quinta-feira, 21 de agosto de 2014

CAMINHOS DE ALFREDO PELO SUBÚRBIO DE BELÉM





Dalcídio Jurandir, Ponta de Pedras - PA, 10/01/1909 - Rio de Janeiro - RJ, 16/06/1979





Se meu pai estivesse vivo amanhã ele completaria 110 anos de idade. Eu faço 77 neste fim de ano e parece para mim que foi ontem que Dalcídio morreu, aos 70 anos, lá no Rio de Janeiro. Eu estava em Manaus a serviço da Comissão de Demarcação de Limites quando a notícia me alcançou... Estávamos todos preparados por assim dizer, o mal de Parkinson não deixara alimentar ilusões. O escritor era muito presente para mim através dos livros e comentários de jornal, porém o tio estava longe. 

Eu conheci primeiro o personagem para depois e por tão raro tempo conhecer a pessoa quase mítica que aquele irmão de meu pai se tranformara. Já poderia ter escrito esta história e ainda agora não há tempo nem lugar suficiente para dizer o tanto que teria de ser. Ontem, por acaso, passei por uma esplêndida experiência numa tarde inteira compartilhando com professores e alunos de segundo grau duma viagem ao reino de Alfredo no romance "Primeira Manhã", na Escola Mendara; no conjunto residencial vizinho ao meu onde meu filho João Victor estuda assim minhas netas Ana Clara, Luísa e Ana Beatriz.

 Meu pai e minha mãe, mais a tia Lodica (cujo nome Dalcídio emprestou alguma vez para dar vida à ficção) moraram com minha família por longo tempo e terminaram seus dias em nossa casa, no conjunto Medice. O escritor com a sua criaturada grande recriava o mundo... Meu pai se chamava Rodolpho e lá por linhas tantas do "Primeira Manhã" surge um certo Rodolfo, tipógrafo, nas lembranças de Alfredo. Seguramente, Dalcidio menino de 13 anos na José Pio,  bairro do Telégrafo; é Alfredo... É e não é. Como o tipógrafo de Cachoeira do Arari aparece na pele daquele Rodolfo, que não era e era Rodolpho, em Muaná, ao mesmo tempo. Mas Muaná, seria Cachoeira em verdade no "Primeira Manhã". Como em Passagem dos Inocentes, Muaná é o disfarce de Ponta de Pedras.

O convite para ir falar de Dalcídio na Escola Mendara veio através do João, a primeira vez acho que foi ano passado, mas acabou não se confirmando. Desta vez era coisa séria. Disse-me o João descendo da bicicleta o sol ardente e o suor exalando da sua pele; 17 anos de idade, o cara anda meio em dúvida sobre a profissão que irá abraçar. João é meu filho de adoção, conforme a biologia é meu sobrinho-neto com a minha senhora de Nazaré, Palmira de seu prenome. A vida é bela quando não está de banda, como dizem lá pelos lados onde me criei na ilha do Marajó. Quem me apresentou Dalcídio, digo o livro de Dalcídio foi minha avó Sophia. Agora eu tenho uma linda netinha chamada Ana Sophia. Graças à vida a saga de uma grande família marajoara que se entrelaça com muitas famílias e partes do mundo, nunca acaba.

Dalcídio quando pegou o Ita levou com ele o Marajó inteiro, mais os subúrbios de Belém. Ele já tinha inventado Alfredo, seu alte-ego imortal; no "Chove nos campos de Cachoeira" e o "Marajó" que era "Marinatambalo". Minha avó Sophia, na verdade tia; me apresentou o "Marajó", assim meio escondido. Meio clandestino... E o Alfredo não está no "Marajó"... Ou está? Meio escondido, meio clandestino. O Marajó é o segundo romance do ciclo Extremo Norte: pelo menos eu me vi ali, eu tinha mais ou menos a idade que meu filho João tem agora.

Ontem de tarde olhando aqueles e aquelas jovens que vão começar a trilhar os caminhos da universidade e, portanto, atravessaram e estão a atravessar o Ginásio que Alfredo não completou; eu sai caminhando ao lado do João com sua bike de volta para casa, depois do aulão da escola Mendara, pensando em escrever alguma coisa para os mesmos. 


2 comentários:

  1. Gostei do texto e fiquei curiosa para saber mais sobre esta narrativa inconclusa da tua relação com o tio Dalcídio. Sério. E outra: não tens a 2 ed. do Primeira manhã, a que editamos pela Eduepa? Ela ficou te esperando juntamente com a blusa do lançamento, alusiva ao Centenário do romancista. Era 2009.

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  2. Ótima história!
    Eu João, fico grato ao sr meu pai (a qual serve como minha fonte de inspiração) fico grato, por o sr ter disponibilizado sua tarde para compartilhar seu vasto conhecimento sobre história e literatura comigo e meus amigos!
    Obrigado pai, te amo!

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