terça-feira, 14 de outubro de 2014

BATALHAS PARAUARAS AO SOM DO RETUMBÃO

Mestre Lucindo: justa homenagem da comunidade de Marapanim ao ícone do Carimbó do Salgado no ato de criação da nova reserva extrativista marinha da Amazônia azul.



Lucindo Rebelo da Costa, o Mestre Lucindo, foi pescador, artista, cantor e compositor do Carimbó,  faleceu em 1988 deixando mais de 300 composições, entre elas Pescador, Ô Menina Bonita, A volta que o carneiro deu, Nasci na verde rama, Embarca morena embarca, Fita verde, Fui acompanhar cipó, Peru do Atalaia, Adeus morena e Lua, Lua, Luar, entre outras.





CANTANDO E REMANDO PELA BEIRA

O Governo Federal criou três novas Unidades de Conservação (UC) e ampliou uma já existente, no litoral nordeste do Pará. O decreto da Presidência da República foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira (13). Com as novas Reservas Extrativistas (Resex) Marinhas – Mocapajuba, Mestre Lucindo e Cuinarana – e a ampliação da Araí-Peroba, criada em 2005, a área conservada na região aumenta em 51%, chegando a 322 mil hectares.


As novas Resex Marinhas estão localizadas nos municípios de São Caetano de Odivelas, Marapanim e Magalhães Barata, na região do Salgado Paraense, onde está o maior cinturão contínuo de manguezais do mundo (680 km de costa), que vai do Amapá ao Maranhão, correspondendo a 70% dos manguezais do Brasil. 

Na região já existiam outras nove Reservas Extrativistas, onde vivem 28 mil famílias em comunidades tradicionais que têm a pesca artesanal com principal atividade econômica. O conjunto de UCs vai garantir a conservação da biodiversidade dos ecossistemas de manguezais, restingas, dunas, várzeas, campos alagados, rios, estuários e ilhas. 

As Resex são UCs que conciliam o uso sustentável dos recursos naturais com a proteção do meio de vida e a cultura das comunidades extrativistas locais. Com as novas áreas de uso sustentável, aumenta para 34 mil o número de famílias beneficiadas na região. As Reservas Extrativistas foram propostas pelas comunidades locais e o processo foi elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).Três novas Reservas Extrativistas Marinhas são criadas no Pará. Fotos: João Freire

"A microregião do Salgado Paraense conquista uma condição muito especial para inaugurar uma nova fase de desenvolvimento a partir do potencial produtivo dos ecossistemas locais e da sua extraordinária biodiversidade,  mas a criação foi apenas o primeiro passo. O desafio agora é a elaboração de um planejamento e de um modelo de gestão integrada, envolvendo o conjunto das doze Reservas Extrativistas do Salgado, capaz de envolver e mobilizar agentes públicos e da sociedade civil para um mesmo propósito: cuidar da natureza e melhorar a vida da população", destacou o presidente do ICMBio, Roberto Vizentin.

Processo de criação

Em julho passado, em mais uma etapa do processo de criação das três Resex, mais de 800 pessoas participaram de quatro audiências públicas realizadas pelo ICMBio na região de Salgado Paraense. Foi mais uma oportunidade para moradores, movimentos sociais e autoridades locais debateram com o ICMBio. Depois das audiências, o processo foi finalizado no ICMBio, encaminhado para o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e depois para a Presidência da República, que decidiu pela criação das Resex. 


"Com o decreto, as Reservas passam a ser administradas pelo ICMBio. As diretorias vão atuar de forma integrada, através de ações de fiscalização, criação de conselho gestor e ações socioambientais que vão viabilizar a implementação das unidades", explicou Marcelo Cavalini, analista ambiental da Diretoria de Criação e Manejo de Unidades de Conservação (Diman/ICMBio), que participou da elaboração da proposta das novas Resex.

Ecossistema Manguezal

No Brasil, os mangues são protegidos por legislação federal devido à importância que representam para o ambiente marinho e para a populaçõe humana. A sua riqueza biológica faz com que essas áreas se constituam em grandes berçários naturais, tanto para as espécies típicas desses ambientes quanto para aves, peixes, moluscos e crustáceos, que encontram as condições ideais para reprodução, eclosão, criadouro e abrigo, quer tenham valor ecológico ou econômico. Os mangues, portanto, formam a base da cadeia alimentar marinha.

