domingo, 28 de julho de 2013

GOLFÃO MARAJOARA MISTURA AMAZÔNIAS AZUL E VERDE NAS ÁGUAS SALOBRAS DA UNIVERSIDADE DA MARÉ.

PESCA ARTESANAL AMAZÔNICA
"A Região Norte do Brasil por apresentar a maior bacia hidrográfica do mundo, aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados, dos quais cerca de 4 milhões estão em terras brasileiras e uma extensa área costeira, os mares e rios acabam representando uma das mais importante fonte de alimento e emprego para o povo da Amazônia." (Nadson Oliveira). Foto: Nadson Oliveira®


A VER NAVIOS

A antiguidade da Criaturada grande das águas de rio e mar é um fato incontornável. Sem ela ficaremos eternamente a boiar na maré dos acontecimentos da dependência exterior conforme os ventos dos interesses de mercado global soprar. Para nos orientar nesta vida de concorrência desumana carece ter um norte no horizonte. Para saber da Amazônia profunda conservando a grande floresta densa com sua biodiversidade há que se mergulhar no vasto mundo aquático e oceano da memória ancestral, descobrir a diversidade cultural do planeta amazônico guiado pela tradicional gente ribeirinha. Econômica, política, ecológica, cientificamente falando...

Todavia, entre chuvas e esquecimento, a brava gente permaneçe até hoje a ver navios às margens plácidas das ricas e cobiçadas Amazônias azul e verde, desde a invenção das "amazonas" amazônicas (icamiabas) ou mesmo antes do descobrimento do Brasil lusitano. 

Deve-se advertir que o Brasil brasileiro, de fato, não começou antes do primeiro centenário da Independência, com a revolta dos Tenentes, a marcha da coluna Prestes, a Semana de Arte Moderna de 1922 e a República de 1930... O movimento modernista no Pará chegou com uma turma braba em torno da revista Belém Nova e da poesia da negritude, com Bruno de Menezes e a auto-intitulada Academia do Peixe Frito pelas barracas da feira do Ver O Peso. Mais tarde, desaguou em Manaus com o Clube da Madrugada dando marcha ao ajuricabano ainda em curso: aqui a antropofagia ritual virou ictiofagia cultural, mais importante que pescar e comer o peixe é assimilar o "Sermão aos Peixes" (Padre Antonio Vieira) e resgatar velha hidrologia e oceanografia da universidade da maré, na pesca de gapuia, que inventou a ecocilização amazônica mais conhecida como Cultura Marajoara, de mil e 500 anos de idade.


A IDADE DA TERRA TAPUIA

Na Amazônia brasileira, 5000 anos paleolíticos do delta-estuário nos contemplam... Mas nós nos tornamos brasileiros há apenas 190 anos. Todavia, a bem dizer, ainda na velha Europa medieval não circulavam as lendas das ilhas Afortunadas, a ilha do brazyl (pigmento mineral vermelho) do lendário país de São Brandão inventado por mercadores da Irlanda; a Antilha, etc.; e já nossos antepassados Aruak e Karib faziam a guerra e a paz do mar das Caraíbas buscando nas migrações do legendário Anakayuri, por exemplo, o país do Cruzeiro do Sul (Arapari), através da ilha de Trinidad para a costa da Guiana venezuelana.

Se, por acaso, o Pará é a obra-prima da Amazônia, o Marajó é a joia da coroa. E o mar territorial ou Amazônia azul desde o delta do Orinoco, ao norte; e as Reentrâncias Maranhenses ao sul; constitui o vasto estirão da Amazônia Atlântica em sua dimensão maior. Aí a contracosta da África expede suas férteis águas através da corrente equatorial que se reparte na Corrente Brasileira para o hemisfério sul e na Corrente das Guianas, desde a contracosta do Marajó, para o hemisfério norte com a torrente fluvial do Pará e Amazonas juntando-se à corrente do Golfo do México para levar vida e calor ao extremo-norte do planeta.

É injusto que os povos tradicionais da Amazônia, por 400 anos de colonização, padeçam de tão desconforme alienação. Portanto, as regiões das chamadas Reentrâncias Maranhenses, a Amazônia Atlântica paraense; Amazônia Marajoara, Amapá junto com as mais Guianas; merecem atenção especial de seus respectivos estados nacionais e do sistema mundial, notadamente quanto a riquezas importantes da plataforma marítima, como petróleo e gás; ciência e tecnologia do mar; pesca, biodiversidade de áreas de mangue; turismo de sol e praia; navegação marítima e outras atividades costeiras que se anunciam. 

