MOTIVOS PÚBLICOS PARA UM FESTIVAL DA CULTURA MARAJOARA

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Estudada desde o final do século XIX, a cultura Marajoara é entendida hoje como um processo de mudança cultural ocorrido nas comunidades que habitaram a Ilha de Marajó há 3.500 anos. Atualmente, objetos cerâmicos inspirados no estilo Marajoara são produzidos por artesãos paraenses, prática que ajuda...
Sem dúvida nenhuma, muita gente que topa com este tal de José Varella [José Maria Varella Pereira, brasileiro, natural do Pará, casado, nascido em Belém-PA a 30/10/1907, funcionário aposentado do Serviço Exterior Brasileiro, etc.] pergunta: quem é este cara? Por que ele fala tanto em Marajó? Me achará pretencioso demais...
Quem me conhece, todavia, se quiser poderá falar a meu respeito como achar melhor. Eu, contudo, decidi usar os parcos meios que dispunho para falar daquela gente a qual Dalcídio Jurandir consagrou sua obra e Giovanni Gallo dedicou sua vida através da invenção do primeiro ecomuseu do Brasil (jamais reconhecido por quem de direito...) e, enfim, me esforçar vencendo minhas limitações para divulgar entre os mais humildes o trabalho acadêmico no Marajó realizado pela arqueóloga Denise Schaan.
EU TENHO UM SONHO
Eu não tenho acanhamento em parecer visionário numa província extraordinária do mundo latino-americano concebido pelo realismo-mágico, onde ingênua e astutamente o Padre Antônio Vieira - em Cametá-PA, a 29/04/1659 assumiu a utopia sebastianista do poeta popular Bandarra (uma loucura parida do gueto e da heresia joaquinamita na diáspora judia espancada por todos preconceitos, que veio se agasalhar pelos vãos da Encantaria e searas da amazonidade profunda) que o levou à condenação pelo tribunal da Inquisição por heresia judaizante e desencadeou a fúria dos colonos ao se opor ao cativeiro dos índios e promoveu a pacificação dos povos ditos "nheengaíbas" (nuaruaques) ou marajoaras - plantou o "grão Pará" de um mundo de justiça e paz onde cristãos, judeus e mulçumanos se reconheçam como irmãos. Eis aí, quem sabe, a chave dos profetas...
Mas, para que eu não seja confundido como um portador de religião nova ou velha, acrescento aos interessados que malmente comungo do deus de Espinoza. Ou seja a Natureza, no meu caso, mais precisamente a natureza humana tal como ela é em suas bondades e maldades. Acredito na santidade como na Verdade: metas para uma busca sem fim da mítica Terra sem Mal para todos, através de muitas vidas e mortes não de um indivíduo ou alma imortal mas de várias gerações imersas na "animalidade mãe da humanidade" (Morin).Com todo respeito aos que pensam diferente e divergem de mim.
AMAZÔNIA MARAJOARA: BIODIVERSIDADE E DIVERSIDADE CULTURAL
Dito isto, lembro que a candidatura do bioma Marajó como reserva da biosfera da UNESCO parece que foi parar nas calendas gregas. A casa de Dalcídio, em Cachoeira do Arari, finalmente depois de muita choradeira tombou ao chão e nunca mais se ouvir falar no projeto para sua reconstrução. Após meses em que a internet produziu milhares e milhares de assinaturas para as mais variadas salvações e demandas; nosso modesto pedido pela CULTURA MARAJOARA ainda não teve duas centenas de assinaturas... Dos que assinaram, provavelmente, a maior parte jamais leu Dalcídio, Gallo ou Schaan:
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Abaixo-assinado "Dia da Cultura Marajoara e tombamento no patrimônio nacional".Para:Presidência da República Federativa do Brasil
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URGÊNCIA DA RECUPERAÇÃO DA MEMÓRIA
O Presidente Lula foi até hoje o único Chefe de Estado que veio ao Marajó cumprir agenda política em atendimento à demanda da gente marajoara. Nós não estamos esquecidos nem desdenhamos da visita que o general-presidente Ernesto Geisel fez antes para prestigiar feira da pecuária em Soure a convite de fazendeiros. Todavia, a presença do Presidente Lula em Breves em março de 2007 para lançar o PLANO MARAJÓ, acompanhado da Governadora Ana Júlia ao lado de Neuton Miranda, saudoso comandante do projeto NOSSA VÁRZEA de regularização fundiária das comunidades ribeirinhas, tem significado histórico inigualável. Menos pelo que foi dito na ocasião ou escrito na mídia alusivo ao acontecimento e muito mais pelo que historiadores da estirpe de um Agenor Sarraf, por exemplo, poderão revelar pelos anos seguintes em seus estudos.
