quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O DIREITO HUMANO DE MATAR A FOME PARA VIVER FELIZ NUMA TERRA SEM MALES.

NOTA Alimentos saudáveis e sustentáveis deverão compor a base do cardápio que será preparado para os atletas e suas respectivas equipes durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016. Bom para eles. Mas bom também para todos os brasileiros. Afinal, a iniciativa Rio Alimentação Sustentável – uma aliança entre 26 organizações coordenadas pela Conservação Internacional e pela WWF – teve a ideia de compartilhar com todos a possibilidade de refeições livres de problemas em suas cadeias produtivas.
Aos brasileiros ficará como legado um diagnóstico dos parâmetros e da oferta de alimentos saudáveis e sustentáveis no Rio de Janeiro e no Brasil. Bem como recomendações para a formulação de políticas públicas para alimentação.
O grupo analisou 15 cadeias produtivas – de carne, cereais, frutas, hortaliças, peixes, leite e derivados, entre outras – e publicou um guia em português e inglês cujo download pode ser feito no site.
Pegue-se, por exemplo, a castanha-do-pará (ou castanha-do-brasil, como é conhecida lá fora). Seus principais problemas de produção, conforme o levantamento da Rio Alimentação Sustentável, são, na área ambiental, a destruição de ecossistemas; na área social, a pressão territorial, as más condições de trabalho, a exploração do trabalho infantil, o trabalho forçado; e na área econômica, a baixa produtividade, o baixo poder de negociação dos produtores, problemas de armazenamento que incorrem na contaminação e desclassificação do produto.
Desse ponto, segue uma série de informações úteis para quem não quer consumir produtos de má procedência. Por exemplo, as compras devem privilegiar apenas as castanhas certificadas por instituições como FSC, Fair Trade, Orgânico Brasil, Certificação de Origem do Xingu, ou cuja produção apresente plano de manejo sustentável.
- See more at: http://www.pagina22.com.br/index.php/2014/10/comida-de-atleta-compartilhada/#sthash.Na5Jt4my.dpuf
NOTA Alimentos saudáveis e sustentáveis deverão compor a base do cardápio que será preparado para os atletas e suas respectivas equipes durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016. Bom para eles. Mas bom também para todos os brasileiros. Afinal, a iniciativa Rio Alimentação Sustentável – uma aliança entre 26 organizações coordenadas pela Conservação Internacional e pela WWF – teve a ideia de compartilhar com todos a possibilidade de refeições livres de problemas em suas cadeias produtivas.
Aos brasileiros ficará como legado um diagnóstico dos parâmetros e da oferta de alimentos saudáveis e sustentáveis no Rio de Janeiro e no Brasil. Bem como recomendações para a formulação de políticas públicas para alimentação.
O grupo analisou 15 cadeias produtivas – de carne, cereais, frutas, hortaliças, peixes, leite e derivados, entre outras – e publicou um guia em português e inglês cujo download pode ser feito no site.
Pegue-se, por exemplo, a castanha-do-pará (ou castanha-do-brasil, como é conhecida lá fora). Seus principais problemas de produção, conforme o levantamento da Rio Alimentação Sustentável, são, na área ambiental, a destruição de ecossistemas; na área social, a pressão territorial, as más condições de trabalho, a exploração do trabalho infantil, o trabalho forçado; e na área econômica, a baixa produtividade, o baixo poder de negociação dos produtores, problemas de armazenamento que incorrem na contaminação e desclassificação do produto.
Desse ponto, segue uma série de informações úteis para quem não quer consumir produtos de má procedência. Por exemplo, as compras devem privilegiar apenas as castanhas certificadas por instituições como FSC, Fair Trade, Orgânico Brasil, Certificação de Origem do Xingu, ou cuja produção apresente plano de manejo sustentável.
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A NEGRITUDE MARAJOARA NA GAPUIAÇÃO DO MITO E PESCA ARTESANAL DO PEIXE NOSSO DE CADA DIA.

Antigamente, reza a lenda, existia um único e interminável dia com sol sempre a pino como se fosse o olho do céu que tudo vê fixado no teto do mundo a meio dia. A gente caminhava sem parar atrás dos bichos e da safra de frutas do mato ou gapuiava longos tempos por igarapés, cabeceiras e lagoas em busca do que comer. Então, naquela vida velha sofrida, de repente a boa notícia de que a filha da cobragrande Boiúna ia se casar e que a mãe dela resolveu fazer festa e dar aos noivos a primeira noite do mundo. 

A primeira noite do mundo estava dentro de um caroço de tucumã no fundo do rio. A Boiúna mãe mandou três de seus escravos buscar a noite e eles ao pegarem o caroço de tucumã escutaram zoadas estranhas vindo de dentro da coisa. Não resistindo à tentação de saber do que se tratava, os ditos escravos quebraram o caroço mágico e qual não foi o espanto quando viram uma grande sombra escapar dali como vento forte, com os bichos da noite escapando mundo afora em urros, gritos, pios e gemidos povoando a escuridão e dando espaço à imaginação. O velho sol desceu das alturas foi atar sua rede e dormir pela primeira vez lá no Araquiçaua a sonhar a primeira manhã da Terra sem Males... E a lua nova surgiu na Terra livre de império do trabalho com a reponta da maré. Contrariada pela rebelião dos escravos, a cobragrande os castigou lhes transformando em macacos da noite. Por isto dizemos que os bichos já foram gente e neste mundo tudo é parente.
  
CERTIDÃO DE NASCIMENTO DO GIGANTE BRASIL
Cultura Marajoara e Consciência Negra: o mesmo combate.

Embora dez mil anos contemplem a chegada dos primeiros habitantes do Brasil paleolítico e a certidão de idade original da cultura brasileira estar escrita em cerâmica marajoara conhecida no mundo inteiro contando mais de 1500 anos; apenas há 258 anos tivemos registro escrito em língua portuguesa de existência desta Arte primeva brasílica.

