terça-feira, 24 de maio de 2011

CULTURA DE FRONTEIRAS, CUSTO AMAZÔNICO & COMPANHIA


A gente ouve falar “Amazônia” e pensa uma região distante, misteriosa, Floresta densa, chuva, maior rio do mundo, índios, onças, jacarés & pajés... Cidades exóticas quentes e superúmidas, Belém do Pará e Manaus cada uma mais d’um milhão de habitantes a ver quem cresce mais depressa e leva o troféu metrópole: conflitos urbanos saídos do mato para os azares da “modernização” (pra não dizer alienação, no sentido freudiano e marxista da palavra). Colônia de exploração, querendo ou não, “celeiro do mundo” custe o que custar...

Pai d’égua! Desgraça pouca é café pequeno... A paradoxal Amazônia é filha do desconhecido: belenense de cobertura de edifício ignora o vizinho & o ribeirinho, mais ainda, no Ver o Peso ou lá na beira do mato sem cachorro, ilha das Onças confronte à Estação das Docas, costa-fronteira verde que te quero no outro lado da baía do Guajará, vista do horizonte em cartão postal é tão legal etecetera e tal.

A dita cuja, ‘antão’, é um não-lugar: fronteira entre o real e o imaginário. O vazio demográfico é vizinho da superpopulação e a opulência natural e a miséria social moram juntas, longe de tudo e de todos... Todavia, dona Maria, abra o olho! “longe” é um lugar que não existe: no espaço da internet perto é a China a três toques no teclado e longe o camelô da esquina a vender bagulho R$ 1,99 ‘made in China’ pra ganhar a porca vida aqui e agora.

Ledo engano! Se alguém pensa que a maior parte de vendedores ambulantes da cidade oferece na rua cupuaçu, bacuri, pupunha, açaí & coisas mais da terra do tacacá e pato no tucupi... Aqui na província minerária vale o que se exporta: não importa o quê. Pagou, levou (“toca, toca Tocantins tuas águas para o mar...”): repartir o apurado com a gente é que são elas!

Veja você montanhas de ferro no desmanche das serras indo embora de trem pro porto do Maranhão na volta lotado de irmãozinhos desempregados aliciados pelo gato pra derrubar mato a madereiro ou abrir pasto a rei do gado & rios de energia elétrica embutidos em lingotes de alumínio que lá se vão & o povinho ribeirinho a ver navios... Belém do grão cabano é uma parada obrigatória! Cidade das que mais chove no molhado e não tem uma só fabriqueta de guarda-chuvas em fundo de quintal. Donde vem, então, tanta sombrinha e guarda-chuva na hora do dilúvio equatorial? Adivinha, menina! Mas o melhor negócio da China (trens de alta velocidade) não vem a Belém, Belém nem com promessa do Círio de Nazaré...

Exportado do Nordeste e São Paulo, Nova Iorque (EUA), não confundir com Nova Iorque-MA); já toma açaí na cuia. Naturalmente, o novo elixir da juventude da moda é apanhado sem carteira assinada e sem nada nas ilhas do Marajó, enquanto “plantations” na Bahia e São Paulo com seringais de cultivo não entrarem em produção: os cabocos não perdem por esperar mais essa, desde o tempo da borracha... & a castanha do “Pará” colhida no Acre virou “Brazil nuts” do dia pra noite & assim vai a bolsa de mercadorias presente, passada e futura... A seringa inventada pelos índios do Solimões foi pirateada por La Condamine; mas nunca recebeu royalties, porém Goodyear patenteou a vulcanização da borracha & basta!

No mundo “sem fronteiras” há mais ‘apartheids’ a vista do que sonha nossa vã aldeia global no trono de um apartamento: exemplo, limites visíveis e invisíveis entre o reino dos jardins e o subúrbio das enchentes de São Paulo; condomínios verticais da Zona Sul e a babel de favelas no Rio de Janeiro; Plano Piloto e Núcleo Bandeirante em Brasília... Suframa em Manaus e o verdão do deserto florestal no resto do Amazonas...

