sábado, 21 de janeiro de 2012

A MORTE DA COBRA GRANDE



Uma sucuri gigante foi encontrada na Serra da Velha Pobre, localizada entre os municípios de Monte Alegre e Almeirim, no estado do Pará. Segundo informações a cobra media cerca de 19 metros, uma verdadeira anaconda. Só na Amazônia encontramos animais tão incríveis assim. Pena que mataram o animal!
 

NOTÍCIA DA ILHA DO MARAJÓ

"Concluirei esta representação, que seria infinita a escrever tudo o que observei, dando a V. Excia. uma sucinta notícia do Arari. É o rio mais complicado, com voltas e rodeios que espero ver, de modo que, para de sua boca subir-se ao lago, é mais o tempo que se gasta em desandar as voltas andadas do que a avançar-se adiante. Pela sua beirada, de uma e outra partes, estão citas muitas roças e engenhocas de açúcar para as águas ardentes que tiram e fazendas de gado vacum e cavalar. É galante a história, digo, a teoria do rio que ouvi a um índio, sendo perguntado pela razão daquelas voltas e, portanto a escrevo:

A ilha, no seu princípio, diz ele, não tinha estes rios. Mas tinha, pela terra dentro, infinitas cobras. Estas, obrigadas das secas, corriam do centro para a costa a buscar a água. No caminho que faziam de rastos pela terra, deixavam, com o peso e grandeza dos corpos, impressas nela as suas figuras, assim mesmo tortuosas e implicadas em torcicolos, como elas são. Caíram as águas das chuvas sobre este rasto que achavam feito e, no seu princípio, abriram regatos. Engrossaram depois os regatos e ficou sendo o total, o grande rio, o que não fora no princípio mais que um regato da grossura de uma grande cobra."
Alexandre Rodrigues Ferreira, "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó".


Saga da Amazônia

Vital Farias

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
no fundo d'água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
e os rios puxando as águas
Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores
os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir
era: fauna, flora, frutos e flores
Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira
Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá
O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
e o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?
depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar
Mas o dragão continua a floresta devorar
e quem habita essa mata, prá onde vai se mudar???
corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
tartaruga: pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiura
No lugar que havia mata, hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nata tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão:
Pos mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
roubou seu lugar
Foi então que um violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração
Aqui termina essa história para gente de valor
prá gente que tem memória, muita crença, muito amor
prá defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
era uma vez uma floresta na Linha do Equador...

A PELE DE TULUPERÊ

Quando se abate sem dó nem piedade um animal ou espécie vegetal em risco de extinção é sinal de que o próprio bicho-homem está em perigo diante de sua própria ambição e vontade. Não se trata de divinizar a mãe natureza nem de fazer santuário do mundo selvagem, mas sim a vida é sagrada.

A palavra sagrado, vem do latim "sacer" (sagrado), fundamenta a vida religiosa e designa área ou realidade (seres, lugares, coisas ou momentos) separadas do mundo ordinário. No entanto é a realidade humana que estabelece o sagrado, o homem experimenta algo que vai além de sua existência limitade e comum. Assim sendo, as realidades sagradas não existem por suas próprias características mas pela perplexidade e o respeito diante do que elas significam a cada um. Dizer, por exemplo, que uma relíquia tribal é sagrada para descendentes de aborígenes é tão respeitável quanto um suposto diário de navegação de velho capitão corsário ou a espada de um general para seus herdeiros. Além do sentido religioso, o termo sagrado também tem sentido ético e moral que constitui valores primordiais como a liberdade e a justiça.
Os direitos humanos respaldam a garantia à diversidade cultural no respeito às diferentes formas de vida e às diferenças de crença entre a humanidade. Desde que os criacionistas não imponham aos outros, como fizeram no passado ou ainda fazem em alguma parte; os seus artigos de fé ninguém lhes poderá obrigar que professem os postulados darwinistas... Um cidadão moderno deve saber que os índios da Amazônia acreditavam geralmente que o homem veio ao mundo em forma de peixinhos miúdos na barriga de uma cobra grande que os pariu na beira do rio onde secaram ao sol até se transformar na forma humana...