O registro tardio aconteceu na beira do igarapé do Severino tributário da margem esquerda do lago Arari, município de Cachoeira do Arari, na ilha do Marajó; no dia 20 de novembro de 1756, pelo fazendeiro Florentino da Silveira Frade, a serviço do governo colonial português a fim de inventariar fazendas da Companhia de Jesus a ser confiscadas pela Coroa. Por acaso foi feito assim o primeiro registro histórico da descoberta dos tesos (sítios arqueológicos) da famosa Cultura Marajoara, segundo o naturalista da Universidade de Coimbra célebre pela monumental "Viagem Philosophica" (1783-1792), nascido na Bahia, Alexandre Rodrigues Ferreira, em "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (Lisboa, 1783). 

A "Notícia Histórica" foi antecedida por relato anônimo, na metade daquele século, denominado "Notícia da Ilha Grande de Joanes" (cf. Nelson Papavero et al. em "O Novo Éden") largamente coincidente com o segundo texto -- notadamente a respeito do achado do teso do Pacoval acima dito --, para o qual Florentino Frade foi guia prestimoso da viagem do sábio de Coimbra ao Marajó, deixando entrever ser ele mesmo autor da primeira das duas "notícias" mantida em anonimato por razões desconhecidas, mas que se pode conjecturar sabendo o contexto de luta entre as ordens religiosas na Amazônia e o governo do Marquês de Pombal.

O achado histórico de 20 de novembro de 1756 deu-se, por acaso, no teso do Pacoval do rio Arari: a Cultura Marajoara, primeira cultura de classes na Amazônia e portanto arte primeva do Brasil, começou  cerca do ano 400 da era cristã a cabo de pelo menos cinco mil anos de nomadismo ribeirinho na bacia amazônica e litoral das Guianas e Caribe. Na mesma ilha ancestral da amazonidade, no maior arquipélago fluviomarinho do planeta e delta-estuário do maior rio do mundo, o piloto de Colombo, Vicente Yañes Pinzón, em janeiro de 1500, atacou e capturou os primeiros "negros da terra" (escravos indígenas) da América do Sul. Pinzón escreveu "Marinatambalo" ou "Marinatambal" o nome da ilha que teria ouvido dos índios, já os Aruãs que a conquistaram depois de 1300 aos "marajoaras" ou Joanes (Iona) que os antecederam, chamavam a dita ilha de Analau Yohynkáku segundo Ferreira Penna. Não por acaso, o escritor Dalcídio Jurandir deu título a seu segundo romance de "Marinatambalo", publicado como "Marajó".

A "Notícia da ilha grande de Joanes" é o primeiro relato biogeográfico do Marajó. Escrito no espírito das "viagens filosóficas", o olhar do autor recai sobre as riquezas da flora e da fauna a ser apropriadas pela colônia. Do grande rio Babel ou Amazonas se começou falar logo em seguida ao "descobrimento" da América (1492) e a ilha do Marajó Pinzón (1500) a abordou antes de Cabral e de Orellana. Em 1659 o padre Antonio Vieira (carta à regente de Portugal dona Luísa de Gusmão, 11/02/1660) fala do "rio dos Mapuaises" [Mapuá] com dados importantes sobre os povos indígenas chamados geralmente "Nheengaíbas", porventura descendentes das velhas etnias da ilha grande. Vieira descreve a impiedosa caça aos índios pelos colonos para os escravizar e lhes roubar a terra: sabe-se, contudo, que sem aliança com os guerreiros Tupinambás isto não poderia ocorrer. 

Mas, a utopia sebastianista de Vieira termina em fracasso e a pacificação dos rebeldes Nheengaíbas acaba sendo usurpação dos direitos humanos desta velha gente insulana com mais de 1500 anos de cultura nativa e ocupação autônoma do arquipélago. Até hoje o Brasil republicano não quer saber. A capitania hereditária da Ilha Grande de Joannes (1665) deu-se na ruína da missão pacificadora dos Jesuítas expulsos do Pará a primeira vez em 1661, mas ela não foi efetivada se não em 1680 com o primeiro curral de gado, no rio Arari, face ao perigo dos índios bravios (Aruãs e Anajás), desertores e quilombolas que viviam pelos centros da ilha... A malograda Capitania acaba junto com as sesmarias dos padres da Companhia de Jesus: aquela passa para o patrimônio da Coroa e o último barão de Joanes é indenizado e compensado com título de visconde de Mesquitela; aos jesuítas expulsos pela segunda vez e encarcerados em Portugal tomam-lhes as terras e rebanhos para doar aos Contemplados (homens-bons fiéis ao regime colonial luso), os índios "libertos" passam ao domínio de diretores (simples colonos) no famigerado Diretório dos Índios (1757-1798) como que foram "civilizados" por decreto a par de aldeias das missões transformadas em vilas e lugares de nomes portugueses.

Celeiro antigo de mão de obra escrava, peixe e carne para consumo na Cidade do Pará -- entre chuvas e esquecimentos --, o Marajó velho de guerra luta pela cidadania brasileira desde migrações remotas das ilhas do mar do Caribe para a Terra Firme. Compulsão geocultural que explica a história milenar, passando pela Paz dos Nheengaíbas (1659) e Adesão do Pará à Independência (Muaná, Maio de 1823) até os dias atuais da integração sul-americana e de projeção externa do Brasil democrático. 

Em meio a este panorama periférico à margem da história do Brasil, desde 1939, com os romances "Chove nos campos de Cachoeira" e "Marajó" Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, 10/91/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979) deu ao mundo sua "Criaturada grande" como retrato vivo das populações tradicionais da Amazônia, reconhecido o conjunto da obra pela Academia Brasileira de Letras, mediante o Prêmio Machado de Assis de 1972. No mesmo ano, por dedicação à mesma criaturada e no berço ancestral da Cultura Marajoara pré-colombiana, Giovanni Gallo inventava o singular Museu do Marajó. Podemos dizer que os Marajoaras continuam a remar contra maré, há pelo menos 400 anos...

