VIVA A CRIATURADA GRANDE!

1ª ASSEMBLEIA NACIONAL DOS EXTRATIVISTAS COSTEIROS E MARINHOS, de 14 a 19 de outubro, em Belém do Pará.
ELOGIO DA UNIVERSIDADE DA MARÉ
Da Paraíba ao Pará e
o Brasil inteiro, o sumano Vergara se distingue como grande
socioeducador da “Criaturada grande” de Dalcídio Jurandir. Este um, como se sabe, é o nosso
índio sutil marajoara chamado por Jorge Amado na entrega do Prêmio
Machado de Assis (1972), da Academia Brasileira de Letras, o maior
romancista da Amazônia por sua obra consagrada à gentinha mais
humilde do Baixo Amazonas, ilhas do Marajó e subúrbios de Belém.
Donde veio esta gente que continua chegando pra cursar a universidade da
maré? Veio de muitas lonjuras, das ilhas do Caribe antigamente em canoa
à vela de jupati... Veio de canoa a remo descendo o grande Amazonas,
o Tocantins e Xingu... Da distante África a ferros, na cruel
travessia do Mar-Oceano em feios navios negreiros... Dos Açores
espancados pela pobreza dos casais a fim de povoar a terra roubada
aos índios. Veio do Nordeste, a pé, pelo antigo Caminho do Maranhão
para conquistar a terra grande dos Tapuias e o rio das mulheres
icamiabas.
E quando acaba, quem é dono deste vasto verde mundo dos
confins de meu deus? Amazônia azul aqui estamos nós, carenguejando
pela beira a caminho da feira, a esperar por vós.
Na velha luta de
resistência e sobrevivência desta brava gente, Natureza e Cultura
dialogam no discurso e na prática do tempo e do espaço
dialeticamente construídos. E, no parto de nossa conturbada
história, nasceu no Acre dos empates de Chico Mendes e seus
valentes companheiros seringueiros contra o latifúndio devastador, a
rede de reservas extrativistas.
Desde então, a Criaturada acampou na
teoria do “desenvolvimento sustentável” em forma de Resex;
descendo o Amazonas que nem Cobra Norato sentou praça no Rio de
Janeiro e conquistou o Brasil até, ultimamente, brindar o Pará
velho de guerra com a criação da emblemática Reserva
Extrativista Marinha Mestre Lucindo, em Marapanim.
Aqui entra homenagem ao
vocacionado professor da universidade da maré, o sumano Vergara;
quando é oportuno destacar a nova resex do Salgado em pleno apogeu
extrativista marinho do invento florestal de Chico Mendes, florão
amazônida da “economia verde” à beira mar plantada, pela
indagação supimpa do Pescador a respeito da biodiversidade aquática
que instala a cooperação didática entre conhecimento tradicional e
saber científico. Cátedra onde sumano Vergara Filho realiza sua extraordinária
missão pedagógica com a bela composição do carimbó de Mestre
Lucindo:
“Eu quero saber a
razão que no mar não tem tubarão?
Eu quero saber porque é?
que no mar não tem Jacaré?”
Eu quero saber porque é?
que no mar não tem Jacaré?”
Resex, mea gente; é codinome de território
reconquistado por populações tradicionais: lugar de reencontro e de religar conhecimentos, onde o
Homem e o Meio Ambiente se completam e se desenvolvem física e
espiritualmente em interações recíprocas, como Mestre Lucindo
expressou, de maneira inconfundível, no ritmo do carimbó
reconhecido agora pelos IPHAN como patrimônio cultural imaterial
nacional.
Expressão maior da vida e da obra do respeitável pescador
e artista de Marapanim inspirado da maré, que deu nome à nova resex do litoral
paraense num conjunto de 12 unidades de conservação, das 19 reservas extrativistas marinhas do Brasil. Rede solidária onde Vergara
tem tudo a ver como coordenador e gestor, mas acima de tudo, como
socioeducador pleno de contagiante entusiasmo.
Waldemar Londres
Vergara Filho, nasceu em 21 de julho de 1958, na cidade de João
Pessoa, Estado da Paraíba, filho de Waldemar Londres Vergara e de
Ruth Nunes Vergara. Biólogo de formação, especializou-se em
Análise e Avaliação Ambiental pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), ele desenvolve desde 1985 até
o presente ampla atividade profissional em diversas partes do país,
principalmente no Estado Pará, onde tem domícílio na cidade de
Belém a serviço do Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente. Desde
1999 desenvolveu com ampla experiência na área de Gestão Ambiental
com a criação, implementação e gestão de Reservas Extrativistas
no Estado do Pará, tendo antes exercido cargo de coordenação do
Centro de Populações Tradicionais e Desenvolvimento Sustentável –
CNPT / IBAMA / PA, entre os anos de 2003 e 2008, sempre prestando
apoio ao fortalecimento socioambiental e econômico de populações
tradicionais extrativistas. Desta maneira, desde 2009 até o
presente, exerce chefia da Reserva Extrativista Marinha de São João
da Ponta (RESEX São João da Ponta).
Um meritório trabalho,
ainda de escassa visibilidade e disponibilidade de recursos; que se
insere no enfrentamento geral dos problemas ambientais causados pela
industrialização e aumento demográfico em condições de
marginalização, pobreza e conflitos bélicos em várias partes do
mundo. De modo geral, sabe-se da extrema importância que os rios,
lagos, mares e oceanos tem no equilíbrio do nosso Planeta, assim que
mais da metade do mesmo é formada por água e que deste essencial
elemento depende a flora e a fauna. Onde, em biomas específicos,
sobrevivem milhões de pessoas em meio a rigorosos impactos sociais e
econômicos que levam, muitas vezes, à degradação da
biodiversidade e da diversidade cultural das regiões.
Entre continentes e o
vasto mundo das águas, perduram faixas úmidas de mangues, várzeas,
dunas, restingas, praias e outras formações geográficas
ribeirinhas influenciadas pela maré ou por enchentes periódicas de
bacias hidrográficas. Aí, neste mundo complexo, populações
tradicionais extrativistas pressionadas pelo “progresso” invasor
lutam pela sobrevivência e tiram sustento para suas famílias e a
comunidade local, assim como também abastecem de alimentos cidades
vizinhas na região; movimentam a economia, inclusive através de
turismo gastronômico.
No vivo contraste social e político entre
riqueza e pobreza, o estado intervém no fomento da atividade
econômica mediante investimentos públicos de infra-estrutura
viária, portuária, energética, saúde, educação, etc. E,
portanto, o desenvolvimento destas populações deve ser contemplado
por políticas públicas integrada na conta de investimento e não
apenas como despesa assistencial. O desenvolvimento nacional deve ter
olhos ecológicos-econômicos a contemplar áreas protegidas (terras
indígenas, quilombos, reservas extrativistas, reservas de
desenvolvimento, áreas de proteção ambiental e reservas da
biosfera) – notadamente com a participação da comunidade – como
partes estratégicas de um único sistema produtor, não como
obstáculos ao desenvolvimento ou muito menos “guetos ecológicos”.
Aí está a pedagogia socioambiental que a Criaturada da rede de
Resex apresenta!
Comentários
Postar um comentário