Os povos Kalina [caribes] têm a Anaconda como animal totêmico. Seus descendentes mestiços respeitam tabus ligados à pesca, caça e coleta de frutos nas matas e florestas ou mariscos nos manguezais ligados a numerosos duendes como o curupira, caipora, matinta pirera, etc. Do mesmo modo como a romanização dos bárbaros e a cristianização forçada dos judeus e pagãos, a catequese dos indígenas produziu fenômeno "marrano" ou "cristão-novo" do catolicismo popular e mais recentemente as conversões pentecostais em massa... Não podemos nos alongar, porém é preciso dizer que esse "índio com amnésia" que é o caboco constitui a leseira amazônica: que o índio já não sendo mais índio, jamais será branco de parte inteira e, portando, há que inventar um etnia nova para se achar em meio ao neobarroco mundo latino-americano emergente. Livre de antigos tabus, este novo homem amazônico também terá uma visão cínica do mundo e um grave incomprensão a respeito da ética e/ou a noção de sagrado. Donde uma predisposição à corrupção como uma tara culturalmente adquirida de seus colonizadores.

A evolução natural da animalidade para a humanidade atravessa primeiro a fronteira do Mito (assim com M maiúsculo) para o vir a ser a interminável Ciência... De forma que uma ciência qualquer pendente de teoria no reino das nuvens está sempre fadada a desabar a qualquer hora e não tem limites éticos que a possam frear.  As penas de um inferno ou bem-aventuranças post-mortem terminam por um fariseismo terrível, de modo que não se sabe jamais se defato o devoto alcançou o céu mas do "inferno verde" aqui presente não há como negar.

Pelo contrário, a cultura orgânica é aquela na qual o bicho do fundo vem à tona da consciência naturalmente através do arco das gerações. Mesmo a individualidade de um gênio repousa sempre sobre o alicerce da coletividade concreta de muitas vidas e mortes de várias e diversas gerações sucessivas.

A história é um trabalho de Sísifo sobre a pedra do passado que o homem, infinitamente, se esforça para transportar até o cimo da montanha: o futuro... Mas é sempre o presente que dita a necessidade desta irrecusável labuta que o acaso faz acontecer como o fototropismo ergue a planta em meio à competição da Flora para o alto ou o instinto determina os ciclos vitais de um animal. Inclusive o ser humano seja ele bárbaro ou civilizado...
Esta semana circulou na web a imagem dantesta da morte da cobra grande amazônica: uma sucuriju supostamente medindo 19 metros de comprimento suspensa por uma grua mecânica para extração de madeira, localizada na serra da Velha Pobre, em algum lugar da floresta amazônica entre os municípios de Almeirim e Monte Alegre, ou Porto de Moz segundo outra versão.
Imagem do triunfo de Pirro... O estúpido "H. sapiens sapiens" no comando da Máquina ou dragão mecânico, na metáfora do poeta cantador Vital Farias; parece comemorar tolamente a morte da cobra grande. A serra da Velha Pobre fica mais miserável despossuída de suas lendas. E o ingênuo trabalhador da madereira prepara seu desemprego futuro, sem nunca se dar conta aonde vai parar a mais valia de seu suor e engenho. Ora, a máquina-vapor também ela é o resultado de uma lenta evolução de invenções ditadas pela necessidade da economia do trabalho humano...

Como bom caboco não vou mentir a respeito do terror e fascínio ao mesmo tempo que a imagem da sucuriju desperta no inconsciente coletivo desta nossa gente indecisa entre a barbaridade e a civilização. Não há rio, lago ou igarapé na Amazônia que não tenha lá a sua "cobra grande" e mil e uma lendas que ela fabrica na imaginação do lugar, a começar do clássico "Cobra Norato", de Raul Boop, extraído das águas míticas do Xingu para os caminhos do movimento modernista. 

