quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O RIO DA MINHA TERRA


foto by Helly Pamplona



Graças ao progresso cientifico e técnico presente, toda vez que eu ligo meu computador a tela de proteção que eu mesmo coloquei nele por uma suposta escolha de inteligência emocional reproduz retrato de paisagem ribeirinha dos verdes anos de minha vida... A eletrônica, que possibilita o milagre da comunicação à distância, em potencial, sempre esteve disponível desde o Big Bang. Quem sabe, antes até no coração da eterna matéria escura, invisível aos nossos olhos orgânicos ou eletrônicos... Todavia, faltava antes a natureza mãe da biosfera evoluir no espaço-tempo relativo numa espécie especializada dotada de cérebro complexo. Capaz de criar uma mente cognitiva e inventiva – ao longo de processo de descobertas e inventos por necessidade e acaso – até certo indivíduo Homo sapiens selecionado por acertos e erros próprios e de outrem fabricar a primeira câmera fotográfica e outros indivíduos e instrumentos de toda mais parafernália eletrônica: até me chegar confortavelmente em minha casa, via internet, a referida imagem que me enfeita a vista e enche-me de recordações boas e más na luta pela sobrevivência neste rincão do mundo tropical.

Pronto, está feita a conexão eletrônica do “meu” sistema neuronal ao sistema computacional do vasto mundo ataviado de satélites artificiais, foguetes de lançamento orbital, supercomputadores, cursos de engenharia, empresas multinacionais, extração de matéria-prima a preço de banana por trabalhadores de terceiro ou quarto mundo. Quanta alienação para um relampejo de consciência social como um corisco em meio à escuridão!...

Hoje qualquer criança pode brincar com telefone celular à mão, tirar fotografias e distribuí-las pela rede mundial de telecomunicação. Para o bem e para o mal, muita gente hoje pode fazer o que antigamente pareceria prodígio de bruxos. Mas, imagine (sic) como a humanidade fazia para transmitir suas impressões e imaginações ao tempo dos faraós do Egito, por exemplo... Imagine aqui e agora como foram geradas na mente arcaica as tradições dos maiores acontecimentos da humanidade; tais como a história da Criação, o Dilúvio e a construção da torre de Babel, etc. Como estas interpretações da infância da espécie humana se propagaram por diversas gerações através da história oral na Mesopotâmia até as primeiras apropriações escritas sob ditado das necessidades da época e a primitiva sistematização dos livros formadores da Torá mosaica, donde provém a Bíblia cristã e o Corão islâmico.

Ou seja, a originalidade destes textos sagrados deve ser buscada mais atrás no tempo e no espaço do patrimônio comum de toda Humanidade. Sem esquecer as religiões mais antigas, escritas ou não, que desaguaram recentemente nas motivações profundas da Convenção da Diversidade Cultural adotada pela ONU, depois de uma longa luta contra restrições, preconceitos e perseguições por parte de comunidades judaicas, cristãs ou mulçumanas. Pouca gente sabe, mas eu e meu velho computador não podemos nos esquecer que, neste fim de mundo da América do sol, conflitaram entre si e coexistiram durante certo tempo o sebastinismo, a utopia antropofágica do Bom Selvagem tupinambá, crenças da pajelança tapuia e ritos de vóduns e orixás africanos; até se confundir via sincretismo entre chuvas e esquecimento, noutra coisa vagamente chamada cultura popular amazônida.

O mito primitivo da Arca de Noé, por exemplo, segundo o historiador de religiões Mircea Eliade, era em sua origem uma representação de construção cerâmica para depois vir a evocar a arte de construção de barcos de madeira e então simbolizar a salvação de todas criaturas diante da ira do Pai Eterno contra os pecados do Homem rebelde aos ditames de sua natureza divina (um mito ambíguo e poderoso como o próprio mundo moderno contraditório em suas esperanças e terrores). Tão vasto como a pletora de interpretações metafísicas do mito é o arsenal de estudos não-religiosos sobre as motivações humanas diante de fenômenos naturais não explicáveis no tempo de seu acontecimento real ou imaginário. Além disto, o homem ocidental moderno saído dos descobrimentos marítimos e do iluminismo não se contenta mais do ditado religioso antigo... Mas, o homem arcaico habita o inconsciente coletivo da modernidade: é isto que eu penso quanto contemplo na tela de meu computador a imagem do rio de minha velha aldeia marajoara – curiosa representação do rio de Heráclito –  transportada pela corrente de elétrons da internet.

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