sexta-feira, 28 de novembro de 2014

DO NOSSO 'CAMPUS' DA UNIVERSIDADE DA MARÉ PARA O BRASIL E O VASTO MUNDO.


DOCA DO VER-O-PESO, ANTIGO IGARAPÉ DO PIRY -  REPÚBLICA POPULAR DA CRIATURADA GRANDE DE DALCÍDIO, "CAMPUS" DA UNIVERSIDADE DA MARÉ E REITORIA CABOCA DA ACADEMIA DO PEIXE FRITO.


28 de Novembro de 2014, 133º aniversário de nascimento de Stefan Zweig,
célebre autor de "Brasil, o país do Futuro".

uma cabanagem poética a fim de participar dos 400 anos da capital morena do Pará, pela margem esquerda da História do Brasil: 397 da revolta geral Tupinambá do Maranhão e Grão-Pará e 181 da tomada de Belém pelos ribeirinhos revolucionários.


Meus amigos de fé, irmãos camaradas preparem suas armas festeiras para luta de reconquista do maior país amazônico do mundo, fátria Brasil sob pavilhão do Cruzeiro do Sul, Arapari outrora das velhas nações tapuias: vamos pelejar contra o império da desmemória pelo amor ao que é nosso por direito humano ancestral. 

Vamos lutar pra valer contra todas e quaisquer drogas dormideiras físicas ou mentais que roubam a energia humana e castram a emoção natural desarmando o espírito nativo de nossa gente no lar, no bar, na escola, na igreja ou seja lá onde for. Masporém, não se esqueçam: a batalha é árdua e arriscada. Primeiramente, carece lutar contra nossa própria "sombra" (ignorância): a colonialidade invencível da catequese imposta por nossos colonizadores do passado e presente. 

Para não perder a guerra da Independência, mais uma vez; devemos nos instruir em educação ribeirinha continuada (onde todos somos cabocos saídos da mitologia antiga e moderna da grande Floresta Amazônica, alunos e professores uns dos outros ao mesmo tempo) a respeito dos primeiros povos brasileiros e regiões brasileiras pré-1500. 

Ou não reclamem mais da invasão cultural do Brasil varonil por modos de ser e existir estranhos, valores e costumes alheios à civilização tropical brasileira. Mundialização sim, globalização não! Aprendamos a ver o peso das diferenças entre a fraternidade e a opressão que vem vestida com pele de cordeiro e boas falas.

Sim! Civilização tropical brasileira pelo curso milenar do grande Nilo amazônico (leiam o indispensável "Rio Babel - a história das línguas na Amazônia", do douto amazonense José Ribamar Bessa Freire) e estudem a obra da arqueóloga gaúcha Denise Shaan sobre a invenção da primeira cultura complexa das regiões amazônicas, cerca do ano 400.

Por extensão, se estará recordando desde já a criação original da Arte primeva do Brasil, a famosa e desconhecida ainda Cultura Marajoara que está na raiz da brasilidade desde Macunaíma e outros mitos seminais da amazonidade nacionalizada em São Paulo, cem anos depois da Independência, na Semana de Arte Moderna de 1922. 

Escolham de que lado estar na festa belenense de 2016: do lado dos sumanos cabanos ou dos barões caramurus, mas confrontem-se na boa, em batalhas de confete, façam amor. Não façam a guerra do fim do mundo e apostem sempre em negócios da paz para além do país do futebol e do carnaval. 

Gerentes culturais ensinam gestão e financiamento à gente das margens do sistema. Isto é importante, mas não basta: fundamental é criatividade e concretude dos artistas e intelectuais que não comem apenas peixe frito e açaí para desenvolver seus talentos.

o futuro chegou sem bater a porta, entrou e se abancou como dono da casa sem nunca por acaso perguntar: tem gente?

O diabo é a colonialidade: e já se sabe que a colonialidade é pior que o colonialismo... O Brasil não era pra ser país do Futuro? Pois, então, o futuro que chegou está aí bem debaixo do nosso nariz... Talvez não tão bacana como a Modernidade queria, talvez o tempo esperado por nós da terra tapuia tenha vindo a pé pelo caminho do Maranhão em busca da Terra sem Males ou ele veio à vela de jupati, remo e montaria com as antigas migrações das ilhas do Caribe para a terra firme através das portas do Oiapoque.  

Quem sabe? Noves fora algum iluminado pesquisador em seu pequeno círculo acadêmico, ninguém mais sabe nadinha desta nossa vida ribeirinha tão antiga... Assim a história da gente fica ilhada entre chuvas e esquecimento. 

O caboco nosso irmão, trazendo peixe nosso de cada dia, fica à espera de maré enchente a bordo de igarité geleira encalhada na doca do Ver-O-Peso a ver navios e o voo astuto dos urubus, durante a maré seca olha, mas não vê o passar das horas na praça do Relógio em face à doca: todas ferem e a derradeira mata. 

