quinta-feira, 7 de abril de 2011

MONUMENTA NÁUTICA AMAZÔNICA: O TEMPO DA VELA DE JUPATI

No dia 12 de janeiro de 2016, provavelmente, O pequeno burgo ribeirinho surgido às ilhargas do forte do Presépio será lembrado nas comemorações dos 400 anos de Belém da Amazônia. Desde logo, convém configurar a retrospectiva da expressão geográfica da "Cidade do Pará", segundo a ótica de Henri Coudreau e Eidorfe Moreira, por exemplo.A lenta transformação do espaço natural às margens do Guajará pela ação humana até nossos dias, com as contradições históricas objetivas da disputa do território, tanto pela expansão colonial ultramarina quanto do conflito interno entre a resistência ancestral "Tapuya tetama" (terra dos Tapuias) e a conquista pré-colonial do Pará-Uaçu (grão Pará) pelo Bom Selvagem tupinambá.
Embora não houvesse mais do que história oral do "mare nostrum" aruaco de uns cinco mil anos antes que tupis e europeus metessem os pés nas ilhas ou na terra firme, é certo que o velho Wene (O Rio dos tapuias) ou Pará-Uaçu dos tupis estava povoado, de alto abaixo, com algo em torno de seis milhões de habitantes nativos. Não se sabe exatamente quais foram os primeiros viajantes ao Grão Pará ou Amazonas.Nesta saga pré-cabralina figuram nomes do normando Jean Cousin (1488), do português Duarte Pacheco Pereira (1498) e do espanhol Vicente Pinzon (1500).

Um relato de origem árabe-africana coloca a viagem de Abubakari II, imperador do Mali, o qual curioso em saber o que havia na margem ocidental do grande rio Salgado; adiantou-se muito ao cristão-novo Cristóvão Colombo e estaria à frente da mestiçagem afroameríndia do Haiti. Esta antiga história se difundiu através do Cairo pela célebre pereginação a Meca do décimo imperador mandinga da dinastia Mansa, Kankan Mansa Musa (1312-1337) que sucedeu o rei viajante. A saga do descobridor negro, com sua flotilha de 2000 remadores de caiaques precedida de 200 expedicionários, engolidos subitamente por ondas revoltas na foz de um grande rio de água doce; sugere a primeira referência ao fenômeno da pororoca do Amazonas e aborda a existência da corrente equatorial marinha como possível explicação do sucesso desta travessia.Se há aí um cunho de verdade, pela mesma época das Antilhas para a Boca do Drago (delta do Orenoco) através de Trinidad e Tobago o legendário Anakajury estava conduzindo uma formidável migração Aruak sob pressão do inimigo hereditário Kalina. Esta brava gente era exímia na antiga arte de navegação à vela guiada pelas estrelas e tomava direção do país do Arapari (constelação do Cruzeiro do Sul). Daí nasceu o mitológico cacicado à margem da baia do Oiapoque, com sede no "Mont Dargent" (monte da prata) também ele imaginário quanto a lendária "ilha Brazyl" ou a confederação Palikur. Já dá para perceber que o Cabo do Norte (Amapá) e o enorme arquipélago do Marajó ("maior que o reino de Portugal") estão metidos nessa história até a alma. Ainda mais que o Sebastianismo e a queda de Mazagão, no Marrocos, estavam fadados a transplantar o reino das Amazonas para a terra dos Tapuias...

Sabe-se que a dita corrente marítima foi segredo das antigas navegações do Atlântico, com que os nautas portugueses tiveram vantagem sobre seus concorrentes. Não sem a preciosa ajuda do capital e do conhecimento náutico judeu adquirido entre os árabes e transferido discretamente à Ordem de Cristo, sucessora dos Templários, antes na ilha da Madeira do que em Sagres sob espias de Castela e olhares indiscretos da Inquisição.



Portanto, foi neste vasto contexto marítimo e fluvial agravado pela disputa européia do "testamento de Adão" (tratado de Tordesilhas, de 1494) que no dia 12 de janeiro de 1616 o capitão-mor do Rio Grande do Norte, Francisco Caldeira de Castelo Branco, tomou posse do lugar onde hoje está a "Fortaleza do Castelo" (que era uma simples paliçada com nome de Forte do Presépio). 