Em 2005, graças à PARATUR onde eu trabalhava e ao presidente da Câmara Municipal de Breves, Camillo Gonçalves, que me convidou. Fiz palestra sobre a importância do rio Mapuá na história da Amazônia, que mais tarte se tornou a Reserva Extrativista Mapuá e ainda poderá ser declarada pelo próprio município ou estado, com base na legislação do SNUC, em monumento natural de relevante interesse histórico como lugar de memória da Paz dos Nheengaíbas (27/08/1659). Naquele ano de 2005, quando conheci in loco o rio do encontro histórico entre a missão pacificadora iniciada pelo jesuíta João de Souto Maior e concluída com êxito por Antônio Vieira e os sete caciques rebeldes das ilhas; completaram-se três séculos e meio da lei de abolição dos cativeiros indígenas na Amazônia, datada de 9 de abril de 1655.
Pouco se estudou e escreveu sobre este fato, esssencial na obra geopolítica e humanitária do Padre Antônio Vieira; sumamente interessante para a história social contemporânea da região. Por ela faz sentido falar, em nossos dias, em inclusão social. Posto que sem participação dos tupinambás na invenção da Amazônia desde a fundação de São Luís-MA (400 anos em 2012) pelos franceses, a tomada do Maranhão (1615) e fundação de Belém-PA (400 anos em 2016); movidos pelos caraíbas com o mito da Terra sem mal. E, na contraparte, a resistência dos "nheengaíbas" pacificados na esperança de justiça e paz acenada na dita lei promovida pelos Jesuítas do Pará, provavelmente, não se poderia hoje falar em uma Amazônia brasileira. Esta é a questão historiográfica da qual a academia, com louváveis exceções, foge como o diabo foge da cruz...
Sem falsa modéstia, sou um dos poucos servidores públicos que conhece a fundo nossas fronteiras setentrionias em quase todos seus aspectos. Pouca gente sabe que Marajó faz parte da área cultural guianense (cf. Ciro Flamarion Cardoso), esta área fazendo parte do antigo circum-Caribe coloca o Pará em relação com o CARICOM seja abordo da OTCA ou do Mercosul, que na prática ainda não deu o ar de sua graça na fronteira do Oiapoque, umbilicalmente ligado ao nosso povo. Acredito até que Brasilia esqueceu ou nunca soube que um dia o Amapá fez parte integrante do Grão-Pará.
CONSOLIDAR FESTIVAIS LOCAIS E INTEGRAR O TERRITÓRIO
Algun intelectuais doutorados em cultura e história estrangeira falam mal da música brega do Pará e companhia. Claro não são obrigados a gostar, mas poderiam saber seus fundamentos na cultura de fronteiras. Por exemplo, a micareta baiana tem berço nas Antilhas francesas com o crioulo "micàreme" (metade da quaresma) que entre nós foram os assustados de sábado de aleluia. A música popular paraense, como invasão dos belicosos Aruãs (1300-1400) e a revolução cabana, veio em boa parte do Caribe e das Guianas em contrabando.
Na maioria das 16 cidades do território de cidadania Marajó temos festivais municipais do Açaí, Camarão, Tamuatá, Abacaxi, sem esquecer o Fest Búfalo e a festividade profana de São Sebastião de Cachoeira. Em geral, desconectados e até rivais entre si às vezes. Ora, nós queríamos chegar a um pacto marajoara levando à formulação do FESTIVAL DA CULTURA MARAJOARA abrangente. Ou seja, embora seja brega, som mecânico e regado a cerveja em cascatas a intenção de festejar é do produto símbolo deste ou daquele lugar.
Assim que melhor e mais identitário produto o Marajó já teve ao longo de milhares de anos de existência desde quando nem se havia descoberto o Brasil? Se disserem logo a cerâmica marajoara, diremos calma! Lá vamos chegar, mas antes da famosa cerâmica foi a invenção do teso. E isto - ou seja a invenção de um ecoturismo arqueológico de base comunitária é que deveria ser a mais valia de nossa cultura contemporânea, não só no "maior arquipélago fluviomarinho do mundo", mas na Amazônia e no Brasil. Um evento para o calendário de turismo e cultura brasileiro, com exemplo no Festival folclórico de Parintins.E não se tenha medo de dizer que a Amazônia Marajoara tem potencial para concorrer com a Costa Rica em matéria de ecoturismo: caboco politicamente alfabetizado é um perigo... Logo, faz parte da dominação deixar nas trevas da ignorância algo como 200 mil marajoaras analfabetos.
Para levar avante o debate, pediremos guarida ao Ministério da Cultura (Minc Norte), através de seu escritório regional, onde os interessados em participar da formulação de um projeto poderiam começar a debater esta idéia dentro da abordagem de culturas de fronteira. A canção "Porto Caribe" anuncia bem este espírito antigo, vísivel nas práticas das mais diversas contravenções, exatamente por ser estas regiões amazono-carivenhas deixadas à margem da História.
Primeiro passo, viajar nas águas do extremo-norte, relançar e reconfigurar a Academia do Peixe Frito a qual este blogue se dedica, como proponente e fórum do que se pretende e se poderá fazer como um autêntico festival da Cultura Marajoara.Maré cheia onde diferentes povos das águas se reconheçam e queiram celebrar a vida em paz.
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