sexta-feira, 26 de julho de 2013

O POVO DO RIO E SEU DIREITO DE IR E VIR NA CIDADE DAS MANGUEIRAS.


debate sobre transporte público fluvial em Belém do Pará.


GENTE DAS ILHAS E PENÍNSULA DE BELÉM QUER MOBILIDADE HIDROVIÁRIA TAMBÉM.

É um espanto a cegueira dos políticos da metrópole fluviomarinha da Amazônia em matéria de transportes coletivos. A verde cidade das mangueiras, contemplada desde a margem esquerda do Guajará; é uma beleza incomparável na paisagem cultural do Guamá. Casamento perfeito entre natureza e meio ambiente urbano. Mas, de perto; parado no meio do trânsito engarrafado e da histeria coletiva, ninguém merece...

Já se sabe, por exemplo, que o cartel de donos de ônibus somado ao conformismo peculiar do povo que tudo reclama mas não toma atitude coerente; sequer por hipótese discute projeto de metrô de superfície na região metropolitana. 

As poucas exceções que, às vezes, aparecem trazem as mais pueris explicações para não debater metrô em Belém. Enquanto alhures protestos da população contra a imobilidade urbana se avolumam e as autoridades locais correm ao BNDES com projetos em mão pedindo financiamento de metrôs. 

No Pará velho de guerra, pilhado de suas antigas estradas de ferro (Belém-Bragança e do Tocantins); deu branco total na lembrança da Maria Fumaça e ainda a discussão passou de velhas locomotivas a óleo Diesel quando alguém pensa em trem de passageiros... O Pará exportador bruto de energia hidrelétrica nunca pensou em tirar fumaça de ônibus do trânsito a troco de energia limpa. Dizem até que no solo urbano do Pará não há mais espaço para trilhos. Entretanto, o prolongamento da avenida João Paulo II rumo a Marituba e os mais municípios da região metropolitana está dando sopa à imaginação dos engenheiros de trânsito.

Todavia, o que os geógrafos regionais e planejadores de Belém não conseguem ver mesmo é que a maior concentração urbana do Pará se assenta sobre a vasta península com entorno no arquipélago do Guajará e Guamá. A região metropolitana feita de cidades-dormitórios banhadas pelo rio e a grande baía como um vasto mar de água doce, dias e noites, se comprime e se expande como sanfona ao longo do eixo viário peninsular rumo ao centro histórico de Belém e pára nas horas mais críticas para ir e vir do trabalho entre o Entroncamento e o Centro. 

Passando de São Brás até a Cidade Velha tudo foi traçado antigamente na belle époque para o tempo do bonde elétrico dos ingleses e antes até para carroças puxadas a burro. E hoje no mesmo espaço saturado haja automóvel, espigões para apartamentos e falta de estacionamento... À espera de quê? Que a ilha de calor chegue ao infarto e que a bolha imobiliária vá ao estouro.

Tudo isto já deu... A cidade cresceu de costa para o rio. Mas era preciso integrar a cidade das águas com a paisagem ribeirinha e pensar os 400 anos de Belém como espaço orgânico rural-urbano. Conservar a Cidade Velha e inventar a Cidade Nova sem contradições (uma metáfora arquitetônica e urbanista para uma grande cidade amazônica ribeirinha, a ser desdobrada em bairros-cidades e aldeias autogestionárias em harmonia com as ilhas do estuário). Ainda há lugar para remos e velas na paisagem cultural do grande mar que se chama Pará.

Um metrô de superfície entre Castanhal e Belém seria verdadeiro papa-fila das estradas até São Brás. De São Brás aos bairros periféricos a volta do bonde ou ônibus híbrido (elétrico e biocombustível) daria conta do recado. Sem esquecer o uso massivo de bicicletas e ciclovias exclusivas. O BRT de Icoaraci, Ananindeua, Marituba, Benevides e Santa Bárbara não ficaria estranho ao sistema viário integrado de Belém. A malha rodoviária complementar passaria a contar com frota de ônibus e micro-ônibus movida a biocombustível. Para isto a extração de azeite de dendê. Ou vamos, mais uma vez, ficar a ver navios?

E por falar em navios: o litoral da península belenense deveria ser servida de transporte hidroviário coletivo de "primeiro mundo". A Orla sendo um grande espaço público, finalmente, como foi e deve voltar a ser. Tudo fazendo parte de empresa público-privada de transporte capaz de integrar a Capital e as ilhas do delta-estuário. Cadê o Movimento Belém Livre que faz escarcéu por dez réis, mas não vê coisas que nem esta? 

Livre pensar é só pensar. Os técnicos e universitários que queimem pestanas para oferecer soluções, que para isto uns são pagos e outros incentivados a sempre inovar. Está na cara que a expressão geográfica de Belém - como diria Eidorfe Moreira - foi ferozmente violentada e a coisa já foi longe demais. Urge concertar os espíritos e consertar os malfeitos do passado para inventar o futuro melhor para todos.




Um comentário:

  1. Meus, parabéns pelo texto. Minhas considerações sobre esse assunto de largo interesse a nós que habitamos a Região Metropolitana de Belém recaem sobre o fato de que tanto nossos governantes quanto quem mora por aqui vivemos como se o rio e baia fossem alheios a nós. É uma relação perversa, que andamos de costas para o rio. O rio serve, na maioria das vezes, ao despejo daquilo que não precisamos mais.
    Tomara que um dia essa lógica inverta-se e possamos desfrutar de um meio de transporte condizente com uma cidade cercado por rios, e que deveria priorizar o meio de transporte fluvial.

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