MONUMENTO NATURAL TESO DO PACOVAL
A gente compreende o embaraço das autoridades da Republica Federativa ao lidar com a colonialidade das elites. Mas o povo Marajoara o que tem com isto? O teso do Pacoval é monumento de cultura marajoara que depois de séculos de saque ainda está ao deus dará. A história do sítio Pacoval é vergonha colonial do Povo Brasileiro no Pará junto à foz do maior rio do mundo, um aterro de considerável tamanho e altura sobre terreno alagável construído pelo índio marajoara, no qual existiu no passado milenar aldeia suspensa, cultivo de bananeiras pacovas (donde o nome dado pela população mestiça, de "pacoval"), mandioca de superior qualidade; e cemitério. Onde em camadas superpostas de argila foram encontrados esqueletos em urnas cerâmicas artisticamente trabalhadas com grafismos que se supõe contar a biografia de matriarcas e caciques daquele povo, como informa a arqueologia das terras baixas da América do Sul. De "cacos de índio" (fragmentos de cerâmica) deste e outros sítios, como se fossem sementes de um renascimento impossível, teve começo na antiga fazenda Santa Cruz da missão dos Jesuítas e agora sede do município do mesmo nome, o Museu do Marajó, em 1972, com a sua incrível e contagiante história de resiliência cultural de uma brava gente que resiste apesar do tempo milenar adverso e apesar da colonialidade em plena modernidade de nossos dias.

A arqueologia marajoara ensina como o homem e a biosfera no delta do Nilo amazônico deram parto a uma singular civilização no trópico úmido. A ecologia das águas de mar e rio nas várzeas e campos alagados deu aos primeiros marajoaras capacidade extraordinaria de sobrevivência. A fome e a morte nestas paragens extremas do trópico úmido planetário foram mestras desta resiliente gente sumetida, todo tempo, à ditadura da água em forma de enchentes diluvianas e secas impiedosas. De maneira que seria inteligente de nossa parte ter mais humildade para aprender a sobreviver com essa gente, sobretudo em matéria de segurança alimentar no agroextrativismo familiar na universidade da maré.

ENTRE CHUVAS E ESQUECIMENTOS: A BUSCA UNIVERSAL DA TERRA SEM MAL

Diz a boa consciência que primeiro se deve matar a fome e depois filosofar... Segundo tradição do velho patriarca Abraão, Javé criou o mundo, os bichos e depois o homem tirado do barro do jardim do Éden. Abraão e sua gente deu início à procura da Terra da Promissão, no Novo Mundo pajés-açus do "bom selvagem", tidos e havidos pelos padres católicos como descendentes das Tribos Perdidas do cativeiro da Babilônia; inauguraram a demanda da Terra sem Mal. 

Já na mitologia dos índios nossos parentes da selva na Amazônia, nós somos filhos de peixes mágicos paridos de uma cobragrande-canoa chamada Makará. A tradição de nossos avós brancos é chamada "religião", mas a tradição de nosso avós índios e pretos se chama "mitologia"... Uma mitologia de inferior qualidade, bem verdade; em relação à grande, maravilhosa e universal Mitologia dos gregos em tempos clássicos, donde o pai de todos os deuses foi Zeus e lhe tomaram o nome pagão para representar Deus Pai, Filho e Espírito Santo segundo dogma da Santíssima Trindade editado em Niceia (Turquia), 325 anos depois da vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Em 325, na parte oriental do Império Romano acabou-se a diversidade de igrejas cristãs primitivas em concordata entre bispos canônicos e o imperador Constantino. Às comunidades dissidentes do concílio de Niceia restava a heresia, que aliás deu origem ao cristianismo primitivo com o vigor resiliente das rebeldias naturais... No planeta Amazônia, por acaso, faltava ainda algo como setenta e cinco anos para nascimento pagão da Cultura Marajoara, nossa primitiva civilização. Mas, da Capadócia (Turquia) ainda haveria de vir as mitológicas mulheres guerreiras amazonas para se adonar do grande Uêne aruaco, Paraná-Uassu dos tupis, rio Babel dos portugueses, Marañon dos hispânicos... Os turcos encantados viriam após a morte de el-rei Dom Sebastião na batalha e o reino perdidos no Marrocos. E ainda carece falar do rei do Congo acorrentado em navio negreiro com escravos para fomentar a liberdade dos mocambos da Amazônia africana. Aqui ao meio do vasto mundo Norte-Sul, entroncamento das Índias ocidentais e orientais; não se trata só da mestiçagem dos corpos, mas também dos espíritos.

Prestou atenção às diferenças entre juízos iniciais e finais? Há sempre uma revelação (apocalipse, em grego antigo) prestes a desatar o nó da dilacerante questão: "quem fez o mundo?"... A cabeça pensa e o coração sente, mas a boca fala ou cala o que lhe dá a mente da gente sã ou doente.  Alguém disse que o homem é o lobo do homem... A Fome é mãe e mestra deste mundo sem fundo. Tudo que o homem fez, faz ou fará é primeiramente para matar a fome. Quando saciado, o danado pensa como inventar outros mundos e fundos... O Diabo são os outros, que ainda não pescaram nada, nem comeram coisa nenhuma, nem tem tempo de ócio para jogar conversa fora. Seja cá na academia do peixe frito ou lá fora em Harvard ou na Sorbonne.


NO INFERNO VERDE O NOVO ÉDEN DIALOGA COM VELHOS E NOVOS MUNDOS.

Hoje se sabe que fugindo de guerras, pestes e fomes o homem criou o mercado (Mercado do Peixe, Mercado da Carne e a feira do Ver O Peso, inclusive, no ver o peso que a vida tem). E que, sem dúvida, o mercado não é deus embora muitos gurus da bolsa de valores o tratem como tal que nem oráculos de antigas divindades imperiais... Domesticar o mercado a par da segurança alimentar local e alimentação saudável para todas as classes é exercício de sobrevivência e saúde pública no mundo pós-colonial em busca da utopia republicana da liberdade, igualdade e fraternidade no concerto das nações.

Nos dias de hoje a humanidade filha da animalidade luta para dar um salto na evolução histórica promovendo a economia real com paz e prosperidade para todos. Porém, como ensina a teoria oriental nada é mais mutante que a universidade da maré em seu fluxo e refluxo no rio de Heráclito: um dia é de milagre da multiplicação de pães e peixes, fartura e barriga cheia. Conversa de compadres, cantoria e festa. Noutro é dia da caça e a desgraça de repente vem a cavalo e rouba a última migalha do morador ribeirinho da história das Índias acidentais levando na maré vazante o que sobrou do tempo das vacas gordas nas capitanias hereditárias...