Não é certo que o outeiro da boca do Igarapé do Piry fosse terra de ninguém... Ou, pelo menos, fosse desabitada. Deve-se a fundação de Belém primeiramente à tomada de São Luís do Maranhão, em dezembro de 1615. Os franceses de La Ravardière tinham acordo tácito dos tupinambás até Camutá-Tapera (Cametá, rio Tocantins) e a margem direita do Rio Pará-Uaçu onde os tributários Anapú, Pacajás e outros menores desaguam. Aí se achavam, por acaso, os extremos da suposta "linha" de Tordesilhas a 370 léguas a oeste de Cabo Verde... Na realidade, a área de fricção e conflito mais antigo destas paragens entre os "Nheengaíbas" (marajoaras falantes de diversas línguas de tronco Aruak) e os invasores Tupinambás: àquela época, aliados aos franceses e depois aos portugueses contra holandeses e britânicos Hereges (protestantes) acamaradados aos aruaques do Oiapoque até as ilhas do Pará.

Falamos agora da perspectiva das comemorações dos 400 anos da invenção da Amazônia. Que era portuguesa sob a União Ibérica (1580-1640)e depois virou brasileira no dia 28 de Maio de 1823, na vila de Muaná,ilha do Marajó (há controvérsia, com a "adesão" de 15 de agosto, tão falsa que causou a tragédia do "Brigue Palhaço" em outubro e levou diretamente ao estouro da Cabanagem, em 7 de janeiro de 1835, cento e dezeseis anos depois do levante dos tupinambás de Cabelo de Velha na mesma data). E o espírito cabano não esteve ausente da guerrilha do Araguaia pela adesão institiva de camponeses e migrantes aos combatentes contrários à Ditadura...O Pará velho de guerra é a continuada resistência tapuia a todas as invasões do "nosso mar" de águas doces!

Conhecemos essa história, ou melhor a historiografia após a fundação do Presépio. Mas, antes onde está a Cidade Velha teria existido uma aldeia indígena de nome "Mairy" cujo nome faz lembrar "Mair" (louro), como franceses e talvez flamengos eram chamados pelos tupis. A fundação da França Equinocial, com forte em São Luis, é de 1612. Antes porém flibusteiros da Bretanha frequentaram as costas do Maranhão e Pará.

Segundo fontes batavas citadas por Arthur Cezar Ferreira Reis, mercadores holandeses penetraram a região, desde 1599, pela margem esquerda do Amazonas e criaram feitorias no Xingu e Baixo Amazonas. Fontes espanholas mostram a viagem de Vicente Pinzón em 1500, antes do Descobrimento do Brasil, chegando ao Ceará, Marajó, Oiapoque e Orenoco antes de retornar a Santo Domingo e Espanha. Um certo mameluco Diogo Nunes dá notícias de uma grande migração tupinambá ao Peru através do Alto Amazonas (Solimões), em 1538...Quatro anos, portanto, antes do descobrimento do "rio das amazonas" por Orellana. Em 1544, o descobridor do "rio das Amazonas" retornou ao palco da lenda com título de Adelantado Del Río, senhor da conquista e governador de Nueva Andaluzia: dele não mais se soube, tragado talvez pela Pororoca ou pela própria lenda.

Com ajuda da arqueologia, sabe-se ultimamente que muitos povos ribeirinhos habitavam ambas as margens do rio Amazonas. O relato de Carvajal sobre o descobrimento aventureiro de Orellana descreve várias aldeias de grande porte e diversos povos. Gastão Cruls com a sua monumental e rara "Hileia Amazônica" nos mostra uma ecocivilização de milhares de anos antes do homem europeu nestas paragens equatoriais. É isto que se quer dizer para lembrar que a metrópole paraense é filha das águas de rio e mar e que ela deve muito mais às humildes ubás e montarias a remo do rio, do que às orgulhosas caravelas do Mar-Oceano.

Temos aqui em Belém do Pará museu da navegação e construção naval. Todavia seria de esperar algo mais à altura da tradição náutica luso-brasileira, mas principalmente amazônica propriamentente dita. O Projeto Barcos do Brasil, do IPHAN, por exemplo, poderia ter em Belém uma de suas maiores exposições na oportunidade dos 400 anos de invenção da Amazônia. Uma memória especial sobre a arte naval autóctone poderia ser prevista. 