Não basta falar apenas em inclusão social como se isto fosse esmola aos marginalizados da Conquista e destruição das Índias. É preciso defesa efetiva de direitos humanos, compensação histórica para real empoderamento do território pelas populações remanescentes. De maneira que a face perversa do capitalismo se converta em feição humana e solidária no justo e perfeito compartilhamento do bem comum pela humanidade inteira. Bem sabemos o quanto isto ainda representa uma utopia, mas é preciso gritar e lutar até o fim.

A moderna Amazônia brasileira repousa sobre a ruína étnica e demográfica da "Tapuya tetama" (terra Tapuia). Isto se deve, fundamentalmente, à busca guerreira da mítica "Yvy marãey" (terra sem mal) pela brava nação Tupinambá. 

Sem a demanda do Bom Selvagem tupinambá em aliança de armas com os portugueses subjugados aos castelhanos na "União Ibérica" (1580-1640), a história seria outra. Como também seria outra esta região amazônica sem a proclamação de Muaná, de 28 de Maio, assentada sobre a Paz de Mapuá (Breves), de 27 de Agosto de 1659.

O continuum histórico da Amazônia brasileira não é observado corretamente nos compêndios de historiografia do Brasil. Professores e estudantes não sabem que, por acaso, estes fatos mal e porcamente documentados, deram termo à guerra hereditária entre a Nação dos Tupinambás e a confederação dos Nheengaíbas, em vista da pacificação do Grão-Pará em 44 anos de conflito para expulsão dos estrangeiros desde a tomada do Maranhão e a restauração da independência do reino de Portugal em vista da ruptura do Tratado de Tordesilhas (1494), entre os reinos da Espanha e Portugal. Não se trata de reinventar a história, mas sim de operar novas leituras sobre os mesmos fatos vistos pelas diferentes lentes das épocas passadas... Para uns belas épocas, para outros a visão do inferno verde.

Quando, segundo certos historiadores, os índios do Maranhão e Grão-Pará viram passar as caravelas de Duarte Pacheco Pereira (em viagem secreta para observar a linha de Tordesilhas, em 1498, a fim de saber ao certo se a costa brasileira ficaria de fato na posse de Portugal) e de Vicente Yañez Pinzón (piloto e sócio de Colombo, em 1500, que tocou terras do Ceará, fez 36 "negros da terra" na ilha do Marajó, capturou uma mucura com filhotes e rumou ao Oiapoque antes de velejar de retorno as Antilhas). Pinzón está morto, mas seus descendentes provavelmente hoje pensam diferente. Como os parentes dos primeiros "negros da terra" (índios escravos) poderiam também contar esta história se tivessem notícia dela (conservada a sete chaves nos arquivos coloniais de Espanha até recentemente).

Quarenta e dois anos depois do assalto de Pinzón, os dois bergantins da aventura de Francisco de Orellana, vindos com a lenda da mulheres guerreiras importada da Capadócia a bordo, passaram entre as ilhas do Marajó debaixo de nuvem de flechas envenenadas, talvez resultado do ataque dos espanhóis para aprisionar índios para escravidão ou por que já havia notícia da guerra de conquista do Caribe. Os aventureiros do alto Amazonas saíram ao Mar-Oceano e, seguindo a corrente das Guianas, foram se refazer da acidentada jornada na ainda selvagem ilha Maragarita (costa da Venezuela) donde seguiram para Hispaniola (Haiti) e depois a Espanha. 

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Além do dito aparecimento dos brancos europeus nestas paragens do "rio Babel" (no dizer do Padre Antônio Vieira, um século depois da presepada amazônica de Orellana e Carvajal e vinte anos após a viagem de Pedro Teixeira e seus mil e 200 remadores tupinambás aos confins do Equador), um relato curioso conta que negros africanos passaram pelas bocas do Amazonas, cem anos antes de Colombo descobrir o novo continente. Como é possível falar tão pouco disto, se o próprio Napoleão Bonaparte durante a campanha do Egito teria levado a novidade para arquivos da França imperial junto com outras coisas tomadas ao país dos faraós?

Noves fora a célebre lenda do país de Ofir, que diz que madeiras do templo de Salomão, construído por Hiran, rei de Tiro (Fenícia); teriam sido extraídas no Brasil (Amazonas). Aquela história estúrdia saiu da cidade do Cairo quando o imperador do antigo Mali foi em peregrinação a Meca com grande caravana e carregamento de ouro de tal monta que provocou a primeira inflação conhecida na Idade Média.

Trata-se da suposta expedição do rei Abu Bakari II com uma flotilha de dois mil caiaques, precedida por duzentos precursores dos quais apenas retornaram dois deles, supostamente tragados por grandes ondas num rio de água doce... Para comentaristas deste relato, o desaparecimento dos precursores de Abu Bakari II se deve ao fenômeno da pororoca na foz do Amazonas. 