Ao contrário da má vontade política e impressão vulgar da consciência social, é na cultura de fronteiras que se desmonta o festival da besteira que avassala o país – cara a cara com os outros, nas cidades ou nos sertões – a distância se dissolve face à realidade e necessidade de convivência e sobrevivência da alteridade...

Nas fronteiras a realidade instala todas suas contradições e promissões. A geografia dos lugares (Milton Santos) não me deixa mentir. Nem a tecnoburocracia brincar de cabra-cega no labirinto amazônico deixado por nosso primeiro déspota esclarecido, demarcador de fronteiras, o capitão-general e governador do Grão-Pará e Maranhão, Mendonça Furtado, irmão querido do coração do Marquês de Pombal, principal coadjuvante do Diretório Pombalino (1750-1777), há mais de dois séculos...

Por isto, o bilhete estúrdio na página literária da Fundação Maurício Grabois, portal de integração solidária da América Latina e Caribe: a gente não quer só peixe frito e pirão de açaí, a gente ‘cometemos’ poesia dia sim e dia não & às vezes se parte para contundência da prosa que a necessidade de briga obriga. Importa saber que a FMG é porta estandarte e nome do bravo guerreiro que rendeu a vida ao ensangüentado chão cabano do Pará, em luta desigual pela democracia contra a tirania e opressão do povo brasileiro inteiro... Compromisso com a criaturada grande da Amazônia trabalhadora, sofrida, ilhada no mato sem cachorro, gente sem voz e sem nada, a qual só resta a cara e a coragem....

Quanto custou a conquista e custa a conservação desta rica e pobre região das terras-baixas do Novo Mundo, extraída do mito do El-Dorado? Onde achar outra igual? Nossos colonizadores atiraram no que viam e acertaram no que, até hoje, descendentes das capitanias hereditárias não viram: aqui o Nilo amazônico, lá fora o Amazonas nilótico: águas do tempo arqueológico (o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu do Cairo, em parceria, sabem que a gente ‘num tá’ inventando)...

Quem perde com a destruição do patrimônio natural, cultural e histórico desta gente? Quais sãos os limites do internacionalismo versus globalização? A integração solidária informa: cada um dos países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) deve achar as respostas. Principalmente, economistas, pesquisadores do meio ambiente, defesa, saúde, educação, ciência e tecnologia progressistas. Sem olvidar o setor transversal da cultura, pois precisamente, foi na última Conferência Nacional de Cultura que a sociedade civil da região norte levantou o problema do “custo amazônico”, jamais auditado e debatido como devia ser...

Quando acaba, mingau de bacaba ou o pau te acha! Mas porém, araruta tem seu dia de mingau... Vai haver novidade na fronteira do Oiapoque! Caripuna afinando flauta e clarinete pra fazer festival do Toré, meo mano Zé! Galibi, Palikur, Camopi, Oiampi, Saramaka, crioulo e caboco convidados. Gente de Paris e Brasília correndo pra não perder lugar de avião e chegar a tempo de escutar o primeiro dó na beira do rio de dois mundos...

Macapá e Caiena ligadas por rodovia e ponte de concreto por riba do divisor de águas. Dentre outras, o corredor da biodiversidade do Amapá mais perto do Parque Regional da Guiana e do Parque Nacional Montanhas de Tumucumaque. Mais tarde, tudo isto vai se conectar à futura reserva da biosfera Marajó/Amazônia Oriental, expectativa de ecoturismo de resultado sócio-econômico interessando ao mercado “verde” europeu e norte-americano no roteiro Antilhas-Guianas-Norte do Brasil, além por certo do Mercosul...

Seria um delírio de ribeirinho atacado de malária ou febre tifoide? Estamos preparados para mudança com restauro da dança do peixe (pirapuraceia)? Oportunidade para sepultar a era de “ouro” do contrabando na rota do Oiapoque e passar à etapa avançada de cooperação na faixa de fronteira. Aqui na grande área neotropical (quem diria!) Mercosul, Caricom e União Européia, algum dia próximo, virão confundir suas raias depois das contendas do passado.