O pensamento ocidental é herdeiro de antigos impérios onde os direitos humanos foram pisoteados por cavalaria e esmagados por carros de guerra em infinitas conquistas territoriais sob poder unipolar escravocrata a serviço não sei de quantos reis e deuses particulares. O deus único Aton, no Egito antigo, há mais de três mil anos inaugurou a história do monoteísmo.

Nós na feira do Ver O Peso, em Belém da Amazônia, academia do peixe frito e universidade da maré, comemos e filosofamos ao mesmo tempo entre nacos de peixe e colheradas de pirão de açaí. Aqui a gente come e fala de tudo, deus e o diabo em discussão a torto e direito. Por força do rádio e da televisão ligados dia e noite fomos lembrados dos 25 anos da queda do Muro de Berlim e daquele tempo horrível em que Estados Unidos e a finada União Soviética pariram a Guerra Fria e o resto do mundo vivia o inferno. 

O YIN-YANG DA DEPRESSÃO GLOBAL 

Quando as novas trombetas de Jericó soaram no dia 9 de novembro de 1989, foi festivamente anunciado o "fim da História". Então, a pax imperial prometida por profetas modernos se não vislumbrava mil anos de venturas a todo orbi terrestre, pelo menos dava como coisa certa algumas décadas do século XXI sem guerras e graves desigualdade entre os povos do mundo endividados aos pés do FMI e divididos por ódios mortais. Apesar das boas novas do fim dos tempos de exploração do homem pelo homem, todavia, um quarto de século se passou e a velha e má história não acabou, nem terminou o apartheid social entre os hemisférios Norte de Sul ou entre ricos e pobres em ambos mundos antípodas.

Pior que dantes, nosso velho mundo desigual e irado, além de guerras sem fim e epidemias assustadoras sofre agora a depressão Yin-Yang da globalização com as consequências negativas da mudança climática por culpa de um consumo doido devastador insaciável de matérias-primas e mão de obra fumada e mal paga. Debalde, desde a década de 1970, cientistas e ativistas ambientais pedem aos governos da Terra que interrompam a corrida ao que parece ser um suicídio coletivo. 

As duas maiores economias mundiais e por isto mesmo as maiores poluidoras do planeta, os Estados Unidos e a China, mantiveram-se surdas às conferências mundiais sobre meio ambiente durante todo este tempo. Mas, como se de repente a pomba da Paz quisesse obrar um milagre, chineses e norte-americanos manifestaram vontade mútua em demolir muros semelhantes ao de Berlim. Produziram eles um acordo bilateral histórico na última quarta-feira, dia 12, para reduzir significativamente suas emissões de poluentes. Será apenas um gesto retórico em direção ao G-20 e à Conferência mundial de meio ambiente em Paris, em 2015? Ou o primeiro passo para a mais profunda mudança na relação histórica entre o Homem e a Biosfera? Só o tempo dirá.

Yin e Yang são dois conceitos básicos do taoismo que explica a dualidade do universo. A xamãs, pajés e babalorixás esta ancestral ideia não é estranha. Corresponde, mais ou menos, ao que os ocidentais chamam a luta entre o Bem e Mal... com a notável diferença que aos orientais é inconcebível que um lado possa vencer o outro, como meu braço direito não pode vencer o esquerdo, ou vice-verso. Diz o ditado popular, uma mão lava a outra e ambas lavam a cara...  São duas forças vitais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é feminino e representa a mãe Terra, o interior, a escuridão, a absorção. O yang é masculino, representa o pai Céu, calor do Sol, luz e atividade.  É da ordem natural das coisas.

Segundo esta percepção oriental cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. Esse complemento existe dentro de si. Assim, nada existe em estado puro, não há atividade absoluta, nem passividade absoluta, mas transformação contínua. Em princípio, a Ciência não tem dificuldade em concordar com este elementar conceito. Além disso, para o taoista qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, a categorização seria apenas conveniência. Estas duas forças, yin e yang, seriam a fase seguinte do "tao": princípio dual gerador de todas as coisas. 

Então, deste ponto de vista dialético elementar, o homem simples do povo pode compreender a crise global das relações entre nações desunidas num planeta único e finito em meio a imperiosas demandas infinitas de consumo e crescimento. Sabe este homem por experiência própria que o melhor bocado não é para quem prepara o prato, muito menos a quem planta, pesca ou extrai o fruto que a natureza dá. 

As ambíguas relações sino-americanas são um exemplo neste sentido. Enquanto a Guerra-Fria arruinava irremediavelmente a cooperação anterior entre Aliados e União Soviética contra o Nazifascismo; Moscou e Washington levaram o mundo à borda do precipício nuclear por motivos ideológicos e econômicos inflexíveis. Já a China comunista e os Estados Unidos capitalista, sem negarem seus conflitos, graças aos líderes chineses principalmente tornaram-se interdependentes econômicos, na imensa bacia do Pacífico, como os dois pratos de uma mesma balança.  Neste momento, entretanto, o equilíbrio instável do mundo em evolução requer novos arranjos produtivos e políticos sob pena de irmos todos à "terceira guerra mundial" que líderes mundiais como o Papa Francisco e Mikhail Gorbachev dizem já estar em curso.

NEGÓCIOS E ÓCIOS DA CHINA
 
O superpovoado planeta China -- com o pragmatismo do socialismo chinês no qual séculos de confucionismo e décadas de marxismo maoista se tornaram carne e unha -- inventou a fórmula mista do mercado público-privado, dito domesticamente "um país e dois sistemas": algo como o made in Brazil carro flex de dois tipos de combustível, podendo levar o veículo adiante conforme à necessidade. 

Deste modo criativo os chineses ganham tempo e acumulam conhecimento e força econômica para deixar definitivamente para trás a dependência colonial. Jogando o jogo global sendo eles ao mesmo tempo socialistas e capitalistas à sua peculiar maneira de ser e estar no mundo, assumem a vanguarda da transição internacional. Poderia o gigante Brasil -- o maior país amazônico do mundo --, com seu cobiçado "espaço vazio"; aprender alguma coisa com a relação dialética e complementar entre a China e os Estados Unidos?