Ele nem imagina que aqui, outrora, era o lugar que franceses e portugueses, cada um por sua vez, escolheram para fundar a civilização ocidental no chamado "rio das Amazonas". E o pobre está bem na boca do Igarapé do Piry que atravessava a praça para dentro da Cidade pelas avenidas Portugal e 16 de Novembro (data da República, que chegou atrasada no Pará não apenas um dia no calendário oficial, mas pelo menos há 54 anos, com base em 1835, ano da ocupação de Belém pelos cabanos, muitos deles egressos com as tropas paraenses da ocupação de Caiena; contagiados do ideal republicano). 

Ninguém ali a sua ilharga, além de radinho de pilha made in China para escutar tecnobrega e "distrair" a cabeça; a lhe dizer que o Igarapé do Piry fazia furo com o Juçara formando pelo braço direito a ilha da Cidade Velha e pelo braço esquerdo o lago que dava para o lado da Campina e saltava em terra firme para o Caminho do Maranhão. 

Este caminho tão largo e profundo da invenção da Amazônia pelos primeiros brasileiros antes do português Duarte Pacheco Pereira, do espanhol Vicente Pinzón, de Orellana e Carvajal ou mesmo do francês La Ravardière, fundador da França Equinocial desde São Luís até Cametá...

o Bom Selvagem na Terra dos Tapuias ou a negritude além da melanina mesclando índios, casais dos Açores e filhos do Congo

Talvez o verdadeiro futuro da humanidade seja a mestiçagem física e cultural, porém sem lesar a diversidade seja ela biológica ou espiritual: negritude além da melanina; quando no cadinho tupiniquim nossos pobres e malvados avós brancos desterrados da velha e endemoniada Europa se asilaram no país dos Brasis a fugir de cruéis perseguições do velho mundo e misturaram-se a "negros da terra" e da Guiné. 

Estava, assim, gestado o bravo povo brasileiro do Oiapoque ao Chuí, da Paraíba sertão adentro até a serra do Roncador. Quem quiser que faça outro se achar que somos feitos de gente ruim.

Estão lembrados onde Stefan Zweig terminou de escrever sua obra memorável a respeito do Brasil brasileiro antes dele se matar em Petrópolis? Até ali a capital do Pará lembrava tão-só Belém de Judá e ainda estava longe o dia em que ela se tornaria também cidade-irmã de Belém da Palestina, com seu monumental Theatro da Paz querendo ou não esquecer a vergonha da guerra neocolonial no Paraguai a dar lugar à paz amazônica para todo mundo.

Todavia, Henri Coudreau já havia profetizado, na virada do século XX, "L'Avenir de la capitale du Para", rainha das águas quentes da América do Sul... O geógrafo francês morto em terras de quilombo no Trombetas atirou no que viu e acertou no que não viu. Era preciso antes a civilização Paris n'América ir a pique no naufrágio da Belle Époque para, finalmente, o mundo inteiro descobrir que o descobridor do "rio das Amazonas" desapareceu no Pará engolido talvez pela cobragrande como todos mais conquistadores. 

Mas o payaçu Antonio Vieira e o jesuíta João Daniel deixaram pistas curiosas ao verdadeiro tesouro encontrado no rio Amazonas. Ironia da história, o autor da "História do Futuro" foi condenado pela Inquisição do Santo Ofício por professar "heresia judaizante" que ele proclamou em carta secreta datada da aldeia Camutá-Tapera (Cametá). 

Que heresia era aquela, no século XVII que, por fim, de derrota em derrota quer ser o triunfo evangélico no século XXI? A utopia evangelizadora com estranhas semelhanças ao Evangelho de Jesus Cristo dos começos dos tempos históricos da cristandade pregadas às tribos perdidas do rio Babel... 

E agora o sucessor do Pescador na antiga Roma imperial dizendo coisas e loisas que ressoam como eco distante dos sermões do padre grande dos índios do Maranhão e Grão-Pará. Por acaso, no século XX um judeu refugiado diante do Nazismo e que diante do mal iria cometer suicídio na cidade imperial do dito "país do futuro"; colocou selo amazônico a sua obra no mesmo cenário do padre censurado por heresia judaizante (utopia sebastianista da paz entre todos filhos e filhas de Abraão).

"Desde a adolescência ansiei por ver o Amazonas, o rio mais caudaloso, desde a adolescência, desde que pela primeira vez li alguma coisa acerca de Orelhana, que, na mais memorável de todas as viagens, foi o primeiro a descê-lo numa pequena canoa, partindo do Peru — desde a adolescência, quando no Jardim Zoológico de Viena vi os papagaios que ostentavam o brilho de suas cores, e os ágeis macaquinhos, e li nas tabuletas: Amazonas. Agora me acho na foz do Amazonas, ou melhor, numa das suas fozes, das quais cada uma é mais larga do que a de qualquer dos nossos rios da Europa." — Stefan Zweig, "Brasil, País do Futuro".

