sexta-feira, 18 de novembro de 2016

SORRISO DA PRINCESA NO JARDIM DO MANGUE ANIMA UNIVERSIDADE DA MARÉ.

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na imagem satélite captada pelo Laboratório de Sensoriamento Remoto (LSR), do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), vê-se traçado da rodovia PA-430 entre rios Maracanã e Marapanim, ligando a localidade Quarenta cujo nome deriva do fato desta rodovia ter 40 km de extensão. Uma via alternativa de acesso à APA Algodoal-Maiandeua em relação à travessia marítima de Marudá. Ideal para visitantes que preferem maré mansa e porto seguro, a ligação fluvial do Quarenta para vila do Algodoal, através do Furo da Mocooca, é sem dúvida a melhor opção. Pena que a rodovia não esteja ainda asfaltada e sinalizada para o bem do desenvolvimento do turismo sustentável no Estado do Pará. Esta passagem estratégica poderá vir a integrar mais a economia dos municípios de Maracanã, Marapanim e Magalhães Barata ao pólo comercial de Castanhal; aumentando assim a inserção nacional e internacional ecoturística da microrregião do Salgado mediante ocupação de pousadas da APA durante a baixa estação de veraneio.


ecocultura na ilha encantada de Chico Braga

No jardim da infância da ilha do Algodoal, Luan, 5 anos de idade bisneto do amigo Fausto de priscas datas e lembranças; convida-me a acompanhá-lo para ver sua escola. Pergunto como ela se chama e o menino esperto, como se tivesse a resposta na ponta da língua, diz que se chama "Sorriso da Princesa'. 

Eu acho este nome lindo para escola do lugar, mas Lian, irmão dele dois anos mais velho, informa que em realidade a escola se chama "Professora Maria de Lourdes Ferreira", tal qual está na fachada... Donde Luan tirou, então, este nome poético para ilustrar sua amada escolinha? Seja lá como for, a princesa será talvez a desejada Pedagogia no jardim do mangue da universidade da maré. E o sorriso é da criança dando primeiros passos no caminho da tradição do Salgado paraense. Por que não? Carece educar o olhar e o sentimento do viajante da paisagem cultural.

Complexidade obriga religar conhecimentos, Edgar Morin seja louvado! A gente desconhece teoria, mas a práxis está à vista. Zenbubuia do planeta água devidamente considerado no casamento do sol com a lua. 

Para alguns, o lago e praia da Princesa prestam homenagem à memória da princesa Isabel lembrada pela Abolição da escravatura. O povo, todavia, considera antes Iemanjá - Nossa Senhora da Conceição no catolicismo popular e religiões de matriz afro-amazônica-, Dona Janaína e outras diversas representações da Mãe dos peixes, dos orixás e das origens de tudo mais no mundo dos viventes: donde vem, em língua tupi, a respeitável palavra Maiandeua ("lugar das mães"), nome de uma das quatro ilhas da área de proteção ambiental (APA) Algodoal-Maiandeua, onde se localizam o lago da Princesa e as dunas doravante Monumento Natural Dunas de Algodoal-Maiandeua. 

A Princesa neste caso é senhora das águas e protetora da maternidade, das crianças, dos idosos e dos pescadoresO carimbó praiano de mestre Chico Braga louva a Princesa sobre todas as coisas, ele que foi grande pescador nos lembra algumas vezes da história de Ernest Hemingway, em "O Velho e o Mar", se encantou na praia da Princesa ao fim da vida repartida entre alegrias e amarguras daquela comunidade ímpar. Chico passou ao outro lado da existência cercado de seus cachorros viralata de estimação, cheio de aguardente - água que passarinho não bebe -; talvez ébrio de diamba, enfim o mestre de carimbó encantou-se para sempre.

Fez a derradeira travessia ao país do sem fim no meio da grande noite, em horas mortas quando os deuses vem a terra dos homens e deu adeus aos amigos seus para se despedir e ir ao encontro da eternidade no reino da Sereia. Estas coisas acontecem, tradicionalmente, no reino mágico de Dom Sebastião. Como diria o antropófago Oswald de Andrade, "fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará"... Segundo o caraíba da "Heresia dos índios" enredado na visitação do Santo Ofício na Bahia, Deus fez o homem para dormir e sonhar. Chico Braga na corte do Rei Sabá dorme o sono eterno e sonha a infinidade peixes da maré no ritmo do carimbó celestial, que nem Mestre Lucindo bardo do Pescador. 

Seu camarada de goles e pescarias Zé Cunterre, tão zenbubuia quanto eu, me contou do pacto fatídico que fez com o briguento Chico Braga quase em vésperas deste último falecer: quem dos dois morresse primeiro, o outro faria cantaria de carimbó de despedida na hora do enterro. Dito e feito. Chico morreu e Zé cantou carimbó novo de despedida do amigo durante cerimônia de corpo presente, na igreja de Nossa Senhora do Algodoal. Chico Braga dizia, "quem bebe morre, quem não bebe morre também". O dito virou refrão na hora do batuque.. Os amigos de bebida e camaradas de fé e profissão, na hora do adeus, bateram curimbó, cantaram, comeram e beberam em memória do morto que foi embora morar em companhia da bela Princesa. 

Já fazia mais de 30 anos que eu não ia mais à ilha do Algodoal. Fui lá a primeira vez com minha senhora já faz tempo e voltamos para espiar a maior lua do século. De fato foi um espetáculo ver a lua cheia em Algodoal! Rever o grande mar Pará contar sua velha história de rumos e velas. Ouvir a voz do Mar-Oceano bravio nas ondas de maré lançante. Confesso que fazia falta a maresia da baia de Marapanim dentro de mim. Deu-me saudades das estórias do amigo Fausto Teixeira e tantos que já se foram daquelas praias mágicas, da viagem que fiz com ele uma vez acompanhado dos colegas Pedro Dias e Raimundo Mendes varando o Furo da Mocooca para Maracanã a fim de voltar a Belém pela estrada. Uma parada no Quarenta e saber que o ônibus - sabe Deus como! - chegava lá na beira do Mocooca... De luz elétrica, APA, telefone e outras modernidades nem se sonhava. Agora quero voltar a Algodoal, muitas vezes, a fim de aprender na universidade da maré passando oras por Marudá e oras pelo Quarenta, enquanto o corpo velho aguenta.


QUER SABER SOBRE A APA ALGODOAL-MAIANDEUA? COPIE E FAÇA BUSCA NA INTERNET.

http://ideflorbio.pa.gov.br/wp-content/uploads/2014/10/Guia_Algodoal_Maiandeua_2012.pdf




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