Claro que a brasilidade tem feições próprias. Sem se deixar iludir com mantras geopolíticos típicos do alinhamento automático "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", nem ir atrás de fantasias ideológicas de que a China poderia vir a ser além de parceiro estratégico um incondicional "país amigo". Acho que sim, temos muito a aprender com chineses e norte-americanos. Mas como se aventurar a isto corretamente se nossas universidades, salvo algumas cabeças bafejadas pela sorte, não se interessam sobre o assunto?

Enquanto isto, o império norte-americano supostamente de matriz cristã, se esquece do preceito que diz "quem com ferro fere com ferro será ferido". Versão pós-moderna do ensinamento bíblico poderia enunciar: quem mata por petróleo, pode ser capaz de se afogar em mares de óleo e gás.. Refiro-me ao aquecimento global e sua consequência sobre o clima. 

O país de Tio Sam tendo sua ascensão em lugar do império britânico com as duas grandes guerras mundiais, ultimamente entrou em decadência esgotado de militarismo ilegal e consumo irresponsável. Sem conseguir superar o passado, a outrora florescente e exemplar democracia americana caiu em contradição de uma armadilha plutocrática onde está presa num círculo vicioso de hipocrisia, violência e destruição mundial. Tal qual a Alemanha de Hitler, que outrora consumiu energias vitais do operoso povo alemão; hoje o establishment norte-americano em relação carnal com Sionismo transviado em máquina de guerra faz de Israel um monstro impiedoso e o maior país judeu-cristão no mundo parecer um rebanho estúpido a caminho do abatedouro. Tamanha loucura não vacilar a recorrer à terceira guerra mundial na perigosa ilusão do triunfo total e final do Bem sobre o Mal... 

Mas, a era do Pacífico poderia inventar um futuro menos belicoso e menos sombrio para toda humanidade? Pacifismo e comércio sustentável poderão livrar o mundo contemporâneo das velhas maldições do Mediterrâneo e do Atlântico Norte? Ou apenas será cenário global de novos terrores como a hecatombe atômica de Hiroxima e Nagazaki? E os Países Amazônicos, unidos através de vias transcontinentais através dos Andes e da bacia amazônica, poderiam acelerar a integração sul-americana e caribenha costa a costa, aproximando portos do Atlântico a portos do oceano Pacífico? 

Se os republicanos e democratas conservadores do Congresso dos Estados Unidos desbloqueassem o governo de Barak Obama e liberassem a partir de 2016 política públicas de diminuição da pobreza, dizem analistas, o povo norte-americano teria experimentado algumas medidas socializantes à chinesa pelas camadas mais pobres da opulenta sociedade do desperdício. Na verdade, menos por vontade humana e mais por capricho da natureza, cedo ou tarde o globo terá que aprender a sobreviver com escassos recursos naturais em meio a crescentes demandas socioambientais de uma populações de sete bilhões de bocas que reclamam café da manhã e almoço, pelo menos, todos os dias.

E, portanto, a ONU terá que ser reformada e reforçada com a verdadeira união de todas nações da Terra: o mito da Terra sem Mal será concretizado pelo ideal de uma Ciência e Tecnologia humanitária, pois a mudança do clima é uma questão mundial. Reduzir a emissão de carbono na atmosfera implica no desafio da inovação tecnológica industrial e da produtividade agrícola para produzir e distribuir alimentos a uma população de sete bilhões de pessoas. Aí então a questão da pobreza, da fome, da educação e saúde fica dramática além do que já está. Então, se o Bom Selvagem segundo Montaigne e Rousseau serviu de inspiração para a Revolução Francesa de 1789; no século XXI sua mitologia que levou à invenção da Amazônia, ainda uma vez, servirá à busca de um planeta Terra sustentável para todos (a utopia selvagem onde não existe fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte). Uma Terra humana com metas globais com etapas do Milênio, aos quatrocentos anos da Amazônia, tais como se irá iniciar em 2015.

DOIS MIL ANOS ESPERANDO A TERRA SEM MALES


Multiplicação dos pães.
mosaico (séc. XII), igreja de Chora, Istambul (Turquia)


Esperar não é saber. Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha. Nossos antepassados caraíbas não sentaram à beira do caminho à espera de que a Yvy Maraey (utopia selvagem onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte) lhes caísse dos céus sobre a cabeça. Caminhando e guerreando deram a grande volta de Pindorama e conquistaram a Tapuya tetama (terra Tapuia): deste modo, por necessidade e acaso descobriram o Brasil antes de Colombo, Pedro Álvares Cabral e todos mais descobridores estrangeiros...

Por que os buscadores da Terra sem males se tornaram tão notáveis andejos? Provavelmente, para fugir aos males do império de Cuzco com seu sistema de mitimac (servidão de povos vizinhos dos Andes para glória do Inca), em expansão às "quatro partes do mundo" chegando até à floresta amazônica do Peru e região do Chaco, através da Bolívia. Só desejamos o que não temos... No outro lado da Terra outros povos também, há muito mais tempo, procuravam achar o paraíso terreno e fugiam ao império da fome, da escravidão, das misérias da vida e do medo da morte... 

Através da história dos antigos hebreus na Bíblia não se esquece como povos de pastores nômades em busca da Terra Prometida, diversas vezes e muitas gerações, entraram em conflito com os mais velhos habitantes dos lugares cobiçados, que nem na guerra pré-colombiana de nossos antepassados guaranis e tupis em luta contra inúmeros tapuias que toparam no caminho para a mítica Yvy Maraey. Isto nos lembra o drama da Palestina. Muitas vezes, o paraíso invejado e conquistado com sangue e morte se transformou como maldição em inferno ou purgatório, às vezes até mesmo em mãos de próprios pais e irmãos dos conquistadores. Ou, pior castigo, foram impérios estrangeiros que vieram depois trazendo violência, escravidão e morte.

Diversos impérios antigos, vencidos em guerra; deram lugar ao império grego de Alexandre e Roma dominou a antiga Grécia e suas colônias. Na Galiléia marginalizada duplamente por Jerusalém e Roma surgiram comunidades dissidentes, como a dos Terapeutas ou Essênios ("separados") que de longe nos lembram a pajelança indígena, onde João Batista foi um dos principais mestres. Essas confrarias eram comunistas de feição teocrática. Cristãos primitivos aparentemente foram discípulos dos Terapeutas, que com a morte de João Batista pelos fariseus dominantes de Jerusalém passaram a seguir o rabi Jesus de Nazaré, um carismático terapeuta segundo o historiador francês Ernest Renan.