Rodovia Pan-Americana pelo litoral atlântico a querer se interligar à estrada Pará-Maranhão (antigo caminho dos Tupinambás) e à “estrada de onças” Belém-Brasília... Vai dar pé na estrada e quatro rodas desde o Canal do Panamá até a Patagônia. Entroncamento com o ramo andino pela cordilheira na Colômbia e Venezuela. Claro, o estirão amazônico requer bota de sete léguas (sem olvido da navegação costeira e aérea) e ainda haverá travessias d’água, a maior entre Belém e Macapá contornando a grande ilha do Marajó, gastando nunca menos que um dia inteiro de viagem: bom pra repousar e contemplar a paisagem do rio-mar de água doce adivinhando o que ela quer dizer ao mundo faminto e sedento...

Indústria criativa pede tecnologia: tal travessia carece “ferry-boat’ com pinta de cruzeiro e responsabilidade socioambiental adaptado à navegação amazônica. Ou/e revitalizar a passagem tradicional de índios guerrilheiros e cabocos traficantes, pelos centros do pantanal marajoara (rios Arari-Anajás Mirim-Anajás Grande): possibilidade de barcos-hotéis-escolas-de-fronteira apropriados a oferecer produto turístico com ênfase na arqueologia marajoara de base comunitária, corredor Belém-Macapá integrado a Guiana francesa e ao Suriname (coisa que, inclusive, podia pegar carona ao Programa Operacional Amazônia (OPA, 2007-2013) bancado pelo fundo FEDER/União Européia)... Haverá o OPA II (2014-2021), será?

Quem disse que se vende ecoturismo sem cultura popular, gastronomia tradicional e artesanato regional? O Ministério do Turismo, felizmente, em cooperação internacional está esperto com o Fomentur na ilha do Marajó e alhures. Mas, o diabo é inimigo da boa comunicação com o povão, seo João. Esta gente sempre sendo última a saber e primeira a levar porrada... Sem internet banda larga e Saúde Pública não vai dar pé, seo José! Mas, gente amparada & empregada ‘havera’ de ter ‘menas’ devastação, ‘menas’ ruína do patrimônio & de fato, menos êxodo rural, invasão suburbana e imigração clandestina. “Antão”, que nem na batalha de Itararé, conjuntamente gregos e troianos venceriam a guerra e a gente venderia o cavalo de Tróia da cobiça estrangeira por um bom dinheiro em leilão da bolsa em Wall Street e ninguém sairia perdendo!

Mudança climática obriga, automaticamente, mudará o discurso em voga e será a vez da integração rodoviária costa a costa. A par, então, se dará a volta triunfal da velha ligação fluvial dos índios do “Rio Babel” (padre Antônio Vieira apud José Ribamar Bessa Freire), demonstrada pela descoberta do “rio das amazonas” por Orellana (1542) e a entrada de Pedro Teixeira (1637/39) de Belém do Pará a Quito (Equador), movida a 1200 remos do Bom Selvagem comendo pelas beiras peixe moqueado e farinha de mandioca confiscada às aldeias ao longo de dois anos rio acima e abaixo. Não é, seo Manduca? Que não dorme de touca campeão da manducação de maniçoba.

Deixa estar, frei Gaspar; um mameluco chamado Diogo Nunes (1538) jurou pelos santos evangelhos que, de fato, 14 mil tupinambás de Pernambuco chegaram aos Andes antes de toda esta gente que a história conta: pena que a busca da Terra sem Mal deu c’os burro n’água & os guerreiros caíram em mãos dos espanhóis feitos escravos nas minas do Peru & assim, diz-que, acabaram seus tristes dias por não suportar mais infinitos males da fronteira entre o paraíso e o inferno verde...

