terça-feira, 12 de abril de 2011

UM CERTO 12 DE ABRIL

Há 50 anos, no dia 12 de abril de 1961 a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)alcançou prestígio mundial e encheu de orgulho a classe operária internacional, ao realizar a primeira viagem espacial com a nave Vostok-1 levando a bordo o astronauta Yuri Gagarin, o primeiro homem a voar no espaço sideral. Símbolo supremo do triunfo das massas proletárias da revolução russa de 1917...



Nunca, desde a Comuna de Paris, os trabalhadores do mundo inteiro organizados pelo socialismo científico sentiram-se tão seguros de suas possibilidades históricas e da inevitabilidade da sociedade sem classes - o Comunismo - face a seus antigos opressores feudais e depois a burguesia monopolizadora do capital social.

Todavia, a Guerra Fria entre EUA e URSS chegava ao apogeu e dava início à corrida espacial além da corrida atômica. Em terra, os dois titãs se digladiavam, a independência das colônias européias na África entrava na ordem do dia, e a revolução da América Latina tinha em Cuba sua referência máxima; enquanto a OTAN e o Pacto de Varsóvia polarizavam os dois blocos econômicos e militares antagônicos.

Debalde, o movimento dos países Não-Alinhados lutava para escapar da órbita dos dois gigantes. O Brasil namorava com o bloco dos Não-Alinhados, mas a falta de coesão interna e a vastidão do rico território cobiçado pelo estrangeiro, apenas permitira romper com o colonialismo português para ficar à sombra da Inglaterra; vacilando entre ficar ao lado do Eixo (com a Alemanha, Itália e Japão sob liderança do partido nazista alemão) ou dos Aliados (Inglaterra, França e os emergentes Estados Unidos)saiu da II Mundial debaixo da avassaladora influência de Tio Sam.

O "gigante adormecido" acalantado pelas esperanças messiânicas do País do Futuro, aos poucos desperta: independente formalmente em 1822, somente aboliu a escravidão em 1888 e proclamou a república logo após. Porém só depois de cem anos do "grito" do Ipiranga com o movimento modernista fez-se a "independência das letras nacionais"... Isto é, os intelectuais brasileiros começaram efetivamente a pensar o Brasil:  esta agitação cultural coincide com a rebelião dos Tenentes (1922), tendo na Coluna Prestes a antecedência histórica do despertar dos sertões até chegar ao coração da América do Sul, na Bolívia, com prenúncios da integração continental que hoje vivenciamos.

E já vamos chegar a um outro 12 de Abril, desta feita em 1972, com a Guerrilha do Araguaia: a dizer NÃO! Ao golpe de estado de 1964 e à Ditadura sem disfaces de 1968. Esta resistência temerária é o ato de integração do patriotismo democrático brasileiro e do internacionalismo da classe dos trabalhadores do campo e das cidades em luta contra o imperialismo financeiro da Guerra Fria.

Estamos longe de um julgamento justo e definitivo, para o qual é preciso buscar a VERDADE E SOMENTE A VERDADE! Um grave acontecimento histórico como este não se explica por esquema maniqueista da eterna luta entre o Bem e do Mal, como os reacionários insistem em fazer para alienar os menos avisados. Mas carece investigar as causas mais distantes e a conjuntura de tempo e espaço do próprio evento, para que a história não se repita como farsa (conforme a advertência de Marx). A Democracia Brasileira duramente conquistada pelo povo e a fraternidade internacional da causa operária é um patrimônio a ser dia a dia renovado e melhorado para todos, inclusive inimigos da brava gente brasileira.


Cabanagem.


O Cabano Paraense. Pintura de Alfredo Norfini, 1940. Museu de Artes de Belém.



No Pará neocolonial, os cabanos haviam conseguido tomar o poder da região, em 1835, e foram derrubados a custo de enorme genocídio. Enquanto, a contemporânea revolução Farroupilha foi dominada militarmente e assimilada politicamente mediante integração dos combatentes no exército imperial, já demonstrando aí uma notável diferença entre as diversas regiões do Brasil. E assim se cunhou a célebre expressão "o Pará velho de guerra": refrão de cultura cabana, que explica o celeiro não apenas das antigas "drogas do sertão", "gados do rio", a Borracha, madeiras de lei e minérios... Mas, também a resistência da amazônidade onde a Semana de Arte Moderna de 1922 veio beber os símbolos perenes do nacionalismo brasileiro, com Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Raul Bopp e outros modernistas. Enquanto o grupo paraense da Academia do Peixe Frito antecipava o modernismo às margens barrentas do Guajará, com Bruno de Menezes, Tó Teixeira, Dalcídio Jurandir, Eneida, Jacques Flores, etc. 


Não espanta que esta matriz nacionalista tenha atravessado a fronteira das artes e da literatura para forjar uma intelectualidade engajada, onde um operário como João Amazonas e um intelectual como Maurício Grabois acabam por trocar a oficina e o livro pelo fusil nos caminhos do interior do Brasil, seguindo de perto a trilha aberta pela Coluna Prestes.

Mais coincidências de datas: cem anos depois da Cabanagem, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), liderada pelo Partido Comunista do Brasil, em março de 1935. A intelligensia tupiniquim não vê ou não quer ver o peso deste continuum de causa e efeito: mas o estudo da História, desde o velho grego Heráclito é uma corrente que não se repete, porém promana da fonte perene da Humanidade. 

O Pará cabano pariu Dalcídio, João Amazonas, Pedro Pomar e outros combatentes notáveis. Não apenas o sul do Pará foi palco da luta armada e da repressão mais cruel, como também o grande intelectual guerrilheiro Maurício Grabois viveu parte de sua infância em Belém como sua família de origem camponesa judaica na França e Ucrânia. Conheceu a dificuldade dos pais imigrantes em São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Recife, Salvador: fez curso completo de brasilidade na escola do velho PCdoB e terminou como herói tombado em combate. Uma grande vida que venceu a morte e a indiferença pelo destino humano.



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