Eu recordo, pela voz de uma querida tia, que minha avó indígena quando se referia a qualquer coisa de muita antiguidade, dizia que era "do tempo da vela de jupati" (pequena palmeira de beira de rio, Raphia vinifera, dá óleo fitoterápico). Referia-se à avó dela como tendo viajado do Marajó a Belém em canoa à vela, quando era preciso dias de viagem e ladaínha de despedida para afastar os perigos da temerária viagem. Na volta, carecia pagar promessa e lançar à água velas de cera que o remanso cuidava de levar aos pés de Nossa Senhora do Tempo, em Barcarena... No primitivo porto de Belém - na praia do Ver O Peso - era estivado de troncos de miritizeiros e os passageiros das igarités saltavam à terra sobre tijuco na maré seca...
Hoje eu acho que o Ver O Peso deve ser revitalizado: sem nunca perder a tradição... O comércio de peixe e carne "in natura" não tem mais razão de ser. Porém pode dar lugar a magnífico centro de gastronomia popular a base de "gados do rio" (peixes e tartarugas de aquicultura) e churrasco de búfalo. Um grande aquário amazônico deve se integrar ao novo Ver O Peso de nossos sonhos. O plano Gronfelts, daquela "Veneza amazônica" preterida pelo aterro pombalino do Igarapé do Piry, no século XVIII, deveria ser recondiderado como referência da metrópole da Amazônia que desejamos para o século XXI.



“É o cais dos barcos e canoas a vela em Belém, a margem do Guajará, onde se vendem frutos, cestos, cuias, objetos de cerâmica, peles, borracha, farinha, fumo, cachaça, mel, abanos e outros objetos vindo do interior do estado. Por sua vez os canoeiros compram espelhos, perfumes, fazendas, chapéus usados, sabonetes, camisas, etc.”

O VER O PESO COMO ELO ENTRE O RIO E A RUA


Aqui se encontra desde o camelô de quinquilharias 1,99 até vendedor de remédios caseiros que prometem milagre. Cantador de rua com modas, bregas e boleros. O Ver-o-Peso é tido e havido como a maior feira livre da América Latina. Tem de tudo, legumes, frutas, cereais, peixe-frito, tacacá, caruru e não pode faltar defumação e "cagilas" (fltros mágicos) as mais variadas para curar quebrando e afastar mau olhado.

Todos odores e sabores se misturam às mais diferentes cores. Sons e formas contrastam civilização e barbaridade. O empurra-empurra da multidão de compradores e gritos dos vendedores fazem o "clima" típico do Ver O Peso. A feira é o centro nervoso da cidade e o rio a artéria que irriga o corpo do estado. Cedo o trabalho começa no coração das canoas abarrotadas de frutas des as primeiras horas da manhã. Daí os vendedores arrumam as barracas.  O pico de venda acontece cerca das 9 horas com a saída de frutas, legumes, cereais, farinha, ervas medicinais e outros produtos.

A "Academia do Peixe Frito" é expressão da cultura imaterial do Ver O Peso e tem o poeta Bruno de Menezes como patrono sob benção do padroeiro São Benedito da Praia, cantado em prosa e verso.  O Peixe-frito e açaí não podem faltar. O cheiro do petisco ribeirinho exala à distância, outrora o peixe fresco era frito em azeite de patauá, que com o molho de pimenta e tucupi tornam o prato irresistível ao paladar paraenses.

O Ver-o-Peso é uma aquarela equatorial conhecida nacional e internacionalmente como cartão de visita de Belém do Pará. A doca onde atracam vigilengas, igarités, canoas e outras embarcações típicas da Amazônia em meio ao sortilégio de cada dia, exibe galeria de nomes religiosos (São Benedito, Fé em Deus, Nossa Senhora de Nazaré, Divina Luz,...), poéticas (Flor de Maio, Patativa, Jandaia,...), são uma atração à parte.

A história do Ver O Peso começa com o nascimento da cidade à boca do Igarapé do Piry com a baía do Guajará, na metade do século XVII, com as canoas indígenas e embarcações dos colonos carregadas de gêneros típicos da região, as famosas "drogas do sertão"; atracando para desembarque. Este processo incipiente tomou vulto com o tempo. Autoridades portuguesas  mandaram construír uma repartição para aferir pesos e medidas, assim que para arrecada o imposto da coroa destinados à manutenção da colônia. 

Desde então, na casa em frente à rua dos Mercadores, atual João Alfredo, colonos e indígenas levavam suas mercadorias para verificar o Haver-do-peso. O tempo e o linguajar popular consagraram o "Ver-o-Peso", marco histórico, paisagístico, tradicional, geográfico e econômico de Belém do Pará e, doravante, da Amazônia.Ver também http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=53&id_noticia=1980


A cidade de Belém vista do rio Guamá.

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