Colaborando para o enriquecimento das águas marinhas com nutrientes e matéria orgânica, os manguezais desempenham importante papel ecológico, econômico e social. Para se ter uma ideia, estima-se que os manguezais produzam mais de 95% do alimento que o homem captura no mar. Por essas razões, a sua manutenção é vital para a subsistência das comunidades pesqueiras que vivem em seu entorno.

No passado, a extensão dos manguezais brasileiros era maior: muitos portos, indústrias, loteamentos e rodovias costeiras foram desenvolvidos em áreas de manguezal, ocorrendo uma degradação do seu estado natural.

fonte: ICMBIO.


 UMA LONGA HISTÓRIA DE SOFRIMENTO E LUTA

Esta gente -- Criaturada grande de Dalcídio -- não sabe o certo, masporém do errado ela sabe muito bem. Esta gente veio ao mundo, paresque, no bucho da Cobragrande em forma de peixe, muito jitinho; e se enxugou ao sol equatorial em riba das pedras na beira do Rio Negro onde virou gente, segundo inconfidência de certos colegas pajés do sábio Ermano Stradelli.

Cansada de labutar sob sol inclemente na escravidão da lida, esta gente inventou a primeira noite do mundo e escondeu o mito seminal da amazonidade no fundo do rio de Heráclito, dentro de um caroço de tucumã que nem a tradição da renascença guardada em urnas de cerâmica nos tesos do Marajó. 

Por necessidade e acaso, da margem oposta vieram os bravos caraíbas a comer quantidade de gente em busca da Terra sem mal (yvy maraey): utopia selvagem onde, diz-que, se acharia o paraíso onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte... Então, o pau cantou até o sol sentar e atar a rede lá nas bandas do Araquiçaua mágico. Eita gente danada! ... 

Não sabem nadinha da história do vasto mundo, nem um tico de álgebra ou filosofia: no entanto, apesar de tudo, a Criaturada é PhD pela universidade da maré, diplomada em ciência e tecnologia do mato sem cachorro... Desde aquela velha universidade pés descalços, de mil e tontos (sic) anos de idade; que se chamou um tanto a torto "Cultura Marajoara" (a primeira ecocivilização da Amazônia). 

Esta gente valente que dá de comer às vilas e cidades da região, farinha nossa de cada dia, pra fazer pirão de açaí e peixe frito. Ah o peixefrito!!!... Sustança regional de nossas ilustradas academias, câmaras municipais, paróquias e assembleias apaixonadas pelo progresso estrangeiro e doidas por dinheiro. Por tudo isto, esta gente está contente com a Reserva Extrativista Mestre Lucindo e todas mais da brava família extrativista. Donde entre prosa e verso vem o caranguejo, mexilhão, a gó e aquilo outro, o turu; à mesa do pobre e do rico.

A região do Salgado é mais que uma rica despensa do Pará velho de guerra. Também é uma importante região ecocultural que se liga, histórica e geograficamente, ao antigo caminho do Maranhão desde a era Tupinambá antes da chegada de holandeses, franceses e finalmente nossos avozinhos portugueses. Esta gente vem de muitos tempos e espaços distantes para vir aqui fazer cantoria e batuque...

Este eterno retumbão de São Benedito, pulsando no peito das gerações da Marujada; mistura muito canto e chão. Nos trás, a modo, vozes dos Açores com suas alegrias e suas dores; mágoas sem fim e ternos afetos da mãe África. E, pois, hoje é dia de celebrar mais uma vitória popular na Amazônia paraense. Lembrar Abguar Bastos, que dizia: "o Amazonas tanto embarrigou que pariu o Acre"... E do Acre de Chico Mendes, com a primeira Resex florestal rio abaixo, veio o movimento de desenvolvimento socioambiental empoderando comunidades tradicionais de seus territórios ancestrais até chegar à beira mar, com a primeira reserva extrativista marinha da Amazônia, em Soure, na ilha grande do Marajó.

Muito caminhamos e muito ainda há a caminhar! Avante, esta  gente! 



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