Stefan Zweig (Viena, 28/11/1881 — Petrópolis, 23/02/1942)) foi um escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo de origem judaica. A partir de 1920 até a morte foi um dos escritores mais famosos e vendidos do mundo. Suicidou-se durante seu exílio, deprimido com a barbárie nazista na Europa durante a II Guerra Mundial. 

A obra "Brasil, país do Futuro" foi dedicada ao ditador Getúlio Vargas que namorou o fascismo e cortejou Hitler inclusive com a inominável entrega de Olga Benário a seus carrascos. A crítica recebeu pessimamente o livro e a maioria de refugiados de ascendência judaica preferiu a América do Norte: na solidão de sua escolha pela América do Sul, Zweig se matou. Mais tarde, acossado pelos inimigos da Independência brasileira, Vargas também se matou na solidão do palácio do Catete. De sorte que estes dois suicídios -- o intelectual judeu da escola sociológica de Frankfurt e o caudilho gaúcho descendente de imigrantes espanhóis -- ainda pesam sobre o destino do Brasil e querem nos dizer alguma coisa sobre o tempo que há de vir. 

a mudança não virá do Planalto, mas da Planície 

Século XXI, século da ecologia e dos direitos humanos, também há de ser o século da Amazônia: portanto, da reconquista do Brasil brasileiro, maior país amazônico do mundo. Quem quiser que venha ver, cada um de cada vez... O Museu Paraense Emílio Goeldi é um bom portal para começar a redescoberta da Amazônia (ver onde o viajante Zweig se deslumbrou com aquela árvore que anda, por exemplo). Que dirá disto a Ciência e Tecnologia depois que a Poesia já deu o veredito? Não só de pão e peixe vive o Homem...

Em 2014 -- a caminho do bicentenário da Independência e dos 200 anos do grito de independência das letras nacionais na Semana de Arte Moderna, a ocorrer em 2022 -- ouvimos às margens plácidas do Guajará, o eco retumbante das periferias do Brasil a proclamar: "A mudança não virá do Planalto, mas sim da Planície"... 

Por falar nisto, no vindouro dia 12 de janeiro de 2016 será comemorado o 400º aniversário de fundação de Belém do Grão-Pará. Vale dizer, doravante, Belém da Amazônia. A mudança esperada pelo mundo e pelo povo brasileiro pode começar agora em qualquer parte. 

Pode já ter começado há muito tempo nas lutas brasileiras da Independência e da República... A revolução francesa repercutiu em Minas Gerais imediatamente e o mártir da Inconfidência nos deixou o legado republicano do estandarte mineiro com seu dístico histórico LIBERTAS QUAE SERA TAMEN. Durante a resistência à ditadura de 64 traduzia-se, picaramente, o latim sisudo da Inconfidência pela irreverência suburbana carioca de um subversivo Libertas e serás também... 

Claro está que o senhor se torna viciado e dependente do trabalho escravo de seus cativos: liberdade é ambivalente e toda liberdade implica responsabilidade. 

A história social dos Estados Unidos, por exemplo, mostra isto nas relações entre o Norte inventivo e o Sul escravagista. O Pará supostamente moderno é campeão de desmatamento da Floresta Amazônica e de trabalho escravo em pleno século XXI. O século das Luzes lançou aqui terríveis trevas em nome da liberdade dos índios, cuja privação de liberdade e extinção da babel linguística foi cometida antes em nome de Deus e do Reino.

Olhando a foto da doca do Ver O Peso (acima) dá margem a sonhar com a liberdade... A viajar em quatrocentos anos de história -- a geografia esconde as consequências -- aí o antigo Igarapé do Piry ocupado pelos colonizadores e aterrado à força de trabalho escravo com carradas de piçarra, pedra de granito extraída na pedreira do Guamá e asfalto ultimamente sobre a linha do bonde. A boca do Igarapé do Pery era fronteira entre a Cidade e a Campina que hoje se misturam na feira e nos dois mercados.

Quem sabe o amanhã do Ver-O-Peso? Se não o Igarapé antigo refeito e a ilha da Cidade Velha restaurada na Veneza amazônica, pelo menos a revolução poética se empoderando dos 400 anos com o sonho de uma marina pública maneira entre a feira do açaí e o mercado do peixe. Onde barcos faceiros com suas fortes cores equatoriais e nomes evocativos da geocultura das ilhas tragam frutos regionais e levem passageiros de um esperto turismo de base na comunidade em economia solidária, na margem esquerda do rio. 
 
Não mais de peixe "fresco" a Pedra e pixé de urubu malandro sobre tijuco e carniça na maré seca, mas o ar cheio de graça de garças e guarás soltos desde o vizinho Parque Mangal das Garças... Quem sabe já mercado do Peixe Frito e churrascaria popular do Ver-O-Peso. Tradição e modernidade em mestiçagem cem por cento amazono-brasileira. 

Utopia, sim senhores! E da boa. 

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