadas pela colonização.

A notícia da história oral dos Sacacas segundo Severino dos Santos acha-se dentro da "Notícia Histórica" (1783), que muito se parece com a anônima "Notícia da Ilha Grande de Joannes", trinta anos mais nova que a segunda. Não precisa ter imaginação de autor de novela para ceder à suposição óbvia de que o impacto do conflito aberto entre iluministas e escolásticos na Europa desabava com força sobre os pobres índios "libertos" do Marquês de Pombal em luta contra a Companhia de Jesus. Misericórdia! Um lado e outro empenhados à liberdade dos índios e salvação de suas almas condenadas ao limbo da Civilização. Tal qual agora se vê todos pela melhoria do IDH da gente marajoara... 

Severino começa por contar como foi que a sua gente ficou sendo chamada Sacaca, durante faxina de índios para construção da fortaleza de Nossa Senhora das Mercês da Barra (1685), numa ilhota em frente a Val de Cães, que transformada em paiol explodiu atingida por um raio, no ano de 1947. Os Iona em guerra com os Aruãs foram aconselhados pelos seus parentes Caripunas a pedir ajuda militar aos portugueses no Pará para se defender dos costumeiros ataques de sempre. Por sorte, um parente Iona chamado Sapatu, capturado pelos Tupinambás caçadores de escravos; os reconheceu e intermediou o acordo com os lusos que concordaram ir ao Marajó com ajuda armada a troco de mão de obra na construção daquela fortaleza. Como os Iona estivessem com pressa para retornar à aldeia gritavam uns aos outros na própria língua, dizendo continuamente "Sakakun, sakakun!" (rápido, rápido). 

Assim, os Iona ou Juanas/Joanes ficaram conhecidos como Sacacas, desde então. E, por acaso, depois de massacrarem o jesuíta Luiz Figueira e seus confrades (1645) cuja culpa recaiu sobre os ferozes "Aruans", acusados de devorar os náufragos segundo a contra-informação dos antropófagos Tupinambás, chamados "índios cristãos" na crônica colonial portuguesa; ficaram amigos dos portugueses e juntos saíram à frente dos ditos cujos inimigos surpreendidos em derradeiro assalto através do Igarapé Jubim. Terminando a guerra a favor dos Sacacas com banho de sangue no Igarapé Água Boa como escarmento a todas futuras gerações.

Este fato histórico, certamente, repetido à exaustão de geração a geração da aldeia dos Joanes desde a ultima batalha e final da guerra com os Aruãs, provavelmente, chegou aos ouvidos do inspetor Florentino Frade que apresentou o sargento-mor ao naturalista. Assim, pelo escrupuloso depoimento do índio transcrito à notícia histórica da "Viagem Filosófica", nós ficamos sabendo da velha rixa existente entre nações indígenas diferentes, na foz do Amazonas, num horizonte de, pelo menos, quatro séculos desde a grande migração dos Aruãs, cerca de 1300, através do Cabo do Norte (Amapá) para as ilhas de Caviana, Mexiana e contracosta da ilha grande do Marajó.

Na verdade, disse o velho índio, os Sacacas se chamavam Iona, aportuguesado em Juianas e finalmente Joanes. Viviam os Iona pelos centros da ilha onde havia aldeias sobre tesos levantados do chão, por dentro de "ilhas" em campos alagados e dentro do mato nas varjas... Sua memória ainda alcançava nomes de velhos lugares de moradia de seus parentes, tais como Laranjeiras, Dois Irmãos, Flecheiras, Curuxis dentre outros...



BISNETOS DO ÍNDIO SEVERINO SOMOS TODOS NÓS

Será que estão me entendendo, esta gente? A História não é para os mortos do teso do Pacoval. Mas, para nós, os cabocos...  Para informação dos bisnetos do índio Severino dos Santos. Esta gente que tem vergonha de ser descendente de índios. Uns não sei quantos "civilizados" doidos pelo brega e a micareta no país do Carnaval... Alguns até pobres endinheirados que pensam que o centro do mundo fica em Miami e nada querem saber de IDH dos pobres marajoaras. 

Para estes pobres de espírito deveria servir a notícia histórica do primeiro sítio arqueológico da ilha do Marajó, que está fazendo no próximo dia 20, portanto, 257 anos. Nós, os cabocos filhos desta cabulosa história não podemos perder nenhum fragmento de memória para recriar nossa história, a exemplo do padre Giovanni Gallo, que a partir de "cacos de índio" inventando o incrível Museu do Marajó na tentativa de recobrar a memória do povo remanescente de antigos ceramistas marajoaras...

Os senhores da historiografia oficial nos disseram que Cristovão Colombo descobriu a América no dia 12 de outubro de 1492. Também que o nome América é devido a Américo Vespúcio, um e outro italianos... Quando acaba, a história é outra: América, vem de Americ, o "país do vento", em língua maya: região de montanhas à beira do lago Nicarágua, na América Central... Na verdade, Colombo era judeu português convertido ao catolicismo, espião do rei de Portugal Dom João II; seu nome de batismo seria Salvador Gonçalves Zarco, neto do navegador João Gonçalves Zarco, descobridor da ilha da Madeira e donatário de Porto Santo. Nasceu Colombo, aliás Salvador Zarco, na vila de Cuba, no Alentejo, em Portugal.

