segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

COMO (AINDA) SE FAZ POLÍTICA CULTURAL NA PROVÍNCIA


Notícia sobre reconhecimento oficial do ofício de Tacacazeiras e da
Cerâmica Marajoara no patrimônio cultural do Estado do Pará.

SEM FOGUETE E SEM BILHETE

Na confraria de amigos da Academia do Peixe Frito, a gente não sabe se ri ou se chora com esta notícia da imprensa... Alegria, sem dúvida nenhuma, em comemorar o reconhecimento oficial da Cerâmica Marajoara e do ofício popular das Tacacazeiras tão constante na paisagem cultural de nossas cidades e significativamente na literatura do nosso Prêmio Machado de Assis (1972), Dalcídio Jurandir, com a sua inseparável Criaturada grande. 

A Cerâmica Marajoara é, sem favor nenhum, o maior símbolo cultural do Pará e da Amazônia brasileira. Não por que os políticos e os marajoaras fanáticos assim queiram, mas pelo fato inegável de sua antiguidade arqueológica sobre as mais culturas amazônicas pré-coloniais (cientificamente comprovada por datação testada em mais de um laboratório de renome internacional). Mais o reconhecimento tácito dos maiores museus do mundo, tendo coleções de cerâmica marajoara, como a obra "Cultura Marajoara" de Denise Schaan informa, deste valioso patrimônio cultural representar a Arte primeva do Brasil. 

Acha pouco tudo isto para uma medida administrativa tardia e um quarto de página de jornal para avisar o distinto público, sem foguete e sem bilhete?

Significativamente, onde a inconsequente imagem do Búfalo usurpou a primazia semiótica do grafismo da milenar Cultura Marajoara - entre chuvas e esquecimento - entregue ao pisoteio dos animais, ao saque e contrabando por muita gente boa de altas esferas; a notícia saiu panema para não fazer barulho. Meio acanhada depois da boa nova dada a milhares de famílias que, sem emprego formal com carteira assinada, vivem da venda de tacacá e tapioca extraída da roça com o suor do lavrador, supostamente toda esta gente disposta a agradecer a generosidade dos donos do poder na Província com muitos votos nas eleições vindouras até o fim dos tempos.

Já o ofício de Tacacazeira em conjunto com o de Farinheiro constitui o topo da cadeia produtiva da preciosíssima Manihot esculenta, nossa popular Mandioca rainha da agricultura familiar que foi para a mãe África e voltou com a maniva em forma de maniçoba trazida pelos escravos. A qual agricultura familiar, graças à FAO e seu Diretor-Geral Dr. José Graziano da Silva em seu ardoroso combate à Fome mundial, terá em 2014 seu Ano Internacional... 

Já estamos refrescando a memória da mídia, acadêmicos de carteirinha, políticos e autoridades legalmente constituídas, etecetera e tal; de que (como se eles não soubessem!!!...) cultura, meio ambiente e economia não se separam na vida real

Portanto, não faz mais sentido "preservar" usos e costumes politiqueiros para colocar fronteira entre personalidades, secretarias de governo e muitos menos entre "esferas" de competência federativa da União, Estados e Municípios. O Povo não é bobo (codinome sociedade civil), mas para viver muitas vezes tem que fazer papel de besta... E sai batucando e cantando: "besta é tu, besta é tu"...

Mas a alegria da Academia do peixefrito se transforma em choro, quando lembra o rompante veto do prefeito Zenaldo Coutinho ao projeto de lei oriundo da Câmara Municipal, reconhecendo a dita cuja no patrimônio imaterial de Belém, de autoria do vereador Iran Moraes (igualzinho, praticamente, ao projeto do ilustre deputado Eliel Faustino, que joga com a bancada de apoio ao governo estadual)... Quando o vereador era do time azul e amarelo será que iriam vetar um projeto desta natureza? Terá sido um recado à velha moda "lei é potoca" manda quem pode?...

As alegações do veto do prefeito ao reconhecimento de uma manifestação cultural ligada ao Ver O Peso - cartão-postal de Belém em curso para ser declarado Paisagem Cultural Brasileira pelo IPHAN, tendo justamente a dita Academia popular como bem associado à referida paisagem - e que lembra nomes ilustres intelectuais da década de 1930, filiados ao movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, poderiam até ter fundamento jurídico. Entretanto, politicamente portas fechadas ao diálogo não condiz com a propaganda de democracia e modernidade. Seria de espera encaminhamento civilizado da demanda desta confraria por via do poder executivo (mais precisamente, a Fundação Cultural do Município de Belém - FUMBEL). Uma atitude estranha do prefeito de Belém que contrasta com o entendimento do governador Simão Jatene ao sancionar as Leis 7.752 e 7.754, supracitadas. 

Um fato que a opinião pública não deve ignorar e que revela mal-estar num setor estratégico do chamado "desenvolvimento sustentável", no qual todos deveriam remar na mesma canoa a favor do Turismo como a famosa "indústria sem chaminés", criando emprego e renda. Que são o melhor remédio para combater a violência quando conjuminado à Educação e Cultura. Achar que a Academia do Peixe Frito só serve para se comer peixe e tomar açaí é opinião infeliz que demonstra ignorância ou preconceito...  Quando na verdade ela é uma bandeira que representa a especificidade da gastronomia tradicional paraense associada a ícones da nossa cultura, tendo à frente Bruno de Menezes (com ele a Negritude amazônica e o folclore do Ver O Peso com a abandonada festividade de Ossain cultuado sob imagem de São Benedito da Praia), Eneida de Moraes (a presença da mulher na Política e na Cultura), Abguar Bastos (intelectual orgânico da amazonidade a mais profunda), Tó Teixeira (mestre de nossa música de raiz), ficando por aqui...

Pois não? E agora, como é fica a cara de nossa política cultural? Quem está certo e quem está errado: o governador, que sancionou lei de iniciativa do Poder Legislativo sobre assunto de reconhecimento do patrimônio cultural. Ou o nobre prefeito que vetou projeto de lei em matéria de reconhecimento de patrimônio cultural imaterial sob alegação de que a Lei veda a iniciativa ao Poder Legislativo? A OAB-PA talvez poderia se manifestar?

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