quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

eu e a brisa da Mangabeira

*

na fria geografia deste lugar à beira da baía do Marajó
a tímida memória de minha avó tapuia evém da velha aldeia
das Mangabeiras, Lugar de Ponta de Pedras
e freguesia de nossa senhora da Conceição de Ponta de Pedras.

ondas tontas estrondam com um rumor de séculos
de encontro às pedras de ponta contra o vento
na reponta da maré 
eu boto fé na ilha filha da Cobragrande: 
onde refaço a história do paraíso perdido
aproveitando cacos de índio 
e fragmentos de mito que vem dar à praia.

a imaginação desmaia ao passar dos dias e noites do fim do mundo
ilhamento do pensamento condenado ao ostracismo
no delta estuário da maior bacia fluvial do planeta
nosso Mar Doce sem tombamento outro que o tombo do Dilúvio
reserva da biosfera não-declarada por nada deste mundo
patrimônio natural do Brasil olvidado pelos poderes da República
tesouro encoberto no fundo do rio das Amazonas.

nesta estúrdia paisagem à margem da História sou eu
o mais estranho dos estrangeiros para rebanhos de búfalos, cardumes encantados
e nuvens de garças e guarás desmemoriados:
apesar da colunata natural de altos miritizeiros ao adeus da hora
me dizer, assim - pobre de mim! - "tenha paciência,
tenha paciência"...

e se isto tudo não bastasse
temos aí a grande ilha do Marajó,  país da Boiúna
monumenta do barro dos começos da civilização amazônica
1500 anos paridos dos 10 mil do paleo ameríndio
me contemplam no úmido vento do equinócio.

quem será meu sócio neste negócio da invenção do amanhã?
mercado futuro do raro lugar de memória do Novo Mundo 
onde águas barrentas do grande Nilo amazônico
misturam-se às águas salgadas da Amazônia azul.

por necessidade e acaso aqui a Biodiversidade
inventou a Diversidade Cultural do “rio Babel”. 

os tesos da ilha do Marajó são arquitetura do barro
dos começos do mundo sem fundo
primeiros engenheiros da amazonidade
cerca dos anos 400 e 500 depois de Jesus Cristo.

pouco importa a sorte dos herdeiros sem eira nem beira
a aldeia Mangabeira sumiu do mapa no Diretório dos Índios
há 70 anos o nobre IPHAN venceu a queda de braço 
contra o provecto arroubo do Museu Nacional: 
e a pedra colonial sepultou o barro pré-colombiano
com uma mísera pá de cal sobre a memória das "tribos" extintas...

nas asas da brisa como explicar uma coisa destas?
se nem mesmo o “imperador da língua portuguesa”
(Padre Antônio Vieira segundo Pessoa) 
conseguiu retratar estas paragens mais do que uma pálida imagem
das ilhas de terras roubadas pelas águas grandes
na “História do Futuro” e carta à regente viúva de Dom João IV 
ao dar conta da missão de pacificação dos feros Nheengaíbas, diz-que.

não é sempre que um caboco como este que vos fala, neto de índia de aldeia extinta vem à praia da Mangabeira dialogar
com a brisa da baía escura a meditar sobre a exclusão humana
e a resistência da brava gente marajoara.

até meu velho pai fatigava-se de minha louca busca 
das origens do vasto mundo 
e invenção do rio das Amazonas. 

mas, pouco interessa aos donos da História as cismas de um caboco malmente alfabetizado além da cartilha oficial
letrado no sítio do Ara Veja! por conta própria: 
tanto faz a canoa bater no pau ou como na pedra
o naufrágio é o mesmo...

o velho sol que arrastou conquistadores Tupinambás
das costas do Maranhão ao Salgado Paraense
vai sentando em riba da ilha grande no rumo do Araquiçaua.

quem ainda sabe que o porto do Sol é portal da Terra sem Mal?

um pouco mais e o astro vai atar a rede e dormir
na espera da manhã. 

o mundo se esqueceu da saga do guerreiro da Terra sem males, ninguém fala do mistério da Primeira Noite do Mundo 
e da extraordinária resistência oposta pelos antigos habitantes das ilhas do Pará e Amazonas à invasão da terra Tapuia.

Acorda, oh pátria amada Brasil! País do Cruzeiro do Sul 
(nosso Arapari, fronteiras da estrela mãe dos viventes, Guaracy).

Nenhum comentário:

Postar um comentário