Em contraste, a estúpida destruição do império Inca e a rudeza de Gonzalo Pizarro (irmão do conquistador) & deserção dos índios da entrada ao “País da Canela” (Amazônias peruana e equatoriana): castelhanos tendo devorado bois, porcos, lhamas, cães e cavalos da tropa em busca do tesouro dos incas tiveram que comer a sola dos sapatos antes de morrer de fome no “paraíso ecológico”... Poucos se salvaram, a duras penas, voltando sobre os próprios passos para Quito ou fugiram com Orellana e Carvajal águas abaixo roubando o bergatim de Gonzalo improvisado para buscar comida pelo rio até o país das mulheres guerreiras (invenção da Amazônia, por necessidade e acaso) e depois o Mar-Oceano... & daí? Que (passados séculos) a maior parte da Amazônia apostou na independência do Brasil & chegamos a tempo da Planície ver que a esperança venceu o medo com Lula lá no Planalto.

Agora a boa esperança do voto popular dá azo e asas para continuar avançando com certeza de que vai dar certo o lançado e juramentado programa de erradicação da pobreza pela Presidenta Dilma. Caminho da roça pra chegar à Faixa de Fronteira, sem mais humilhação de clandestinos explorados pela sorte e coiotes... & a região e área cultural guianense faz parte da faixa de 150 km de largura de território ao longo de 15.719 km de limites, interligando 11 estados e 588 municípios brasileiros povoados, aproximadamente, por 10 milhões de habitantes.

No que toca a Amazônia real, 80 anos de trabalhos continuados de demarcação e manutenção de marcos de fronteira, aviva a consciência desta construção territorial sem par. Obra-prima da diplomacia sul-americana e fundamento da utópica, porém indispensável, paz mundial. Do silêncio das salas de estudo, das grandes meditações cívicas e das dificuldades ingentes de negociação de tratados de limites em gabinetes a portas fechadas; a obra dialética sob o direito internacional pôde se materializar no terreno pelo trabalho coletivo das comissões binacionais demarcadoras de limites, trabalho assente sobre conhecimento de mateiros indígenas e cabocos peritos dos meandros das fronteiras mortas e indevassadas, até então, a fim de transformá-las em fronteiras vivas e portões de intercâmbio regional com toda responsabilidade e segurança para todos.

Cada país limítrofe tendo reconhecido e seguro seu próprio território e do vizinho na partilha dos rescaldos de Tordesilhas (1494), retificada por rios de lágrimas, suor e sangue na construção demográfica do “uti possidetis” reconhecido em Madri (1750) pelo empenho de Alexandre de Gusmão e seus continuadores até Santo Ildefonso, 1777; deu concretude à História da América do Sul – apesar de tudo –  para Independência e República dos países-membros da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL).

Assim termina a estória das amazonas e começa a verdadeira história da Amazônia ao clarão da democracia no seio da UNASUL: a contribuir à superação de velhos traumas da zona tórrida, inclusive no “Território da Cidadania e Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó” além da ponte do Oiapoque. A gente espera ainda o Instituto Binacional da Biodiversidade, escola de fronteira em região cultural multifacetada pontuada de unidades de conservação e reservas indígenas, populações quilombolas e afro descendentes. A olhos vistos a ponte do Oiapoque cresce e aparece. Ela é ou será a “maior ponte do mundo” não pelo tamanho (menos de 400 metros), mas pela geografia simbólica que encerra em seu seio de concreto, aproximando as duas margens do Atlântico e os dois hemisférios: no Oiapoque o Brasil começa a ser, de fato, com a garantia do direito que lhe assiste; o maior país amazônico do mundo!

Precisamente, o Extremo-Norte em Macapá (Nova Andaluzia) a rivalizar no dialético caldo de cultura ibero-americana com a tetracentenária Belém do Grão-Pará (Feliz Lusitânia); na foz do maior rio do planeta cortada pelo Paralelo Zero, espelho d’água despedaçado, em 1494 pela “linha” invisível de Tordesilhas – “testamento de Adão” – que impactou a região com a força devastadora de um tsunami, agora integrada na República Federativa do Brasil... & mais de meio milênio depois, ainda a ver passar muita água por baixo da ponte do “rio de Vicente Pinzón” (piloto de Colombo responsável histórico pela captura dos primeiros 36 “negros da terra” na América do Sul, janeiro de 1500): todavia, águas passadas não movem moinho!

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