Os nazarenos formaram uma comunidade revolucionária para o tempo em que viveram e já sabemos como a higiene corporal e a alimentação saudável eram sagradas para eles em relação ao Pai celestial, falavam aramaico, idioma semita onde "pai" ou "mãe" são expressos com a mesma palavra. De modo que o Pai nosso também poderia ser Mãe nossa...Deus ou Natura, de Espinoza? Naturalmente comunidades nazarenas atraiam perseguição dos poderosos e bem aquinhoados de bens materiais. Após a morte de Jesus, patriarcas cristãos fundaram igrejas primitivas e passaram a pregar as Boas Novas confrontando o mundo helenizado e romano. Diversos profetas foram vistos como o esperado Messias (Cristo). Jesus Nazareno deixou uma mensagem muito simples dirigida aos "últimos" da Terra (escravos, pobres, discriminados e marginalizados de todo mundo), dizendo-lhes que seriam os primeiros a entrar no reino dos céus. 

Seu suposto irmão de sangue ou de fátria, Tiago; radicalizou o Sermão da Montanha na carta às Tribos perdidas, dizendo ele ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no céu cristão. Fatos reais e miraculosos passavam rapidamente de boca em boca atraindo novos adeptos atraídos principalmente pelo modo comunal das igrejas primitivas.

Milagres atribuídos a Cristo se espalhavam rapidamente. E já sabemos que quem conta um conto aumenta um ponto.. Um dos mais conhecidos prodígios do Nazareno ficou chamado mundo afora como "milagre dos cinco pães e dois peixes", fornecidos por um menino e utilizados por Jesus para alimentar a multidão. De acordo com os Evangelhos canônicos, Jesus ouviu dizer que João Batista estava morto. Então ele se afastou numa embarcação com alguns discípulos para Betsaida. Mas a multidão seguiu Jesus a pé a partir de aldeias da região. Quando Jesus desembarcou viu grande quantidade de gente esperando por ele, compadeceu-se e curou doentes. A noite vinha e os discípulos disseram: "Este lugar é deserto e a hora é já passada; despede, pois, as multidões, para que, indo às aldeias, comprem alguma coisa para comer.". Jesus respondeu: "Não precisam ir; dai-lhes vós de comer.". Os discípulos retrucaram: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes" e Jesus pediu-lhes que os entregassem.

Mandou o povo sentar na grama e tomando os cinco pães e dois peixes agradeceu e partiu os pães e deu aos discípulos e estes repartiram com o povo. Todos comeram e se satisfizeram, sobrando ainda aos discípulos doze cestos com pedaços de pão. Nossa mente racionalista pode entender esta velha história como uma das inúmeras metáforas da literatura bíblica. O número dos que comeram era de cinco mil homens, mulheres e crianças. Claro que os milagres fazem parte fundamental da cultura evangélica. Aliás, sabendo um pouco de antropologia daquelas regiões pode-se compreender que além do menino outros seguidores teriam também algo guardado para comer na caminhada. O que ressalta no milagre da multiplicação dos pães e peixes é a partilha do pouco que reunido se torna muito... Para a história, de um modo ou outro, é significativa a necessidade que a humanidade tem em se alimentar de pão e de esperanças. Nem só de pão vive o homem, dizia o mesmo mestre da Galileia.

O MONTE OLIMPO DÁ VOLTA AO MUNDO

Então, não disseram que Zeus estava morto? O ideal grego de corpo e mente saudável se expressa pela beleza física e pela ética. A antiga Olimpíada é modelo para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos modernos. Estes últimos estão além dos desvios da Eugenia que deu asas ao racismo. O Rio de Janeiro em  2016 será uma imitação tropical da velha Olimpíada em homenagem aos deuses do Monte Olimpo. 

Bom para todos brasileiros, atletas ou não; pois o evento traz a iniciativa Rio Alimentação Sustentável – uma aliança entre 26 organizações coordenadas pela Conservação Internacional e pela WWF – que teve ideia de compartilhar com todos a possibilidade de refeições livres de problemas em suas cadeias produtivas. Ficará como legado das Olimpíadas um diagnóstico dos parâmetros e da oferta de alimentos saudáveis e sustentáveis no Rio de Janeiro e no Brasil, com recomendações para políticas públicas sobre alimentação. O grupo analisou 15 cadeias produtivas – de carne, cereais, frutas, hortaliças, peixes, leite e derivados, entre outras – e publicou um guia em português e inglês. A segurança alimentar casada com o direito humano à alimentação saudável é uma revolução que todo mundo reclama.

Assim como Zeus pagão foi convertido em Deus de todos os crentes para salvação de todo mundo cristão ou não; também o deus Mercado precisa ser domesticado para o bem de toda humanidade. Para viabilizar esta demanda planetária, os líderes do G-20 não podem mais fingir que não é com eles que os povos da Terra estão falando.  A erradicação da fome, em primeiro lugar; não pode ser separada da oferta de alimentos livre de agrotóxicos nem dependentes de faraônicos sistemas de armazenamento, condicionamento e transportes onerosos que visam lucro de empresas transnacionais acima de tudo. Afinal o lucro não deve ser demonizado, mas precisa ser justo e aceitável. 

Que nem o milagre dos pães e dos peixes, alimentos "milagrosos" como a soja, por exemplo; não devem ser monopolizados e privatizados com impactos severos ao meio ambiente. Ao contrário, fontes alternativas de alimentos regionalizados precisam ser estimuladas com a modernização tecnológica casada à tradição da agricultura familiar. Não é por que é familiar que deva ser pobre e atrasada presa à roça pelo rabo da enxada.


