terça-feira, 8 de novembro de 2016

POEMAS DA ALDEIA

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Aldeia Marambaia, 7 de novembro de 2016



Maruaná, Marudá: 
viagem ao país ancestral.

Imagino-me numa antiga viagem marítima
Sem bússola nem astrolábio ou portulano
De Soure, Portugal até o grande Pará
Através do rio-mar sozinho nas asas da brisa
De Soure do Marajó a Marapanim no Salgado 
A bordo do veleiro 'Utopia' levanto vela amarela
No Fim do Mundo tal qual bela borboleta do mar
Solta ao vento do pensamento ao romper da manhã
Parto sem dizer adeus do porto do sítio 'Ideal' 
Mítica herdade de meu pai caboco
A fim de descobrir quem inventou o mundo...
Que nem outrora meu parente velho canoeiro
João Catumbi solitário com um galo madrugador
À proa da canoa
Rude travessia da baía do Marajó pra ver o Sol nascer Vermelho que nem guará no meio das águas grandes
Incendiadas ao clarão do dia nascente
A velejar sem descanso entre a vila Itaguari
E o Porto do Sal na Cidade Velha.

Imagino minha avó Antônia índia nativa
Da velha aldeia Mangabeira
Dizendo que a avó lá dela quando queria se referir
A tempos de muitas antiguidades 
Falava do tempo da vela de jupati 
Inventada paresque nas ilhas do Caribe distante
Época das grandes migrações do cacique Anakayuri
Travessia de mudareu de ilhéus pra Terra Firme...
Sem saber eis que me vi em sonhos pretéritos
Buscando futuro melhor para esta gente
Criaturada grande de Dalcídio
Eu pescador panema salvo de castigo da Sereia 
Pelo cantar amigo de Mestre Lucindo
Do jupati nosso velho mata fome em forma de pari
E matapi na pesca de camarão pela beirada dos rios 
Peixe de igarapé na evolução natural da gapuia
Tecnologia antiga que ainda por acaso se pode ver
Em tapagens e cacuris
Camboas de gados do rio
Currais piscosos nas beiras de praia do Salgado.

Imagino meu avô galego Chico Varela camponês
De Pontevedra clandestino a embarcar em Vigo
Ou talvez atravessando a fronteira de Portugal
Para Viana do Castelo a se refugiar no Grão-Pará
Na ilha do Marajó na qual ele ancorou sua vida
Para fugir da guerra espanhola dos fins do século XIX
Danou-se o velho a construir em madeira de lei
Um barco chamado 'San Thiago' que nunca navegou para seu dono se não em sonhos
Tal qual a ilhinha do Coati ainda sonha ser
A Cobragrande mãe do rio encantada 
Que se transforma em navio talvez 
Dos turcos encantados com a corte del rei
Dom Sebastião em viagem transatlântica
Do Velho para o Novo Mundo...

Imagino a babel das línguas extintas
Vozes mortas que ressoam no vento de Marudá
Algo me diz do fundo de mim que o povo
Maruaná já fez velas muitas vezes nestes mares
Bravios que se quebram nas dunas de Maiandeua
E nas salinas da Atalaia
Onde igaras e navios aportaram deuses estrangeiros
Para colonizar corações e mentes.

Quem perdeu fé na maré em suas velhas tradições
Açorianas e afroameríndias
Ainda poderá acreditar no prodígio natural da poesia
Que é quase mesma coisa que a felicidade
Do paraíso perdido
Ou a Terra sem males reconquistada 
Pela Ciência & tecnologia da nova ecocivilização
Tropical.






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