Por que nossa imaginação aumenta instantaneamente uma simples visão do animal [nome popular: Sucuri, Anaconda Classe: Reptilia Ordem: Squamata Família: Boidae Nome científico: Eunectes murinus. ] mediano e o promove logo a monstro com até quarenta metros de comprimento, em certos casos extraordinários? Acredito que isto vem do próprio desconhecimento da região. O encanto tem a ver com o mistério, certamente...

Quanto se mata impunemente o bicho é sinal de que, assim como a morte de Deus (Nietzsche), o Mito já se extinguiu... O deicídio implica um insuportável complexo de culpa, todavia o crime ecológico traz a reboque o castigo real se não imediato mas sobre as futuras gerações. Enquanto as academias discutem o sexo dos anjos consumindo cérebros, verbos e verbas inesgotáveis, a mãe Natura não espera que seus filhos entrem em acordo, nem atende a quaisquer reivindicações ou calendários políticos. 

É claro que enquanto os justos pagam pelos pecadores, a mitologia vem a bordo de naves espaciais e Flash Gordon inspira a astronáutica impulsionando a pesquisa cósmica na utópica esperança de ir colonizar outros planetas. Aliás, ela mesma devedora da velha astrologia mágica e promotora de best sellers do tipo "Eram os deuses astronautas?"...

Mas o animal político de Aristóteles, pode conforme Zaratustra ser "um passar e um sucumbir", aturdido com a fatalidade da morte e condenado a toda forma de ópio para não ter que suportar a verdade da vida nua e crua... Por que estou eu a dizer isto tudo? Porque hoje eu resolvi escrever um epitáfio à cobra grande morta na serra da Velha Pobre e me dou conta de que, na verdade, estou a ensaiar o necrológio do homem amazônida face ao dragão devastador da Amazônia. Ou seria, na brincadeira, o Apocalypso do fim da estória?

Me lembrei do trabalho de etnografia sobre a arte do trançado Wayana, "A pele de Tuluperê", da antropóloga Lúcia Hussak van Velthem. Uma bela pesquisa realizada no parque nacional Montanhas de Tumuc-Humac. Pena que tais pesquisas não se traduzam em livros de educação patrimonial ao alcance das escolas desde as primeiras classes estudantis... Por aí se descobre que a verdadeira cobra grande é um ser astral (que nem a serpente Oroboro ou dragão que morde a própria cauda: simbolismo em diversas culturas do cosmo). 

Segundo o mito Wayana, a cobra sucuriju é a materialização no mundo aquático da Tuluperê (cobra grande astral). Cuja representação eles trazem na arquitetura de suas casas coletivas suspensa no teto num tipo de mapa celeste dito "maruana" que, por acaso, se assemelha a uma mandala hindu. E a riqueza imaterial que a própria natureza indígena suscitou vem de novo transformar a matéria-prima em objetos de uso prático e arte.

A Cultura Marajoara (cerca do ano 400 d.C.) teve provavelmente por tótem a serpente Jararaca [Bothropos atrox] e, evidentemente, criou uma ciência a respeito de venenos e peçonhas extraídas da natureza para uso na arte da guerra e no conhecimento terapêutico. Uma aplicação de experiências empíricas por mais de três ou cinco mil anos antes da primeira sociedade complexa da Amazônia, lidando com um bioma semi-aquático onde predomina a Cobra grande por todas partes... Estamos falando de uma ecocivilização de 1500 anos de idade destruída pela conquista ocidental para ocupação do território pela civilização industrial.

Como dissemos acima, a morte do mito amazônico pode ser prenúncio duma vitória de Pirro para o rude colonizador e/ou civilizador.

2 comentários:

  1. Cuidado com as armadilhas da internet!!! Essa serpente NÃO é sucuri, é píton (asiática)!!!!

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    1. vai saber né, mas se fosse sucuri a pessoa q capturase ia ficar tão famosa e ia ganhar milhões pela cobra

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