O mundo já acabou com as lavouras tradicionais de milho e soja que hoje 80% são transgênicas. O trigo nativo nunca fez tão mal a ninguém. Salmão de cativeiro se alimenta de ração e é colorido artificialmente. O chocolate não tem mais cacau, o leite perdeu nutrientes dentro de uma caixinha. A industrialização é comparável a um grande comboio ferroviário que descarrilhou... E a Natureza esgotada já não consegue dar a quantidade exigida pelo mercado em condições naturais. A indústria quer mais e mais lucros, mas cada alimento tem seu ciclo, cada região produz seu alimento, essa equação se torna cada vez mais inviável. A urbanização tornou-se um caos imensurável e a humanidade filha da animalidade tornou-se estranha a si mesma.Cebola www.kavewall.com
O marketing do consumo nos faz acreditar que “precisamos” crescer e crescer sem fim. A ditadura do PIB (produto interno bruto) gera uma competição absurda entre economias de diferentes países, ninguém informa qual é o país mais feliz do mundo, mas todo mundo sabe qual é o mais desenvolvido... Mas, o tal Mercado (grupo de poucos bilionários) preconiza o capitalismo para todos, prometendo uma boa fatia do bolo global aos pobres da Terra que forem esforçados ao lado do Bem e renunciarem ao Mal.

A alimentação saudável e segurança alimentar está em pauta. Nós "temos" a Quinua, o Amaranto, a Chia, as Goji Berry que são ótimos alimentos, mas aveia, pimenta, abacate, brócolis, arroz, os vários feijões, cebola, etc. também são excelentes alimentos e tem vantagem de estar mais perto de consumidores brasileiros e ser financeiramente acessíveis. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste outros produtos podem corresponder às necessidades básicas regionalizadas, porém a ditadura do mercado comete absurdos, como, por exemplo, frangos e ovos de granja chegar mais barato no interior de que galinha caipira produzida localmente. Trata-se, por certo, de um problema de leniência das autoridades do planejamento econômico regional em nome do sacrossanto princípio liberal, "deixar fazer, deixar passar".

Já existem estudos que apontam que a Goji Berry em quantidade faz mal ao fígado. A soja apontada como boa para a saúde, é consumida fermentada pelos japoneses e não em sucos como se vende no mercado brasileiro. A Quinua, o “milagre dos Andes”, não é acessível a pobres no Perú e Bolívia, que a tinham como fonte alimentar. De acordo com a FAO, a quinoa é um dos melhores alimentos de origem vegetal, e pode combater carências nutricionais em países mais pobres. 

Felizmente, ao combater contradições do mercado, está nascendo uma consciência socioambiental que diz que o "bom alimento" tem que ser bom a quem planta, a quem consome e para o Planeta. Não podemos tirar o pão da boca de uns para matar a fome de outros. A prioridade sempre deve ser dos alimentos locais e regionais. Na Amazônia da belle époque da borracha sabe-se ultimamente que o açaí tem de 10 a 30 vezes mais antocianinas. É preciso mais atenção ao valor nutricional de “alimentos milagrosos” que se acham perto de nossas casas.

 A castanha do Pará, por exemplo, seus principais problemas de produção, conforme o levantamento da Rio Alimentação Sustentável, são, na área ambiental, a destruição de ecossistemas; na área social, a pressão territorial,  más condições de trabalho, exploração de trabalho infantil, trabalho escravo; e na área econômica, a baixa produtividade, o baixo poder de negociação dos produtores, problemas de armazenamento que incorrem na contaminação e desclassificação do produto. Na contradição entre o marketing dos "alimentos milagrosos" e a leniência dos governos locais, estaduais e federal inibidos pelo guião neoliberal; resta o vácuo que atrai organizações não-governamentais nem sempre confiáveis.

Na contramão da ordem neoliberal, organizações multilaterais como a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), reconhecem a contribuição da agricultura familiar na preservação ambiental, na erradicação da pobreza e na promoção da segurança alimentar e nutricional. Numa palavra, na domesticação do mercado. Não necessariamente, a agricultura familiar precisa ser hostil ao agronegócio, mas o agronegócio para conservar seus clientes precisa respeitar a agricultura familiar e dialogar com a extensão técnica em busca de alimentos saudáveis em escala internacional observadas pelas regras da OMC, mas também pela OMS.
 
A declaração da Celac sobre Agricultura Familiar reconheceu o Plano para a Segurança Alimentar e Nutricional e Erradicação da Fome até 2025 na Comunidade. Segundo o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Raúl Benítez, 80% dos produtores rurais da região que abrange a América Latina e o Caribe são da agricultura familiar e cerca de 70% dos alimentos consumidos vem deste setor importante do mercado. “Estamos disponíveis para que possamos gerar nações livres da fome. Acredito que possamos ser a última geração a ter convivido com a fome e a pobreza nessa região”, observou.
A Reunião Ministerial sobre Agricultura Familiar é promovida pela Celac, Governo Federal e FAO, em Brasília, contou com representantes do Haiti, Guiana, Granada, Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Colômbia, Chile, Bolívia, Argentina, Cuba, Antígua e Barbuda, Brasil, Equador, Venezuela, Uruguai, Suriname, República Dominicana, Panamá, Paraguai, Nicarágua, Honduras e México. O evento terminou no dia 12/11 voltado para o Ano Internacional da Agricultura Familiar, Camponesa e Indígena.
NOTA Alimentos saudáveis e sustentáveis deverão compor a base do cardápio que será preparado para os atletas e suas respectivas equipes durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016. Bom para eles. Mas bom também para todos os brasileiros. Afinal, a iniciativa Rio Alimentação Sustentável – uma aliança entre 26 organizações coordenadas pela Conservação Internacional e pela WWF – teve a ideia de compartilhar com todos a possibilidade de refeições livres de problemas em suas cadeias produtivas.
Aos brasileiros ficará como legado um diagnóstico dos parâmetros e da oferta de alimentos saudáveis e sustentáveis no Rio de Janeiro e no Brasil. Bem como recomendações para a formulação de políticas públicas para alimentação.
O grupo analisou 15 cadeias produtivas – de carne, cereais, frutas, hortaliças, peixes, leite e derivados, entre outras – e publicou um guia em português e inglês cujo download pode ser feito no site.
Pegue-se, por exemplo, a castanha-do-pará (ou castanha-do-brasil, como é conhecida lá fora). Seus principais problemas de produção, conforme o levantamento da Rio Alimentação Sustentável, são, na área ambiental, a destruição de ecossistemas; na área social, a pressão territorial, as más condições de trabalho, a exploração do trabalho infantil, o trabalho forçado; e na área econômica, a baixa produtividade, o baixo poder de negociação dos produtores, problemas de armazenamento que incorrem na contaminação e desclassificação do produto.
Desse ponto, segue uma série de informações úteis para quem não quer consumir produtos de má procedência. Por exemplo, as compras devem privilegiar apenas as castanhas certificadas por instituições como FSC, Fair Trade, Orgânico Brasil, Certificação de Origem do Xingu, ou cuja produção apresente plano de manejo sustentável.
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COLONIALIDADE DO FIM DA HISTÓRIA