Se algo parecido aconteceu de fato, isto teria coincidido como o começa da invasão dos belicosos Aruã através das Guianas, para o Cabo Norte e as ilhas Caviana e Mexiana antes de expulsar os Iona (Joanes) e outras etnias mais antigas da ilha do Marajó, cerca do ano de 1300, dos centros da ilha grande para a costa da baía de mesmo nome. O iluminismo despótico que decretou a "civilização" dos índios e a expulsão dos Jesuítas para implante do "Diretório dos Índios" (1757-1798) fez escola no Império do Brazil e este, apesar da República; continua latente nas elites e oligarquias que ditam a educação e cultura do povo brasileiro. Explica-se assim a razão pela qual a historiografia oficial predomina sobre a história dos Brasis...

A lenda da pororoca fala do fenômeno como o surgimento de três vagas que vem do mar para dentro do rio: sobre cada uma delas um pretinho, como que surfando e fumando cachimbo... A palavra "pororoca" é tupi e significa "grande estrondo". Todavia, seu conhecimento terá sido muito mais antigo do que a presença dos Tupinambás vindo de longe, do Chaco (Paraguai), pelo litoral do Nordeste até o Maranhão e Grão-Pará. Inimigos hereditários, aruaques e tupis, lutaram entre si ao longo da costa norte e nas ilhas rio acima. Há pelos menos cinco mil anos os tapuias ou "nheengaíbas" (falantes de línguas de tronco aruaque) ocuparam a Amazônia. 

No teatro amazônico, pela guerra e a paz, tupis e tapuias certamente trocaram conhecimentos, os primeiros comeram as virtudes bélicas do inimigo invejado pelo rito antropofágico; e finalmente os catequistas apagaram línguas e culturas da babel amazônica, para imposição da língua-geral ou nheengatu, que afinal foi a desgraça dos padres frente a diretores dos índios pelo triunfo da língua portuguesa do Oiapoque ao Chuí, da Paraíba até os confins do Acre.

Conta-se que Abu Bakari II cismava em querer descobrir a outra margem daquele grande rio salgado que é o oceano Atlântico... Por isto ele teria planejado a tal viagem... a remo. Segundo o relato do Cairo, o imperador mandinga jamais retornou e não se sabe o que aconteceu além da partida no rio Gâmbia. A corrente equatorial marítima e a prática de pesca tradicional africana em alto mar com uso de caiaque conferem ares de verossimilhança ao relato. Contam que Colombo ao chegar na ilha Hispaniola (Haiti) teria visto estranhos "índios pretos" que usavam lanças com ponta de cobre. Aduzem que talvez esses indígenas estranhos fossem remanescentes da expedição mandinga, depois de seguir a corrente das Guianas e rodar para as Antilhas, conforme o conhecido caminho dos índios.

De qualquer maneira, muitas suposições são suscitadas pelo encontro do Mar Oceano e do Rio-Mar... Bacia onde as águas barrentas e quentes dos rios Amazonas e Tocantins, através do Rio Pará ou braço meridional do dito Amazonas, vêm se misturar no Oceano à corrente equatorial marítima que atravessa o Atlântico, de leste a oeste, trazendo águas da contracosta africana para se dispartir com a rotação da Terra em frente ao Salgado Paraense, formando assim a Corrente das Guianas para o norte e a Corrente Brasileira para o sul do continente.

Aqui a ver o peso da geografia na história e na cultura: mais do que caravelas e colonos, navios encantados, caraíbas, caciques, pajés-açu, lendas, mitos, vóduns e orixás em profusão... 

Mais do que ciência, arte e intuição. Universidade da maré. A oceanografia brasileira tudo deve a este singular fenômeno hidrográfico, antes mesmo da Ciência existir ou dos navegadores portugueses, em busca do caminho oriental das Índias, visitar a costa marítima do país do pau-brasil pela primeira vez. 

Embora nossa historiografia oficial seja avarenta com respeito à história e geografia pré-colonial dos povos originais, a Cultura Marajoara despontou cerca do ano 400 da era cristã após cinco mil anos, aproximadamente, de ocupação humana do delta-estuário tendo principalmente várzeas, campos alagados e mangues como fornecedores de alimento. Esses povos nômades deixaram dez mil anos de vestígios ao longo da calha amazônica e deram início à civilização amazônica, intimamente vinculada com as ilhas do Caribe.

O monumento natural do Rei Sabá, em São João de Pirabas, com seus ritos e cultos da pesca tradicional é um marco da distância que reina entre as elites e o conhecimento popular. Um fato político que reclama novas abordagens do Brasil democrático emergente.




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