Quando, Colombo achou a América topou por acaso a ilha Guaanani, habitada pelos Lucayos, onde a guarnição das três caravelas - a Pinta, a Niña e a Santa María - pela primeira vez botou os pés no Novo Mundo. Logo, ele batizou a ilha "descoberta" com o nome de Salvador valendo-se de ambiguidade sob a capa de homenagem a Jesus Cristo implícito no apelido de "Cristóforo" [Cristovão], portador de Cristo, como na lenda síria de São Cristovão. E Zarco é nome árabe, com significado de "olhos azuis": sugerindo que judeus da Diáspora viveram em paz nos domínios mulçumanos... Já Colombo começou a escravizar os Lucayos, tão logo "descobriu" a America; para ir procurar ouro no Haiti, que ele chamou de Hispaniola.

Pinzón estava lá no Caribe, é natural que haja repetido a história quando cá chegou em Marajó. Dali do Haiti passou Colombo a Cuba, cujo nome ficou sendo lembrança de sua vila natal em Portugal. Nome de origem árabe, como o nome de família Zarco; ademais na vila de Cuba lusa havia a rua da Mouraria. Estes aventureiros moçárabes e cristão-novos não queriam descobrir e conquistar nada mais que ouro e fama. Contra tal violência, levantou-se no Hayti o cacique dos Tainos chamado Hatuey - o primeiro rebelde da América - passando à ilha de Cuba com seus valentes para avisar aos mais que o deus dos cristãos era, na verdade, o maldito ouro. Dizia ele que os índios deveriam jogar ao mar seus ornamentos feitos desse perigoso metal e que escondessem caminhos para minas, na tentativa de que os conquistadores desenganados da procura fossem embora. 

Vã ilusão! Nunca mais os europeus deixaram de chegar cada vez em maior número, ávidos de tesouros. O dominicano Bartolomeu de Las Casas documentou os crimes dos conquistadores em sua obra famosa Brevíssima relação da destruição das Índias, na qual descreve o terror da "civilização". O bravo Hatuey, entretanto, foi queimado vivo. Mas, o índio Guamá continuou a luta contra os espanhóis passando ele a Jamaica até a destruição das Índias ocidentais chegar ao México, Peru e outras regiões do novo continente. 

No Pará, sem embargo, o naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, com rigor científico classificou o bicho-homem amazônico como sub-homem. Ou seja, Homo sapiens, variedade Tapuya... Vá lá, a verdadeira história desta gente não livra a cara de festejados acadêmicos chapa branca. Mas, não aborrece viajantes do mundo que detestam comer gato por lebre. Os visitantes que odeiam saber, depois, que lhes venderam a dança do fogo dos pele-vermelha apaches como se fosse a própria pirapuraceia de velhos indígenas do Pará...

... o viajante da "novíssima viagem" depois de inventar atalhos na rota de Alexandre Rodrigues Ferreira ou pegar carona de Saramago pelos caminhos de Almeida Garrett termina por recordar os quatro portugueses da frota de Cabral que, em Porto Seguro, começaram a história luso-brasileira do Brasil: um certo Afonso Ribeiro, criado de dom João Tello, e outro degredado que Pero Vaz de Caminha não escreveu o nome, ambos mandados viver com os índios para aprender deles a língua e os costumes.  Já se sabe pra quê... Os concorrentes de Portugal não fizeram diferente, nem mesmo as ordens religiosas atuaram doutra maneira na conquista das almas do rio Babel.

Dos quatros povoadores que iniciaram o cunhadismo brasílico com as índias, chama atenção dois grumetes fugidos duma caravela a fim de, espontaneamente, se naturalizar na nova terra antes de todos mais brasileiros adotivos até os dias de hoje. Estes dois desertores da frota do descobrimento do Brasil a caminho das Índias orientais, justamente, mereceram ser lembrados ao fim da viagem iberiana, como exemplo de decisão em inventar o futuro sem olhar pra trás: fato pelo qual o que fora ibérico na hora da partida, depois da travessia da zona tórrida das antípodas pelo batismo pelo sol do equador e da chegada a terra brasílis; converteu-se em iberiano. 

Ou seja, sumano "saído do mato", caboco...  Por certo, estes dois exilados dentre os até então pacíficos selvagens da Bahia, tal qual soldados desertores no Pará de que fala a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó", que se juntaram aos índios bravios (leia-se, Aruãs) e escravos fugidos da senzala para os mocambos dos centros da ilha grande; se acham nos primórdios da brasilidade.

"Foram então estes quatro portugueses, debaixo do descobridor oficial, que inauguraram a nossa história: dois degredados e dois marujos fugidos de bordo".  O viajante disse adeus, dizendo ele: "Depois é lembrar um pouco ou esquecer para sempre" (José Varella Pereira, ensaio "Novíssima Viagem Filosófica", em REVISTA IBERIANA - Belém: Secult, 1999, p. 325).

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estátua do Cacique taino Hatuey, em Cuba

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