Na Europa, o ano de 1848 marcou a emergência de um novo sujeito histórico: a classe trabalhadora. A partir daí, o pensamento da direita, enraizado no capital, entrou em declínio considerada como a decadência da burguesa. Todavia, a queda do Muro de Berlim se apresenta como triunfo absoluto do neoliberalismo e o capital mostrou nos últimos séculos “uma sobrevida, uma capacidade de autoperpetuação e reprodução inimagináveis”. Portanto, qualquer ideia de libertação ou emancipação é considerada como utopia ou recaída tardia às tendências socialistas de constituição de um mundo onde todas as pessoas possam viver bem em todos os níveis, não só material, mas também no cultural. “O capital não é algo material. Pelo contrário, é uma relação social. Porém, ele ganha uma autonomia, como se tivesse uma vontade própria, construindo um ser humano adequado a ele. Portanto, o fato de um shopping center se tornar um lugar de lazer no fim de semana é um símbolo maior dessa alienação que se dá no nível do consumo. Logo, a alienação não se dá apenas na fábrica, na indústria: ela atinge a todos, mesmo os que não atuam, no chão de uma fábrica”.


Ao superar a concepção do capitalismo apenas na relação de trabalho, Vaisman argumenta que, atualmente, sofremos um processo de manipulação em nível mais amplo, não só como consumidores, mas na família, nas relações de amizades e amorosas. Nesse cenário, o pensamento de direita se prolifera.
“A manipulação [do capital] é um processo que atravessa todas as relações humanas. Por isso, o pensamento de direita tem galvanizado tantas atenções e tem obtido tanto apoio ao redor do mundo. Com a derrota soviética no leste europeu, não se vê uma perspectiva à esquerda. E a única alternativa que está posta para muitas pessoas é ditadura, é a direita.  [...] O culpado é sempre o imigrante, o culpado é o ocidente, o islã. Sempre uma busca por um bode expiatório. É impressionante como essa faceta da história se repete” [ cf. Lukács: Estética e Ontologia, editora Alameda].

Em sua "Décima primeira carta às esquerdas: extrativismo ou ecologia?", Tal como acontece com a democracia, só uma consciência ecológica robusta, anticapitalista, pode fazer frente com êxito à voragem do capitalismo extrativista. Ele afirma que as esquerdas se debatem no início do terceiro milênio com dois desafios principais: a relação entre democracia e capitalismo; o crescimento econômico infinito (capitalista ou socialista) como indicador básico de desenvolvimento e de progresso. 

Nesta carta, centrou-se ele no segundo desafio. Antes da crise financeira, a Europa era a região do mundo onde os movimentos ambientalistas e ecológicos tinham mais visibilidade política e onde a narrativa da necessidade de complementar o pacto social com o pacto natural parecia ter uma grande aceitação pública. Surpreendentemente ou não, com o eclodir da crise tanto estes movimentos como esta narrativa desapareceram da cena política e as forças políticas que mais diretamente se opõem à austeridade financeira reclamam crescimento econômico como única solução e só excepcionalmente fazem uma ressalva algo cerimonial à responsabilidade ambiental e à sustentabilidade. 

Ora, o modelo de crescimento que estava em vigor antes da crise era alvo principal da crítica dos movimentos ambientalistas e ecológicos precisamente por ser insustentável e produzir mudanças climáticas, que segundo dados da ONU seriam irreversíveis a muito curto prazo, segundo alguns, a partir de 2015. O desaparecimento rápido da narrativa ecológica mostra que o capitalismo tem precedência não só sobre a democracia como também sobre a ecologia e o ambientalismo.

Aí estão as secas, inundações, crise alimentar, especulação com produtos agrícolas, escassez crescente de água potável, grilagem de de terras agrícolas para agrocombustíveis, desmatamento das florestas. Paulatinamente, vai-se constatando que os fatores de crise estão cada vez mais articulados e são afinal manifestações da mesma crise, a qual, pelas suas dimensões, se apresenta como crise civilizatória.

A fatalidade da troca desigual de matérias primas sempre menos valorizadas por produtos manufaturados, acorrentara países da periferia mundial ao desenvolvimento dependente, que permitiu que as forças progressistas,  antes vistas como “inimigas do desenvolvimento”, se libertassem desse fardo histórico. Transformando o boom numa ocasião para realizar políticas sociais e redistribuição de rendas.  As oligarquias e setores avançados da burguesia perderam parte do poder político, mas, em troca, viram aumentado seu poder econômico. Os países mudaram  tendo como base o neo-extrativismo.

Seja como for, este neo-extrativismo tem na sua base a exploração intensiva dos recursos naturais e, portanto, levanta o problema dos limites ecológicos (para não falar nos limites sociais e políticos) desta nova (velha) fase do capitalismo. Isto é tanto mais preocupante quanto é certo que  este modelo de "desenvolvimento" é flexível na distribuição social mas rígido na sua estrutura de acumulação. As locomotivas da mineração, do petróleo, do gás natural, da fronteira agrícola são cada vez mais potentes e tudo o que lhes surge no caminho e impede o trajeto tende a ser trucidado enquanto obstáculo ao desenvolvimento. 

O brilho do curto prazo ofusca as sombras do longo prazo. Enquanto  o boom configurar um jogo de soma positiva, quem se lhe interpõe no caminho, é visto como ecologista infantil, ou camponês improdutivo ou indígena atrasado e, é muitas vezes objeto de suspeição enquanto "populações facilmente manipuláveis por ONGs sabe se lá ao serviço de quem", alerta o sociólogo português de Coimbra.
(*) Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Artigo originalmente publicado em Carta Maior


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